sexta-feira, 29 de maio de 2009

O GOVERNADOR QUE ACERTOU NO MILHAR


Eleito governador do antigo Estado do Rio, o petebista Roberto Silveira levava bordoadas da Tribuna da Imprensa, em matérias sempre assinadas por Aparecido Baioneta (que nome, hein?). Era pau todo santo dia.
Roberto ficava puto com a UDN que não o poupava e estava por trás daquelas manchetes. A Tribuna era de Carlos Lacerda, maior inimigo do PTB. Até que um dia ocorreu-lhe que seu colega Juracy Magalhães, o governador udenista da Bahia, tolerava a contravenção. O bicho era tão permitido quanto os tabuleiros de acarajé.
Roberto achava natural, até porque o jogo oferecia trabalho a muita gente que não teria emprego em outro lugar, os ex-presidiários, por exemplo.
Resolveu fazer a mesma coisa, mas teria que neutralizar a UDN.
A luzinha acendeu. Em vez de fazer o anúncio na Última Hora, que o defendia, decidiu dar a notícia em primeira mão ao inimigo. Ouvira falar que Baioneta gostava de um uisquinho e convidou-o para uma conversa. O carrasco chegou, crente que era só uma social.
O cavalo branco também estava presente, no rótulo. Uma ou duas horas depois, os três – o governador, o jornalista e o escocês – já eram amigos de infância.
– Baioneta, fui com a tua cara e vou te dar de presente um furo!
– É mesmo, governador? – o repórter se empolgou. – Do que se trata?
– Vou legalizar o jogo do bicho em Niterói, em todo o estado.
Baioneta quase teve um troço. Não apenas fora recebido com a maior simpatia por Roberto, como teria a chance de agradar o patrão, levando uma notícia que era uma verdadeira bomba. E, depois de contá-la, Roberto Silveira sequer poderia acusá-lo de nada, uma vez que o furo foi iniciativa dele, ninguém o forçou a contar nadica de nada.
– Só tem um detalhe, amigo. A manchete não sei qual será, mas essa legalização é um projeto bem elaborado, e apoiado até pela Igreja, e esse projeto tem nome. E faço questão que esse nome conste de seu texto. Vamos chamá-lo de “Operação Juracy Magalhães”.
Baioneta disse: sem problemas, tá feito.
Saiu da noitada, foi dormir, e no dia seguinte escreveu a matéria, sem esquecer de batizar a liberação da contravenção. A UDN carioca, Lacerda e a Tribuna da Imprensa não ousaram atacar o governador, deixaram o assunto pra lá. Até porque a hipocrisia não ia colar: os bicheiros pararam até de dar grana à polícia por uns tempos.
Em vez disso, em cerimônia aberta ao público realizada uma vez por mês no estádio Caio Martins, os cheques eram entregues por autoridades do governo aos padres e freiras que dirigiam orfanatos, asilos e outras entidades filantrópicas, com a bênção do arcebispo e tudo.

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