sábado, 3 de outubro de 2009

COMO VAI FICAR NOSSA IMAGEM LÁ FORA?


Na caixa, Carmen Miranda canta "Primavera no Rio", a canção do eterno Braguinha que tirou 2º lugar no concurso que escolheu o hino da cidade. Perdeu para "Cidade Maravilhosa".
Em 1989, quando tive a oportunidade de votar para presidente pela primeira vez na vida, escolhi Luiz Inácio da Silva, o Lula, que passou a se chamar Luiz Inácio Lula da Silva. Muitos que tomaram esta decisão foram questionados porque, afinal de contas, “esse sujeito é um despreparado”, “é comunista safado”, “quer tocar fogo no Brasil”, “vai levar o país a uma guerra civil”, “os militares não vão permitir” e, caso a ameaça se concretizasse, ou seja, caso Lula vencesse nas urnas, “como vai ficar a imagem do Brasil lá fora com esse analfabeto nos representando?”.
Esta expressão escrota foi muito utilizada: “Como vai ficar a imagem do Brasil lá fora?”. Soava como outra expressão ainda mais remota: "O que os vizinhos vão dizer?".
O preconceito é muito engraçado. Seus portadores, uns doentes, são os únicos que não percebem o ridículo.
Lembro da frase daquele presidente da Fiesp que fabricava uma vodca vagabunda: “Se Lula for eleito, 800 mil empresários vão embora do país”.
Depois que saí do PT, votei no Lula novamente por uma razão bem simples: bem que tentei não votar, até mesmo me abster, mas dava uma raiva danada, sempre às vésperas de uma eleição, ouvir novamente a cantilena dos preconceituosos que não acreditavam no Brasil e nem nos brasileiros.
Um deles até escreveu um livro, aliás muito chato, chamado “Viva o povo brasileiro”, que merecia ganhar um subtítulo “... desde que conheça seu lugar”.
Nós, ovelhas negras, sempre fomos muito criticados, até por amigos e familiares, em razão de nossas preferências políticas – Lula, Brizola, PT, PDT (outro partido que fez história na época).
Pois é, na próxima eleição não vou precisar mais votar no Lula, pois “o cara” não vai concorrer. Mas já terá passado oito anos no poder e “a imagem do Brasil lá fora” só fez melhorar nesse período. É bem verdade que as boas notícias começaram no governo anterior, mas o governo anterior fez muita bobagem, sobretudo no segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso.
Tampouco estourou uma guerra civil e muito menos 800 mil empresários bateram em retirada.
O que aconteceu nesses oito anos foi bem diferente.
O gigante acordou do sono de 500 anos. A última do cara que ia estragar nossa imagem lá fora foi liderar o baita trabalho político que trará os Jogos Olímpicos de 2016 para o Rio de Janeiro.
Não voto mais em Lula nos próximos quatro anos.
Voto no candidato ou candidata que esse sujeito de bunda pra lua apoiar.
Se prometer trazer a capital de volta para o Rio, então, nem se fala...

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

FOLHA DENUNCIA QUINTA-COLUNA EXPLÍCITA

A Folha de S. Paulo revela, em reportagem de autoria de Ranier Bragon, Fernanda Odilla e Valdo Cruz, publicada hoje, que três deputados federais, assim como quem não quer nada, apresentaram emendas que contrariam os interesses nacionais.
As propostas visam acabar com o monopólio da Petrobras na extração do petróleo da camada do pré-sal. A reportagem identificou que, curiosamente, as emendas de José Carlos Aleluia (DEM-BA), Eduardo Gomes (PSDB-TO) e Eduardo Sciarra (DEM-PR), na verdade, dizem a mesmíssima coisa, soprada pela mesma fonte - a concorrência da Petrobras.
Pegou muito mal. Eleitores da Bahia, Paraná e Tocantins não esqueçam de malhar esses três Judas no Sábado de Aleluia (coincidência) do ano que vem. E, principalmente, nunca mais votar nesse trio de quinta-colunas: Aleluia e os dois Eduardos.


OPOSIÇÃO "CLONA" EMENDA DE PETROLÍFERAS

Três deputados federais de oposição apresentaram separadamente emendas aos projetos do pré-sal que, além de coincidirem com os interesses das grandes empresas do setor petrolífero, têm redação idêntica.
José Carlos Aleluia (DEM-BA), Eduardo Gomes (PSDB-TO) e Eduardo Sciarra (DEM-PR) sugeriram em suas emendas diversas modificações às propostas do governo, entre elas uma das bandeiras das gigantes do petróleo: a de que a Petrobras não seja a operadora exclusiva dos campos.
"A previsão legal de um monopólio ou reserva de mercado para a Petrobras não se justifica em hipótese alguma", diz trecho nas emendas dos três.
O IBP (Instituto Brasileiro de Petróleo), que reúne as principais empresas do setor, confirmou que procurou em Brasília lideranças de oito partidos, entre quarta e ontem, mas negou a autoria das emendas "clonadas", embora o teor coincida com o que o setor defende.
"Trabalhamos durante todos esses dias. Começamos a nos movimentar no Congresso, e de maneira institucional, porque o IBP é apartidário. Queremos tornar públicas nossas emendas para todos os partidos. Tinham partidos dispostos a acatá-las integralmente, outros estavam analisando", disse o presidente do IBP, João Carlos França de Luca, da espanhola Repsol, uma das multinacionais do petróleo.
Termina hoje o prazo para apresentação de emendas. Até ontem, 738 emendas já haviam sido apresentadas.
Eduardo Gomes admitiu que a emenda foi entregue a ele pelo setor.
"Tenho contato com todas as associações, todas, o IBP, Sindicom [distribuidoras de combustível e lubrificantes], não tenho nenhum constrangimento em relação a esse tipo de auxílio", afirmou, acrescentando que os textos idênticos podem ter sido fruto de um "assessor preguiçoso".
"Não tenho doação de campanha dessas empresas. Sempre tive doação no setor elétrico, voltado à área de regulação, de fortalecimento das agências reguladoras, defendendo investimento em parceria com o mercado. As emendas estão coerentes com a minha atuação".
Sciarra também diz que acatou as sugestões dos consultores do setor petrolífero. "Eu e o Aleluia fizemos o debate e pedimos para a assessoria do DEM formular as propostas. No caso do Eduardo Gomes, não sei o que aconteceu.
"Aleluia afirmou que redigiu suas emendas com auxílio da assessoria do DEM e de consultores externos. "Não conversei com empresas, contei com a ajuda de consultores independentes", afirmou ele.
Segundo a Folha apurou, as emendas clonadas eram parte de versões preliminares preparadas por petrolíferas e repassadas aos deputados por consultores e representantes de empresas. As emendas entregues oficialmente aos parlamentares pelo IBP têm redação diferente, mas teor idêntico nas propostas de mudanças.
Além dos três deputados, outras emendas que coincidem com os interesses das grandes empresas foram apresentadas por outros parlamentares, como Ronaldo Caiado (GO), líder do DEM, e Arnaldo Jardim (PPS-SP), que presidirá uma das comissões dos projetos de um novo marco regulatório para o setor petrolífero enviados pelo governo ao Congresso.
Caiado disse que todas as suas emendas foram redigidas por sua assessoria, embora tenha dito que debateu o assunto com os setores afins. Jardim afirmou não ter tido tempo de analisar as emendas do IBP e que seguiu suas convicções.
"Acho legítimo que qualquer pessoa interessada nos procure para sugerir melhorias", disse Caiado.
Ele apresentou emenda para permitir que a Petrobras ceda a operação de alguns campos para outras empresas petrolíferas, ideia que agrada também à própria estatal.
Além do fim do monopólio da Petrobras na operação dos novos campos, o setor privado defende, entre outros pontos, a redução do poder da Petro-Sal (a estatal que gerenciaria o novo modelo) nos comitês de exploração e o fim da exigência de que a Petrobras tenha no mínimo 30% de participação em todos os novos campos.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

UMA PARADINHA PARA VER QUALÉ

O blog QUEM É VIVO SEMPRE APARECE anda meio parado porque o diretor, redator, apurador, diagramador, editor musical e faxineiro da redação está dando um tempinho para cuidar da saúde e fazer uma montoeira de exames, consultas etc. Qualquer dia vou escrever sobre isso porque a coisa está ficando engraçada. Enquanto o quadro clínico de PVC(*) vai se confirmando, o Manuel da Redação se encarrega de reproduzir alguns textos que merecem sua leitura inteligente, como o que vem logo abaixo dessa postagem.
(*) Para quem não é do Rio: PVC é a porra da velhice chegando.

UM OLHAR SOBRE NOSSA IMPRENSA

Esse artigo foi escrito pelo jornalista Emiliano José e repassado para este blog por meu chapa Cezar Motta. Saiu um dia desses na Carta Capital. Infelizmente, e creio que não falo só por mim, mas por centenas de colegas de profissão com muitos anos de praia, a crítica é perfeita.


"Eu estava na ante-sala de uma médica, em Salvador. Sábado, dia 29 de agosto. E apenas por essa contingência, dei-me de cara com uma chamada de primeira página - uma manchetinha - da revista Época, já antiga, de março deste ano de 2009: "A moda de pegar rico" - as prisões da dona da Daslu e dos diretores da Camargo Corrêa.
Alguém já imaginou uma manchete diferente, e verdadeira como por exemplo, A moda de prender pobres? Ou A moda de prender negros? Não, mas aí não. A revolta é porque se prende rico. Rico, mesmo que cometendo crimes, não deveria ser preso.
Lembro isso apenas para acentuar aquilo que poderíamos denominar de espírito de classe da maioria da imprensa brasileira. Ela não se acomoda - isso é preciso registrar. Não se acomoda na sua militância a favor de privilégios para os mais ricos. E não cansa de defender o seu projeto de Brasil sempre a favor dos privilegiados e a favor da volta das políticas neoliberais. Tenho dito com certa insistência que a imprensa brasileira tem partido, tem lado, tem programa para o País. E, como todos sabem, não é o partido do povo brasileiro. Ela não toma partido a favor de quaisquer projetos que beneficiem as maiorias, as multidões. Seus olhos estão permanentemente voltados para os privilegiados. Não trai o seu espírito de classe. Isso vem a propósito do esforço sobre-humano que a parcela dominante de nossa mídia vem fazendo recentemente para criar escândalos políticos. E essa pretensão, esse esforço não vem ao acaso. Não decorre de fatos jornalísticos que o justifiquem.
Descobriram Sarney agora. Deu trabalho, uma trabalheira danada. A mídia brasileira não o conhecia após umas cinco décadas de presença dele na vida política do país. Só passou a conhecê-lo agora, quando se fazia necessário conturbar a vida do presidente da República. O ódio da parcela dominante de nossa mídia por Lula é impressionante. Já que não era possível atacá-lo de frente, já que a popularidade e credibilidade dele são uma couraça, faça-se uma manobra de flanco de modo a atingi-lo. Assim, quem sabe, terminemos com a aliança do PMDB com o PT.
Não, não se queira inocência na mídia brasileira. Ninguém pode aceitar que a mídia brasileira descobriu Sarney agora. Já o conhecia de sobra, de cor e salteado. Não houve furo jornalístico, grandes descobertas, nada disso. Tratava-se de cumprir uma tarefa política. Não se diga, porque impossível de provar, ter havido alguma articulação entre a oposição e parte da mídia para essa empreitada. Talvez a mídia tenha simplesmente cumprido o seu tradicional papel golpista.
Houvesse a pretensão de melhorar o Senado, de coibir a confusão entre o público e o privado que ali ocorre, então as coisas não deviam se dirigir apenas ao político maranhense, mas à maior parte da instituição. Só de raspão chegou-se a outros senadores. Nisso, e me limito a apenas isso, o senador Sarney tem razão: foi atacado agora porque é aliado de Lula. Com isso, não se apagam os eventuais erros ou problemas de Sarney. Explica-se, no entanto, a natureza da empreitada da mídia.
A mídia podia se debruçar com mais cuidado sobre a biografia dos acusadores. Se fizesse isso, se houvesse interesse nisso, seguramente encontraria coisas do arco da velha. Mas, nada disso. Não há fatos para a mídia. Há escolhas, há propósitos claros, tomadas de posição. Que ninguém se iluda quanto a isso.
Do Sarney a Lina Vieira. Impressionante como a mídia não se respeita. E como pretende pautar uma oposição sem rumo. É inacreditável que possamos nós estarmos envolvidos num autêntico disse-me-disse quase novelesco, o país voltado para saber se houve ou não houve uma ida ao Palácio do Planalto. Não estamos diante de qualquer escândalo. Afinal, até a senhora Lina Vieira disse que, no seu hipotético encontro com Dilma, não houve qualquer pressão para arquivar qualquer processo da família Sarney - e esta seria a manchete correta do dia seguinte à ida dela ao Senado. Mas não foi, naturalmente.
Querem, e apenas isso, tachar a ministra Dilma de mentirosa. Este é objetivo. Sabem que não a pegam em qualquer deslize. Sabem da integridade da ministra. É preciso colocar algum defeito nela. Não importa que tenham falsificado currículos policiais dela, vergonhosamente. Tudo isso é aceitável pela mídia. Os fins, para ela, justificam os meios.
Será que a mídia vai atrás da notícia de que Alexandre Firmino de Melo Filho é marido de Lina? Será? Eu nem acredito. E será, ainda, que ele foi mesmo ministro interino de Integração Nacional de Fernando Henrique Cardoso, entre agosto de 1999 e julho de 2000? Era ele que cochichava aos ouvidos dela quando do depoimento no Senado? Se tudo isso for verdade, não fica tudo muito claro sobre o porquê de toda a movimentação política de dona Lina? Sei não, debaixo desse angu tem carne…
Mas, há, ainda, a CPI da Petrobras que, como se imaginava, está quase morrendo de inanição. Os tucanos não se conformam, E nem a mídia. Como é que a empresa tornou-se uma das gigantes do petróleo no mundo, especialmente agora sob o governo Lula e sob a direção de um baiano, o economista José Sérgio Gabrielli de Azevedo? Nós, os tucanos, pensam eles, fizemos das tripas coração para privatizá-la e torná-la mais eficiente, e os petistas mostram eficiência e ainda por cima descobrem o pré-sal. É demais para os tucanos e para a mídia, que contracenou alegremente com a farra das privatizações do tucanato.
Acompanho o ditado popular “jabuti não sobe em árvore”. A CPI da Petrobras não surge apenas como elemento voltado para conturbar o processo das eleições. Inegavelmente isso conta. Mas o principal são os interesses profundos em torno do pré-sal. Foi isso ser anunciado com mais clareza e especialmente anunciada a pretensão do governo de construir um novo marco regulatório para gerir essa gigantesca reserva de petróleo, e veio então a idéia da CPI, entusiasticamente abraçada pela nossa mídia. Não importa que não houvesse qualquer fato determinado. Importava era colocá-la em marcha. Curioso observar que a crise gestada pela mídia com a tríade Sarney-Lina-Petrobras, surge precisamente no mesmo período daquela que explodiu em 2005. Eleições e mídia, tudo a ver. Por tudo isso é que digo que a mídia constitui-se num partido. Nos últimos anos, ela tem se comportado como a pauteira da oposição, que decididamente anda perdida. A mídia sempre alerta a oposição, dá palavras-de-ordem, tenta corrigir rumos.
De raspão, passo por Marina Silva. Ela sempre foi duramente atacada pela mídia enquanto estava no governo Lula. Sempre considerada um entrave ao desenvolvimento, ao progresso quando defendia e conseguia levar adiante suas políticas de desenvolvimento sustentável. De repente, os colunistas mais conservadores, as revistas mais reacionárias, passam a endeusá-la pelo simples fato de que ela saiu do PT. É a mídia e sua intervenção política. Marina, no entanto, para deixar claro, não tem nada com isso. Creio em suas intenções de intervenção política séria, fora do PT. Neste, teve uma excelente escola, que ela não nega.
Por tudo isso, considero essencial a realização da I Conferência Nacional de Comunicação. Por tudo isso, tenho defendido com insistência a necessidade de uma nova Lei de Imprensa. Por tudo isso, em defesa da sociedade, tenho defendido que volte a obrigatoriedade do diploma para o exercício da profissão de jornalista. Por tudo isso, tenho dito que a democratização profunda da sociedade brasileira depende da democratização da mídia, de sua regulamentação, de seu controle social. Ela não pode continuar como um cavalo desembestado, sem qualquer compromisso com os fatos, sem qualquer compromisso com os interesses das maiorias no Brasil".
Emiliano José

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

CIDADÃOS DOS PAÍSES RICOS SÃO TODOS NACIONALISTAS

O autor desta frase (na foto, lembram dele?) não é aliado do governo Lula (longe disso).
A frase foi escrita nesta segunda-feira, na Folha de S. Paulo.
O texto defende o modelo proposto pelo governo para a exploração do petróleo abaixo da camada de sal que se estende por uma área de 150 mil quilômetros quadrados, do litoral capixaba ao catarinense.
É um artigo crítico, ao governo e, principalmente, à oposição.
Leia tudo e veja quem o assina.

O pré-sal e a nação

"Ao criticar o governo Fernando Henrique Cardoso no lançamento dos projetos do marco regulatório do pré-sal, o presidente Lula errou porque deu a um problema que deve unir a nação um viés político-partidário.
Errará também a oposição se adotar uma posição contrária ao cerne de um plano que é do maior interesse nacional.
Se a regulação do pré-sal continuar sob a legislação atual ou for malfeita, essa bênção da natureza pode se transformar em uma maldição, porque significará que não soubemos neutralizar a "doença holandesa" associada à abundância de petróleo.
O governo compreendeu esse fato, e, nesses dois anos, realizou os estudos necessários para evitar esse mal.
As três decisões que constituem o cerne de seu plano são a opção pelo sistema da partilha, a criação da Petro-Sal e a criação de um fundo soberano para receber os recursos da partilha.
Asseguradas essas três coisas, o Brasil terá a flexibilidade necessária para neutralizar a "doença holandesa" e promover o desenvolvimento nacional.
A opção pelo mecanismo da partilha, em vez do das concessões, está correta porque os riscos das empresas serão pequenos, e porque esse mecanismo facilita à nação se assenhorear das "rendas" do petróleo (os ganhos decorrentes da maior produtividade dos recursos naturais), ficando para as empresas exploradoras os lucros - os ganhos que dão retorno ao investimento e à inovação.
A legislação em vigor, de 1997, usou o mecanismo da concessão porque naquela época o risco era grande e o tema da "doença holandesa" não estava na agenda nacional.
Diante dos fatos novos, porém, não faz sentido apegar-se a ela.
O conservadorismo local, entretanto, está acusando os quatro projetos de "nacionalistas" e "estatizantes"?
Quanto ao primeiro epíteto, não é acusação, é elogio.
Os cidadãos dos países ricos são todos nacionalistas - tão nacionalistas que não precisam usar essa palavra para se distinguir uns dos outros.
Por isso, seus ideólogos podem usar essa palavra de forma pejorativa procurando, assim, neutralizar o necessário nacionalismo econômico dos países em desenvolvimento.
E o que dizer do epíteto de "estatizante" porque cria a Petro-Sal?
Isso também não faz sentido.
O Brasil já passou a fase em que o papel do Estado é o de realizar investimentos nas indústrias de base.
O setor privado já tem suficiente capital para isso e é reconhecidamente mais eficiente e mais inovador do que o setor estatal em produzir nos setores competitivos da economia.
A Petro-Sal será uma pequena empresa 100% estatal; não será operacional, mas proprietária das reservas.
Através dela poderemos ter o sistema de partilha com alíquotas flexíveis dependendo do preço internacional do petróleo.
Mas não será o plano "eleitoreiro"?
Será se o PSDB insistir em se opor a suas proposições básicas.
Não é a posição do governador José Serra, mas poderá ser a de muitos representantes do partido, que, se criticarem o cerne do plano, estarão se identificando com os interesses das empresas petrolíferas internacionais.
E, assim, fortalecerão eleitoralmente o candidato do governo.
Há certos problemas que não permitem tergiversação.
O Brasil já sofre os males da falta de neutralização da "doença holandesa" oriunda das exportações de ferro e de produtos agropecuários.
Se também não souber evitar a sobreapreciação muito maior que será proveniente de um pré-sal mal regulado, o processo de desindustrialização em marcha se acelerará, e seu desenvolvimento econômico estará definitivamente prejudicado".


Luiz Carlos Bresser Pereira
Economista, ex-ministro do governo Fernando Henrique Cardoso

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

ARQUIVO X PODE COMPRAR DIREITOS DO CASO LINA




Visito sempre o blog (quase uma revista diária) do jornalista Josias de Souza, na Folha Online. Ontem passei batido e não li o texto abaixo, cujas informações não encontrei hoje nos dois jornais que assino - Globo e Estadão. Noticiário de Receita só uma nota sobre a liberação de mais um lote de restituições. Ou seja, só num cantinho da internet (e certamente na Folha, que não assino) os leitores são informados de algo muito grave. OK, foi furo da Folha. No entanto, duas semanas atrás, a personagem do blog do Josias esteve a ponto de ser canonizada pela mídia em peso, por ter acusado Dilma Rousseff de recebê-la num encontro cuja hora, dia, semana e mês não sabia bem. O caso Lina Vieira poderia render um episódio do Arquivo X. Vai ver que a ex-secretária da Receita Federal acompanhou a primeira-dama do Japão, Miyuki Hatoyama, na voltinha que deram lá no planeta Vênus, abduzidas por aliens de bicos enormes, e pensaram que estavam no Palácio do Planalto (foi uma confusão natural, pois, como se vê na foto, o projeto do quartel-general dos ETs também é de Oscar Niemeyer). Na caixinha de surpresas musicais da sujeira política nacional, "Lucy in the sky with diamonds", daquele quarteto de aliens de Liverpool.


