segunda-feira, 25 de maio de 2009

OLHA QUEM CHEGOU: A TURMA DA MARÉ MANSA!

"A carteira de trabalho, pelos lançamentos que recebe, configura a história de uma vida. Quem a examinar, logo verá se o portador é um temperamento aquietado ou versátil; se ama a profissão escolhida ou ainda não encontrou a própria vocação; se andou de fábrica em fábrica, como uma abelha, ou permaneceu no mesmo estabelecimento, subindo a escala profissional. Pode ser um padrão de honra. Pode ser uma advertência”.
Esse texto lapidar do ex-ministro do Trabalho Alexandre Marcondes Filho, analisando com profundidade deveras psicológica a natureza do trabalhador brasileiro, era carregado no bolso por todo mundo. Ou quase. Só vagabundo ou rico não andava com a carteira do Ministério do Trabalho e Previdência Social. Logo que tive a minha assinada pela primeira vez, realizei um sonho: comprar um terno n´A Impecável Maré Mansa.
A loja ficava na Marechal Floriano e eu trabalhava perto, na Leandro Martins, uma quase travessa entre Acre e Camerino. Meu único terno fora adquirido na Casa José Silva e as prestações terminaram um dia desses.
A Ducal oferecia a promoção de um paletó e duas calças, mas não valia a pena. Saía menos em conta e o produto não era tão bom. Dessa vez, eu é que iria pagar. Portanto, fiquei na cola do bonito e barato. Meu coração balançou entre duas lojas quase vizinhas – a outra, se não me engano, era A Insinuante. Mas A Impecável foi mesmo meu sonho de consumo naqueles tempos. Fui convencido disso por um programa de humor da Rádio Globo, “A Turma da Maré Mansa”. Tinha até jingle feito pelo Gonzagão dizendo que bastava “a carteira de trabalho e mais nada”.
Mas levei tempo para adentrar a fabulosa barateira e adquirir o terno da moda, na cor mostarda. Era preciso um ano de carteira assinada. Ganhei de presente o segundo terno, da mesma cor azul do outro, combinando com o uniforme do colégio.
A Impecável não tinha frescura. Nem frescura, nem provador, nem banquinho pra deixar as coisas, nem alfaiate tomando medidas, porra nenhuma. O que havia era um vendedor puto da vida porque tinha que ficar de olho no bando de sujeitos pelados, na maioria nordestinos, alguns até usando chapéu de boiadeiro ou de cangaceiro,
e sempre tinha um cearense filho da puta botando apelido de manja-rôla no coitado do vendedor.
Os clientes trocavam de roupa todos juntos numa sala grande, tipo fila de exame médico de quartel. Coisa desagradável, neguinho achando que o outro estava olhando de esguelha seu pinto, o outro achando a mesma coisa, ambos sem saber se o suposto manjamento era questão de veadagem ou de antropometria – se o colega tinha pau pequeno, pau grande etc.
As carteiras de trabalho ficavam empilhadas numa esteira, no meio da sala. Tão ruim a experiência que, trocou de roupa, era pegar a azulzinha e se mandar dali. Foi o que fiz: terminei a prova do terno, peguei a caderneta azul novinha em folha e fui abrir meu primeiro crediário, todo prosa. Por engano, um dos Severinos, que resolvera não comprar a calça que experimentara, saiu batido levando minha carteira de trabalho.
Que situação! Fiquei um tempão na loja esperando o desgraçado perceber o engano e voltar para devolver (e pegar a dele, que estava comigo). O gerente pediu desculpas e só restava retornar no dia seguinte. Fui de manhãzinha, logo que a loja abriu, e nada. Dei nova passada na hora do almoço e o puto ainda não tinha dado as caras.
No final da tarde, Severino finalmente foi localizado. Em cana. Dormiu no xadrez porque, feliz da vida por ter finalmente arranjado emprego, encheu a cara e fez merda num boteco em Caxias. Quando a polícia chegou e viu que o retrato da caderneta getulista não conferia com os cornos do desordeiro que não queria pagar a conta, recolheu-o aos costumes, “detido para averiguações”.
Só no fim da tarde é que um meganha teve a boa idéia de pegar o telefone do distrito e checar a história com o gerente d´A Impecável, onde minha carteira finalmente havia chegado – e foi preciso mais um dia para isso! Queriam saber se o cara tinha roubado alguém, e o gerente garantiu que foi apenas um engano. Só assim soltaram o Severino, coitado, que faltou justo no primeiro dia do emprego.
O pior foi chegar no Pedro II usando aquele terno mostarda. Eu só não. Uns três ou quatro colegas do turno da noite que também ralavam durante o dia usavam a mesma beca. Adivinha o apelido que deram pra gente?

Leia novamente o título dessa postagem.

2 comentários:

Vitor Fraga disse...

Mais uma coisa em comum contigo: estudamos no CPII...
Mas na minha época, o esquisito era usar sapato, calça pra dentro e cinto - ninguém acreditava que eu estudava em colégio público...rs

monica rodrigues disse...

Em termos de CPII, terno mostarda estava mais para cáqui ( não seria essa a cor, zé?) e isso era uniforme do Colégio Militar. Logo vc usando um traje destes,mas pelo menos fez sucesso entre as meninas do CPI