quarta-feira, 6 de maio de 2009

O VERDADEIRO DIA DA LIBERTAÇÃO FEMININA


Meu chapa Carlos Marchi, jornalista e autor de “Fera de Macabu, o maior erro da Justiça brasileira” (relançado pela BestBolso, 2007) – mandou uma história deliciosa – e põe deliciosa nisso. Eu conhecia, mas não com tamanha riqueza de detalhes.
Diz aí, bonitão!
“Rolava o ano de chumbo de 1973 e as alegrias eram raras. Uma dessas raras alegrias na redação do Globo eram os olhos azuis de uma jovem repórter que acabara de ser admitida. Sorriso lindo, tez claríssima, caráter firme. Passou-se pouco tempo até descobrirem que, embora branca como o leite, ela preferia namorar os da cor.
Um noite, lá pras 2 da manhã, o chefe do plantão da DP do Catete ligou para o chefe de reportagem da madrugada e contou que uma repórter do Globo tinha sido capturada em flagrante delito de atentado ao pudor.
Explicou: a patrulhinha descia dos altos da Tijuca e, de repente, pasmos, detetive e investigador arregalaram os olhos para a cena que o farol alto lhes mostrava. O velho fusca encostado no cantinho da estrada, a moça com as mãos apoiadas no capô dianteiro, saias levantadas, na clássica posição em que Napoleão assistira ao final da batalha de Trafalgar, e um negão alto e forte ativando o mecanismo protuberante de contato carnal, num ir-e-vir frenético.
–Tejem presos!
Interrompido o pacífico ato de congraçamento interracial, os dois foram levados para a DP do Catete. Vendo, mais que nunca, a situação empretejar, ela revelou uma possibilidade de abafar:
– Sou repórter do Globo.
Ruim por um lado - a confissão era uma entregação total à ironia nada finesse do reportariado que se desdobraria tão logo o caso se disseminasse; bom por outro – crescia a chance de livrar-se daquela gelada.
O chefe do plantão ligou para a chefia de reportagem da madrugada. Usou escolhidos eufemismos para narrar o flagrante.
Malandro, o chefe de reportagem o convenceu a liberar os presos. Claro que aquilo era uma negociação e a liberação dar-se-ia mediante um confortável crédito que o noticiário dos próximos meses concederia à DP do Catete. Mas era a solução mais indicada, porque a moça era repórter e o negão, um notabilíssimo pandeirista de respeitável escola-de-samba carioca. Nada de manchetes, pois.
Lá pelas 3 da madruga deu-se a liberação (atenção, revisor, eu escrevi "liberação", e não "libertação"). Sim, porque a libertação eram outros quinhentos mirréis. Na redação, cioso de seu ato humanista-caritativo, o chefe de reportagem começaria a relatar a história, acrescendo detalhes picantes que nem lhe tinham sido contados, antes mesmo de o sol raiar.
Às 9 da manhã, a redação fervilhava. Nem mesmo as moscas que varejavam pelo ambiente desconheciam a mais nova fofoca. Tudo já havia sido especulado e comentado daquela história explosivamente libidinosa – e o que se esperava, cruelmente, era a chegada à redação da personagem central daquele espetacular coito interracial. Afinal, ela não poderia faltar ao trabalho.
Ninguém saiu pra cumprir pautas. Os minutos passavam e nada dela: mas todos fixavam os olhares na porta de saloon na entrada da redação. Deu-se num relâmpago. Às 10h20, todos ouviram o estrondo de duas mãos decididas que abriram as abas da porta de saloon e ela adentrou, sem dúvidas nem esgares. Já sabia o que a esperava.
Num gesto inabalável, imperial, como se fosse D. Pedro I sacando a espada para emitir o grito que só José Américo viu, jarrou, firme e forte, pôs as mãos na cintura e berrou para quem quis ouvir:
– O cu é meu e eu dou pra quem eu quero!
Estupefação geral. Ninguém produziu um ai nem um argh. Ela aproveitou o impacto da perplexidade, entrou decidida, caminhou até a mesa do chefe de reportagem e, com uma autoridade moral inquestionável, perguntou bem alto, mais do que seria de costume:
– Qual é a minha pauta de hoje?
Sem uma palavra, Luciano Bode lhe entregou a pauta.
Ela ainda perguntou:
– Levo fotógrafo?
Luciano não balbuciou palavra; só balançou a cabeça, informando que sim. Ela saiu para fazer a matéria.
Nunca mais se falou daquele assunto na redação. Há muitas versões para o grito de independência das mulheres e para a vitória definitiva das feministas. Mas ninguém me tira da cabeça que a independência real, a vitória incontestável aconteceu naquela redação, naquele dia, lá pras 10h23 daquela manhã. Foi ali que as mulheres se libertaram definitivamente do jogo machista”.

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