DO BLOG DE JOSIAS DE SOUZA



A superintendência da Receita em São Paulo submeteu as estatísticas do setor de fiscalização a uma maquiagem.
Uma infração bilionária lavrada em dezembro de 2008 foi lançada na base de dados do fisco em janeiro de 2009.
Graças à manobra, vendeu-se à platéia gato por leão. Informou-se que, sob a ex-secretária Lina Vieira, o fisco apertara o cerco aos grandes contribuintes. É lorota.
A digestão de estatísticas é coisa que a maioria dos estômagos prefere refugar. Ainda asssim, vai abaixo uma tentativa do repórter de mastigar a encrenca:
1. Mega-infração: No dia 29 de dezembro de 2008, a superintedência da Receita em São Paulo lavrou contra o banco Santander um auto de infração de R$ 4,168 bilhões.
2. Maquiagem: O valor deveria ter sido contabilizado no ano passado. Porém, foi empurrado para o exercício de 2009. Desceu à base de dados do fisco em janeiro.
3. Tônico: Ao deslocar a multa do Santander de um ano para outro, o escritório da Receita em São Paulo vitaminou as estatísticas dos primeiros oito meses de 2009.
Sem os R$ 4,168 bilhões da multa imposta ao banco, as infrações lavrados no maior Estado do país somariam, entre janeiro e agosto de 2009, R$ 9,88 bilhões.
Vitaminadas pela multa bilionária, as autuações de 2009 saltaram, em S~çao Paulo, para R$ 14,05 bilhões.
Considerando-se o país inteiro, o total de multas pulou de R$ 26,9 bilhões para R$ 31,1 bilhões.
4. Lina versus Rachid: Ao tingir 2009 com o ruge do Santander, o fisco fez esmaecer os resultados do primeiro semestre de 2008. Para quê?
Na primeira metade de 2009, a Receita era chefiada por Lina Vieira. Foi demitida em julho. No mesmo período de 2008, o chefe do fisco era Jorge Rachid.
Entre janeiro e agosto do ano passado, ainda sob Rachid, a Receita lavrara em São Paulo autos de R$ 9,8 bilhões. No Brasil, R$ 34,3 bilhões.
5. Gato por leão: Tomado pelo resultado maquiado, o fisco de Lina teria registrado em São Paulo um incremento nas fiscalizações de notáveis 43%.
Tomado pelo dado real, escoimado da multa do Santander, o aumento no volume de autos de infração cai para irrisórios 0,55%. Na prática, um empate com a era Rachid.
Considerando-se os números do país inteiro, o resultado é desfavorável a Lina tanto no cenário maquiado quanto no real.
Com a vitamina do Santander, registrou-se nos primeiros oito meses do ano uma queda de 9,32% no total nacional de infrações. Sem o tônico, queda de 21,46%.
6. Arrocho nos tubarões: Nas pegadas da demissão de Lina, vendeu-se a tese de que a secretária fora ao olho da rua porque incomodara os grandes contribuintes.
Dizia-se que o cerco ao tubaranato havia sido incrementado especialmente na superintendência de São Paulo, a maior do país. Falso.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

PRÉ-SAL: SERRA APOIA LULA. DILMA ELOGIA FHC


Como já disse antes neste blog, tenho dois candidatos a candidatos a presidente da República. Pela situação, Dilma Rousseff, minha candidata favorita a candidata pelo PT. Pela oposição, José Serra, o nome que prefiro disparado para ser o candidato do PSDB. Os dois da foto aí no alto. Claro que um quer o que o outro também quer. No entanto...
O primeiro motivo dessas duas escolhas é que ambos são legítimos pianos de cauda alemães. Ou seja, ambos são considerados pesados, gerentões, enérgicos – é disso o que precisamos a partir de agora.
Veja bem, não torço pela eleição de nenhum ditador, até porque ditador não chega ao poder pelo voto. O que gostaria de ver é um governo com muitos técnicos (fora dos cargos ministeriais, que são políticos, evidente) cobrando de seus subordinados que aquela obra “é para ontem”.
Os rótulos de direita ou de esquerda não dizem nada. O alinhamento automático a uma ou outra corrente de opinião já tumultuou bastante a vida neste país.
Há cinco governos (a partir do Itamar, que lançou o Real), o Brasil me surpreende por viver um período – espero que definitivo – de estabilidade política e econômica.
O ideal seria que PT e PSDB juntassem forças, mas como isso é impossível, como ainda dependem ambos do PMDB e dos pmdbzinhos para garantirem a tal da governabilidade, torço para que a campanha de 2010 seja propositiva, marcada por debates em que se pense o Brasil, e não por histerias em palanques. O eleitor cansou de trocas de acusações que muitas vezes revelam que os dois lados estão certos, pois “ambos não prestam”, “esse país não tem jeito”, “esses políticos são todos uns sacanas”, etc.
Hoje, tive mais um bom motivo para crer que meus dois pianos de cauda estão e podem continuar fazendo bonito na campanha de 2010.
Leia o Panorama Político de hoje, 3 de setembro, na página 2 de O Globo, para entender: ao contrário de muita gente em seu partido e na coligação, José Serra avisou que apoia os fundamentos do modelo proposto por Lula e Dilma para a exploração do petróleo do pré-sal. E Dilma, por sua vez, fez questão de dizer que o modelo de concessão adotado pelo governo Fernando Henrique foi uma decisão acertada para o ambiente da época.
Ou seja, o que está escrito aí embaixo no texto “Voltam-se as vistas para o nosso pré-sal” tem o apoio dos meus dois pianos de cauda alemães.

As duas notas de abertura que o Globo publicou na coluna que tem como titular o jornalista Ilimar Franco dizem o seguinte:

SERRA APOIA LULA


"O governador de São Paulo, José Serra, apoia a proposta do presidente Lula para o petróleo do pré-sal. Serra concorda com seu fundamento: o de aumentar a participação da União na renda do petróleo. Ele usa três argumentos: 1. o preço do petróleo explodiu nos últimos anos; 2. as reservas petrolíferas não estão crescendo; 3. as reservas do pré-sal têm um risco exploratório menor".


O TUCANO NÃO FARÁ CAMPANHA CONTRA

"José Serra, pré-candidato a presidente, está convencido que a mudança é necessária. Sua avaliação é que é irrelevante o debate concessão x partilha. Para Serra: 1. essa riqueza é da União; 2. Lula é o presidente eleito; 3. Lula tinha a prerrogativa de decidir; 4. cabe ao Congresso examinar a proposta. Um amigo de Serra conta que ele gostou da fala da ministra Dilma Rousseff sobre a adoção do modelo de concessão no governo FH. Dilma lembrou que, quando isso ocorreu, o modelo era compatível com um país vulnerável às crises externas, com uma Petrobras descapitalizada e com o elevado risco exploratório das reservas".

O Panorama Político de hoje foi o melhor contraste para a manchete do Globo de ontem. Na vitrolinha, “Falso amor sincero”, de e com Nelson Sargento.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

VOLTAM-SE AS VISTAS PARA O NOSSO PRÉ-SAL

Os grandes jornais prestaram hoje um excelente serviço a todos aqueles que acreditam ou passaram a acreditar que não vivemos num “país de merda”. Aquele país da piada que tem uma frase atribuída a Deus: “Não tem furacão nem terremoto, mas vocês vão ver o povinho que eu vou botar dentro dele”.
A manchete do Globo desta segunda-feira, 1º de setembro de 2009, é apocalíptica:

Regras estatizantes para pré-sal assustam o mercado!!!
Sem os pontos de exclamação, evidente, acrescentados aí em cima porque este era o objetivo do título: assustar os leitores.
O lançamento do pré-sal, principal assunto do dia, foi tratado pelo Globo como um lobisomem perambulando em madrugada de lua cheia na Rua do Ouvidor esquina com Rua do Mercado, um orangotango do Bornéu solto na calçada da Avenida Paulista nº 1.313, um vampiro pedófilo no parquinho da esquina, o estrangulador do Parque Xangai, a Fera da Penha, etc.
Assustar? Quem vai ser assustado? Um amigo meu, apaixonado pela filosofia alemã, citaria Schopenhauer: “As discussões são inúteis porque as pessoas só se convencem daquilo que elas querem se convencer”.
Nada melhor do que uma manchete bombástica e agressiva para nos fazer ler tudo o que foi espalhado e escondido nas páginas internas, no caso, nas páginas da editoria de Economia. Como escondido? Por dois motivos:
1. O pessoal da(s) Economia(s) me desculpe, mas nem todo leitor lê essa que é ou deveria ser, com certeza, a mais importante editoria de qualquer jornal. A não ser em casos como confisco de poupança, plano econômico heterodoxo, essas coisas que felizmente não existem mais, desde que deixamos de nos considerar ou nunca nos consideramos o povinho de um país de merda.
2. O Globo só enxergou o lançamento do pré-sal pelo (evidente, previsível, todos fariam isso se estivessem no poder hoje) aspecto político-eleitoral. Se o jornal fosse coerente com essa avaliação de política editorial, as matérias do pré-sal então teriam que começar na página 3, a mais nobre do primeiro caderno, onde começa o noticiário de Brasil.
Ah! Na capa não esqueceram de botar também na foto o Sarney e três manequins daquela grife ecológico-fundamentalista.
E aí? E o olho grande do Henry Ford em nossa borracha?
Espalhado ou escondido, tanto faz. O Globo bota suas matérias onde acha que deve botar. É um grande jornal, cheio de história, que começou hipernacionalista (“Voltam-se as vistas para a nossa borracha” foi sua primeira manchete de capa), cresceu como empresa sob a liderança de Roberto Marinho (sobretudo durante os governos militares) e, passado um longo período de linha dura em sua política de RH, hoje é um lugar certamente bem mais agradável de se trabalhar.
O Globo já teve outras linhas editoriais, mas nunca foi, não quis ser, nem sabe ser (tanto que abriu duas filiais justamente para isso) um jornal popular, do povão (ou do povinho).
Quanto tenta ser – foi o caso desta segunda-feira – não dá certo. Basta ler o lead da principal chamada da primeira página: “O lançamento das regras para exploração do pré-sal foi marcado por um tom nacionalista”. Se a intenção foi desqualificar o nacionalismo, lamento muito, mas os leitores, em sua maioria (o Ibope nunca fez pesquisa a respeito? Saudações alvinegras), são nacionalistas, sim.
E tem mais! Nacionalistas “atrasados”, daqueles que choram ouvindo os errrrrrrrres do Galvão Bueno, ao contrário deste blogueiro, que foi a favor da grande maioria das privatizações, e ainda assim se considera nacionalista, sim, e com muito orgulho.
Logo depois, ainda no lead, o jornal nos “informa” que o Brasil “entrou ontem numa nova fase de interferência do Estado na economia” (hahahahahaha, riria antigo adversário do jornal da Rua Irineu Marinho, assim mesmo, entre parênteses).
E por aí vai, passando pela criação da Petro-Sal (ótimo nome), a empresa que vai gerir o pré-sal, “fiscalizar e ditar o ritmo de produção e exploração das reservas”.
A direita e a esquerda infantil: uma aliança hilariante
O hilariante é que a Petro-Sal, tal como a Petrobras, vai nascer debaixo de muita oposição. Não é só o Globo que é contra. A Federação Única dos Petroleiros (FUP) e o Sindipetro, duas entidades que primam pelo esquerdismo infantil, também não gostaram da novidade. Para a turma do sindicato dos crachás verdes, quem não é Petrobras, é inimigo. Ô raça!
Outra frase sempre repetida por meu chapa chegado numa filosofia alemã: “As maiores inimigas da verdade são as ideologias”. A estupidez, a arrogância e a burrice são os ingredientes da nossa direita e da nossa esquerda.
O caso da recém-nascida Petrobrás do doutor Getúlio, ainda com acento agudo, é exemplar. A direita bateu o pé, felizmente em vão, contra os valores nacionalistas e esquerdistas que marcaram o nascimento da estatal. A direita, tal como a Folha de S. Paulo, costuma errar tanto ou até mais do que a esquerda.
Se não fosse contaminada por esses valores “nacionalistas e esquerdizantes”, a Petrobrás não seria o que é hoje. Ela cresceu e debaixo de muita torcida contra, muito fogo amigo, e o que mais irritou os chamados entreguistas dos anos 50 e 60 foi que os governos militares, sabiamente, concordavam com a esquerda pelo menos nisso.
E a esquerda? A esquerda até hoje (e o próprio Lula foi porta-voz disso, no discurso do lançamento do pré-sal em Brasília) não entendeu que o geólogo americano Walter Link, primeiro chefe de exploração da Petrobrás, só foi menos importante para a companhia do que o geólogo brasileiro que descobriu a Bacia de Campos. Até hoje, Mr. Link é citado como agente da CIA e outras besteiras por ter dito que o Brasil não tinha petróleo. Era isso o que constava do Relatório Link? Que nada. O ianque disse que não havia petróleo em terra em quantidades comerciais que justificassem a prospecção. E o que Mr. Link aconselhou? Que a Petrobrás procurasse petróleo no mar. A Petrobrás devia batizar uma de suas unidades com o nome de Walter Link.
A direita e a esquerda voltaram a errar e a acertar. A direita demitiu técnicos competentes da empresa por serem ou porque pareciam ser comunistas. A esquerda foi contra a quebra do monopólio estatal no novo ambiente globalizado. A esquerda não entendeu que foi justamente com a quebra do monopólio que a Petrobrás teve chance de provar que não tinha competidores à altura no mercado. E a direita não entende, hoje, que o modelo da partilha é o melhor para um país com reservas gigantescas que estão sendo descobertas.
Os maiores produtores mundiais de petróleo seguem esse modelo ou, no caso da Rússia, por exemplo (leiam os gráficos disponíveis no portal G1, basta procurar), adotam um sistema misto de partilha e concessão.
Foi para tentar esculhambar com esse modelo e com o que enxergou de excesso de nacionalismo que O Globo lançou o noticiário do pré-sal nas páginas 19 (abertura do caderno de economia) e seguintes, com um título engraçadinho:
De volta ao passado... ai,ai, ai...
As reticências e os ai-ais também foram colocados para exprimir melhor o que o autor do título quis transmitir ao leitor médio: desalento, nostalgia, anacronismo... ai, ai, ai! Esses caras atrasados não tomam jeito!
Só leitor dos contos da Carochinha vai deixar de enxergar na Petrobrás uma empresa de mercado e achar que o Brasil está de volta aos anos 1950.
“O petróleo e o gás pertencem ao povo e ao Estado, ou seja, a todo o povo brasileiro. E o modelo de exploração a ser adotado, num quadro de baixo risco exploratório e de grandes quantidades de petróleo, tem de assegurar que a maior parte da renda gerada permaneça nas mãos do povo brasileiro”.
Abstraindo o tom palanqueiro, essa frase do Lula, mantida no texto que procurou apresentar o modelo da partilha como sinônimo de atraso, diz outra coisa. O que o governo está propondo é outra coisa: é que o petróleo da camada pré-sal não será internacionalizado e que a maior parte dessa riqueza que essas reservas vão proporcionar em breve terá que ser revertida em favor da população, em forma de empregos e em investimentos em educação, ciência e tecnologia, habitação, etc.
Ah! Esse governo? – perguntará alguém que vota na oposição.
Não necessariamente. Os governos que efetivamente terão em caixa os primeiros resultados financeiros, quando o pré-sal deixar de ser pré. Governos que pensarem igual a este ou que sejam adversários do Lula e da herança getulista. Duvido muito que, uma vez no poder, queiram jogar fora os frutos que brotarão desse modelo.
Se não caírem novamente na besteira de subestimar a Petrobrás e sua ligação direta com o inconsciente nacional, se não inventarem moda, tipo mudar a razão social da empresa, americanizá-la, europeizá-la, vão se beneficiar daqui a 20 ou 30 anos das decisões que estão sendo tomadas agora. Nem todas acertadas, com certeza, mas isso fica por conta do Congresso, que vai votar algum dia as propostas que foram feitas no último dia de agosto de 2009.
Quem ainda não se deu conta, em breve vai cair a ficha de que a roda está girando e que o Brasil será o quarto maior produtor de petróleo do planeta, atrás apenas da Arábia Saudita, Iraque e Irã. E com muitas vantagens: aqui é e continuará sendo um país democrático, aqui temos carnaval, samba, chorinho, feijoada, bobó e Maracanã no domingo.
Tradução dos 9 mil caracteres que estão aí em cima:
– País de merda é o cacete!

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

ÀS VEZES É PRECISO TROCAR RAPIDINHO UM EDITORIAL



No dia 24 de agosto de 1954, o jornal "Notícias de Hoje", editado em São Paulo pelo Partido Comunista Brasileiro, tinha o editorial pronto. Quando chegou a notícia do suicídio, a edição foi refeita às pressas. Trocaram a manchete por um texto longo exaltando as qualidades do ex-ditador, sob o título "O povo chora a morte de seu Presidente". Só que alguém esqueceu de trocar o editorial, que seguia a mesma linha da primeira página. Ficou assim: no alto da capa, os comunistas se associaram ao povão na dor pela perda do estadista; no editorial "Farinha do mesmo saco", o Partidão falava a língua da direita udenista. Essa história me foi contada por um ex-repórter do "Notícias de hoje". "Foi a maior cagada que já vi em jornal", lembra o velho jornalista, que saiu pelas ruas de São Paulo enfurecido e, para não perder a viagem, jogou uns pedregulhos e quebrou a vitrine da Pan American. Getúlio Dornelles Vargas, com todos os seus defeitos, foi o presidente que inventou nossa infra-estrutura, criando a Petrobrás, a Vale do Rio Doce, a CSN, e de quebra as primeiras leis sociais que o povão nunca esqueceu. Daí a homenagem sonora com este samba-enredo, "O grande Presidente", de autoria do grande Padeirinho, cracaço da Estação Primeira de Mangueira, cantado por outro mestre, Martinho da Vila. É um laudatório? Pode ser, e daí? É carregado de sinceridade.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

TEM GATO NA TUBA DO DEPOIMENTO DE LINA VIEIRA





Jabuti não sobe em árvore. Se subiu, só se alguém botou.
Quem assistiu pelo menos parte do depoimento da ex-secretária da Receita Federal, Lina Vieira, na Comissão de Constituição e Justiça, com transmissão pela TV Senado e Globonews, vai lembrar que um cidadão constantemente sussurrava uns bizus no ouvido da moça. Isso é normal, coisa de assessor. Só que o cara não parava quieto.
Essa vontade de aparecer a qualquer custo tem seu preço. No meio de uma pergunta do Mercadante, o assessor lá estava cochichando nas orelhas da Lina. O bigodudo petista, que já estava meio enfurecido, deu-lhe um esporro, pois estava atrapalhando o trabalho da comissão.
Pois é, o cara chamou tanta atenção que foram descobrir quem era. Não era assessor coisa alguma. Era o marido da Lina.
Até aí, tudo bem. É que nem um velho anúncio do Gelol: não basta ser marido, tem que participar.
Ontem, lendo o blog Conversa Afiada, de Paulo Henrique Amorim, deparei-me com a seguinte informação: o marido da Lina, publicitário e marqueteiro no Rio Grande do Norte, chama-se Alexandre Firmino de Melo Filho e foi (pasmem) ministro interino da Integração Nacional durante quase um ano (entre agosto de 1999 e julho de 2000), no governo de Fernando Henrique Cardoso.
Ou seja, mais um episódio da novela “Como é sujo o jogo da política”. Foi, portanto, encenação pura aquele depoimento sobre um encontro que a depoente teria tido com Dilma Rousseff numa data que não soube precisar – nem hora, nem dia, nem semana e nem mesmo o mês em que aconteceu.
A ex-secretária da Receita parecia firme, sincera e convincente, apesar desses “detalhes”. Mas o maridão foi arroz de festa e estragou tudo.
Alguém leu essa notícia em qualquer grande jornal?
Agora, imagine o oposto. Vamos que outra senhora, dona Maria das Couves, ocupasse o mesmo cargo num futuro governo tucano.
Foi demitida por esse governo, tomou ódio de alguém desse mesmo governo e, quando surgiu a oportunidade, resolveu abrir a boca, sendo assessorada pelo marido que, antes daquele governo, foi ministro do PT.
Não seria desmascarado logo que entrasse na sala da comissão?

