domingo, 3 de maio de 2009

E TEM ALGUNS QUE ACUMULAM!!!


Tem jornalista que diz bom-dia, boa-tarde, boa-noite. Trabalhei com alguns, porém, que preferiam se dirigir aos coleguinhas usando seus próprios prefixos sonoros. Já contei aqui a história do diagramador que chegava no jornal cantando o primeiro verso de um fado português gravado pelo cantor Francisco José, sucesso absoluto no início dos anos 60. E nada mais cantava além da primeira estrofe: “Teus olhos castanhos...”. O bom Tião ganhou, por isso, o apelido de “Olhos castanhos”. No velho JB, o cumprimento de Luarlindo Ernesto, o mais bem-humorado repórter da Avenida Brasil 500, era o mesmo todas as noites, sempre que chegava para zelar pela qualidade da cobertura do jornal durante a madrugada: “Ráu du iú dus?”. E emendava, hilário, como se fosse preciso:
– Isso quer dizer “como vão vocês” em inglês”.
Mas ninguém, jamais, irrompia na redação cumprimentando o pessoal com tanta grossura como Deodato Maia, quando dividia o comando da Secretaria com Argeu Afonso e Aloísio Branco. Dos três, sobrevive firme e forte o Argeu, que também cuidava da coluna “O Globo há 50 anos” e faz parte do júri do Estandarte de Ouro desde que o prêmio foi criado. O bom Aloísio, magrinho, de óculos, morreu estupidamente num acidente de carro no Leblon. Deodato, também já falecido, era tão jornalista que as boas histórias o perseguiam: em 1954, foi testemunha ocular do crime da Toneleros, a tentativa de assassinato do Carlos Lacerda, naquela rua de Copacabana.
Voltando à vaca fria: qual era mesmo a saudação do Deodato? O vozeirão ecoava pela Irineu Marinho inteiro por volta das sete da noite:
– NA REDAÇÃO DO GLOBO SÓ TEM VEADO, COMUNISTA E MALUCO!!!
A fórmula podia ser batida, mas a gargalhada era geral. Minutos depois, Dedé mandava ver:
– E TEM MAIS, HEIN? TEM UNS E OUTROS QUE ACUMULAM, PORRA!!!

2 comentários:

Arnaldo Branco disse...

Ei, muito bacana ler isso. Sou filho do Aloísio Branco.

zé sergio disse...

Arnaldo, bem-vindo! Não é a-toa que você virou cartunista. Lembro bem do humor fino do teu velho. Tive a honra de ser colega de trabalho, eu ainda novo, com aquele cracaço. Era um grande trio de secretários, todos com anos e anos de praia e muito bom humor. O Dedé, esporrento; o Argeu, que também escrevia a coluna O Globo há 50 anos; e o Aloísio, com aquele jeitão tranquilo dos que sabiam tudo da profissão. Um abraço e sucesso!