domingo, 3 de maio de 2009

UM POBRE HOMEM CHEGOU À PRESIDÊNCIA


Foi o Maurício Menezes quem contou pro Cezar Motta, que mandou aqui pra gente:
“Depois de meses de tentativa, o Roberto d'Ávila conseguiu uma entrevista com Gabriel Garcia Márquez, nos anos 90, durante o governo Ernesto Samper, que quase caiu, acusado de receber doações irregulares de campanha de narcotraficantes, mas se aguentou até o fim no cargo.
Encerrada a entrevista, o escritor espichou-se no sofá e mandou mais ou menos o seguinte: "Quer fazer mesmo uma entrevista sensacional? Procure o presidente Samper. É meu grande amigo. Uma história impressionante de sucesso e superação. Nasceu miserável em uma das piores favelas de Bogotá. Nunca conheceu o próprio pai, é filho de mãe solteira com vários filhos, foi prostituta para sobreviver, espancada por aproveitadores. Todos os irmãos morreram de doença ou assassinato. Ele próprio foi analfabeto até os 15 anos. Teve várias doenças gravíssimas e sobreviveu por milagre. Conseguiu vencer todas as desgraças que a vida lhe reservou, formou-se em Direito estudando à noite e trabalhando duro de dia, tornou-se um brilhante advogado e hoje é presidente da Colômbia."
Impressionado, d'Ávila quase pulou de entusiasmo. Gabo pegou o telefone e pediu à secretária: “Me ligue com o presidente Samper”. Ligação feita: "Ernesto, querido, estou aqui com um dos grandes jornalistas brasileiros (“Como é o seu nome mesmo, meu filho? Ah, sim! Roberto d'Ávila”). Quero lhe pedir um grande favor. Receba aí o Roberto hoje à noite. Você vai gostar muito”.
Quase sem acreditar, o jornalista foi ao palácio presidencial à noite, no horário marcado. Ernesto Samper realmente o esperava. Estava tenso, em meio a uma crise que poderia apeá-lo do poder, esperando uma entrevista política do tipo chumbo grosso.
Ouviu com expressão assustada o relato de Roberto d'Ávila sobre o tema da entrevista: as desgraças de sua vida. Depois de alguns segundos de silêncio, o presidente caiu numa gargalhada explosiva, estremecedora, interminável, irresistível, relaxante, com acessos de tosse. Roberto d´Ávila, este sim, ficou sem pai nem mãe.
“Esse Gabo é mesmo um mentiroso filho da puta! Meu filho, eu sou de uma família aristocrática, meu pai foi um dos homens mais ricos da Colômbia, um grande advogado, nunca me faltou nada na vida, estudei nas melhores escolas”.
E ria sem parar.
Além de genial escritor, Garcia Márquez é mestre e doutor da arte da mentira”.

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