Tem gato na tuba desse depoimento. Na caixinha de música, o coral Garganta Profunda canta essa pérola do Braguinha.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

EVITE O ESCONDIDINHO. O BAFÔMETRO TE PEGA

Cuidado com o que anda comendo antes de pegar no volante. O etilômetro é mais burro do que o videoteipe do Nelson Rodrigues! Leia o texto do Romildo Guerrante para entender do que estamos falando aqui.
"Há pouco mais de dois anos, o grande vilão brasileiro era o cidadão que tinha armas em casa, sujeitas a roubos que poderiam desviá-las para as mãos dos bandidos.
No começo deste ano, o vilão era o fumante, cujo cigarro estava contaminando as cidades e matando de enfisema os seus circunstantes passivos.
Estamos no meio do ano e o Governo já arranjou outro vilão das misérias nacionais, agora o motorista que bebe, qualquer quantidade que seja. Se beber demais e pegar no volante, está sujeito a prisão e processo criminal por dolo, ou seja, intenção de matar.
Pau neles. Enquanto houver vilões factíveis, a nação está salva. Assim pensam os que governam o país das novelas.
Se formos analisar como as sociedades desenvolvidas buscaram soluções para todos esses problemas, a legislação brasileira é um disparate.
Agindo aparentemente diante de uma realidade virtual, o Governo que, de Brasília, não consegue vislumbrar o país, toma decisões ao arrepio da própria Constituição.
Na legislação que acaba de aprovar, obriga a que os condutores sob suspeita de terem produzido uma concentração de 0,2dg de álcool no sangue se submetam a medidores sujeitos a falhas, produzindo provas contra si próprios.
E mais: se a concentração for acima de 0,6dg, já sai do volante preso. O país que não quer prender pivetes decidiu que quem toma chope e dirige é criminoso, produza ou não acidentes.
Ora, todo mundo sabe que essa combinação álcool e volante é muito perigosa. Mas tínhamos uma legislação que admitia risco nas concentrações de álcool acima de 0,6dg.
É bom lembrar que nos Estados Unidos, país rigoroso, em que a fiscalização atua mesmo, a concentração tolerada é de 0,8dg.
Por que um país tão adiantado abre uma margem aparentemente tão grande de permissividade com o álcool no sangue dos condutores?
Por que o legislador brasileiro não foi lá perguntar isso antes de bolar uma legislação de gabinete e impô-la ao país goela abaixo?
Por que não foi à França, onde a concentração admitida é de, no máximo, 0,5dg?
Se fosse, ouviria dos legisladores o seguinte: concentrações de 0,2dg são encontradas até em quem come aipim em excesso. Portanto, acautelem-se os que estão à beira da fogueira comendo carboidratos na grande festa junina deste arraial que nunca vai ser metrópole. Arriscam-se aos rigores do etilômetro na primeira estrada.
Nos países civilizados, há margem para erros de diagnóstico. Aqui, não. Até provar que macaco não é elefante, o cidadão já foi algemado e exposto à execração de exacerbados conterrâneos.
Tudo indica que o Governo resolveu aumentar o rigor contra as concentrações alcoólicas no sangue dos motoristas porque a exigência anterior não produziu resultados, os acidentes só têm aumentado.
O raciocínio desses legisladores de gabinete (que nunca ouvem o povo, só ouvem as ONGs) os conduziu então à solução elementar de baixar a concentração permitida. Mas por que não funcionou quando a concentração era maior? Porque não há fiscalização. Aqui no Brasil, aquilo que não se fiscaliza não vigora. Tem sido assim desde o início dos tempos. A lei não pega.
Ultimamente, nem mesmo fiscalizando se obtém êxito, graças à vasta rede de corrupção que tomou todos os escalões de poder no país, principalmente a autoridade que age sozinha ou em bandos nas desertas estradas brasileiras em busca de complementação salarial via propina.
A solução para evitar que os embriagados produzam acidentes é fiscalizar ruas e estradas com policiais honestos, afastando do volante aqueles que não têm condições de dirigir e encaminhando à Justiça os casos de reincidência.
Assim agem os países que tem mais de 100 anos de tradição automobilística, o dobro do que temos aqui, onde o automóvel ainda é um brinquedo na mão de garotos que têm dificuldade de entender que aquilo é um meio de transporte, e não um emblema de escalada social".
Romildo Guerrante

sábado, 15 de agosto de 2009

A VINGANÇA DO CONSUMIDOR NO YOUTUBE


Em março de 2008, a banda country Sons of Maxwell embarcou em Halifax, no Canadá, com destino a Chicago, onde tinha um show programado. Da janela do avião da United Airlines, Dave Carrol viu os carregadores da empresa aérea jogando a bagagem de qualquer maneira. Resultado: seu violão Taylor, de US$ 3,5 mil, foi encontrado na esteira quebrado. Para consertar o instrumento, ele morreu em US$ 2,4 mil, mas a companhia aérea se recusou a pagar. Um parto (nove meses) depois, o músico canadense fez a última tentativa de recuperar a grana e a United voltou a cagar solenemente para o consumidor. Dave deu o troco: disse que colocaria três videoclipes na internet denunciando a irresponsabilidade e a negligência da voadora. Então compôs a baladinha “United breaks guitars” e botou no Youtube. Em um mês, o vídeo foi acessado mais de 700 mil vezes e, em poucos meses, 4,5 milhões de pessoas assistiram. A Taylor deu um violão novo para o autor da canção que chegou ao ranking das 20 mais vendidas no Canadá, ainda mais depois que Dave foi ao programa da Oprah, aquela apresentadora meio Hebe, meio Marília Gabriela. Aí quem entrou em pânico foi a United Airlines, que passou a suplicar para que o músico aceitasse a grana preta que ofereceu para que o caso fosse encerrado e o vídeo retirado do Youtube. Os caras ainda prometeram colocar o vídeo num programa de treinamento. Resposta do Dave: "Vão pra puta que os pariu!". Esse clipe já circula há uns meses, mas só conheci há pouco, quando me foi enviado por meu chapa Wallace Grecco. Não é hilariante? Se demorar muito, vá direto ao youtube ou clique no hiperlink http://www.youtube.com/watch?v=5YGc4zOqozo. Alô, alô, operadoras de telefonia e concessionárias em geral: caiu a ficha?

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

A ESQUERDA BRASILEIRA É A 2ª PIOR COISA DO MUNDO


Só perde para a direita. E a direita brasileira, por pura motivação eleitoral, agora dá porrada no Lula por “se intrometer nos assuntos internos da Colômbia”. Lula está coberto de razão ao criticar o aumento da presença militar no continente. Dê porrada por outros motivos, não por este.
Quem lê com cuidado, honestamente, com certa imparcialidade (imparcialidade total é balela), o noticiário a esse respeito fica logo sabendo que a preocupação do governo brasileiro não é tanto com a Colômbia, com o Pacífico.
O foco é, evidentemente, o Atlântico Sul, por onde voltou a navegar a Quarta Frota dos Estados Unidos, recriada no ano passado.
Esse negócio de boas intenções não vale em política, ainda mais externa. Se hoje os EUA são governados por um sujeito decente e democrata (o adjetivo, não o partido), e se a frota é comandada por um almirante que apenas faz manobras rotineiras, nada impede que no futuro algum megalômano, republicano ou democrata, pior do que Bush pai e Bush filho juntos, se anime a reeditar a política de intimidação daquela parte do mundo que considera seu fundo de quintal – ainda mais com esse idiota do Chávez fazendo merda o tempo inteiro. Fundo de quintal é o cacete! A menos que seja o do Cacique de Ramos.
Lula enviou carta a W. Bush, que nada fez, e agora quer conversar com Obama sobre este assunto sério, importante, relativo à soberania nacional. Reclamou um dia desses (só li num portal de notícias da internet) que a Quarta Frota navega “em cima do NOSSO pré-sal”. E é isso mesmo.
O combate ao narcotráfico e ao narcoterror nada tem a ver com essa questão que nos diz respeito e que deve ter solução diplomática.
A América Latina, senhores, não é Chávez, é Venezuela; não é Michelet, é Chile; não é Lula, é Brasil. Quer ser poupada, encheu o saco desse papo caô de assistência humanitária.
No caso da Colômbia, os EUA deviam contribuir com recursos materiais, grana e – sim, por que não? – especialistas no combate à indústria da droga. Grana para montar uma força nacional de elite que destrua os laboratórios de refino, prenda ou mate os criminosos que integram o exército do narcoterror.
Os americanos que peguem seus marinheiros, soldados, policiais e agentes da DEA e ocupem essa rapaziada impedindo a chegada da droga nos Esteites, monitorando os paraísos fiscais onde desembarca a bufunfa da cocaína, da heroína e do cacete a quatro.
Aqui não. Como já cantava o João Nogueira no tempo da ditadura militar e – vejam só – com o apoio do governo da época. Que era de direita.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

VAI DAR SHAKESPEARE NA CABEÇA EM 2010?


Fui apresentado ao bonitão aí em cima, William Shakespeare, pelos contos de Charles Lamb, que adaptou a obra do bardo para crianças e adolescentes. O livro de Lamb era um dos volumes de uma coletânea que tinha também a “Guerra dos Mundos”, de H.G. Wells, e “A máquina infernal do engenheiro Garin”, de Tolstoi. Li quando era garoto numa biblioteca pública.
Ou seja, não sou nenhum especialista em Shakespeare. Claro que, adulto, li quase todas as peças. Mas confesso: no palco e na tela, Shakespeare só me deu sono. Se eu fosse inglês e assistisse as peças de meus conterrâneos lá em Londres, quem sabe teria apreciado melhor o bardo nos palcos. No cinema, nem os ingleses me convenceram. Dormi com o Hamlet de Lawrence Olivier.
Vou ser ainda mais honesto: com exceção das peças que li e dos contos adaptados para o público infanto-juvenil, só gostei de Shakespeare mesmo na chanchada “Carnaval no fogo”, com Oscarito no papel de Romeu e Grande Otelo fazendo a Julieta.
Foi aí, então, que vi na Folha um artigo escrito pela ex-ministra Marina Silva.
Aí deu para sacar que existe algo mais no ar entre a terra e o céu do que supõe o motorista da van Filosofia que percorre o campus da USP.

“Complexo de Lear
Por Marina Silva
“Durante curso de especialização na Universidade de Brasília, estudei a obra "Rei Lear", de Shakespeare. Talvez a tragédia possa nos ajudar a entender um pouco a política brasileira. Ao sentir-se velho, Lear decide abdicar da sua condição de rei, do enfadonho encargo de governar.
Chama as filhas – Goneril, Regan e Cordelia – para dividir seus bens e poder, anunciando que seria mais agraciada aquela que lhe fizesse a maior declaração de amor. E impõe outra condição: enquanto vivesse, o rei deveria ter assegurado respeito, prestígio, cuidado e, quem sabe, até mesmo o amor de suas filhas e súditos. Quer deixar de ser rei sem perder a majestade.
Cordélia, a mais jovem, com quem o rei mais se identificava, e que muito o amava, não soube dizer o que sentia. As outras não sentiam amor pelo pai, mas eram hábeis na verve.
O que torna sua jornada trágica e dolorosa é que Lear se recusa a retornar ao que um dia foi, um simples homem, rei de si mesmo. Não quer morrer, tornar-se passado. Quer ser sucessivo como é a vida, reviver a fase do prazer de poder.
Quer ter séquito e até mesmo um bobo para ninar seu desamparo.
Mas ninguém pode impunemente regredir sem ser atormentado pelo fantasma da repetição. No seu obsessivo desejo de ser amado, Lear agarra-se às palavras de Goneril e Regana. E rejeita amargamente a rebeldia de Cordélia, que só sabia sentir e não se sujeita a ter que fazer uma declaração de amor ao pai, obrigando-o a perceber esse amor no único lugar onde deveria estar: no resultado afetivo de suas relações pessoais.
Não por acaso desmorona o mundo de Lear. O que antes era tão bem definido, passa a ser ambivalente. Certeza e dúvida, coragem e medo, segurança e desamparo. A loucura de não mais saber quem é.
O alto preço por ter almejado e transformado em "ato" o desejo de retornar ao lugar onde um dia esteve e querer assumir a forma do que um dia foi. Ele só existe no mundo daqueles que o aceitam e o amam tal como é. E mesmo estes, incluindo Cordélia, não têm mais como aceitar seu governo senil. Até porque foi ele próprio quem decidiu abdicar de ser quem era para tornar-se quem não mais podia ser.
Tornou-se merecedor da reprimenda feita por meio das palavras do bobo: "Tu não deverias ter ficado velho antes de ter ficado sábio".
Genial Shakespeare, trágico rei, frágil humanidade de sempre, que não quer passar. Que infringe a ordem dos acontecimentos, sem o árduo trabalho de elaborá-los. Que desiste de ressignificar-se, e quer tão somente repetir o prazer da sensação vivida nas ilusões de majestade”.


Deu para sacar quem é Lear e quem é Cordélia? Claro que sim. Não é preciso perguntar à Bárbara Heliodora, que entende de Shakespeare como ninguém. Antônio Lavareda, João Santana ou Duda Mendonça, qualquer um desses galos da rinha do marketing político sabe a resposta na ponta da língua.
Teve gente que leu o texto acima e pensou no Sarney, mas o Rei Lear não nasceu no Maranhão. Saiu de Garanhuns, viveu no ABC e hoje mora em Brasília. Chama-se, nesta minha re-re-releitura, Luiz Inácio Lear da Silva, e tem também três filhas.
As filhas do Rei Lear de Shakespeare eram – como já foi dito – Goneril, Regan e Cordelia.
As filhas do Rei Lear da Granja do Torto se chamam Marina, Heloísa Helena e Dilma.
Lear da Silva, em algum momento, pode ter pensado numa das três para sucedê-lo no Palácio do Planalto. Só tem um porém: duas delas disputam ou disputavam o papel de Cordelia no próximo documentário do Sílvio Tendler.
Acho que Lear da Silva, desde o início de seu governo, imaginou que estava na hora de botar uma mulher para tomar conta “do loja”.
Primeiro, pensou em Heloísa Helena, mas a professora não tinha nada de Cordelia. Alagoana arretada que não leva desaforo pra casa, HH não engoliu a “Carta aos Brasileiros” – o documento que serviu de passaporte para a entronização de Lear da Silva. Nada fez pela campanha presidencial do pai em seu estado natal, onde o pai dela perdeu nos dois turnos.
Já instalado no castelo construído pelo Niemeyer, o pai afrontou-a escolhendo Henrique Meirelles para o Banco Central. Foi a gota d´água. Gota? Que nada: lágrimas de esguicho, como diria Nelson Rodrigues. Heloísa, a que queria ser Cordelia, chorou com essa nomeação e saiu do PT para fundar o PSOL.
Vai daí que o nome mais cotado passou a ser o de Marina. Muito diferente da irmã Heloísa, a doce ambientalista, esta sim, poderia interpretar Cordelia. Com seu jeito suave, Marina saiu-se bem, principalmente quando a peça fazia turnê internacional. Foi uma boa ministra, e no exterior só aumentou seu prestígio.
Mas o país que Lear da Silva queria entregar a uma provável sucessora era outro.
De Cordélia, Dilma não tinha nada. Dilma é um piano de cauda. É gerentona, dá esporro em todo mundo, quer ver a coisa funcionar, se possível pra ontem. O negócio dela é botar pra f... como dizem as torcidas no Maraca.
Êpa! É com esta que eu vou! – pensou em voz alta o rei.
A corrida ao trono apenas começou e nas terras baixas e altas outros nomes surgiram – dois deles abençoados pelo Príncipe que nos governou antes de Lear. São dois nobres ungidos pela Sagrada Congregação dos Tucanos. O mais jovem, Aecius, neto de um rei que morreu antes receber a Excalibur que foi enterrada no Planalto Central. Um sujeito simpático e esperto demais da conta, como se diz em Beozonte e São João del Rey. O outro, mais velho, tem o mesmo perfil da filha enfim abençoada de Lear. É difícil, autoritário e não deixa ninguém fumar no Castelo dos Bandeirantes.
Só tem um detalhe: não vai ser o candidato de sua nobre linhagem ao trono. É sério demais. Os manufatureiros e os agiotas do reino não confiam no Serra, a quem chamam, pelas costas, de “o filho do verdureiro”.
Ué, por que aceitaram então alguém ainda mais plebeu, no caso o Lear da Silva?
Aceitaram porque Lear Peace and Love descobriu a tempo que, com o programa do PT debaixo do braço, jamais seria ungido. Daí a tal “Carta aos Brasileiros” que levou Heloísa, a que não era Cordelia, a trabalhar contra o próprio pai nos dois turnos de Alagoas. Nem Luciana Genro seria capaz disso! E o reino, que dera um enorme salto no tempo do Príncipe, continuou indo muito bem sob o comando de Lear da Silva, com Meirelles no Bacem inclusive.
Os nobres da Sagrada Congregação dos Tucanos têm outro problema: não podem ver um muro que querem logo escalar e, depois, não descem nem a pau.
Por sorte, seus aliados mais íntimos são os demos - um povo rude, rico e bom de briga, só que sem votos.
Diante do imobilismo tucano, os demos tomaram as rédeas da carruagem para 2010.
Enquanto Serra e Aecius bicavam a hera do muro, os demos imaginaram uma boa saída. Acertaram esta saída com o povo verde da floresta – entre eles, Sir Kis, um espadachim que exercera funções relevantes no castelo do alcaide Cesar, também conhecido como o Mestre dos Factoides e Cesar, o Louco, uma das poucas cabeças pensantes do partido dos demos.
Como os verdes são pobres de marré de si, os ricos e brutos demos danaram a fazer pesquisa de opinião no reino. Sempre estavam à frente os dois pianos de cauda alemães, das marcas Serra e Rousseff.
Caraca!!! Como sair dessa encrenca?
“Tá dando errado porque só estamos ouvindo os pobres do reino!”, caiu a ficha do Mestre dos Factoides. “Vamos chamar a MCI!”.
A MCI é uma consultoria de marketing político e seu estrategista, Lavareda, pensou imediatamente em lançar uma das duas Cordelias rejeitadas para o papel. Até a crítica teatral Barbara Heliodora deve ter sido consultada.
E dessa vez deu certo: a pesquisa no Acre, no Leblon e nos Jardins deu Marina com 12% das intenções de voto.
Com exceção de Sir Kis, sempre disposto a uma nova aventura que o leve a algum cargo subalterno de um governo demo, os verdes não sabem dessa parte da trama. Ganharam de graça uma pesquisa que pode ser a salvação da lavoura e da floresta em geral.
Só então procuraram Marina, que não disse sim e nem disse não. Disse: pode ser que sim, pode ser que não. Pronto! Caiu nas boas graças do povo do muro, que adora um talvez.
Os demos deram um presente aos tucanos. Imaginaram uma disputa entre três mulheres e um tucano.
As três vão puxar os cabelos umas das outras.
Ficarão histéricas.
Vão dar unhadas.
Ôpa! Vamos tomar o castelo!
Serão três "delas" contra um dos nossos!
A segunda parte da trama começa em breve, quando Aecius virar o jogo e Serra se conformar em esticar sua temporada no Castelo dos Bandeirantes.
Quem quiser que conte outra.

domingo, 2 de agosto de 2009

O RIO DE JANEIRO NOS CONTOS DE AGUINALDO RAMOS

“Rio de amores” é o título do livro de contos que o coleguinha Aguinaldo Ramos, o Guina, lançará no dia 15 de agosto, sábado, das 16h às 20h, na Sorveteína – um simpático café que fica ali na São Clemente, 107 – loja B, a alguns passos do Metrô de Botafogo. Vai ter sarau e birita. Ou seja, que café que nada!
O livro é dividido em três partes: “Rio de amores” (12 contos, um para cada mês do ano), “Rodada carioca” (novela em dez rápidos capítulos) e “Outros mistérios” (que o autor define como “contos avulsos e um tanto ou quanto vadios”).
Como não ganhou a megassena, Guina – que foi repórter fotográfico do JB de sangue azul, nos anos 70 e 80 – montou um esquema para bancar a edição, pelo sistema de vendas antecipadas. Saiba tudo, ou um pouco mais, entrando no blog
http://riodeamores.blogspot.com. Vai logo lá que o livro entra na gráfica nesta terça-feira, 4 de agosto. Depois, é só esperar pelo correio ou receber o livro na tarde-noite de autógrafos.
Peraí, esta nota podia ter saído antes, né não? Ficou muito em cima. Pois é, desculpe Guina, mas andei distante do blog por causa do batente.
O último a chegar na Sorveteína é mulher do padre!

segunda-feira, 27 de julho de 2009

BEATA LEVA UNS TABEFES PRA MODE SOSSEGÁ O FACHO



Esse padre da roça é dos bão! Estava numa boa, compenetrado, batizando o guri, e não aturou a chatice de uma beata que danou de falar alto na igreja, trapaiando tudo, sô. Ô muié chata! Inda chamou o padre de paiaço. Paiaço é tu! Seu vigário num pensou duas vêis. Tacou-lhe uns bofetes pra mode a fiel calar o bico e pará de trapaiá a sirimônia. O texto, de autoria do sacristão, está de conforme com o acordo hortográfico, quando diz que o "auto clero" se rebelou.

FURO MUNDIAL: PASTOR ENTREVISTA O CAPETA


Gay Talese não está com nada. Quero ver como é que ficam os seguidores do "novo jornalismo" (não sei por que sempre escrevem em inglês esse troço) depois da entrevista exclusiva que o Capeta concedeu a esse pastor. Não é preciso de diploma nem nada. Basta ter cara de pau e fazer um curso de teologia e marketing na seita de sua preferência. Vejam como o pastor sabe das coisas. Só faltou perguntar ao Zé Carneiro "que time é teu".

domingo, 26 de julho de 2009

ISLAMISMO ENSINA COMO BATER NAS MULHERES


Este vídeo foi indicado por meu chapa Salim Hassam Ali Aldufrayer, nome árabe adotado pelo jornalista e botafoguense Roberto Dufrayer depois de se converter ao Islã. Bob Dufra trabalhou longos anos na Rádio Jornal do Brasil AM, onde foi repórter, redator e editor até 2001, quando a emissora foi vendida para um grupo evangélico. Teve que sair porque, já naquela ocasião, professava o islamismo, sendo atuante membro de sua ala moderada. Quem fez a cabeça desse querido colega com quem trabalhei na assessoria de imprensa do MP do Rio foi Abdullah Aal Mahmud, um santo homem de Bahrein que, neste vídeo, nos trasmite as regras divinas sobre o espancamento de mulheres. Veja lá como você anda surrando sua esposa, malandro! Quem passar de determinados limites merece o castigo divino. Para não incorrer na ira de Alá, anote cuidadosamente os ensinamentos de Abdullah Aal Mahmud.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

BOTA O REI CONGO NO CONGADO


Wallace Grecco, que (não) cansou de dar uma mãozinha (na verdade, mãozona) às artes brasileiras, no tempo em que comandou a Comunicação da Embratel, é outro maluco que fuça a internet em busca de jóias. Olha só o que o cara encontrou: uma interpretação fantástica da Aquarela do Brasil, de Ary Barroso, em Liubliana, na Eslovênia. No palco, em apresentação gravada pelo programa "Vokal Xtravaganzza 2008", foram reunidos os integrantes do coro esloveno Perpetuum Jazzile e seu maestro Tomaz Kozlevcar e os músicos brasileiros que formam o grupo BR6 – Crismarie Harkenberg (mezzo soprano), Deco Fiori (tenor), André Protásio (barítono), Eduardo Braga (barítono), Simô (baixo) e Marcelo Manes (percussão vocal). Inicialmente misturados com os eslovenos, depois eles ficam à frente do coral. O grande Ary, se ainda estivesse por aqui, teria aguçado os ouvidos em busca de algum errinho, mas os eslovenos capricharam até no sotaque e não perderam o caminho de casa nem mesmo no trecho que fala da "merencória luz da lua". Pode demorar um pouco para entrar o vídeo do Youtube, que é longo. Mas vale a pena esperar. Porém, se ficar meio cansativo, copie o link http://www.youtube.com/watch?v=jmttwEHdfB0 e cole no browser. Outra coisa: quando terminar, clique nas imagens e ouça Mas que nada, Só danço samba e outras músicas do repertório do Perpetuum Jazzile.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

A ORQUESTRA DA CHUVA


Tem doido pra tudo. Eu, por exemplo, adoro um temporal, trovões, relâmpagos, é comigo mesmo. Evidente que gosto de observar de um lugar seco, fico horas na janela só sacando a algaravia da natura. Não coloco nenhuma foto que fiz sobre esse assunto porque até hoje não saiu uma que prestasse. Minha câmera digital não ajuda muito. Isso tudo foi pra dizer que acabo de receber esse vídeo do Sérgio Fleury, grande repórter, colega dos bons tempos do JB e agora, também, pescador de pérolas na internet. Volta e meia, eu e outros felizardos recebemos os e-mails do Fleury com textos, imagens e vídeos pra lá de interessantes. Procurei, de todas as maneiras, encontrar mais informações sobre essa orquestra e ainda não achei nenhuma pista. Quem souber, mande um comentário para esta postagem.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

VAGA EM GOIÂNIA PRA ACESSOR QUE SABE FAZÊ RELIZING

Recebi de uma amiga (e ex-colega da UFF) esta pérola enviada para sua caixa postal por uma dessas agências de emprego da internet.
O indigente que oferece emprego realmente precisa de um assessor, mas não precisa de nenhum desses "intelequituais de diproma".
Basta ter completado o ensino médio! Se passar disso, com certeza, vai deixar o chefe em apuros, pois o chefe, com certeza, é um asno.
Uma das tarefas do escravinho ou escravinha é preparar um breve "relizing" - para quem não sabe, é palavra da língua inglesa e não tem nada a ver com release. Esse tipo de "acessor" só precisa mesmo é ficar atento para não errar a razão social do cliente. Vai que o cara ou a madame tenham trocado de nome, a conselho de algum numerologista. Vamos que o cliente seja essa artista baiana, a Cláudia Leitte. Já imaginou se no "relizing" ela vira Leite de novo?
Outro detalhe interessante é que o futuro funcionário precisa entrar em contato com assessores de imprensa de jornais e revistas, ah sim!
E a foto no anúncio diz tudo: se for mulher, loura e com cara de gostosa, o emprego tá garantido!
Tirei o nome de minha chapa e substituí por outro que inventei na hora. Qualquer semelhança é semelhança mesmo. Tem muitos homônimos.

