
Roberto Ferreira, ex-repórter do Globo e do JB, tinha um mecânico de confiança para seu possante. Um negão boa gente que atendia no Leme, chamado Edeor de Paula. O cara era também compositor e no ano de 1976 tinha prontas letra e música do samba-enredo para sua escola de coração, a Em Cima da Hora. A melodia estava nos trinques, mas a letra precisava de uma guaribadazinha. Chegou ao cliente, o tal jornalista, e pediu ajuda no português. Roberto ficou encantado com o samba, realmente uma obra-prima, e mexeu um pouco aqui, um pouco ali, no português, sugerindo poucas mudanças. Edeor de Paula aceitou quase todas, menos uma.
– Edeor, não fica bem essa história de “guerra fatal”. Toda guerra é fatal. Por que não muda para “guerra final”?
– Não dá, Roberto. Eu ia ter que mexer no verso anterior, que ficou bom.
– E ficou mesmo. Mas é só dar uma mexidinha que você resolve. E cantarolou “Os jagunços lutaram/ até o final/ defendendo Canudos/ naquela guerra fatal”. Cacilda, não ficou bom assim.
Edeor nem tentou. Disse que o povo ia gostar assim mesmo.
E o povo gostou tanto de “Os Sertões” que é considerado um dos clássicos do samba-enredo.
Edeor chegou a insinuar que o jornalista poderia ser seu parceiro. Roberto não topou, achou que seria sacanagem e ainda acha até hoje.
Os autores de samba-enredo, hoje em dia, são quase sempre dois ou três sambistas, se tanto. Mas sempre entram mais cinco ou seis na parceria, seja por terem acrescentado um “ôôô”, por serem protegidos do diretor ou do patrono da escola.
– Edeor, não fica bem essa história de “guerra fatal”. Toda guerra é fatal. Por que não muda para “guerra final”?
– Não dá, Roberto. Eu ia ter que mexer no verso anterior, que ficou bom.
– E ficou mesmo. Mas é só dar uma mexidinha que você resolve. E cantarolou “Os jagunços lutaram/ até o final/ defendendo Canudos/ naquela guerra fatal”. Cacilda, não ficou bom assim.
Edeor nem tentou. Disse que o povo ia gostar assim mesmo.
E o povo gostou tanto de “Os Sertões” que é considerado um dos clássicos do samba-enredo.
Edeor chegou a insinuar que o jornalista poderia ser seu parceiro. Roberto não topou, achou que seria sacanagem e ainda acha até hoje.
Os autores de samba-enredo, hoje em dia, são quase sempre dois ou três sambistas, se tanto. Mas sempre entram mais cinco ou seis na parceria, seja por terem acrescentado um “ôôô”, por serem protegidos do diretor ou do patrono da escola.



3 comentários:
Zé
Você não me avisou que ia publicar essa história, mas tudo bem.Valeu !!!
Só um acréscimo, se vc me permitir.
Minhas discordâncias com o Edeor incluiam também o fato de ele chamar Euclides da Cunha de poeta na letra da música.
"Sertanejo é forte
Supera a miséria sem fim
Sertanejo homem forte
Dizia o poeta assim"
Eu implicava com ele: "Euclides da Cunha era engenheiro, ensaísta, correspondente do Estadão que cobriu a guerra de Canudos, mas não era poeta..."
Edeor insistia: "Deixa assim. Se eu mexer nisso, vai estragar..."
E assim ficou.
Passado muito tempo, descobri que Euclides da Cunha também escrevia poesia.
Em resumo: de forma intuitiva, Edeor sabia o que fazia; e cópidesque de letra de samba só fala bobagem.
Ainda bem que ele não aceitou as besteiras que eu dizia...rssss
Roberto Ferreira
Que bela história, Zé. E envolvendo justo meu amigo querido Roberto Ferreira, com quem já troquei centenas de histórias e papos, mas nunca tinha ouvido esta. No dia em que alguém fizer uma eleição para indicar os três mais belos sambas-de-enredo de todos os tempos, um de meus votos vai pra "Os Sertões", não o de Euclydes da Cunha, mas o de Edeor de Paula. Pô, Roberto, como é que você não me contou essa, ô meu?
Realmente, uma história muito bonita...
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