O sobrenome paterno tradicional nem sempre foi passaporte que garantiu boas oportunidades para o meu chapa Emmanuel (no alto, em 1972, na redação de O Fluminense, e lá embaixo, um dia desses). Teve seus dias, também, de cartão vermelho por conta do berço de ouro. Além disso, a figura também é Bragança, por parte de mãe, o que confundiu muito puxa-saco que adora o povo de sangue azul. Só que o cara é um Bragança plebeu. E, também, jornalista e pesquisador de História – aliás, o que realmente gosta de fazer. Nesta edição do QUEM É VIVO SEMPRE APARECE, de novo dedicada a lembrar antigas histórias de redação, meia dúzia vem da lavra de Emmanuel de Bragança Macedo Soares, que já tem livro pronto e jamais editado sobre o tema, “Gente de jornal e outras gentes”.Até mulheres ele perdeu, por conta dessa dicotomia de pobre homem rico. Morava de favor na cobertura luxuosa de um primo, na Avenida Atlântica, só que sem um puto no bolso. Vivia do trabalho no jornal. No prédio, uma linda moça flertava com o falso magnata e, segundo ele, “já estava no papo se não fosse quarta-feira um dia de trabalho”.
Ele desceu do apartamento, a caminho do Centro, e a loura natural e deslumbrante o esperava na portaria, sem que ele soubesse. Estava com um conversível já devidamente abastecido para o fim de semana em Cabo Frio e o convidou para ir junto. Quando nosso herói disse que era jornalista e que estava indo pro batente, a linda torceu o nariz e nunca mais falou com a peça, que se arrepende até hoje de ter sido tão certinho um dia.
Ovelha negra assumida de um clã poderoso que mandou na política da Velha Província fluminense, ocupou ministérios de governos democráticos e ditatoriais e, de quebra, ainda teve nas mãos um jornal que fez história no Rio de Janeiro – o Diário Carioca –, Emmanuel teve sua primeira carteira assinada pela Última Hora do Samuel Wainer no ano de 1963. Tinha, então, 17 anos. O golpe militar que pipocou no ano seguinte, diz ele, “foi uma merda para mim em todos os sentidos”. Não arranjava emprego em lugar nenhum fora do Diário Carioca, onde evitou até onde pôde trabalhar. Uns e outros achavam que ele não precisava, que era rico, ou então desconfiavam que fosse comunista, o que também não era verdade. “Eu era esquerdista, mas não o suficiente para levar porrada do DOPS”, confessa, sem tortura.
Tentou emprego no JB, onde foi muito bem recebido por Manuel Francisco Nascimento Brito, que o despachou para a redação, no 3º andar do prédio da Rio Branco. Uma vez lá, segundo conta, ouviu um passa-fora em grande estilo, de Alberto Dines:
– Quem manda no JB sou eu. Não aceito ninguém indicado.
Foi, então, à redação de O Globo. Nada também. Resultado: acabou tendo mesmo que pedir arrego ao tio José Eduardo, que embora não fosse mais dono, continuava eminência parda no DC. “Foi uma boa temporada, mas muito rápida. Entrei no início de 1965 e a porra do jornal fechou no dia 31 de dezembro do mesmo ano. Isso é lá dia de acabar jornal?”. No Diário Carioca, conviveu com dois caras de quem gostou muito – o repórter Luiz Carlos Sarmento e o secretário de redação Deodato Maia, ambos personagens de histórias que ele conta no livro ainda inédito.
Depois, passou pelo jornal O Fluminense, até encher o saco de jornalismo e virar pesquisador da História fluminense, e é assim que se sente bem. É vocação meio sacerdotal. Durante anos, trabalhou de madrugada no porão da Câmara Municipal de Niterói, até quando o prédio era dedetizado.
Hoje, o cracaço mora num bairro de mortais comuns, o Fonseca, aqui do melhor lado da Poça.
As demais histórias foram enviadas por outros remanescentes da fauna ou lembradas pelo blogueiro – e desculpem –, uma delas pra lá de confessional. Num momento de rasante de passaralho, fazendo estragos na redação de O Dia, espantemos a ave canalha com o humor que nos resta.

No gramofone virtual, Thalita Peres dedilha o Gaúcho, da Chiquinha Gonzaga, que o Emmanuel diz que conheceu ainda no tempo de criança (não ele, mas a maestrina).



3 comentários:
O jornal perdeu o romantismo por culpa dele mesmo, não da tv e nem da internet. Adorei os textos e as músicas também.
Valeu, Pedro. E concordo que os jornais perderam e continuam perdendo leitores não só por causa da televisão ou dos portais. Essa história de criarem subprodutos mais baratos é um autocanibalismo que vou te contar. As grandes reformas e os grandes lançamentos editoriais que foram feitos no passado, como a guaribada do Jornal do Brasil, no final dos anos 50, a criação do Jornal da Tarde, o lançamento de Veja e IstoÉ, a virada na Folha, a reforma no Globo, enfim, não eram coisas movidas apenas pelo interesse pecuniário. Odylo Costa Filho, Pompeu de Souza, Mino Carta, Samuel Wainer, Amílcar de Castro, Reinaldo Jardim, Murilo Felisberto, enfim, esses caras geniais, arregaçaram as mangas com o objetivo de ampliar o leitorado, de fazer um upgrade, de colocar realmente os veículos num patamar superior. Nada a ver com essas promoções de juntar selinhos ou com essa proliferação de algo que a Monica Araujo, num comentário aqui no blog, chamou de jornais de 50 centavos. Um jornal que se apequena, que vai à banca com notícias importantes transformadas em notinhas pequenas "pro povo ler", e espaço de montão na capa para o mulherio pelado, só pode estar querendo decretar seu próprio fim. Tem tanto teórico de comunicação que louva essa merda que chegamos a pensar que somos todos imbecis. E o que dizer daquelas tais consultorias internacionais que cobraram caro e não evitaram que algumas empresas afundassem?!?!
Um blog fundamental!!!
Se fosse na época da Ditacuja teria que se chamar quem é vivo desaparece!!
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