Olá, GILMAR MENDES!
Detectamos que existem vagas que se encaixam com seu perfil profissional.
1 Vaga - Assessor(a) de Imprensa (Anúncio Nº 435015)
Escolaridade: Ensino Médio Completo.
Atividades a serem desenvolvidas:
  • Contato com empresas e políticos para agendamento de entrevistas;
  • mapeamento, administração / controle da agenda de entrevistas;
  • preparar breve relizing com histórico do entrevistado e sugestões para perguntas;
  • celebrar convênios e acompanhamento com municípios para divulgação de programa de televisão;
  • preparação e envio de pop up de divulgação do programa de televisão, administração, contatos, relacionamento com todos os assessores de imprensa de: jornais, revistas e políticos.

Localidade : Indiferente - Goiânia - GO - Brasil
Escolaridade: Ensino Médio (2º Grau) Completo

sábado, 11 de julho de 2009

AOS INIMIGOS DA UNIVERSIDADE PÚBLICA E DOS SONHOS


Minha formatura foi uma decepção. Nossos paraninfos, por algum motivo, desconfio que político, não puderam comparecer - o repórter Luiz Cláudio Cunha e o repórter fotográfico João Batista Scalco, a dupla de jornalistas gaúchos que ganhou o Prêmio Esso pela cobertura do sequestro dos uruguaios Lilian Celiberti e Universindo Díaz, quando havia ditadura nos dois países. Decidimos, então, protestar, e foi um protesto meio anarquista, com alguns formandos de bermuda, enfim, uma comédia.
Felizmente, as coisas mudaram muito, e para melhor. Há poucos dias, formou-se uma nova turma no Instituto de Artes e Comunicação Social (IACS), da Universidade Federal Fluminense. Eu nem sabia disso. Fiquei sabendo agora porque o professor João Batista de Abreu, que foi meu colega na UFF, em três redações (JB, O Globo e Diário de Notícias), em dois cursos de seleção (JB e Bloch) e nas arquibancadas do Engenhão e do Maracanã, me enviou o discurso e a foto da oradora da turma, Raquel Júnia de Magalhães, que veio de Patos de Minas.
Eu não sou chegado a discursos. Deste eu gostei e vocês vão matar rapidinho a charada.

É este o momento de ver reconhecido o nosso esforço, nossa dedicação, nossa trajetória que seguramente era um sonho para muitos de nós. Alguns saímos de outras cidades para estarmos aqui, e chegando em Niterói, apesar das dificuldades de moradia e outras tantas, tivemos o acolhimento dos colegas nativos, vamos dizer assim.
É difícil essa tarefa de falar por uma turma tão heterogênea. Muitos de nós não nos conhecemos muito bem pelas especificidades de nossas habilitações, pelas diferenças no ritmo com que cada um de nós cumpriu as disciplinas que nos trouxeram hoje até aqui. Mas tentarei traduzir nesse pouco tempo alguns sentimentos que devem ser comuns a todos nós.
Primeiro quero falar da nossa Universidade. E como bem fez um amigo que também se formou aqui há dois anos, agradecer ao povo brasileiro por ter nos proporcionado essa formação. Me recordo muito de um dia, véspera de feriado, eu já estava com a mala pronta para passar o recesso na minha cidade. Precisava ir ao estágio de manhã, voltar para casa e pegar as coisas para ir viajar.
De repente lembro que não tinha quase nada em casa para preparar o almoço e o tempo era pouco. Mas aí o campus do Gragoatá estava no meu caminho e também o bandejão. Fui até lá, estava vazio nesse dia, sem filas. Almocei emocionada pensando o quanto a universidade pública estava me oferecendo naquele momento. Não só uma sala de aula, ainda que precária, os professores, o conhecimento. Naquele momento, ela estava sendo mais do que isso. Era como se fosse a minha mãe, não deixando que eu viajasse sem ter almoçado. Pensei o quanto seria maravilhoso se todos os jovens com 20, 25 anos, como eu, tivessem tido essa oportunidade. Somos privilegiados, meus colegas. Sei que muitos de vocês sabem disso.
Talvez a melhor forma de retribuir esse privilégio seja trabalhando para que nunca se considere natural que apenas 13% dos jovens brasileiros estejam na universidade. Nas públicas, são menos de 4%. Deixo aqui o agradecimento dessa turma a essa universidade, a esse povo que pagou com seus impostos este sonho, e a esperança de que os estudantes que por aqui passarem tenham essa consciência de torná-la cada vez mais pública e mãe dos jovens brasileiros.
Somos comunicadores – cineastas, publicitários, jornalistas. E hoje devemos nos perguntar, pensar em cada ensinamento que tivemos aqui, cada vivência, cada conversa no IACS ou num bar da Cantareira, cada reunião do Diretório Acadêmico, o que é sermos comunicadores? Creio que essa pergunta pode ter um sentido para cada um, mas quero lembrar aqui as palavras de Paulo Freire, educador brasileiro, que acredita que a comunicação é acima de tudo um diálogo. “O diálogo é uma relação horizontal de A com B. Nasce de uma matriz crítica e gera criticidade. Quando dois pólos do diálogo se conectam assim, com amor, com esperança, com fé um no outro, se fazem críticos na busca de algo comum. Só aí existe comunicação, só o diálogo comunica”.
Peço que façamos deste diálogo proposto por Paulo Freire nosso método de atuação pelo resto de nossas vidas. Estamos num momento confuso, de crise financeira, mas também de valores, de informação. Somos a todo momento pressionados pelos imperativos desse sistema, o imperativo financeiro, o do sucesso, o do reconhecimento. Estamos perdendo conquistas de outros que lutaram antes de nós. Mas precisamos lembrar que ainda assim nossa capacidade de criação, de inquietude, de rebeldia pode estar acesa. Somos seres históricos e que constrói a história, obviamente dependendo das condições de cada processo histórico.
Comunicadores, temos em nossas mãos possibilidades incríveis, e uma das mais fantásticas talvez seja a de amplificar vozes. À nossa volta temos milhares de histórias para contar, milhares de situações que não são naturais e não são impossíveis de mudar. Que o cotidiano, a vida à nossa volta, o sofrimento e a alegria do nosso povo sejam as principais matérias-primas da construção do nosso fazer comunicacional. Muito mais do que isso, que as fantasias, os sonhos grandiosos, a revolta nos impregne sempre em nosso trabalho.
Nossas tarefas não são poucas, mas são muito justas. Desejo meus colegas, professores, amigos e familiares aqui presentes que não percamos nunca nossa capacidade de sonhar. A passagem por essa Universidade representou muito em nossas vidas, nos foi fazendo a cada dia diferentes. Lembram a história do rio, que uma mesma pessoa não banha duas vezes no mesmo rio – a pessoa mudou e água do rio também.
Pois, é estamos aqui, transformados em seres que a UFF ajudou a construir. Como dizem em outros países da nossa América Latina, ojalá! Ojalá um dia nos reencontremos, e quem sabe num mundo um pouco melhor, com lembranças maravilhosas para contar desse tempo em que passamos na UFF e com o coração cheio de esperanças na nossa transformação, na transformação da nossa comunicação, do nosso mundo.
Estamos aqui para sonhar, para construir, e foi por isso que a sociedade brasileira nos garantiu essa possibilidade de entrarmos numa universidade. Que nunca percamos essa gratidão e esse compromisso. Quando amigas muito queridas me indicaram para ser oradora, eu disse que o faria com os meus sentimentos mais profundos. Não sei se atingi os objetivos de todos os colegas que estão formando aqui, se não, peço desculpas. O melhor dos meus sentimentos que posso transmitir para vocês hoje é a esperança e a capacidade de acreditar que podemos construir outros valores.
Muito obrigada e parabéns, caros colegas comunicadores!”.

Raquel Júnia de Magalhães

HOJE TEM ROBERTO CARLOS NO MARACANÃ



  • A Fifa – quem diria? - tomou boa decisão. E a CBF já foi avisada: o marketing religioso está proibido nos jogos de futebol. Eu confesso que nem estou torcendo mais por esses caras que, terminado o jogo, surgem com camisas - em inglês, ainda por cima - exaltando Jísus Cráist. São evangélicos, mas podiam ser católicos, macumbeiros, budistas, muçulmanos ou adoradores de belzebu. Não sou religioso, mas esse Jísus Cráist que esses escravos do bispo Macedo, da bispa Sônia e demais picaretas idolatram não tem nada a ver com Jesus Cristo. Cráist é um genérico. Está para Cristo como meu chapa Felipinho Quintans está para o Almir Pernambuquinho.
  • Falando em futebol, uma tarde dessas fui ao meu Sindicato participar de uma bela homenagem: a inauguração do Auditório João Saldanha. O evento foi anunciado por uma corrente de jornalistas que torcem pelo Botafogo e estão querendo ajudar o clube a se reerguer, pois do jeito que está, sempre com a faca no pescoço, com jogadores que só esperam uma janela para tentar uma vaguinha em clube europeu ou árabe, em breve o Botafogo periga virar um novo América. Com exceção do Jorge Henrique, que está batendo um bolão no Corinthians, todos os atletas que saem do Botafogo para ganhar mais em outro clube ficam invisíveis.
  • O show do Roberto Carlos começa logo mais, com o Maracanã de portões abertos. Faço minhas as palavras de outro chapa e igualmente Felipe, o jornalista e boêmio Felipe Maciel, que pediu a Deus – papo direto, sem esses intermediários picaretas – para morrer antes do parceiro mais esperto do grande Erasmo Carlos e da cega Isolda. A gente não sobreviveria à reprise, durante o funeral que ia durar pelo menos uma semana, de todos os especiais de fim de ano do Rei.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

BOA CAPA PARA O JORNAL DE AMANHÃ


Acabo de ver essa foto no portal G1.
Se eu tivesse um jornal, botava na primeira página amanhã.

SOBRE CURRÍCULOS E FICHAS FALSAS

Já disse aqui que meu voto para presidente em 2010 será dado a um piano de cauda alemão – homem ou mulher, tem que ser meio pesado, pois ando de saco cheio de (apud Tomzé) político de sorriso engarrafado que já vem pronto e tabelado, é somente requentar...
Quero gerente de cara feia (como esses dois aí em cima), que não faça o gênero vaselina, e capaz de dar prosseguimento ao que foi feito nos últimos 15 anos, pelos governos Itamar, Fernando Henrique e Lula.
Nem escravo do mercado rei da cocada, nem devoto do estado aparelhado.
Alguém como José Serra ou Dilma Rousseff.
Podem me acusar de estar em cima do muro porque é absolutamente verdadeiro. E tem mais: só vou descer quando me definir – tenho muito tempo para isso.
Um candidato digno, honesto e batalhador resiste à guerra suja? Nem sempre. Por isso, a guerra suja de uma campanha que mal começou é que precisa ser desmontada no dia-a-dia por quem? Por quem, Raimundo Nonato?
Pelos formadores d´opinião, que somos todos os que escrevem, leem, divergem, criticam, polemizam.
Sendo assim, vamos aos fatos:
Serra, felizmente, ainda não foi gravemente atacado. A imprensa não lhe tem sido hostil, mas o meu candidato a candidato do PSDB em 2010 pode ser sovado em praça pública, sim, por conta da firmeza com que defende algumas boas e até más idéias.
Como ex-fumante que voltou a fumar, concordo integralmente com a crítica que hoje é feita a Serra pelo geógrafo Demétrio Magnoli, no Globo. Como deixei o jornal em algum canto e esqueci, o fundamental dessa crítica é que o Serra precisa largar dessa mania de querer administrar até a alma dos outros. Serra não é evangélico nem nada, tem mais é que parar com esses exageros contra os fumantes de Sampa.
Quem está sendo vítima de guerrinha suja hoje é minha candidata a candidato do PT em 2010, a Dilma Rousseff.
Leitor mensal da revista Piauí, li a matéria "Mares nunca dantes navegados" que fizeram da Dilma, 98% favorável à perfilada.

A merda é que os 2% restantes levantaram o caso do currículo, que nos últimos cinco dias fizeram a festa nos jornais.
No entanto, as dúvidas foram totalmente dissipadas pela própria Unicamp.
Sabem onde li? No site da revista Piauí, agorinha mesmo.
Com certeza, os acusadores vão reproduzir, pelo menos trechos.
Pois é, como diria Camões no mesmo poema do qual foi extraído o título: "Passaram inda além da Taprobana".
Serra, dá uma olhada no teu currículo para que não surjam novas intrigas.
A nota da Unicamp está logo abaixo.

A NOTA DA UNICAMP, TIRADA DO SITE DA REVISTA PIAUÍ

A propósito da reportagem “Mares nunca dantes navegados” (Revista Piaui Nº 34, de julho de 2009), com ressonância na edição de 8/7/2009 da Folha de São Paulo (“Dilma admite que currículo acadêmico continha erro”), A Unicamp tem a esclarecer o seguinte:
1. A Sra. DILMA VANA ROUSSEFF foi efetivamente aluna regular do programa de pós-graduação em Ciências Econômicas, no nível mestrado (registro acadêmico nº 78.5090), no Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), de março de 1978 a julho de 1985. A pós-graduanda cumpriu os créditos obrigatórios nas disciplinas exigidas pelo programa de pós-graduação, faltando a elaboração e a defesa de sua dissertação de mestrado.
2. A Unicamp retifica assim a informação prestada anteriormente à revista Piauí por sua Diretoria Acadêmica. O erro decorreu do fato de que, ao efetuar a busca do nome da pós-graduanda no sistema de registros acadêmicos da Unicamp, deixou-se de levar em conta o sobrenome final (Linhares) que a sra. Dilma Vana Rousseff usava na época, e que já não consta de seu registro acadêmico do curso de doutorado.
3. De março de 1998 a dezembro de 1999, a sra. Dilma Vana Rousseff matriculou-se como aluna regular no programa de doutorado em Ciências Econômicas (registro acadêmico nº 98.2714), na mesma unidade da Unicamp. A pós-graduanda cumpriu os créditos obrigatórios nas disciplinas exigidas pelo programa, faltando a elaboração de sua tese de doutorado e a respectiva defesa.
4. Na Unicamp existem cursos de pós-graduação em que o mestrado não é pré-requisito para a realização do doutorado.

Assessoria de Imprensa da Unicamp

Cidade Universitária Zeferino Vaz
Campinas, 8 de julho de 2009.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

