O texto indignado abaixo é do meu chapa Victor Abramo. Reproduzo aqui porque vale a pena ser lido pelo menos por mais meia dúzia de pensantes, de acordo com a última pesquisa que o Ibope fez aqui perto de casa.Não sei o que motivou minha reação tão forte nesse dia, mas ao ver a foto e ler a legenda pensei imediatamente: Não, não são meninos de rua! São crianças abandonadas! Crianças que não têm um lar, uma família estruturada, que não freqüentam uma escola, que vestem trapos e se alimentam de solvente ou, pior, de pedras de crack. Crianças que não têm direito de sonhar, pois só conheceram o pesadelo do abandono, crianças que certamente já ouviram falar em carinho, em afeto, mas nunca viram ou sentiram nada parecido e nem sabem como são essas coisas. São crianças que levam porrada desde o dia em que chegam ao mundo, e que nós fingimos não ver em nossa ida e volta ao trabalho.
É mesmo muito fácil pensar que isso é um problema que cabe ao Governo resolver, e continuar desviando o olhar dessa cena deprimente, dessa enorme covardia cometida contra crianças indefesas. Se o Governo não cumpre sua obrigação, cabe a nós exigir que o faça. Cada vez que viramos o rosto para não enxergar essa criminosa realidade compactuamos com os administradores incompetentes ou mal intencionados que nem sequer esboçam qualquer ação no sentido de dar a esses pequenos brasileiros um mínimo de cidadania, algo que a Constituição Brasileira em tese garante a todos os brasileiros, mas na prática só acontece para os ricos e os remediados.
Os mesmos administradores que comemoram a realização dos Jogos Olímpicos a um custo astronômico de R$ 26 bilhões, não têm a decência de explicar, entre uma e outra viagem ao exterior com o dinheiro público, por que nunca existe “verba” para tirar essas crianças desse verdadeiro martírio. O máximo que se envolvem na questão é quando participam de seminários para discutir “as causas da violência”. Ora, é de chorar esse cinismo oficial, esse faz de conta governamental. Perdemos quatro ou cinco ou mais gerações nas ruas. Entregamos milhares de crianças ao Deus dará, não nos incomodamos quando, com fome, sede e atordoados pelas drogas eles vêem os ricos passar com suas poderosas picapes que custam algo em torno de R$ 300 mil e na maioria das vezes transportam apenas o ego de seu dono.
Mas nossas engravatadas autoridades insistem em não entender o que causa a violência. Na certa esperam que estas crianças a quem tudo é negado, a começar pelo direito de existir, nos assaltem com educação, com delicadeza. “Oh, por favor, o senhor pode me passar sua carteira, se não for incômodo?”. “A senhora me perdoe, mas vou levar sua bolsa, seu celular e esse cordão de ouro, tá bem?”. “Oi, irmãozinho, me entregue essa bicicleta? Seu pai amanhã lhe dará outra novinha!”
Não, não é assim. É demais esperar isso de quem sempre foi tratado à tapa em casa (casa?) ou nas ruas. Mas fiquem atentos. Não vai demorar e, como num passe de mágica, esta criançada que brota dos bueiros cheirando a esgoto vai desaparecer pelo menos por uns tempos da cena carioca. Ora, os responsáveis pela realização da Copa de 2014 e das Olimpíadas de 2016 vão tratar de varrer esse lixo humano para um depósito público de crianças sem porvir. E ao pensar nisso torço para que ninguém tenha a péssima idéia de recorrer à solução final ao estilo nazista no pavoroso Rio da Guarda, página mais vergonhosa da história do Rio de Janeiro.
Antes disso, vamos combinar uma coisa. Sempre que aparecer em algum jornal ou site a expressão “meninos de rua” vamos mandar uma enxurrada de e-mails e cartas exigindo que pelo menos tenham a decência de tratá-los pela realidade a que estão condenados: são crianças abandonadas. E vamos nos mobilizar para que na campanha eleitoral que se aproxima esse tema seja obrigatório. Vamos premiar com nosso voto somente quem se comprometer verdadeiramente com essa bandeira e, o mais importante de tudo, vamos nos organizar para, depois da eleição, cobrar o cumprimento de todas as promessas.


















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