terça-feira, 5 de maio de 2009

EXPERIÊNCIA SE ADQUIRE COM O TEMPO


Orlando Silva fez história como repórter de polícia em Niterói. Emmanuel lembra que, em matéria de texto, "não era lá essas coisas, e nem precisava ser".
Conta aí, ilustre!
"Eu editava, entre outras, a página de polícia no velho O Fluminense, e as matérias do Orlando me davam um trabalho danado. Mas eu gostava, porque eram um show de informação. Tirava uma coisinha aqui, botava uma coisinha ali, mas mantinha a essência.
O diabo é que o coração, às vezes, monta umas armadilhas pra gente. Aconteceu que me apaixonei por uma jovem senhora, uns vinte anos mais velha, casada mas muito infeliz, tadinha, que achou de me colocar sob as asas um tanto encandecidas de sua proteção. Me brindava com inesquecíveis almoços, era boa também em pilotagem de fogão. Eu passava todos os dias por lá, brincava um pouquinho, almoçava, ia trabalhar.
Com o tempo foi pintando também uns uisquinhos, antes e depois dos almoços e sobremesas ou antemesas, e quando eu via a hora tinha passado, a copidescagem tinha ido pro beleléu. O jeito foi buscar a cumplicidade do diagramador, o Maurício Rosa, uma alma generosa e prestativa. O Maurício lia as matérias por telefone, e eu, por telefone, copidescava. Muda isso, muda aquilo... põe isso aqui... troca a palavra tal. Dependendo do tipo, grau e quantidade de uísque, podia dar certo ou não.
Um dia não deu. Maurício lia atentamente uma matéria do Orlando, sobre um suicídio, mas a minha atenção já tinha evaporado. No dia seguinte, saiu impressa com todas as letras uma observação talvez pertinente, mas totalmente desnecessária, fechando a notícia:
Segundo seus familiares, Fulano de Tal já tinha tentado suicídio outras vezes, sendo que nas anteriores não obteve êxito".

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