A VERDADEIRA HISTÓRIA DO GOLPE DE HONDURAS


O golpe militar em Honduras confundiu a direita e a esquerda mundiais. Uma nova ideologia surgiu e poucos se deram conta disso.
Só este blogue, nosso parceiro Histórias do Brasil, do professor Simas, e o ex-ministro Roberto Mangabeira Unger – que fala hondurenho com sotaque de Harvard e harvardiano com acento tegucigalpeño – percebemos: por trás do golpe de Honduras estão o efeito borboleta, o gato de Schrödinger e o PMDB!
Vamos aos fatos.
A borboleta e o gato – O ir-e-vir do hoje para o amanhã, ou para o ontem, já foi explicado pela teoria do caos, pelo efeito borboleta, pela máquina do tempo do H.G. Wells e por um montão de seriados no tempo em que a TV era em preto e branco.
O gato é menos conhecido – vem das pesquisas feitas por um físico austríaco sobre superposições quânticas e parte do pressuposto de que um átomo pode estar localizado em dois lugares diferentes ao mesmo tempo.
Schrödinger imaginou um gato dentro de uma caixa, que na verdade eram duas caixas, e dentro dessa caixa, ou melhor dessas duas caixas, havia um vidro de cianureto que podia ser quebrado com uma martelada.
O felino teria o dom da ubiquidade e, com a superposição quântica, tanto podia ficar numa boa, dentro da caixa, como morrer asfixiado pelo cianureto. A borboleta também faz parte da conspiração. Hoje, como diz o camelô, qualquer criança sabe que o bater de asas de borboleta em Niterói pode provocar um tsunami na Ásia ou, pelo menos, um engarrafamento na Ponte.
Resumindo: o futuro já chegou.
Teoria da Relatividade e Teoria da Governabilidade – A tese aqui levantada de que o PT e o PSDB vão empatar na eleição de 2010, formar uma coligação e forçar o PMDB a cair na clandestinidade já virou realidade em Honduras, que é uma espécie de caixa onde o vidro de cianureto foi destroçado pelo martelo!
E é aí que entra o movimento guerrilheiro do PMDB, formado por 171 facções que dominam o país praticamente desde o fim do regime militar. Esse partido criou algo ainda mais fantástico do que a borboleta pé-frio, o gato quântico e a Teoria da Relatividade.
Criou a maquiavélica Teoria da Governabilidade, segundo a qual, seja qual for o partido que estiver no poder (não importa se o PT, o PSDB, o DEM ou o PSOL dos companheiros Heloísa Helena e Tiago Prata), não consegue aprovar porra nenhuma no Congresso Nacional, a menos que o PMDB dê uma mãozinha.
Tornaram-se, portanto, reféns dessa legenda assombrosa que descobriu o óbvio: o bom não é ser o Rei, é ser o melhor amigo do Rei e mandar nele. Nisto reside a ideologia peemedebista, que é uma etapa superior a todos os ismos que a gente conheceu um dia, com exceção do botafoguismo e do portelismo, inatacáveis, pelo menos aqui neste blogue.
Já tem hino e diretoria na PDVSA - A sedição espalhou-se pelo país e já marcou até um encontro para ganhar visibilidade planetária: a Quinta Internacional do PMDB, que se realizará na Ilha de Caras ou, talvez, em Las Vegas, se o subcomandante Agaciel Maia fechar uma parceria com os cassinos e com os concorrentes, digo, com os gângsteres locais.
Pegando o bonde que veio queimando o trilho desde o blog do Simas, sabemos agora – leia aqui – que os rebeldes também já têm um hino, de autoria de Biafra, o Victor Jara de Niterói.
Agora, em primeira mão, este blogue traz uma informação que é uma verdadeira bomba: o golpe militar de Honduras foi desfechado contra uma tentativa de ocupação de Honduras pelos guerrilheiros do PMDB que estavam acumpliciados com Manuel Zelaya e receberam financiamentos da PDVSA, a petroleira do Hugo Chávez, que já tem dois ou três diretores indicados pelo partido!
O golpe de Honduras foi condenado no mundo inteiro, menos aqui, no blogue do Simas e no blogue de Reinaldo Azevedo, aquele jornalista de chapéu, muito culto, mas meio esquerdista para o meu gosto.
Onde entrariam Sarney e Mangabeira – A quartelada foi decidida depois que um dos chefes da guerrilha, talvez o maior deles, o Comandante Sarney (codinomes Ribamar, Marimbondo e Zé do Bigode) entrou em contato com Chávez e com o presidente Manuel Zelaya, que ficaram encantados com o ideário peemedebista e aderiram à Teoria da Governabilidade.
Tudo começou, como diziam os jornalistas pré-diploma, quando Sarney se convenceu de que seria difícil manter seu cargo no Senado. Zé do Bigode correu para o Google para pesquisar quais os países, entidades filantrópicas, academias de letras, clubes de futebol ou sociedades secretas que estavam precisando com urgência de um presidente.
Ficou em dúvida entre a Bolsa Nasdaq e o Congresso de Honduras. A Nasdaq seria muito melhor, em retorno financeiro, mas quando soube que seu ex-presidente, o Madoff, tinha sido condenado a 150 anos de cadeia, o companheiro Sarney virou a página. Desgraça por desgraça, já basta ser senador pelo Amapá e ter que pintar o bigode todo santo dia com tablete de Santo Antônio, pensou.
Ocorreu-lhe que assumir a presidência do Congresso de Honduras seria uma boa saída. Foi então que telefonou para Manuel Zelaya e, depois, para o chefe dele, Hugo Chávez – este ficou particularmente feliz porque ia tirar um aliado de seu maior rival continental, Lula, o presidente do Brasil e do Corinthians.
No entanto, a história vazou. O telefone de Sarney estava grampeado pela Polícia Federal, que tentou plantar a notícia no Ancelmo, no Noblat, no Josias, na Mônica Bérgamo, sem sucesso. No entanto, deu certo no ex-blog do companheiro César Maia. Como todos sabem é de esquerda enquanto ex-blogueiro, embora tivesse sido de direita enquanto prefeito, da mesma forma como voltou a ser botafoguense, agora que perdeu o poder. Antes, ele dizia que César Maia era Botafogo, mas o prefeito era Flamengo. Enfim, até esse blogue ensandecido concorda que o homem é mesmo doido.
A operação é desfechada – O presidente de Honduras, Manuel Zelaya, usava seu pijama de bolinhas azuis favorito quando foi tirado da cama pelos rebeldes do PMDB, usando fardas do exército local, e colocado num avião.
Ficou decepcionado: esperava encontrar um pelotão de fuzilamento, mas em vez disso um comissário de bordo que assistiu dez vezes a “Noviça Rebelde” ofereceu-lhe Pepsi-Cola e uma barra de cereais. O avião era da Gol.
“Não será longa a viagem”, raciocinou Zelaya. “Já sei. Vão me jogar no oceano”. Estava todo pimpão, que nem aquele atacante do Vasco. Imaginou-se um mártir e fantasiou que algum Korda ou Cartier-Bresson faria logo uma foto legal dele para estampar nas camisetas dos maconheiros e iúpis do Leblon e de Vila Madalena.
Qual o quê! Zelaya foi levado para um resort cheio de mordomias em Costa Rica. Este país é uma vergonha para nossa longa tradição golpista latino-americana! Costa Rica nem Forças Armadas tem e o seu povo fraco até hoje não reclamou disso. Dizem que o futuro ex-ministro Nelson Jobim até já enviou um folder para Tegucigalpa, oferecendo consultoria, mas não obteve resposta.
Velhos golpistas bolivianos ficaram excitados com a notícia de que o toque de recolher imposto pelo novo governo duraria 48 horas, mas caíram em profunda depressão quando souberam que ninguém morreu, nem um mísero comuna, um crioulo sequer, um judeu pobre de esquerda, ninguém mesmo.
Mas deu merda! – No dia seguinte, mesmo sob toque de recolher, o comércio abriu (o mesmo não aconteceu, por exemplo, aqui perto de casa, porque o tráfico mandou fechar tudo por causa da morte de um inocente da favela que, por engano, cremou a mãe viva), o povo andava tranquilo nas ruas, feliz da vida por ter se livrado daquele corrupto, digo, do estadista Manuel Zelaya.
Roberto Micheletti, o presidente do Congresso, que assumiu o poder (com o apoio do Supremo Tribunal Federal de Honduras), não existe. É um stuntman, contratado pelo PMDB para atuar nas cenas de perigo. Por trás dele estavam – adivinhem – o comandante José Sarney e o novo ideólogo peemedebista Roberto Mangabeira Unger, que ocuparia o Ministério de Curto, Médio e Longo Prazo (Honduras não tem verba para tantos ministros, ele acumularia as três pastas).
O quebra-cabeças foi se encaixando aos poucos. O PMDB deu o golpe em Honduras, em nome da governabilidade. Sem necessidade de tortura, pelotão de fuzilamento, nada disso. A única baixa, até agora, foi a do jornalista Reinaldo Azevedo, que pirou com a leitura da Constituição hondurenha, dez vezes maior do que a brasileira.
Foi, segundo críticos ferozes do partido, a única coisa boa que o PMDB pós-Ulysses fez em sua história. Estava prestes a colocar em prática, sob a forma de ações de governo, uma nova ideologia – a governabilidade sem derramamento de sangue.
Só não contava com a traição de Hugo Chávez, com a falta de perspicácia de Barack Obama e com essa solidariedade internacional a Zelaya, um concorrente forte na modalidade corrupção.
Se fosse vivo, Nelson Rodrigues repetiria em sua coluna que toda unanimidade é burra. E tome unanimidade: ONU, OEA, União Européia, Obama, Chávez, Fidel, Lula, FHC, Heloísa Helena, Tiago Prata e Bruno Ribeiro! Assim ninguém aguenta mais de uma semana no poder, porra!
O que temos hoje é um pequeno país vítima de um candidato a ditador (que falhou no golpe que pretendia dar) e de um Congresso e de um Supremo ineptos (dirigidos por deputados e juízes sem diplomas que – em vez de impicharem o 171 do Zelaya – foram chamar os milicos!).
Nenhum país aguenta isso: de um lado, um candidato a ditador, e do outro, um bando de candidatos ao Big Brother Honduras.
E foi assim que o PMDB perdeu a chance de assumir a presidência do Senado e o Ministério de Todos os Prazos, em Tegucigalpa.
Ainda bem que o comandante Sarney e seu novo mentor Mangabeira ficaram presos no aeroporto de São Luís do Maranhão e não conseguiram viajar por causa do mau tempo.
Tão pensando o quê? Que o PMDB é amador?

DO JORNALISMO, por JOTABÊ MEDEIROS (*)

Eu não seria jornalista se não tivesse feito o curso de jornalismo. Digo isso por vários motivos: eu era famélico, vinha da periferia, não tinha pistolão, e o curso ajudou a definir minha vocação. E só consegui aquele emprego de jornalista porque havia uma vaga para “jornalista formado ou no último ano da faculdade de jornalismo”.
Passei nos testes, passando a perna em alguns concorrentes. Concorrência, entenderam? Expressão-chave da livre iniciativa. Provavelmente, a empresa que me contratou precisava cumprir aquela cota para não ter encheção de saco do sindicato. “Pega um desses coitados aí das faculdades de jornalismo, paga o piso e tá limpo”.
Tenho a impressão que esse mecanismo, apesar de rústico, garantiu durante alguns anos alguma diversidade na composição social, política e humana das redações. Vocês hão de concordar comigo: é dureza redação na qual todo mundo pensa com a cabeça do dono – ou redação na qual todos os textos parecem escritos por uma única pessoa. E na qual todos parecem vir da mesma região da cidade, e frequentam os mesmos restaurantes, e que acham que o duty free shop do aeroporto é a mais cintilante fronteira.
Se quisessem alguém sem o curso de jornalismo, não havia, como nunca houve, impedimento. Bastava procurar entre os profissionais indicados pelo staff da casa – sobrinhos, filhos, cunhados, concubinas – ou então filhos de juízes, ex-ministros amigos, empreiteiros ou anunciantes de peso.
Esse tipo de mimo intramuros sempre foi largamente praticado na imprensa menos profissional, mas a porta de entrada para as redações era minimamente aberta também para o lúmpen proletariado. Temo que isso tenha acabado.
Alguns bons amigos consideravam a obrigatoriedade uma besteira. Até comemoraram o final dela. São três amigos, nenhum deles fez jornalismo. São ótimos jornalistas, nasceram para o negócio. Mas conheço também péssimos jornalistas que fizeram Ciências Sociais ou Direito.
Pimenta Neves era bacharel em Direito desde 1973. Os partidários do "com diploma" e do "sem diploma" vão acrescentar exemplos de ambos os lados ad nauseum, mas não é esse o ponto. A questão aqui não é de como abastecer o mercado, é mais ampla.
Dizem que não sai jornalista pronto da faculdade de jornalismo. Nunca ouvi falar que o lendário dr. Zerbini saiu médico pronto e notável da faculdade de medicina. O enfrentamento diário com os temas e as dificuldades da profissão é que é fundamental para fazer o profissional. Além de estratégias de aperfeiçoamento contínuo, de cursos, palestras, simpósios e cursos de além graduação.
Considero que há diversas questões atravessadas na discussão sobre a obrigatoriedade do diploma de jornalista para exercer a profissão. Boa parte dos colegas prefere o clichê: os cursos são ruins, não garantem qualidade, os garotos que saem de lá “não sabem escrever”. Para que melhorar seu nível, se podemos simplesmente extinguir sua “origem”, a obrigatoriedade?
Curioso como profissionais de Direito, especialmente aqueles que fizeram o curso na mesma cátedra dos donos de jornal, facilmente acham emprego nas redações, apesar de as faculdades de direito terem um índice de reprovação próximo de 90% no exame da Ordem dos Advogados.
Como o Jânio de Freitas, eu considero uma aberração que tenham levado o tema, de dimensão social, para os domínios do Supremo Tribunal Federal. Nunca foi questão para arbítrio de seis ou sete iluminados da Suprema Corte, mas para a casa da representação popular, o Congresso. Por um motivo simples: o jornalismo tem impacto sobre a vida cotidiana de toda a sociedade, portanto deve ser objeto de atenção do legislativo.
O jornalismo que vem sendo praticado desde a instituição da exigência do diploma foi daninho para a democracia? Não creio. Foi a exigência de diploma que calcificou de alguma forma o jornalismo atual? Não creio.
Não estou aqui defendendo o meu peixe, porque nem tenho peixe. Nem sou sindicalizado, tenho certa alergia aos ritos dos movimentos sociais (aos ritos, não aos movimentos). Tampouco estou me jactando que tenha me tornado um profissional indispensável, um prodígio do jornalismo. Longe disso. Mas, se aprendi a fazer a coisa com cuidado, critério, e sempre muito entusiasmo, devo muito ao curso de jornalismo.
O que aprendi lá? Bom, o curso de jornalismo me empurrou para a discussão das circunstâncias do jornalismo – como ele nasce, como ele resiste, como ele morre às vezes. O curso – e o debate livre dentro dele – me mostrou que o jornalismo pode encobrir interesses diversos, e é importante desbaratá-los (e jamais se confundir com esses interesses). O curso desafiava a gente a buscar a liberdade, o novo, a experimentar, a forçar os cadeados das regras. Claro, um estudante de Letras também pode ser desafiado da mesma forma, mas com qual objetivo?
A questão central do jornalismo, para mim, é a independência. A escolha central que o ofício de jornalista coloca para o profissional é a seguinte: você está com os poderosos ou com os oprimidos? E, já que o poder é migratório, se movimenta e assume diversas formas, é preciso astúcia mínima: com quem está o poder agora?
Como vêem, não é só uma questão de escrever bem ou ter estilo.
Com os agradecimentos a Paulo Lima e a Romildo Guerrante pela indicação

(*) Repórter do Estadão

quinta-feira, 2 de julho de 2009

ESSE TAL DE TWITTER É UMA BABAQUICE!

Nada mais a declarar sobre esse brinquedinho bobo, feito sob medida para inflar egos de falsas celebridades, semear boatos e plantar notinhas em colunistas.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

DOIS PIANOS DE CAUDA ALEMÃES: O PAI OU A MÃE?


Já disse aqui antes que tenho dois candidatos para 2010.
José Serra é meu candidato do PSDB à Presidência da República.
Dilma Rousseff é minha candidata do PT ao mesmo cargo.
São dois pianos de cauda alemães e vou escolher um deles exatamente por este motivo. São - na verdade, eram, pois estão melhorando nesse quesito - difíceis de carregar, duas caras sérias, fazem o tipo gerentão que acho que é o que o país anda precisando.
Gosto mais da Dilma do que do Lula.
E gosto mais do Serra do que do Fernando Henrique.
Lula, antes de virar o Cara, entrou para a política porque o irmão mais velho dele, Frei Chico, o chamou para a militância sindical em São Bernardo do Campo. Ou seja, entrou para defender os interesses dele e de sua categoria profissional.
Dilma entrou para a política como guerreira, de peito aberto, para lutar e, talvez, morrer por um ideal.
Fernando Henrique, antes de se tornar o Príncipe, colocou sua sociologia como mais um lastro do pensamento de esquerda e de oposição que se contrapôs à doutrina da segurança nacional, à ideologia militar dominante. Depois disse para esquecerem o que havia escrito.
Serra, ex-presidente da UNE, mesmo não tendo corrido para pegar em armas, jamais deixou de dar palpites que sempre o colocaram à esquerda, não só de Fernando Henrique, mas também de seu ministro da Fazenda, Pedro Malan. Minha impressão é que vivia brigando com ambos, presidente e ministro.
Hoje, lendo O Globo, vi que meu candidato do PSDB brilhou, com seu artigo sobre os 15 anos do Plano Real.
Eu já gostava do Serra antes disso. Passei a gostar mais ainda. Só não sabia que ele também tinha sido Pai do Real. Ou um deles porque pai, a gente sabe (e o Michael Jackson estava aí até outro dia pra provar), nem sempre é o que faz, mas aquele que cria, que sustenta.
Pelo andar da carruagem, o Real vai acabar que nem o PT. Até um dia desses, quando o PT ainda era um partido meio de esquerda, o que tinha mais no Brasil era fundador do PT.
Hoje, pelo visto, a história se repete com o Real.
Espero que não apareça nenhuma petista no horário eleitoral gratuito para dizer que também é mãe do PAC, senão minha cabeça vai a mil.
Já basta o Real ter tantos pais. O PAC, por enquanto, nem pai tem. Só tem mãe, e mãe só existe uma, né mesmo?
Aguardo o desenrolar da pré-campanha e, depois, da campanha eleitoral propriamente dita, para escolher o piano de cauda alemão mais afinado.
No piano da caixinha de surpresas musicais, o grande Cristóvão Bastos "Mistura e Manda" o chorinho de mesmo título, de autoria de Nelson Alves.

A FEIJOADA DE MARCO CARVALHO VIROU FILME


Quando a gente ouve falar em artes marciais, lembra logo de japonês dando porrada em coreano, tailandês descendo o cacete em vietnamita, etc. O karatê e o tae-kwon-do são esportes considerados artes marciais, mas arte mesmo só a brasileiríssima capoeira. Hoje tem academia de capoeira no mundo inteiro, é sensação em Nova York, e coisa e tal, e esse sucesso todo tem origem na resistência dos negros baianos à opressão e à discriminação que sofriam antes e depois da Abolição.
O escritor, cartunista, publicitário e técnico processual do Ministério Público Marco Carvalho, um cara tranquilo como todo bom capoeira (o cara só é meio doido, veja na foto acima), teve há alguns anos a idéia brilhante de romancear a história de Manoel Henrique Pereira (1895-1924) no livro “Feijoada no Paraíso – A Saga de Besouro, o Capoeira”, lançado pela Record.
Manoel não era outro senão o famoso "Besouro Cordão de Ouro", lendário capoeirista de Santo Amaro que também foi imortalizado no samba "Lapinha", dos gênios Baden Powell e Paulo César Pinheiro (som na caixa, no gogó de Elis Regina Carvalho Costa!).
É, portanto, baseado em fatos reais o livro que mostra as aventuras e desventuras de Besouro nos anos 1920. O melhor de tudo é que a bela idéia do Marco virou filme – o longa-metragem "Besouro", do diretor de filmes de publicidade João Daniel Tikhomiroff, que estreia em outubro.
É superprodução aguardada por quem gosta de bom cinema porque vai abordar culturalmente esse esporte que é mais arte do que luta, sem aquelas besteiradas produzidas em Hong Kong.
Filme chato à vista? Engano seu. Inspirada na verve e na pesquisa séria do Marco Carvalho, a roteirista Patrícia Andrade (“Os 2 filhos de Francisco”) entregou um belo enredo a João Daniel, que passou três meses no Recôncavo Baiano rodando o filme, com a participação de capoeiristas locais no elenco, preparados por Fátima Toledo (“Tropa de elite” e “Cidade de Deus”). Para as cenas de porradaria, foi trazido da China o coreógrafo de ação Hiuen Chiu Ku, o mesmo de “Matrix”, “Kill Bill” e “O tigre e o dragão” – que são uns cocôs de filmes, mas não por causa dos efeitos especiais fantásticos do - sem ofensas - Mister Ku.
Meu chapa Marco Carvalho, que tem como outra grande qualidade a paixão pelo Glorioso Botafogo de Futebol e Regatas, já decidiu até o que fazer com o dindim dos direitos autorais dessa feijoada que virou filme e que, com certeza, correrá o mundo: vai apresentar sua tia e fã nº 1 do Léo Batista ao veterano locutor do "Globo Esporte" e pagar um fim de semana (vatapá, bombom Sonho de Valsa e champanhe incluídos) para o casal, no melhor hotel da Ilha de Itaparica.

terça-feira, 30 de junho de 2009

RAPIDINHAS DE UM MUNDO FRANCAMENTE EM EBULIÇÃO


  • Nem Zelaya nem Micheletto. O melhor nome para operar a transição em Honduras é Roberto Mangabeira Unger. O ex-ministro de Longo Prazo do Brasil já foi procurado por emissários da ONU e da OEA e topou a proposta. Antes de voltar para Harvard, já liberado pelo Lula, Mangabeira Unger irá a Tegucigalpa e prometeu resolver tudo, no máximo, em 25 anos. Será acompanhado de uma pequena comitiva de intérpretes formada pelo fonoaudiólogo Simon Wajntraub, pelo rabino Henry Sobel e pelo treinador Joel Santana. Sobel traduzirá Mangabeira para o fono, e este para Natalino, que se comunicará diretamente com o povo. O Deportivo Motagua, time de maior torcida do país, teme que o excesso de poderes acumulados por Joel Santana resulte na contratação de Obina e Toró.

  • Quem quer dinheiro? A Justiça dos Iunaites Esteites condenou a 150 anos de xilindró o ex-presidente da Nasdaq Bernard Madoff, que passou a perna em 8 mil magnatas e falsas celebridades do mundo inteiro. As maiores editoras do mundo já fizeram ofertas a Madoff por sua biografia, o que significa que, nos próximos 150 anos, o mega-especulador vai nadar em euros, dólares, yens e yuans. O biógrafo de Madoff, Fernando Moraes, disse ter recebido muitos pedidos de milionários brasileiros que se queixaram de não ter caído no golpe. Um deles, Roberto Justus, ameaçou processá-lo, caso não entre no livro de ouro do maior fraudador de todos os tempos, na mesma página do Donald Trump. Madoff cumprirá a sentença na Ilha de Caras.

  • Capricha que é garantido. O Festival de Parintins, que graças a Deus acabou, com aqueles bois ridículos e suas torcidas-axés, teve seu alvará cassado por um juiz amazonense e será encenado em breve na sala de julgamentos do Supremo Tribunal Federal. Nossa reportagem foi acionada e já apurou os votos que serão dados pelos ministros. O presidente Gilmar Mendes, escolhido para a relatoria, votará no Boi Garantido e deverá ser acompanhado por quase todos os colegas, com exceção de Joaquim Barbosa, único voto garantido até agora do Boi Caprichoso. Marco Aurélio de Mello, sempre uma caixinha de surpresas, só de sacanagem, deve votar no Bumba-meu-Boi. Rasgo meu diploma de cozinheiro formado pelo Senac se isso não acontecer.

  • O MST que se cuide! Há mais de três dias, o senador Arthur Virgílio (PSDB-AM ou PSDB-SP, um deles) ocupa a tribuna da mais côncava de nossas Casas Parlamentares para esclarecer a população sobre os motivos secretos que o levaram a empregar três filhos, a mulher e a irmã de seu chefe de gabinete, bem como o fato de ter passado alguns dias em Paris torrando a grana de um tal de Agaciel, que ele chamava, na intimidade, pelo apelido carinhoso de Nina. Será entrevistado na estréia do novo programa do Gugu e, no dia seguinte, de manhãzinha, participará de uma coletiva com Ana Maria Braga e o Louro José, ocasião em que falará das virtudes balsâmicas do açaí, do cupuaçu e do guaraná Pajé.

  • Marimbondos me mordam! Enciumado, o mega-senador José Sarney (PMDB-AP ou PMDB-MA, um desses dois) prometeu vingança. Ficará exposto à visitação pública durante sete dias seguidos no Salão Nobre da Academia Brasileira de Letras, acompanhado em tempo real pelo Datena. O senador Sarney vai escrever a segunda parte da obra-prima de seu conterrâneo Ferreira Gullar. O “Poema Mais Sujo Ainda” será publicado em capítulos semanais em sua coluna na Folha de S. Paulo. José Sarney já confidenciou a seus amigos: quando deixar a literatura e o Brasil em paz, será candidato à presidência da Nasdaq, na vaga de Madoff.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

O GOLPE DE HONDURAS É ARMAÇÃO DO WOODY ALLEN


Êpa, com circunflexo!
Que golpe foi este?
Estados Unidos, Venezuela e Cuba estão juntos, ao lado do presidente deposto.
A OEA condenou o golpe e pediu a volta imediata de Manuel Zelaya ao cargo.
O presidente deposto, em vez de assassinado, foi sequestrado e despachado pelos militares para Costa Rica, um país vizinho conhecido por suas tradições democráticas... e que nem Exército tem!
No lugar do deposto entrou um companheiro de partido que ocupa a presidência do Congresso, Roberto Micheletti.
O presidente derrubado queria mudar a Constituição do país, a três meses da eleição, para poder se reeleger.
Assumiu em nome de um partido de direita e virou chavista.
A suprema corte de Justiça está contra o presidente deposto.
O alto comando militar foi dissolvido porque o principal comandante militar negou-se a apoiar a realização do plebiscito.
O exército tomou as ruas da capital hondurenha, sob toque de recolher.
Um diplomata brasileiro diz que a cidade parece tranquila. As escolas e o comércio abriram.
E o presidente que assumiu, Roberto Micheletti, disse há pouco que aceitaria receber o presidente deposto de braços abertos, desde que o Chávez não venha junto.

