quarta-feira, 6 de maio de 2009

SEU PISTOLÃO SUBIU NO TELHADO


Minha entrada no Jornal do Brasil foi tragicômica. Depois de passar no vestibular do Cesgranrio, no início de 1973, precisava de emprego urgente. Minha mãe, ex-aeromoça da Cruzeiro do Sul, era servidora do Ministério do Trabalho e complementava o orçamento costurando numa Singer antigona. Aprendera o novo ofício poucos anos antes, por absoluta necessidade, copiando os moldes da Burda, revista de moda alemã. Tinha tanto jeito pra coisa que nosso apêzinho no Posto 6 virou miniateliê com muitas freguesas ricas, uma delas artista plástica e ex-embaixatriz.
Maria Martins, quase octogenária, soube que o filho da costureira, um rapaz magrinho de óculos, naquele mesmo ano ingressara na faculdade de Comunicação da UFF e teria que largar o emprego no Instituto Verificador de Circulação, onde eu viajava pelo país levantando a vendagem de jornais e revistas, por causa do horário das aulas.
Não teve dúvidas: escreveu uma bonita carta de apresentação para sua amiga Maurina Dunshee de Abranches, a Condessa Pereira Carneiro, e me entregou para que eu tentasse uma vaga no Jornal do Brasil. Muito tímido na época – criado no subúrbio, a Zona Sul me assustava um pouco –, fui à Rio Branco levar a tal carta. Aí soube que o endereço novo era o nº 500 da Avenida Brasil, para onde a redação e a diretoria já haviam mudado.
Passou o fim de semana e, não lembro o porquê, fiquei mais alguns dias com aquele passaporte para a glória e o sucesso profissional, via pistolão, em minhas mãos. Um dia, criei coragem e peguei o ônibus Olaria-Copacabana e desci em frente ao querido elefante branco. Peguei o elevador e fui ao nono andar, entreguei a carta à secretária da diretoria, simpaticíssima, mãe da Beatriz Bonfim, de quem eu viria a ser colega. Polidamente, ela me contou uma história triste, no início achei até que estava me enrolando:
– A Condessa não está agora, mas vou entregar a carta mais tarde, quando for possível.
Sem que eu perguntasse – estava mudo e envergonhado –, ela disse mais:
– Não se preocupe que eu entrego a carta. É que a Condessa foi ao enterro de uma amiga dela. Posso abrir o envelope?
Balbuciei que sim.
Quando ela começou a leitura, me encarou pela primeira vez. E à medida que lia, com muita atenção, voltava ao olho-no-olho, com muito desconforto.
Foi então que eu soube da tragédia: o enterro era do meu (aliás, minha) pistolão.
Voltei para casa arrasado. Tem coisas que só aconteciam comigo e com o Botafogo. Os dias se passaram e nada de receber algum telegrama do Jornal do Brasil me chamando para alguma entrevista, sei lá... Teriam, quem sabe, tentado me encontrar pelo telefone, se tivéssemos um.
Ou seja, fudeu!
Minha irmã mais velha e despachada resolveu com um telefonema. Ligou para o JB.
– Jornal do Brasil, boa tarde!
O pobre do telefonista teve que ouvir a história maluca e ficou sem saber o que fazer. Se ligava para a diretoria, para o departamento pessoal, melhor seria a redação. E jogou para o número da Internacional, onde quem atendeu foi a então subeditora Clecy Ribeiro. O editor era o paraibano Humberto Vasconcelos.
A ótima falante e melhor ainda ouvinte Clecy foi direto ao ponto.
– Tenho uma vaga aqui, se ele puder trabalhar a partir das cinco da tarde até dez, onze da noite. Não é vaga de jornalista, mas alguns começaram assim.
Topado. Fui no dia seguinte e aprendi rapidamente o novo ofício: eu passava no telex de 20 em 20 minutos e tirava das máquinas da AP, UPI, ANSA, France Presse, DPA e Reuters os telegramas enviados por essas agências de notícias internacionais. Levava para a mesa da Clecy ou do Humberto e passava 20 minutos lendo tudo quanto é jornal e os próprios telegramas que não haviam sido aproveitados. Tenho lembrado muito daqueles tempos quando vejo futebol pela TV e à beira do gramado sempre identifico o velho Fritz, teletipista daquela época, hoje funcionário da Associação de Cronistas Esportivos.
Passaram uns meses e abriram vagas para o novo cursinho de jornalismo, a verdadeira porta de entrada do JB, sem pistolão. O curso era dado pelo editor de Pesquisa, Roberto Quintaes. Fiz a prova de conhecimentos gerais, com 100 perguntas, e esqueci aquela porra.
Eu que já estava bem menos tímido, e começara até a fazer umas notinhas de colunão. Num belo (e põe belo aí) início de noite, entra na sala da Internacional o diagramador Fichel Davit Chargel, com seu bigodão ainda preto. Davi tivera acesso às provas, já corrigidas, e esculhambou o nível da garotada. Me encolhi na cadeira.
– Mas os 30 que passaram (éramos, sei lá, uns 300 candidatos ou mais) se saíram bem. O primeiro colocado acertou 95 das 100. O nome da figura é... ué??? Não é você, ô cara?!
Valeu por ter soprado as respostas, embaixatriz!

2 comentários:

Romildo Guerrante disse...

História do cacete. Minha mãe também era costureira e usava a Burda como referência. Como é que a revista Burda ia parar lá em São Fidélis? Não sei.
Essa história é de um garoto de Niterói que venceu a muque. Gostei muito, Zé Sérgioa. Me lembro de você carregando telegrama (e telex) pra cima e pra baixo. Valeu o sacrifício.

Osvaldo Maneschy disse...

Zé, lembro exatamente o dia em que você começou. Lembro também desse primeiro lugar que, na minha opinião, "bagunçou" o cursinho do Quintaes, Editor de Pesquisa, porta de entrada para o JB. Por onde eu, Romildo Guerrante, Maria Thereza Ottoni Siqueira, Régis de Oliveira, Pedro Luis Rodrigues (hoje Embaixador),Borges, e tanta gente mais - só para citar a minha turma, a de 1970 - alcançou o que na época era "a glória" para qualquer jornalista: trabalhar no JB. Bagunçou porque Quintaes tinha um zelo danado, era dificil passar na porta da entrada - e logo um "cortador de telegrama" da Internacional tirou em primeiro lugar. É bom que se diga que fiz o cursinho do Quintaes, perfeito, ainda na velha sede do JB, na Avenida Rio Branco, mas quando era reporter estagiário da Economia do JB, na época comandada por Noemio Spindola, a chance que pintou para mim de ser contratado foi como redator E, da Internacional, na escala de redatores a mais mixuruca de todas, mas um contrato. O que me levou a largar função de estagiário da Economia para começar a "ganhar dinheiro" como redator na Internacional - com a missão super humilde de cortar telegramas. Já escrevendo um texto ou outro, mas cortador de telegramas.