terça-feira, 5 de maio de 2009

A CANDIDATURA DO SARMENTO


Uma das boas histórias do Emmanuel tem como personagem central o repórter Luiz Carlos Sarmento, falecido em 1995. Era e é tido até hoje, por quem se debruça sobre os tempos românticos da reportagem, como um dos maiores cascateiros da imprensa brasileira, inventor de pautas inexistentes, entre as quais de um famoso gavião que estava acabando com os pombos do Centro do Rio de Janeiro. Boêmio inveterado, frequentador assíduo do Bar Bico em Copacabana, suas histórias nos bares da cidade eram talvez ainda mais cômicas do que aquelas que redigia para os muitos jornais onde trabalhou.
Entrou para o folclore carioca o famoso esculacho que deu, totalmente embriagado, num grupo de americanos que conversavam na Fiorentina com Vinicius de Moraes. Sarmento, diante daquela cena, imaginou logo o pior, e correu para a mesa de seu ídolo como um bravo soldado a caminho das trincheiras inimigas. Os gringos não entenderam lhufas quando nosso herói agarrou Vinicius e o tirou da mesa, esbravejando, com os olhos lacrimejantes:
- Vocês podem levar nossas riquezas, nossos minérios, tudo o que temos! Podem levar! Mas jamais levarão o nosso poeta, isso nunca! Feita a apresentação, segue o relato de Emmanuel de Bragança Macedo Soares, que ambienta sua história, inicialmente, no lendário Beco da Fome, uma galeria de botecos que ficava na Prado Júnior:
"Entre os frequentadores mais assíduos do Beco da Fome havia um sujeito, cujo nome esqueci, repentista e improvisador de mão cheia. Você dava um tema, por mais complicado que fosse, e ele fazia um jingle na hora. E muito bem feito, por sinal. Não sei se vinha ou se chegou a ser aproveitado em alguma agência de propaganda, mas se não foi era pra ter sido.
Foi o Sarmento quem me apresentou a ele, entre um trago e outro, com aquele seu estilo arrebatado de sempre: o maior jinglista do planeta, faz qualquer música na hora, etc e tal. E eu, que também já tinha dado baixa numas louras suadas, tive a péssima idéia de sugerir que ele fizesse um jingle para o próprio Sarmento, pois os amigos pretendiam lançar sua candidatura a governador.
Foi no ato, como o Sarmento disse. O homenzinho começou a batucar com os dedos no balcão e não demorou três minutos pra mostrar que era bom mesmo:
"Não quero marechal nesse governo,
general, coronel e nem sargento.
Eu quero é Morais Sarmento!"

Meninos, daí a pouco o Beco todo tava cantarolando aquela coisa, a roda foi crescendo, choviam tantas promessas de votos e pedidos de emprego que o Sarmento até acreditou que seria mesmo candidato a governador. Depois, achou que era muito complicado, não havia mais eleição direta para governador, e se contentava em concorrer a deputado.
Nisso, chega alguém e resolve levar a gente para o ensaio da Mangueira. Estávamos nas vésperas do Carnaval de 66, ou 67. E fomos. No meio da viagem, o Sarmento tem uma daquelas idéias malucas que costumavam entrar na sua cabeça sem bater na porta nem pedir licença. Não se apresentaria mais como candidato, mas como parlamentar mesmo, em pleno exercício, e nós teríamos de dar força.
O que não se faz por um amigo. Jornalistas eram, e acho que ainda são, muito bem recebidos na Mangueira. O sujeito que nos levou foi logo dizendo que estava no grupo um deputado federal pelo Espírito Santo. Pra quê!
Levaram a gente para o palanque de honra, Cartola de um lado, o velho Maçu de outro, com aquela aura de fundadores da Escola, e a gente no meio, na maior cara de pau, com direito a cerveja, salgadinho, cabrochas e todas as outras mordomias possíveis.
E a quadra começa a encher. O deputado Sarmento, que agora já se acreditava deputado mesmo, toca a falar de seus projetos, relembra trechos de alguns discursos em que dava um pau firme na ditadura militar e por fim resolve falar daquela tribuna de honra para o povo carioca. Aí já era demais, a coisa podia ficar preta.
Foi quando o Fabiano Vilanova, este, sim, deputado de verdade, eleito para a Assembléia Legislativa do antigo Estado da Guanabara, resolveu nos tirar de fininho dali, alegando que seu colega capixaba tinha outros compromissos a cumprir. Ainda bem".

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