Foi golpe, contragolpe ou o argumento de Woody Allen para filmar a continuação de “Bananas”?

sábado, 27 de junho de 2009

AULA DE JORNALISMO NUM BAR DO FLAMENGO

Esta postagem abre uma série de textos sobre a decisão do STF, que “acabou o diploma” de jornalista. Acabou mesmo? O jurista José Paulo Cavalcanti Filho diz que não, e eu transcrevo aqui um arrazoado escrito por ele. Também reproduzo outros bons textos – de Jânio de Freitas, Alberto Dines, Muniz Sodré, João Batista de Abreu, Nilo Sergio Gomes e Henrique Acker. No texto abaixo, conto a história comovente de um grande professor de jornalismo que tive, num boteco do Flamengo, cujos ensinamentos, felizmente, ignorei.

Uma noite dessas, liguei a TV para assistir, como sempre faço, ao programa Observatório da Imprensa. Alberto Dines tinha três entrevistados – o jurista José Paulo Cavalcanti Filho, o professor Muniz Sodré e o ex-ombudsman da Folha e do IG Mário Vitor Santos. Dos três, conhecia dois pessoalmente. Muniz Sodré foi meu professor num nos primeiros semestres do Instituto de Artes e Comunicação Social da UFF. Mário Vitor, meu colega no mesmo IACS.
Ao longo da vida profissional, tive e tenho colegas e amigos contra e a favor do diploma ou de sua obrigatoriedade para o exercício profissional. Comecei em 1973, quando eram raros os jornalistas com diploma. Muitos nem tinham quaisquer outros diplomas.
Dos três, o que mais me surpreendeu foi o gênio da raça Mário Vitor Santos, nem tanto por aplaudir a decisão do STF, mas pela cara de pau de repetir a ladainha de que o diploma foi imposição do regime militar para restringir a liberdade de informação e por falsear a verdade quando afirmou que o jornalismo que se pratica hoje nas empresas tem baixa qualidade e, pior, que isso ocorre por culpa dos jornalistas que nelas trabalham, não dos patrões e seus paus-mandados.
Lembrei de uma boa história logo depois de desligar a TV.

O FURO DO ANO - Foi no tempo do governo Figueiredo, quando estava chegando ao fim o rodízio militar na Presidência da República. A situação era relativamente amena, com a anistia decretada e muita gente boa e ruim de volta do exílio. Qualquer zé-mané falava mal do governo. Parecia que estávamos na democracia.
Era, se não me engano, um sábado. O Jornal do Brasil já havia fechado o primeiro clichê e, em vez de tomar o rumo de Niterói, eu e meu amigo e colega de editoria Osvaldo Maneschy estávamos a caminho do Lamas para encher a cara e falar mal do governo. Existe coisa melhor do que falar mal do governo, depois de 20 anos de ditadura?
Antes, paramos num boteco da esquina da Barão do Flamengo, onde hoje acho que é franquia do Devassa. Paramos porque reencontrei ali um ex-colega da UFF, um lourinho de fala mansa que enchia o saco de todo mundo no diretório acadêmico, pois era craque em manipulações.
O cara gostava de dar a última palavra sobre tudo, mas ninguém jamais o vira botando a mão na massa. Adorava mandar. Nem seus companheiros do MR-8 o aturavam muito, mas era um rapaz esperto e, por isso, acabou comandando o Diretório Acadêmico de Comunicação da UFF, o Daco.
Parei. Afinal, era um ex-colega. Apresentei-o ao Maneschy e batemos um papo rápido, coisa de 20 minutos, se tanto. O cara estava feliz da vida. Depois de alguns estágios na profissão, alguém tivera a idéia de chamá-lo para trabalhar em um novo jornal de esquerda que surgia. Ia para São Paulo fazer o que mais gostava: dar ordens.
Mário Vitor Santos tinha mais razões para se alegrar: sob seu comando, a Hora do Povo poria, dias depois, na primeira página, uma manchete pesada, que fizera seus leitores babarem com a informação de que encontrariam no jornal uma longa relação de personalidades, um monte de corruptos, que tinham contas numeradas na Suíça.
Eu e o Maneschy tivemos essa informação, portanto, em primeiríssima mão. E nos olhamos, meio espantados. Conta numerada, como o próprio nome diz, tem números, não nomes e sobrenomes. Porém, sabe-se lá! E não é que alguns nomes foram citados pelo Mário Vitor? Tinha de tudo: ministro da ditadura, deputado da oposição, empresário, banqueiro, o diabo.
Quem é a fonte disso aí?, indaguei.
– O Partido Socialista da Suíça!!!
Maneschy caiu na besteira de perguntar como iriam provar a denúncia. E eu reforcei a pergunta do Maneschy, pois, afinal, aquilo poderia acabar dando cadeia. Três ou quatro anos mais velho do que o novo big boss do jornalismo panfletário, realmente fiquei preocupado com o cara, mesmo não fazendo parte de seu grupo político ou de seu círculo de amigos. E mais ainda depois que ele disse que a coisa tinha origem num dossiê de esquerdistas helvéticos, ou seja, um bando de doidos.
– Pelo menos algum dos caras acusados vai confirmar alguma coisa? – perguntei candidamente.

O TORTURADOR ARREPENDIDO - Minha pergunta tinha sentido. Outro jornal nanico, o Em Tempo, publicara um listão com 400 ou 500 nomes de torturadores. As fontes eram suas vítimas. E mais: o número seguinte do Em Tempo foi ainda melhor porque um dos torturadores concordara em falar, confirmando que, sim, realmente havia participado daquela merda toda e estava arrependido. Detalhe: morreu assassinado depois do mea culpa, e dizem que por ex-colegas de batente.
Voltando ao buteco, foi bobagem perguntar se a história que a Hora do Povo publicaria tinha lastro. Levamos um esporro do futuro diretor do jornal. Na base da brincadeira, com aquele jeito manso que eu conhecia, fomos acusados de imbecis que ainda acreditavam na imprensa burguesa, na imparcialidade jornalística, nesse negócio babaca de ouvir o outro lado.
Foi uma bela lição de jornalismo que tive ali. Ainda bem que gosto de ouvir o outro lado. E no outro lado estavam alguns dos meus mestres de jornalismo da UFF, como o Antônio Theodoro de Barros e o Nilson Lage, que pensavam bem diferente daquele rapazinho radical.
Daí meu espanto por sua performance no Observatório da Imprensa.
Claro que já estava careca de saber que há muito tempo as posições de Mário Vitor Santos haviam mudado, como sempre, radicalmente.
Tive ânsia de vômito ao ouvi-lo dizer – tudo bem que provocado pelo Alberto Dines – que convidaria prazerosamente o ministro Gilmar Mendes para dirigir uma publicação, quem sabe da Casa do Saber.

Ô CIENTISTA! Ô TEATRÓLOGO! - Disse mais o entrevistado: graças ao Supremo, teremos agora diretores de teatro, produtores de cultura, cientistas, advogados, escritores e outros mais bem preparados intelectualmente para que as redações de jornais, telejornais e o escambau possam dar um salto de qualidade.
Duvido muito, com o salário que mesmo os grandes jornais pagam, que gente “tão preparada” aceite coberturas rotineiras. Imaginei logo o Cascon, na Reportagem do Globo, dizendo a uns e outros:
– Ô “Cientista”! Vai lá na Fiocruz que logo mais tem a coletiva da suína!
– Ô “Teatrólogo”! A escuta soube agora que uma menina de quatro anos levou uma bala perdida ali perto do Morro da Mineira! Vai lá pra ver se foi peça da PM ou do movimento!
– Ô “Data Vênia”! Inverteram a mão na Atlântica, tá a maior quizumba no calçadão. Vai lá e mete um habeas corpus no Eduardo Paes!
Estranhei muito que tantas sandices tivessem saído da boca de um professor de... Jornalismo. Pobres alunos da Faculdade Casper Líbero, onde nosso ex-radical deu ou ainda dá aulas...!
Respeito os argumentos dos jornalistas de verdade, não dos burocratas de redação, que são contrários ao diploma de Comunicação ou de Jornalismo, mas achei demais ouvir tantas sandices do entrevistado de Dines.
Posso estar enganado, mas não estou convencido de que alguém passe muito tempo nesta profissão, onde se ganha pouco e se trabalha muito, se não tiver realmente vocação. E quem tem vocação, ou acha que tem, procura um curso de jornalismo. Evidente que ampliar o saber é fundamental. Então que faça também outros cursos, além de Comunicação Social ou Jornalismo. O de Economia é um ótimo exemplo. O de Direito, sei lá...
As figuras que conheço e conheci nesta profissão se orgulham de ser ou de ter sido repórteres, redatores, editores, diagramadores, repórteres fotográficos, etc.
O jornalismo de “baixa qualidade” nem mesmo tem mais ex-repórteres, ex-redatores, ex-editores. Agora o quente é ter passado de ombudsman, de ouvidor de portal, webwriter, etc.
Até cagação de regras tem limites. Não dá para respeitar opinião, seja lá qual for, de quem apagou do próprio currículo a passagem pelo jornal Hora do Povo (esse negócio de apagar história revela que o stalinismo continua em alta), onde aquela história do listão de contas “numeradas” na Suíça deu mesmo cadeia.
Não para ele, é claro. Para outros.

VIVA O DIPLOMA!, por MUNIZ SODRÉ (*)

Em fevereiro de 2007, a Newspaper Association of America anunciou, durante sua convenção anual em Las Vegas, o lançamento de uma campanha nacional para incutir no público leitor a idéia de que o jornal do futuro será uma “multiplataforma de informação”, o que implica na prática a junção empresarial e cultural do papel com a Web. Daí, slogans do tipo “a Internet é a melhor coisa que poderia acontecer aos jornais”. Mas será essa também a melhor coisa que poderia acontecer aos jornalistas?Esta questão tem alguma pertinência para o atual debate sobre a exigência de diploma universitário.
Em princípio, é preciso debater a hipótese de que essa nova face da informação pública possa pôr em crise a própria identidade do jornalismo clássico como mediação discursiva e como funcionalidade específica de um grupo profissional. Disto um claro sintoma é a questão levantada por um arauto da chamada cibercultura: “Seria ainda necessário, para se manter atualizado, recorrer a esses especialistas da redução ao menor denominador comum que são os jornalistas clássicos?”. A resposta, de certo modo, começa a ser dada pelos grandes conglomerados do jornalismo impresso, por meio da progressiva conversão empresarial do papel à eletrônica. Nada impede que o jornalismo troque de suporte preferencial, uma vez que os conteúdos informativos, na medida da independência de sua forma técnica, podem passar de um suporte para outro, sem alterar substancialmente a sua natureza. A despeito do potencial midiático da Internet, a digitalização em si mesma não é um medium, e sim um processo técnico (informático).
Veja-se o livro: mesmo digitalizado continua a ser “livro”, isto é, a organizar seqüencialmente os conteúdos de acordo com a milenar forma códice (codex), embora ainda sejam grandes as dificuldades de leitura de textos extensos na tela do computador. Daí, as hibridizações formais, já praticadas por alguns jornais, entre a escrita tradicional e a escrita para a tela do computador, oferecendo ao público a opção de leitura jornal entre resumos e textos maiores.
Ainda o livro: também não se pode passar por cima da evidência de que, em nossa modernidade, a forma códice (escrita unidirecional, páginas organizadas em cadernos e costuradas), depois chamada livro, impôs-se aos usos e aos espíritos como locus do conhecimento centrado, da leitura que constitui pastoralmente a cidadania, da produção do sentido e do real medidos pela escala do humanismo.O mesmo se dá com o jornal. Pode trocar de suporte técnico, pode mesmo existir na complementação dos suportes (papel e eletrônica), mas continua impelido, como forma moderna e democrática da comunicação, pela ideologia humanista que garante a cidadania. Eventuais descaminhos não podem elidir a evidência de que a imprensa brasileira, por exemplo, jamais deixou, em seus 200 anos de existência de estar presente, como parte essencial, nas causas que ajudaram a dar à Nação a sua face atual – a abolição da escravatura (de cuja campanha participou a maioria dos jornais provinciais) e a criação da república. O jornalismo, no Brasil e no resto do mundo, reflete as questões públicas decisivas para os rumos da Nação.
Como conceber hoje o funcionamento dessa instituição “quase-pública”, geradora da informação necessária ao cidadão para o pleno funcionamento da democracia, sem uma formação universitária, especializada, de jornalistas? Informação não é mero produto, nem serviço: é o próprio solo da sociedade em que vivemos, é o campo onde joga o cidadão. Se a garantia dessa formação adequada se espelha hoje no diploma, viva o diploma.


(*) Presidente da Fundação Biblioteca Nacional, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro e doutor em Comunicação pela Sorbonne

APRENDIZ DE COZINHEIRO, por JOÃO BATISTA DE ABREU(*)

Nesses 55 anos de estrada, confesso que vivi. Profissional e afetivamente. Mas que me perdoe Pablo Neruda, nunca aprendi a cozinhar. Sei apenas de cozinha de jornal. Aquele trivial simples, como fazer títulos e linhas de apoio, legenda e texto-legenda, chamada, macaca e outros adereços. Aprendi a botar tempero na matéria alheia, numa época em que o copidesque do Jornal do Brasil estava repleto de gurmês de fino trato. E eu, apenas um aprendiz de cozinheiro.
Nesses 35 anos de janela, compreendi que a paisagem nos oferece várias lições e que nos cabe assimilá-las ou não. A universidade se apresenta como um balcão de ofertas. Uma oferta democrática porque permite a aprendizes conhecer, experimentar, refletir, enfim preparar receitas que, espera-se, algum dia serão destinadas à sociedade. No espaço da sala de aula pode-se sim ensinar técnicas jornalísticas. Se não acreditasse nisso, preferiria pedir demissão.
Quando um poder supremo desmerece uma profissão desqualifica também sua formação. Ignora o longo tempo de dedicação de jovens que buscam nos bancos escolares ascensão social e a perspectiva de encontrar um lugar digno na sociedade, sem depender de favores, práticas de nepotismo ou arranjos partidários.
Talvez seja essa possibilidade que incomode tanto. Silenciosamente, a universidade pode contribuir para dotar cidadãos das mais variadas origens sociais de uma reflexão crítica, sem qual ele não exerceria qualquer profissão de nível superior na sua plenitude.
Como repórter, aprendi que a maioria dos jornalistas não costuma ser convidada para banquetes e aqueles que o são correm o risco de pagar uma conta alta na carreira. Certa vez, ao entrevistar um empresário durante um coquetel para o qual eu não fora convidado, arranquei-lhe algumas respostas enquanto ele degustava tranquilamente um camarão, sem ao menos ter a educação de oferecer ao entrevistador. Interpretei aquela atitude como um recado, que marcava a distinção do lugar social entre os dois personagens.
Os filmes de Buñuel ensinam como as refeições representam um lugar de exclusão e inclusão na sociedade burguesa. A constatação nos ajuda a entender a metáfora do ministro onipotente. Novamente a demarcação entre os que sentam à mesa do banquete e os que preparam a comida. Sem diploma, e portanto sem os benefícios econômicos que dele advêm, o que se deseja é que fiquemos sempre condenados a preparar a comida alheia, especialmente a dos comensais de banquetes.
Aos jovens cozinheiros, candidatos a chefes de cozinha, fica a advertência. Não confundam o lugar do jornalista com os dos representantes da Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP), principal articuladora do lobby que derrubou a obrigatoriedade do diploma. Ho Chi Minh – cozinheiro da colonial Marinha francesa –, nos mostrou que é possível um pequeno Davi de olhos puxados sair vitorioso na luta contra Golias. A nossa luta é a do feijão com arroz contra o supreme de frango.


(*) Jornalista com diploma

O DIPLOMA NÃO ACABOU, por J. PAULO CAVALCANTI (*)

NÃO, O diploma dos jornalistas não acabou. A decisão do Supremo Tribunal Federal, na última semana, limitou-se a dizer que o decreto-lei 972/69 era incompatível com a Constituição democrática de 1988. Mais nada.
E merece elogios - por pretender, esse monstrengo da Redentora, exercer o controle do jornalismo a partir do Estado. Era nele que estava, em regra acessória (artigo 4º, V), a exigência de diploma para registro dos jornalistas no Ministério do Trabalho.
Ocorre que, tecnicamente, jamais poderia o STF declarar sem valor o decreto-lei e deixar vigendo uma de suas regras. Sem juízo de valor, no julgamento, sobre o dito diploma -que poderá voltar a ser exigido em outra lei. Apenas isso.
O mais são palavras ao vento. Inclusive as do eminente presidente Gilmar Mendes, que, mais uma vez, expressa opinião pessoal sobre tema que pode vir a ser discutido no Supremo - em vez da reserva que, como regra, a seus ministros conviria guardar em situações assim.
Isso posto, cabe então perguntar se, afinal, esse diploma é bom ou ruim para a cidadania.
Não há consenso. Divididos, os países, em três posições. Primeiro grupo, o dos que exigem diploma: Bélgica, África do Sul, Arábia Saudita e mais 11 pequenos. Segundo grupo, o dos que não aceitam nenhum tipo de limitação ao exercício da profissão: Chile, Áustria e Suíça, na linha de “um modelo de desregulamentação” absoluto, como defendido pelo ministro Gilmar Mendes. Duas visões francamente minoritárias, pois.
Havendo ainda um terceiro grupo, bem mais amplo, dos países que admitem algum tipo de exigência prévia para o exercício da profissão, segundo padrões culturais não uniformes: idade mínima, escolaridade, ausência de condenação penal, algum curso médio ou superior, curso preparatório específico, estágios compulsórios.
Esse panorama considera só a base legal; um diploma, no mundo real, significa maiores chances de obter emprego e/ou salário melhor.
Na Alemanha, por exemplo, quase nenhum jornal importante contrata quem não tem diploma. Nos Estados Unidos, onde ele também não é exigido, há 400 faculdades, 120 cursos de pós-graduação e 35 doutorados; sem contar que, na média, 80% das Redações são compostas por diplomados.Maior diferença, entre Redações brasileiras e estrangeiras, é precisamente a quantidade de jornalistas com cabelos brancos: abundantes, nas democracias consolidadas, e escassos, no Brasil, pelo uso indiscriminado de estagiários, lumpens na profissão, mão de obra jovem e barata.Mas por que jornais, em regra, tanto querem jornalistas diplomados?A resposta é simples. Por ser dispendioso ensinar, dentro das Redações, a fazer um jornal. E também porque jornalistas aprendem, nas universidades, que errar custa caro.
Nos Estados Unidos, com vitória dos demandantes em 75% dos casos, a média das indenizações oscila entre US$ 100 mil e US$ 200 mil dólares.Com frequência, vai muito além disso. Por exemplo: Leonard Ross x “New York Times”, US$ 7,5 milhões; Richard Sprague x “Philadelfia Inquirer”, US$ 34 milhões; Victor Feazel x Dallas Television Station, US$ 58 milhões; “Wall Street Journal” x Money Management Analytical Research, US$ 222,7 milhões.Dando-se então que jornalistas formados, por estatisticamente errar menos, valem mais. E ganham bem mais também, claro. Desde que haja leis de imprensa decentes, faltou dizer. O que nunca tivemos -e continuamos sem ter.
Posta a questão em tons técnicos e mais serenos, o que se vê hoje em nosso país é um cenário anormal. Exótico. Porque, em toda parte, são os próprios jornalistas que não aceitam a exigência do diploma, enquanto aqui sua defesa é feita pela Fenaj (Federação Nacional dos Jornalistas). E empresas sempre pedem diploma -enquanto aqui as restrições contra ele partem de um de nossos mais respeitados jornais, a Folha de S. Paulo. Coisas do Brasil.
Dando os trâmites por findos, assim, cumpre agora esperar por legislação específica do Congresso Nacional - a quem cabe, com mais propriedade e mais legitimidade, estabelecer requisitos para o exercício das profissões. A ele cumprindo, afinal, decidir se o diploma deve ser mesmo exigido.

Ou não.

(*) Jurista, ex-presidente do CADE e da EBN

AS EMOÇÕES DO DIA SEGUINTE, por ALBERTO DINES (*)

As edições de quinta-feira (25/6) do Globo e da Folha de S. Paulo ofereceram sinais de que a grande imprensa está disposta a rever o insensato apoio a duas recentes decisões do Supremo Tribunal Federal relativas à atividade jornalística.
No Globo, um abundante noticiário (pág. 10) reproduziu o debate do dia anterior sobre o Direito de Resposta, promovido pela Escola da Magistratura do Rio.
Convém lembrar que no fim de abril, a grande mídia exultou com a decisão do STF extinguindo integralmente a Lei de Imprensa. Arrependeu-se logo depois porque a liquidação pura e simples da lei sem algo que a substituísse deixou um perigoso vácuo legal. Agora, ao participar do evento dos magistrados (que precisam de leis para basear seus veredictos), fica visível ao leitor que o jornalão carioca está reconsiderando o assunto.
A Folha atravessa um dos momentos mais difíceis da sua história recente – devido a proximidade com o senador Sarney – por isso foi mais rápida e ressuscitou menos de uma semana depois a questão do diploma de jornalismo por meio de um artigo do jurista José Paulo Cavalcanti Filho.
Imaginava o jornalão paulista que o nosso maior especialista em direito de comunicação faria coro aos que condenaram o diploma. Já na edição televisiva
do Observatório da Imprensa de terça-feira (23/6), mestre Cavalcanti havia arrasado grande parte da argumentação das empresas jornalísticas; na quinta-feira, no artigo da Folha, foi ainda mais incisivo.
Para o Globo será fácil e conveniente endossar o clamor dos magistrados por um estatuto que regulamente o Direito de Resposta. Mas para a Folha será mais muito complicado. Afinal a cruzada contra o diploma foi iniciada por ela há 34 anos e, ao longo deste tempo, publicaram-se os maiores disparates e falácias não apenas sobre o diploma, mas principalmente sobre a profissão de jornalista que o jornal deveria respeitar e valorizar.
A ressaca do day after promete muitas emoções.


