sexta-feira, 29 de maio de 2009

É PROIBIDO DIZER QUE HOUVE ISSO QUE VOCÊ NÃO SABE


A censura durante a ditadura era exercida por um órgão estranho, a Divisão de Censura de Diversões Públicas. Pelo menos uma vez por semana, naqueles dias malucos, os jornais recebiam bilhetinhos dizendo o que não podiam publicar. No JB, os bilhetinhos eram passados para os editores das áreas.
“Fica proibida a divulgação dos casos de meningite”. E assim sabíamos que grassava uma epidemia. Havia também uma lista negra de termos que jamais deveriam ser usados no jornal. Camponês, por exemplo. Podia agricultor, lavrador e até sugeriram rurícola (só podiam estar de sacanagem). Camponês, jamais.
A redatora Andréa Gouvêa Vieira (née Pereira de Lima, como diziam os colunistas sociais), hoje vereadora, é que mandou bem: no meio de uma matéria sobre os merdelês de um país vizinho, tascou a versão castelhana para o homem do campo. Chamou de campesinos. Não estava no índex. Reclamaram depois, mas já estava feito.
Outro bilhetinho proibia noticiar as mortes ocorridas no Comitê Central do Partido Comunista do Brasil em 1976, no bairro da Lapa, em São Paulo. A polícia política havia matado os dirigentes Pedro Pomar e Ângelo Arroyo, entre outros.
Sei disso porque a Rádio Jornal do Brasil tinha um programa que ir ao ar às cinco ou cinco e meia da manhã, o “Hoje no JB”, que antecipava para os madrugadores os principais assuntos que leriam uma ou duas horas depois no jornal de papel.
Eliakim Araújo era o locutor. Osvaldo Maneschy cuidava dos textos. Numa das edições, Maneschy teve em mãos o tal bilhetinho falando das mortes em São Paulo. Ele e Eliakim contaram tudo. O Jornal do Brasil, o próprio, não pôde dar uma linha.
Funcionário público acordado às cinco da matina? É ruim, hein?

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