sexta-feira, 29 de maio de 2009

ERA UMA VEZ, MUITO ANTES DA MÁFIA DAS VANS


Romildo Guerrante conta aquilo que neguinho chama hoje de making of de uma matéria que fez, no Jornal do Brasil, sobre a corrupção nos transportes. Pois é, três décadas antes de surgir a máfia das vans, já havia polícia metida nesse furdunço.
Diz como foi, Romildo!
“No início da década, eu engatinhava como repórter de transportes e trânsito. Tinha dois anos de redação quando saímos da Rio Branco para a Avenida Brasil. Vivíamos a ditadura Médici. Quase todo dia eu ia às ruas com um fotógrafo para surpreender kombis que faziam transporte clandestino. Era o início da máfia das vans.
Por hábito de apuração criado no JB, anotava as placas das kombis apreendidas. Observei depois de umas duas semanas de cobertura que as mesmas kombis que eram apreendidas reapareciam no "trabalho" dois dias depois.
Fiquei intrigado com aquilo. Busquei minhas fontes. Todo mundo com medo de falar.
Um belo dia, uma secretária me chamou num canto, sete da noite, hora de voltar pra redação, e me disse o seguinte: o diretor (do Detran, um brigadeiro, durante certo tempo aquilo lá foi feudo da Aeronáutica) não poderia me receber naquele dia porque estava irritadíssimo. Descobriu que as kombis que seus agentes apreendem na cidade são liberadas pela Secretaria de Segurança, porque pertencem a detetives de lá.
Fui pro jornal e escrevi 20 linhas.
No dia seguinte, ao passar pelo Detran, o clima era de extrema animosidade comigo. Um porta-voz do diretor me disse que o secretário de Segurança queria falar comigo (não me lembro mais o nome dele, foi no primeiro governo Chagas Freitas). Fui lá, no antigo prédio do Dops. Ele me botou na sala e falou de sua contrariedade com a matéria, depois tentou me intimidar pra que eu desse a fonte.
Finalmente, me disse o seguinte: a partir de amanhã o senhor não vai mais cobrir o Detran. Venha diariamente aqui pra Secretaria de Segurança. Tremi de medo. Voltei para o jornal assustadíssimo, havia ameaças todo dia. Fui falar com o Carlos Lemos, chefe de Redação.
Lemos, tranquilo, me disse o seguinte, dirigindo-se ao repórter bobinho: "Ô Romildo, o dia que o secretário de segurança pautar repórter meu, eu fecho este botequim".
Rimos os dois. Fiquei aliviado. Me mandou prosseguir na cobertura. Só que, ao chegar ao Detran, no dia seguinte, meu acesso não foi autorizado. Fiquei por ali, abordando uns e outros, ligando para tentar bypassar a proibição, até que consegui algumas matérias. Um belo dia, circulando em volta do prédio, vi uma construção estranha de madeira nos fundos, uma espécie de jirau. Pergunta dali, pergunta daqui, um motorista do Detran, que não sabia da minha interdição, me contou a história:
– O brigadeiro teve um enfarte e eles estão fazendo um elevador provisório porque ele não pode subir escadas.
Chamei um fotógrafo e documentamos a obra. Mais 20 linhas, agora recheadas com a história do enfarte: o brigadeiro tinha discutido uma semana antes com o proprietário de um posto de gasolina que falira em Vila Isabel. E o posto faliu porque o Detran mudou a mão de uma rua que descia de Jacarepaguá em frente ao posto do cidadão. O trânsito passou todo a ser feito na rua paralela, onde alguém tinha edificado um posto de gasolina novinho, de outra bandeira.
Foi sair a matéria e as coisas pioraram muito. Dois ou três dias depois, estava eu na porta do Detran interceptando possíveis fontes quando veio em minha direção um policial civil que eu conhecia de vista, conhecido como Marreco, citado no livro do Hélio Silva como torturador. Passou junto a mim e disse baixinho:
– Cuidado, garoto, que você pode morrer atropelado.
Sobrevivi pra contar a história”.

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