sexta-feira, 29 de maio de 2009

NÃO ACONTECEU ABSOLUTAMENTE NADA


Outra jóia dos tempos românticos, pré-ditadura, dessa profissão que, dizem, está chegando ao fim. Contada com a verve do Emmanuel de Macedo Soares:
“Quando comecei a mexer com jornal já existia a firma M. Alves, do Manoel Alves, especializada em serviços fotográficos. Pessoalmente nunca vi nenhuma foto batida pelo próprio Manoel, mas dizem que existe. O fato é que por ali passaram grandes profissionais, entre eles o inesquecível Lívio Campos, pai do Livinho, que sendo mais sortudo andou clicando algumas das melhores beldades do planeta para a revista Playboy.
Mas não é do Lívio que vou falar por enquanto. É do Waldomiro, que ficou no seu lugar quando ele mudou de mala e cuia para Macaé. Problema é que Lívio era um senhor repórter fotográfico e Waldomiro queria porque queria seguir seus passos, mas tava meio difícil. Uma coisa era fotografar casamentos e formaturas, outra muito diferente era o dia a dia da cidade, que amanhã precisa estar na primeira página dos jornais.
O Waldomiro era lento, até no andar, mas queria ser repórter fotográfico. Bom rapaz, amigo de todo mundo, pedia a um, pedia a outro, queria pelo menos a chance de um teste. Premiado pela persistência, alguém conseguiu dobrar a ranzinzice do Teodoro de Barros, e lá foi ele fazer seu estágio, ou coisa parecida, na sucursal de Ultima Hora.
Havia um comício de operários na praça do Rink, e comício de operários, como todo mundo sabe, era coisa de comunistas. Mandaram o Waldomiro cobrir. Lá foi ele, naquele passinho lento, o olhar distraído sempre pra cima, a eterna expressão de calma e felicidade no sorriso. As horas passam, e nada dele voltar. Desesperado, pois as matérias eram diagramadas e o jornal impresso no Rio, Teodoro começa a entrar no seu estado normal de irritação.
Aleluia, chega afinal o Waldomiro. Teodoro pede que apresse as fotos, já está atrasado. Fotos? Que fotos? Não havia fotos. Como, não havia fotos? Não houve fotos porque não houve o comício. A Polícia chegou, começou a dar tiros pra cima, um festival de cacetetes e saiu todo mundo correndo. Como ele foi lá para cobrir um comício, e não tiroteios e correrias, a máquina foi conservada em estado de absoluta virgindade. O estágio, obviamente, acabou. Tempos depois encontro o Waldomiro, os amigos conseguiram para ele um emprego de fotógrafo na perícia da Polícia Técnica. Carreira feliz, se não morreu deve estar placidamente aposentado. Afinal, carro batido e defunto estatelado no asfalto são muito mais pacientes que os chefes de redação”.

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