(*) Jornalista, escritor e criador do Observatório da Imprensa

A LIBERDADE DAS MÁS RAZÕES, por JÂNIO DE FREITAS (*)

"Liberdade de expressão" não é uma expressão de liberdade, é uma fórmula cuja utilidade política está em encobrir limitações e condicionantes do direito de expressão. Umas necessárias à sociedade, outras impostas para preservação de domínio.
Magistrados e advogados abusaram do uso da expressão que sabem ser falaciosa, para chegar à extinção, pelo Supremo Tribunal Federal, da exigência de diploma específico para profissionais do jornalismo. A exigência, não nascida dos motivos repetidos no STF, foi um excesso problemático desde sua criação em 1969, mas nem por isso deixou de produzir um efeito muito saudável e nunca citado, no STF ou fora. Em lugar do diploma específico, a obrigatoriedade de algum curso universitário, não importa qual, seguida de um curso intensivo de introdução aos princípios e técnicas do jornalismo, seria a fórmula mais promissora para a melhor qualidade dos meios de comunicação.É um argumento rústico a afirmação de que diploma obrigatório de jornalismo desrespeita a Constituição, por restringir o direito à liberdade de expressão. É falsa essa ideia de que o jornalismo profissional seja o repositório da liberdade opinativa. São inúmeros os meios de expressão de ideias e opiniões. E, não menos significativo, a muito poucos, nos milhares de jornalistas, é dada a oportunidade de expressar sua opinião, e a pouquíssimos a liberdade incondicional de escolha e tratamento dos seus temas. (A esta peculiaridade sua, a Folha deve a arrancada de jornal sobrevivente para o grande êxito).A matéria-prima essencial do jornalismo contemporâneo não é a opinião, é a notícia. Ou seja, a informação apresentada com técnicas jornalísticas e, ainda que a objetividade absoluta seja um problema permanente, sem interferências de expressão conceitual do jornalista. A grande massa da produção dos jornalistas profissionais não se inclui, nem remotamente, no direito à liberdade de expressão. Há desvios, claro, mas a interferência de formas opinativas no noticiário serve, em geral, à opinião e a objetivos (econômicos ou políticos) da empresa. Neste caso há, sim, uma prática à liberdade de expressão, no entanto alheia ao jornalismo, aí reduzido a mera aparência de si mesmo.
Os colaboradores, não profissionais de jornalismo, são os grandes praticantes do direito de liberdade de expressão nos meios de comunicação. E nunca precisaram de diploma de jornalista. A extinção da exigência de diploma em nada altera as possibilidades, as condicionantes e as limitações da liberdade de expressão na produção do jornalismo. Altera o que chamam de mercado de trabalho para os níveis iniciais do profissionalismo. Para os níveis mais altos, há muito tempo as empresas adotaram artifícios para dotar suas redações de diplomados em outras carreiras que não o jornalismo. À parte a questão legal, o resultado é muito bom.Com o diploma, extinto à maneira de um portão derrubado e dane-se o resto, o STF eliminou sem a menor consideração o efeito moralizante, não só para o jornalismo, trazido sem querer pela exigência de curso. Efeito sempre silenciado. Deu-se que os anos de faculdade e seu custo desestimularam a grande afluência dos que procuravam o jornalismo, não para exercê-lo, mas para obter vantagens financeiras, sociais e muitas outras. Tal prática sobreviveu à exigência do curso, porém não mais como componente, digamos, natural do jornalismo brasileiro. É lógico que as empresas afirmem critérios rigorosos para as futuras admissões, mas sem que isso valha como segurança de passar da intenção à certeza.O julgamento do recurso antidiploma trouxe uma revelação interessante, no conceito que a maioria do Supremo e os advogados da causa mostraram fazer da ditadura. Segundo disseram, já a partir do relatório de Gilmar Mendes, o decreto-lei com a exigência de diploma era um resquício da ditadura criado, em 69, para afastar das redações os intelectuais e outros opositores do regime. Ah, como eram gentis os militares da ditadura. Repeliram a violência e pensaram em uma forma sutil, e legal a seu modo, de silenciar os adversários nos meios de comunicação, um casuísmo constrangido.
Nem que fosse capaz de tanto, a ditadura precisaria adotá-lo. Sua regra era mais simples: a censura e, se mais conveniente, a prisão.O julgamento no STF dispensou a desejável associação entre direito à liberdade de expressão e, de outra parte, recusa a argumentos inverazes. A boas razões preferiu a demagogia.


(*) Jornalista, colunista e membro do Conselho Editorial da Folha de S. Paulo

MAIS UMA FATURA, por HENRIQUE ACKER (*)


Que razões levaram juízes do Supremo Tribunal Federal a determinar não ser preciso um diploma para o exercício da profissão de jornalista? Difícil saber, mas o certo é que não podem ser as que foram externadas nos votos dos senhores ministros.
Qualquer pessoa pode ser jornalista desde que saiba escrever? O texto jornalístico é confundível com um texto literário? Afinal, que argumentos são estes? O que determina a existência dos meios de comunicação?
A notícia é sempre um fato ou conjunto de fatos que destoam, fora do comum, inesperados para o conjunto da sociedade. A matéria do jornalismo é o FATO, que pode ser um assassinato, um acidente, a renúncia de um mandatário ou um golpe de Estado. O que dá a esses fatos diferenciados a cara de notícia é justamente o trabalho do repórter, aquele que reporta, que levanta as informações preferencialmente no local onde o fato acontece e os traduz, de forma clara e objetiva para a sociedade, através de um dos meios de comunicação: jornal, emissora de rádio, canal de TV ou página da internet.
O encadeamento do FATO em si com uma série de fatos correlatos (quem, onde, como, quando e por que) formam o núcleo da notícia, o resumo, o lead como chamamos no jargão jornalístico. Segue-se o corpo da matéria, na qual o repórter descreve de forma mais detalhada possível o acontecido, enriquecendo o texto com mais informações e muitas vezes com opiniões contraditórias colhidas entre testemunhas, pessoas envolvidas ou mesmo analistas sobre o assunto em questão.
O trabalho de colher informações sobre o fato e encadeá-las de forma clara e objetiva numa matéria cabe ao repórter, espécie de narrador dos acontecimentos para o leitor, ouvinte, telespectador ou internauta. A este trabalho se segue - numa redação de jornal de grande circulação, de uma emissora de rádio ou canal de TV - o do redator, que procura resumir e ordenar de forma lógica o conjunto de informações colhidas pelo colega que traz o material da rua. Por fim, cabe ao editor a responsabilidade de dar à matéria o devido destaque, colocando-a ou não na primeira página, na chamada do noticiário da rádio ou da TV, escolhendo o espaço e a melhor manchete para o texto.
Não se pode esperar de um leigo que conheça a cadeia produtiva que envolve o jornalismo, mas é inadmissível que juízes de um tribunal da importância do STF anunciem uma decisão sem levar em conta a especialização necessária ao exercício de uma profissão. Ainda mais numa sociedade em que a informação é considerada preciosa para quem analisa e decide.
Senhores ministros do STF, jornalismo definitivamente não é literatura. O texto literário não tem limites, é infinito em suas formas e objetivos, por isso é literatura e ainda bem que é assim. Pode ou não estar vinculado à realidade. Muitos de nós, jornalistas, enveredaram pelo livro-reportagem, espécie de matéria de maior fôlego que dá origem a uma publicação literária. Alguns escritores, como Euclides da Cunha, foram também jornalistas. Graças a ele e sua forma objetiva de coletar, ordenar e descrever fatos, o país pode conhecer em detalhes a dureza dos combates da Guerra de Canudos, na riqueza de informações de “Os Sertões”.
É perfeitamente admissível que escritores assinem colunas nos jornais, como o fazem muitos deles até hoje. No entanto, o jornalismo do cotidiano, que enche as páginas dos jornais, que ocupa os noticiários de rádio, internet e de TV todos os dias, só pode ser obra do trabalho especializado de profissionais preparados para isto: os jornalistas. Cabe aos literatos, economistas, filósofos e até porque não aos juristas, analisar ou comentar os fatos já publicados, irradiados ou televisados pelos jornalistas.
Não, senhores ministros, não basta saber escrever para ser ou se tornar jornalista. É preciso estudar, dedicar-se, conhecer os meios de comunicação e as variadas formas que eles oferecem de apresentar a notícia. Existe uma técnica jornalística, que tem sido mascarada pela falta de objetividade verificada em muitos dos cursos de comunicação espalhados Brasil afora.
Tenho pra mim a impressão de que dois aspectos foram determinantes para a decisão de 18 de junho de 2009 do STF. O primeiro, a pressão de grandes meios de comunicação em sua luta permanente por desvalorizar o profissional de imprensa. O segundo, um misto de mediocridade e rancor de figuras poderosas que se viram desmoralizadas pelos últimos fatos envolvendo a estranha boa vontade daquele órgão com os poderosos e o lamentável bate-boca entre seu presidente e um dos ministros do Tribunal.
Sobrou para a sociedade brasileira pagar mais esta conta.
(*) Jornalista e radialista

O DIPLOMA DE JORNALISTA E O MINISTRO QUE TEM CAPANGAS, por NILO SERGIO GOMES (*)

O fim da exigência do diploma para o exercício da profissão de jornalismo, decidida pelo STF pela ampla maioria de 8 votos a um, colocou o escriba das notícias na berlinda. O patronato e as empresas, em geral, ficaram muito satisfeitos com a decisão, diferentemente dos profissionais, cuja reação foi da frustração à perplexidade. Entretanto, a discussão que se espalhou pela mídia e na sociedade deve evitar a superfície da questão e aproveitar o momento para um necessário aprofundamento do debate a respeito do jornalismo praticado no Brasil, em especial, o da mídia hegemônica, ou seja, as grandes empresas e conglomerados de comunicação do país, a chamada grande imprensa.
Não é de hoje que o noticiário da grande mídia vem sendo questionado. Cada vez mais e, sobretudo, com crescente abrangência no meio social, o jornalismo “vendido” pelas grandes redes de comunicação é colocado sob suspeita. Suspeição que sobe de tom em períodos eleitorais, quando esmagadora parcela desta mídia hegemônica assume a defesa de candidaturas sem, contudo, esclarecer e informar a seus leitores, ouvintes e telespectadores sobre este posicionamento. Nas eleições de 2006, esta suspeição ficou tão evidente que serviu de estopim para o surgimento de um movimento intitulado dos “Sem-Mídia”, cujo primeiro ato foi de protesto em frente à sede de um dos mais emblemáticos representantes desta “mídia hegemônica”, a Folha de S. Paulo.
E o que se questiona nesta mídia hegemônica, além da parcialidade com que quase sempre conduz sua “cobertura jornalística” nos processos eleitorais? Questiona-se, em geral, a postura de “dona da verdade” e a parcialidade também com que realiza a cobertura dos fatos sociais. Sim, porque nem todos os atores sociais tem o mesmo espaço midiático. O Movimento dos Sem Terra, um dos exemplos mais explícitos, quase sempre aparece na mídia no papel de vilão ou “baderneiro”. Pouco sabemos a respeito das atividades que o MST realiza, por exemplo, na educação, na comunicação e na própria agricultura, origem do movimento. Quais as contribuições do MST nessas áreas, ele que é um movimento que já acumula décadas de existência, congregando milhares de militantes? Pela mídia, nã o o sabemos.
Enquanto militantes do MST quase sempre são apresentados sob a roupagem de “vândalos”, empresários acusados de grandes fraudes ou que estão sob investigação da Polícia Federal ou do Ministério Público recebem outro tratamento desta mesma mídia. É o caso de Daniel Dantas, notório “subversivo” da ordem e dos bons costumes financeiros. O caso dele é o que mais chama a atenção, mas não é o único. Aí estão Maluf, Edemar Ferreira (ex-dono do Banco Santos), Angelo Calmon de Sá...
O diploma de jornalista, portanto, não impediu e nem impede que o noticiário seja levado à população de forma enviesada, quando não totalmente distorcida. Um olhar mais atento à cobertura que esta mídia hegemônica realiza – e não é de hoje – na área política, percebe as induções a que muitas e tantas vezes leitores são levados por uma determinada manchete ou por combinações de fotos e textos produzindo sentidos e significações que não necessariamente são verdadeiros. Está na memória social a edição manipulada do debate final nas eleições de 1989, transmitida pelo telejornal de maior audiência no país.
Ou seja, o diploma, de per si, não impede que a população e a sociedade sejam mal informadas. Tanto que sob os auspícios das novas tecnologias, outros lugares de fala vem se multiplicando através da internet, colocando em xeque, tantas vezes, o que foi noticiado na noite anterior por um telejornal ou que é a manchete do dia de um grande jornal.
Diferentemente do que tentou fazer crer em seu relatório o presidente do STF, Gilmar Mendes, a regulamentação da profissão de jornalista não foi uma dádiva da ditadura militar. Esta regulamentação, da qual decorreu a exigência do diploma, é uma luta que os jornalistas começaram a travar lá atrás, nos primeiros anos do século XX. Não foi um favor, menos ainda meio de impedir a livre circulação de idéias nos jornais. Até hoje, intelectuais de renome ocupam espaços privilegiados na imprensa, oferecendo suas opiniões e críticas a respeito dos mais variados temas. O que ocorreu durante a ditadura, todos sabemos, é que com diploma ou sem ele a livre manifestação do pensamento estava cerceada. Essa era a questão.
A comunicação é um direito humano e esta consciência se expande na sociedade com celeridade razoável, nos dias de hoje. O jornalismo é uma forma de comunicação cada vez mais presente e importante no cotidiano das sociedades, mas que implica, contudo, na adoção de técnicas de texto, de apuração e de edição, usos estes que devem ser, sim, alvo de controle social, para que não se desvirtuem dos princípios éticos que exigem a percepção de todas as abordagens possíveis que envolvam um fato social determinado. É a própria sociedade, através de suas entidades e organizações sociais, quem melhor pode exercer este monitoramento, de modo a garantir a pluralidade de visões e análises sobre o fato noticiado.
Ao misturar alhos e bugalhos com a notícia, o presidente do STF, seja lá com que intenções, demonstrou não entender nem de cozinha, muito menos de jornalismo. Talvez, lembrando o implícito que lhe foi dito, semanas atrás, a plenos pulmões e em plena corte, ele só entenda mesmo do ofício de dar ordens a capangas. Mas isso não diz respeito ao debate sobre o jornalismo e a exigência do diploma para o exercício da profissão.

* Jornalista, professor universitário e doutorando da Escola de Comunicação da UFRJ.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

GUERRILHA DO PMDB DESCOBRE SUA SIERRA MAESTRA!

Para quem chegou agora, vou resumir. O empate eleitoral em 2010, entre os candidatos a presidente do PT e do PSDB, deu origem a uma coligação dos dois partidos e forçou o PMDB a cair na clandestinidade. Agora dividida em 171 facções guerrilheiras, a legenda se esforça para garantir seu lugar na História entre os grandes movimentos armados. Isso tudo pode ser conferido em algumas postagens do QUEM É VIVO SEMPRE APARECE e, aqui, nas anotações revolucionárias do Professor Simas, direto do blog HISTÓRIAS DO BRASIL.
Prepare seu coração pras coisas que eu vou contar.

Ué Ling-ton estava sentado à beira do acampamento guerrilheiro, às margens da Lagoa de Itaipu, puxando pela memória, seu passado maoísta, alguma luz sobre o que fazer. Achou legal a expressão, mas logo se deu conta de que Lênin já havia escrito um livro com esse título, “O que fazer?”.
De repente, Ué Ling-ton (Wellington em chinês yakisôbico), um dos codinomes do companheiro Moreira, comandante-em-chefe da DN (Dissidência de Niterói, uma das 171 facções do Novo PMDB) teve uma idéia: encomendou duas quentinhas no Caneco Gelado do Mário para ele e um sobrinho que aderiu à guerrilha, e distribuiu os tíquetes-refeição para sua tropa, que já estava reclamando que saco vazio não fica em pé.
Mas ainda não era isso. O que queria mesmo era botar em prática uma medida de grande impacto, capaz de dar visibilidade nacional, quiçá mundial, ao movimento armado de seu partido. Sentado num banco, assistia encantado aos exercícios que seus homens faziam no calçadão. Uns treinavam artes marciais ou tiro alvo, outros aprendiam a montar explosivos e outros mais recebiam ensinamentos sobre montagem de caixa dois.
Estava orgulhoso da turma. Em breve, seriam combatentes destacados da grande revolução bolivarianista – nenhuma referência ao Chávez, é que a insurreição seria deflagrada numa cobertura da Avenida Atlântica com Rua Bolívar.
Porém, raciocinou, faltava aqueles homens experiência internacional.
Internacional era a palavra-chave.
Logo, o antigo combatente maoísta lembrou da Associação Internacional dos Trabalhadores, fundada em Londres para unir os sindicatos e lideranças políticas de esquerda. A Primeira Internacional foi uma continuação das lutas sangrentas da Comuna de Paris. Não deu certo. Veio, então, a Segunda Internacional, ou Internacional Socialista, que existe até hoje e tem suporte nos partidos social-democratas. O PSDB e o PT são chegados. "Não nos interessa", pensou Moreira. A Terceira Internacional é a dos comunistas. “Estamos fora também”. A Quarta é a dos trotsquistas, deve ser até engraçada porque os trotsquistas são hilários, malucos-beleza. O companheiro Moreira esqueceu logo o assunto. “Deixa pro povo da Heloísa Helena, do PSTU etc.”.
Foi, então, que teve o estalo de Vieira.
Contou ao jovem correligionário:
– Vamos fazer a Quinta Internacional, que vai ser a melhor de todas. A Internacional do PMDB!
Evidente que o rapaz não entendeu xongras, mas o principal ideólogo da jihad surgida após o fatídico empate eleitoral entre o PT e o PSDB nas eleições de 2010 – decisão das urnas que acabou com aquela lenga-lenga de governabilidade e fez do PMDB um partido clandestino – já havia tomado sua decisão.
A mensagem chegou via twitter para todos os comandantes das demais correntes do PMDB.
Partido clandestino que vira movimento guerrilheiro precisa ter mais do que um hino, uma bandeira, um programa de lutas e homens valorosos dispostos a lutar até a morte por seus ideais.
Precisa também de um mega-evento, de um super-lançamento mundial.
Bem distante de Itaipu, às margens do Lago Paranoá, o subcomandante Agaciel foi encarregado da logística, da parte financeira, enfim, de toda a organização da Quinta Internacional.
Coube a ele selecionar, com os rigores de um Comitê Olímpico Internacional, o lugar mais adequado com um puta auditório, os locais de hospedagem, repasto e diversão, um cassino não iria mal, muita champanhe, scotch, vodca polonesa, caviar russo ou iraniano, mulheres e garotões sarados, e tudo mais que fosse necessário para garantir o sucesso da iniciativa.
Por aclamação, o Comitê Central do Novo PMDB – formado pelos comandantes das 171 facções – decidiram o local, muito melhor do que a Sierra Maestra daquele pessoal que adora uma rumba:
A Quinta Internacional do PMDB vai movimentar a Ilha de Caras!



domingo, 21 de junho de 2009

O QUEBRA-CABEÇAS QUE VIROU DOCUMENTÁRIO


No auge da crise dos dissidentes soviéticos, achei graça do título do livro “Sobreviverá a União Soviética até 1984?”. O historiador Andrei Amalrik, um dos dissidentes mais conhecidos, errou por pouco: quatro anos depois, Mikhail Gorbachev anunciava o fim da Cortina de Ferro e no ano seguinte, 1989, caía o Muro de Berlim.
Ri daquele título porque me lembrou “Eram os deuses astronautas?”. Ou seja, parecia ficção científica de quinta categoria. Mas não, era profecia pura.
Quando termina o documentário “Razões para a guerra”, a pergunta que a gente faz é outra: quando vai cair esta nova Roma chamada Estados Unidos da América?
Não sou anti-americano. Se for enumerar todos os ianques que admiro, vou perder a conta, e entre eles estão incluídos alguns presidentes – Abraham Lincoln, Franklin Delano Roosevelt, Jimmy Carter e, torço por ele, Barack Obama. Sou também fã do cacique Touro Sentado (pela surra que deu na 9ª Cavalaria), do Martin Luther King, do Louis Armstrong, do Duke Ellington e, para não acharem que sou racista, também sou fã do Francis Albert Sinatra. E outros milhares.
Apesar daquele crítico de barbicha, Rubens Ewald Filho, ter achado o filme chato, é uma aula de História. Eu sabia que as bombas de Hiroxima e Nagasaki vitimaram civis, mas desconhecia até agora, por não ter lido Gore Vidal, que os japoneses tinham passado os últimos meses antes dessas bombas tentando se render.
O alvo daquelas bombas não foi o Japão, foi Stalin, isso eu sabia, mas não com tantos detalhes. Foi uma declaração de guerra. A Guerra Fria.
O filme mistura cenas reais da Segunda Guerra Mundial às duas invasões do Iraque. Tem personagens interessantes. Um policial aposentado que viu do metrô a explosão das duas torres, e numa delas estava o filho dele. Um cara de 21 anos que, literalmente sem pai nem mãe, e sem um puto no bolso, resolveu se alistar porque a guerra era o único mercado que enxergava. Uma militar do Pentágono que ficou enojada daquilo tudo e pediu demissão. Dois pilotos que só faltavam chorar de emoção por terem lançado bombas em Bagdá que só fizeram vítimas civis, mas nem eles sabiam, tanto tempo depois. Um médico iraquiano, revoltado, porque no hospital de campanha só chegavam crianças e mulheres, nenhum militar. Outro iraquiano, que pegou na veia: “Míssil inteligente? Caiu sobre esta casa e matou uma família”.
O filme, ao contrário do que diz o bestalhão que morre de amores pelo Hugh Grant, monta as peças do quebra-cabeças chamado “Complexo Industrial Militar”. A expressão foi usada pelo presidente Eisenhower – um republicano, o general que comandou os Aliados contra o nazismo – para alertar o povo americano de algo terrível: a indústria armamentista havia se tornado poderosa demais e era preciso contê-la.
O Complexo Industrial Militar é um tripé que envolve as Forças Armadas, a indústria e o Congresso americano. E aí outro fato que eu desconhecia: cada projeto dessa indústria tem a fabricação de suas peças distribuídas pelos estados. Se alguém defende o fim de um deles, sempre aparece um deputado para defender os 100 empregos que gera, ou melhor, os 500 votos que representa.
Esta indústria, como sabemos, chegou a ponto de inventar, na era Bush-Cheney, um novo negócio chamado "terceirização da guerra", que envolveu a "livre iniciativa" na fabricação de privadas e de centenas de outros itens não necessariamente bélicos que enriqueceram a Halliburton e outras empresas.
Eugene Jarecki, o diretor, deu ao filme o mesmo título original, “Why we fight?” (Por que nós lutamos?), dos filmes de propaganda feitos por Frank Capra para o Pentágono, com o objetivo de levantar o ânimo dos americanos na guerra contra o nazifascismo, a última guerra justa da qual os EUA participaram no século XX.
Acabei de devolver. “Razões para a guerra” foi produzido pela Sony em 2005 mas só agora entrou nos catálogos das locadoras.
Acrescento: pior de tudo é que, quando cair, a gente talvez tenha saudade dos ianques. Já imaginou um mundo bipolar tendo, de um lado, a China, e de outro, uma potência árabe?

sexta-feira, 19 de junho de 2009

DIRETO DA COZINHA DO PODER JUDICIÁRIO

Tal como os desembargadores da 8ª Câmara Criminal do TJ-RJ, os cozinheiros seguem as receitas que criam ou copiam, só que, diferentemente dos doutores em leis, que veneram ou se acham obrigados a venerar cada vírgula do Código Penal e demais cartapácios das respectivas estantes, o pessoal da cozinha não se atém tanto assim aos livros culinários.
A massa deve sempre ficar al dente, o arroz soltinho, o bife ao ponto? Tudo bem, mas existem interpretações pessoais que podem alterar o modo de preparo, alternativas para a escolha dos ingredientes, segredos para tornar os pratos mais saborosos.
Existem grandes livros de receitas como a Constituição, o Código Penal, o Código de Processo Penal, o Código Civil etc., mas sei que existem também críticas a um negócio chamado progressão do regime aberto pro semi-aberto, integral pra fechado, e divergências até mesmo sobre o que é o crime hediondo.
Veja o caso do traficante Elias Maluco. Ele comandou a tortura, despedaçou com uma espada e queimou o corpo despedaçado do jornalista Tim Lopes. Sete anos depois do crime, ganhou na Justiça a progressão de regime, que passou de integral a fechado, e poderá em breve ser beneficiado pela liberdade condicional.
Seu advogado pediu e teve negado o novo julgamento, mas conseguiu mudar o tipo de pena do réu, já condenado em primeira instância. Craque!
Os desembargadores da 8ª Câmara Criminal, que devem entender muito mais de leis do que o defensor do Elias Maluco, ficaram preocupados apenas com o ponto.
A defesa comemorou: no regime integral seu cliente, coitado, teria que cumprir os (incríveis...) 28 anos e seis meses de prisão a que foi condenado, mas com a progressão, o réu já pode pedir o regime semi-aberto e até mesmo a liberdade condicional, por já ter cumprido (segundo o advogado) ou estar próximo de cumprir (segundo a matemática) um terço da pena.
Peraí, é um terço mesmo? Já foi um quinto ou um sexto, então a coisa melhorou, hein?
Em fevereiro de 2007, o traficante Zeu, do bando de Elias Maluco, conseguiu essa excrescência chamada progressão. Em julho daquele ano, saiu do presídio em Niterói para visitar a família e até hoje não teve vontade de voltar. O próprio Elias Maluco, quando assassinou o Tim, gozava de liberdade graças ao mesmo benefício.
O crime de setembro de 2002, se vocês lembram, foi praticado pelo próprio chefe da quadrilha, usando uma espada de samurai. E o corpo de Tim Lopes foi incinerado no “micro-ondas” de pneus descoberto dias depois pela polícia na favela de Vila Cruzeiro.
Sobrou um pedaço de osso que, através do exame de DNA, identificou a vítima.
O doutor Gilmar está certo: uma boa equipe de cozinheiros poderia, quem sabe, se sair melhor do que a turma da egrégia corte.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

UM HOMEM DE BEM NA MIRA DAS MILÍCIAS

O parlamentar Marcelo Freixo (na foto) e seu assessor Vinícius George estão em risco de sofrer um atentado contra suas vidas por grupos milicianos do Rio de Janeiro. Planos foram descobertos pela polícia em uma busca e apreensão de milícias em maio. Parte de uma investigação de longo prazo contra membros de grupos de milícias que tomaram o controle de mais de cem territórios pobres do Rio de Janeiro, a busca também encontrou cartas do chefe da milícia de Rio das Pedras – um bairro na Zona Oeste da cidade –, um sargento antigo da polícia militar, solicitando suporte de outro grupo miliciano para assassinar a dupla.
Ao final da operação, não foram feitos esforços para deter o chefe da milícia de Rio das Pedras que enviou o pedido para assassinar Marcelo Freixo e Vinícius George. Ainda que os dois estejam sendo providos de alguma proteção, a Anistia Internacional considera que é fundamental o imediato reforço da mesma, em conformidade com o desejo de ambos.
Marcelo Freixo e Vinícius George começaram a receber ameaças de morte em junho de 2008 quando foi instalada a CPI para investigar a expansão das milícias no Rio de Janeiro, da qual Freixo foi presidente.
A CPI foi formada por parlamentares e investigou o padrão de envolvimento de governos estaduais nas atividades ilegais das milícias antes de apresentar seu relatório final, submetido ao Parlamento do estado e ao Ministério Público para potenciais processos penais.
Há preocupação, no entanto, que as recomendações feitas pelo relatório final da CPI não tenham sido plenamente implementadas pelas autoridades municipais, estaduais e federais, especialmente aquelas destinadas à criminalização e repressão das atividades de que financiam os grupos. Isto significou a continuidade de expansão das milícias apesar da detenção de alguns de seus membros-chave.
As milícias são compostas por policiais, agentes prisionais e bombeiros afastados que expulsaram traficantes de drogas das favelas alegando oferecer segurança. No entanto, efetivamente controlam comunidades através da violência, extorquindo dinheiro para provisão de segurança bem como serviços de gás, transporte, TV a cabo entre outros. Eles são acusados de empunhar o poder político, garantindo, através de intimidação, votos a certos parlamentares. Embora existam no Rio de Janeiro há algum tempo, a súbita expansão das milícias remonta a dezembro de 2006, quando mais de 100 favelas foram dominadas por grupos milicianos.
As tentativas de investigar e denunciar o papel das milícias no Rio de Janeiro encontrou ameaças e violência, incluindo o rapto e tortura de 3 jornalistas do jornal O Dia, acompanhados de um morador em maio de 2008 e o bombardeio de uma delegacia em julho.
O crescimento dos grupos milicianos pode ser atribuído há décadas de uma política de segurança publica baseada na negligência, violação de direitos humanos e impunidade de autores, permitindo que policiais criminosos e corruptos prosperem à custa daqueles que trabalham incansavelmente para servir à comunidade.
De acordo com recentes relatórios de jornais que citam a frouxa segurança e os privilégios usufruídos por policiais mantidos em detenção no “Batalhão Especial Prisional”, unidade prisionalespecial em que agentes policiais são detidos, acentua-se ainda mais a preocupação com a segurança dos dois homens.
O relatório das investigações policiais descobriu casos de autorização para saída de agentes para ameaçar ou matar testemunhas. Investigações policiais apontaram a prisão como “um terreno de recrutamento para assassinos”. Diversos membros das milícias se encontram detidos nessa unidade.
Recomendações:Envie apelos o mais rapidamente possível, em português ou na sua própria língua;
– Assegurando que para Marcelo Freixo e Vinicius George, ambos dedicados ao enfrentamento às atividades das milícias, seja fornecida uma proteção eficaz em conformidade com os seus desejos;– Instando as autoridades a realizar rapidamente uma investigação independente e imparcial de todas as ameaças contra Marcelo Freixo e Vinicius George; e que os responsáveis sejam levados à Justiça; – Instando as autoridades a denunciar publicamente as atividades das milícias e a definir um plano conjunto, com um cronograma claro, para implementar todas as recomendações da CPI para combater a propagação das milícias e do crime organizado;
– Solicitando que sejam dados passos eficazes para trazer à justiça os líderes e os membros das milícias;
– Instando as autoridades a tomar medidas imediatas para investigar o Batalhão Especial Prisional, e que as autoridades envolvidas nas atividades criminosas sejam levadas à Justiça.
Recebi essa mensagem e a transcrevo integralmente porque concordo com a urgência na tomada de providências que garantam a integridade de Freixo e Vinicius, bem como a continuidade do trabalho que fazem.
Os demais interessados devem usar os meios a seu dispor para divulgar esses fatos e destinar mensagens com esse teor ao ministro da Justiça, Tarso Genro; ao governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral; e ao procurador-geral de Justiça (MPRJ), Cláudio Soares Lopes.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

"JORNALISTA É IGUAL A COZINHEIRO?", texto publicado no blog de PAULO MOREIRA LEITE, na versão online de Época

"Quando o Supremo Tribunal Federal decidiu abolir o diploma de jornalista como exigência para o exercício da profissão, uma imagem veio a minha cabeça — esta foto que você pode ver aí acima, de Vladimir Herzog, morto em outubro de 1975, no DOI-CODI paulista.
Conheci Herzog na revista Visão, onde ele era um editor exigente e perfeccionista, que me ofereceu alguns frilas quando eu me iniciava na profissão. Herzog era diretor de jornalismo da TV Cultura, em São Paulo, quando foi conduzido para aquela dependência militar — de onde não saiu com vida. Para muitos jovens de minha geração, Herzog foi um exemplo de coragem e capacidade de resistência.
Muitas décadas se passaram desde então. Vivemos numa democracia estável.
Os tempos mudaram. Jornalistas são ameaçados no Oriente Médio, na América Central, no Irã. Raramente no Brasil.
Ontem, ao justificar o fim do diploma, Gilmar Mendes, presidente do STF, usou palavras assim:
“Quando uma noticia não é verídica ela não será evitada pela exigência de que os jornalistas frequentem um curso de formação. É diferente de um motorista que coloca em risco a coletividade. A profissão de jornalista não oferece perigo de dano à coletividade tais como medicina, engenharia, advocacia nesse sentido por não implicar tais riscos não poderia exigir um diploma para exercer a profissão. Não há razão para se acreditar que a exigência do diploma seja a forma mais adequada para evitar o exercício abusivo da profissão”, disse.
Mendes apontou para uma semelhança original, entre o trabalho de um jornalista e o de um cozinheiro. Ele disse:“Um excelente chefe de cozinha poderá ser formado numa faculdade de culinária, o que não legitima estarmos a exigir que toda e qualquer refeição seja feita por profissional registrado mediante diploma de curso superior nessa área. O Poder Público não pode restringir, dessa forma, a liberdade profissional no âmbito da culinária. Disso ninguém tem dúvida, o que não afasta a possibilidade do exercício abusivo e antiético dessa profissão, com riscos eventualmente até à saúde e à vida dos consumidores.”
Tais Gasparian, a advogada que representou o Sindicato das Empresas de Jornal, afirmou durante julgamento que a profissão de jornalista é desprovida de qualificações técnicas, sendo “puramente uma atividade intelectual”.
Conheci o pai de Tais Gasparian, o empresário Fernando Garsparian. Ele foi dono do jornal Opinião, alvo de perseguição duríssima por parte do regime militar, inconformado com seus artigos sobre a Dívida Externa, sobre o arrocho salarial e outros temas que a censura mantinha fora dos jornais.
Mas o jornal de Gasparian insistia, teimava e publicava. Também trouxe de volta para a imprensa brasileira as idéias exiladas de Celso Furtado, Fernando Henrique Cardoso e outros intelectuais perseguidos. Em minha modesta opinião, pode-se dizer com alguma boa vontade que Celso Furtado, Fernando Henrique, e outros, exerciam uma atividade “puramente intelectual” — não o jornalista que publicava seus artigos.
Não é por fazer pouco das cozinheiras e chefes que não gosto da comparação do presidente do STF. Já obtive, à mesa, alegrias que a maioria das reportagens não me proporcionaram, em iguarias preparadas por profissionais sem diploma de nenhum tipo — só o da labuta da vida.
Mesmo reconhecendo que vivemos num país democratizado, onde respiramos o oxigênio da liberdade nas 24 horas do dia, estranho a comparação. Ao contrário do que disse Gilmar Mendes, a profissão de jornalista oferece sim “perigo de dano a coletividade.” São muitos e recentes os exemplos que demonstram que o mau exercício do jornalismo ajuda a criar preconceitos, consolida mentiras e distorções que uma sociedade pode levar décadas para resolver.
A imprensa que se omite e foge de verdades amargas causa um imenso prejuízo a seu público.
Não estudei jornalismo e não tenho diploma de jornalista. Conquistei o direito de exercer a profissão porque tinha um lugar no mercado de trabalho. Não defendo interesses próprios neste debate.
Minha opinião é que, certa ou errada, a exigência de diploma ajudou a modernizar a profissão de jornalista e elevou o padrão cultural das redações. Num país onde o ensino fundamental e médio são aquilo que são, um diploma é uma diferença positiva. Nossos jornais deixam muito a desejar até hoje mas não há dúvida que o Brasil tinha uma imprensa pior antes do diploma.
Vivemos num país corporativo, onde muitas profissões são fechadas e controladas. Para o sujeito ser advogado, por exemplo, ele não só precisa ter curso superior como precisa passar no exame da OAB. Em minha modesta curiosidade de jornalista sem diploma, eu me pergunto se tantas exigências se justificam pelo fato de que a profissão de advogado oferece “perigo de dano a coletividade” ou se, como o jornalista, ele não pode ser comparado a um cozinheiro?
Tenho dúvidas sobre o caráter democrático do diploma universitário, num país onde a universidade só está aberta à elite. Este me parece um ponto sério a considerar no debate, na medida em que a imprensa é a forma material da liberdade de expressão.
Outra dúvida é: precisamos de um curso de graduação de jornalismo, com quatro anos de duração? Poderia ser um curso de pós-graduação, como em alguns países?
Não tenho dúvida de que o jornalismo é uma técnica, que se desenvolveu a partir do século XIX. As escolas de jornalismo não foram criadas por uma opção pedante de profissionais ou de empresários, mas como parte do esforço das sociedades modernas para produzir e divulgar informações confiáveis.
Noções como isenção profissional, consulta às fontes, equilíbrio, boa fé, foram criadas e aperfeiçoadas neste processo. A idéia de conflito de interesses foi definida e sistematizada, tornando questionável o trabalho de quem é jornalista nas horas de folga.
Embora não precisem mais de um diploma, eu acho que os candidatos a jornalistas continuam precisando de boa escolas. Essa é a questão a se resolver, daqui para a frente".
Texto e foto extraídos do blog do jornalista Paulo Moreira Leite, da Época Online.
Coloquei aqui porque concordo integralmente. Acabo de postar um comentário lá.

COLUNA SOCIAL DA GUERRILHA DO PMDB: HERÁCLITO ENTROU NA FACA PARA TOCAR O TERROR NO PIAUÍ

Lembram daquela foto do senador Heráclito Fortes, quando anunciou o início da guerrilha do PMDB? Era imagem anterior à cirurgia que fez em junho de 2009 para reduzir o abdomen. Heráclito, como todos sabem, é peemedebista infiltrado entre os demos e sua verdadeira motivação para entrar na faca foi que precisava preparar-se para assumir o comando da Coluna Cajuína/Movimento Piauí Existe (CC/MPI), uma das 171 facções em que se dividiu o antigo PMDB.
Hoje, o bravo cangaceiro ideológico engana as volantes do governo petitucano que se atrevem a persegui-lo no sertão de seu estado natal. O problema é que os rebeldes de Heráclito, tal e qual os jagunços mais espertos, vivem cruzando a fronteira com o Maranhão e isso tem desagradado muito ao núcleo terrorista da Praia do Calhau, liderado pelo companheiro Sarney. “No meu curral, não”, já reclamou o patriarca que saneou e moralizou o Senado nos idos de 2009.
Veja na foto como o companheiro Heráclito ficou parecido com o Marco Maciel!
A partir de amanhã, leiam no blog www.hisbrasil.blogspot.com ou aqui mesmo mais notícias sobre o movimento armado e peripatético que ofuscou a Grande Marcha da China, a Frente Sandinista e a Coluna Prestes.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

A FEIRA DO PASSARINHO, por ROMILDO GUERRANTE

"Funciona em Maceió há quase 50 anos a chamada Feira do Passarinho, no bairro da Levada, área pobre da cidade, com índices baixos de saneamento e elevados de violência.
Conheci a feira há mais ou menos 30 anos. Voltando a Maceió na semana passada, quis saber se ainda existia. Poucos a conheciam como Feira do Passarinho, pois ao longo desses anos ela ficou mais conhecida como Feira do Rato, tal a proliferação de ladrões nos dois lados do trilho por onde passa, mais ou menos de hora em hora, um trem suburbano da CBTU, com janelas protegidas por grades para evitar que os vidros sejam quebrados a pedradas pela vizinhança da linha.
A feira é montada não só ao lado da linha, mas também SOBRE a linha, onde se instalam os sem-barraca e para onde se estendem os puxadinhos dos com-barraca.
Quando soa o apito do trem, os mascates, em ação rápida, desmontam aquilo tudo. O trem passa e, fantástico!, menos de um minuto depois está tudo reinstalado.
Fui alertado para ficar no início da feira, não me aventurar lá para os fundos, área perigosa, onde até mesmo armas de fogo são vendidas. A polícia de vez em quando faz uma blitz, mas, provavelmente avisados, os vendedores de armas desaparecem. Como somem também os vendedores de peças de veículos roubados. A feira é tão tradicional como receptadora de produtos roubados que a primeira coisa que alguém faz quando é roubado é procurar o produto do roubo lá na feira. E faz a negociação, normalmente, se encontrar. E dizer que a feira, em sua origem, era apenas uma feira de escambo, onde se trocava bicicleta por cavalo velho, eletrola por saco de milho.
Infelizmente, no dia em que fui lá (domingo passado), chovia, a luz estava péssima para fotos. Mas deu pra registrar.



Sobre o que rola quando o trem apita na curva, conta o repentista Tchello de Barros:
"...e esse trem quando apita
é um aviso pro povo
que tira a tralha do trilho
num agito pavoroso.
Mas mal o trem vai embora
lá está tudo de novo".

A feira será removida, anunciou mês passado a prefeitura local, para que possam ser feitas as obras de instalação de um sistema de bondes modernos que irão cobrir os 32km de linha, percurso pelo qual os passageiros pagam hoje R$ 0,50".


Valeu Romildo!

domingo, 14 de junho de 2009

NÉTIUÔRQUE DE BLOGS VAI COBRIR GUERRILHA DO PMDB

A partir desta quarta-feira, com narração do locutor que vos fala e comentários de Luiz Antônio Simas, o "Professor que o Brasil consagrou" (e vice-versa), o QUEM É VIVO SEMPRE APARECE entra em rede nacional com o blog HISTÓRIAS DO BRASIL (http://www.hisbrasil.blogspot.com/) para transmitir os melhores momentos da luta encarniçada que o PMDB vai travar a partir de 1º de janeiro de 2011, data em que decide cair na clandestinidade - num oferecimento de Petrobras, Brahma Chopp e Óticas do Povo (morou?).

Leia o manifesto a respeito da imagem que você está vendo na telinha:

“A foto acima é antiga, de junho de 2009. Os átomos estavam em repouso, já haviam jantado e se preparavam para tirar uma soneca quando a Juventude Rebelde do PMDB tomou o poder na USP. Naquele tempo ainda não havia guerrilha, mas foi como o assalto ao quartel de Moncada. No caso, uma mancada da reitora, da polícia e, por que não dizer?, também dos nossos estudantes, uns porraloucas.
Mas a garotada da LER QI (eles têm QI elevado e leem muito, sobretudo os clássicos “Ereções de um jegue”, de Marx e Engels, e “Juventino, o padre pedófilo”, de Lenine e Lula Queiroga) não estava nem aí para probleminhas quânticos e de relatividade, mesmo porque no PMDB tudo é relativo: aquela PEC é relativa à reeleição do senador Fulano, aquela montanha de dinheiro que devia ser destinada a programas sociais é relativa à conta bancária do deputado Sicrano, etc. O vereador Beltrano, que ficou de fora da divisão do numerário, também entendeu que, relativamente à parte que lhe toca, pelo menos deve entrar no rachuncho das empresas de ônibus, e o resto é aquela festa, né mesmo?
Na foto, como dizíamos, a Juventude Rebelde do PMDB participava de um churrasco de confraternização com a reitora da USP e com a polícia de São Paulo (a bateria nota 10 da Vai Vai, em primeiro plano, foi uma das atrações do convescote) quando um de seus integrantes, o ex-posadista Júpiter dos Santos Filho, recém-chegado do planeta Plutão, resolveu ficar com a reitora. Diante da reação negativa do marido da gostosa, nossa torcida jovem organizada ocupou as instalações universitárias, sendo que alguns ficaram lá até a aposentadoria".

Brahma na jogada! Agora é com você, Apolinho da Tijuca!

quarta-feira, 10 de junho de 2009

RAUL DO TROMBONE FOI TOCAR NOUTRA FREGUESIA


Há uns quatro ou cinco anos fui na casa dele, na ensolarada freguesia de Maricá, com alguns amigos - dois deles, Floriano e Salvador, viviam lá. A festa era para levantar uma grana pro gênio, que estava meio caidinho, de dinheiro e saúde. Mas foi pegar no instrumento para remoçar uns quarenta anos. Soprou com força Na Glória, Pororó, Voltei ao meu lugar, das que me lembro. Na vitrolinha, outro clássico das gafieiras, Paraquedista, de José Leocádio, que também faz parte do repertório mais conhecido.
Aos 93 anos, Raul de Barros foi ensinar trombone aos anjos.