Tem doido pra tudo. Eu, por exemplo, adoro um temporal, trovões, relâmpagos, é comigo mesmo. Evidente que gosto de observar de um lugar seco, fico horas na janela só sacando a algaravia da natura. Não coloco nenhuma foto que fiz sobre esse assunto porque até hoje não saiu uma que prestasse. Minha câmera digital não ajuda muito. Isso tudo foi pra dizer que acabo de receber esse vídeo do Sérgio Fleury, grande repórter, colega dos bons tempos do JB e agora, também, pescador de pérolas na internet. Volta e meia, eu e outros felizardos recebemos os e-mails do Fleury com textos, imagens e vídeos pra lá de interessantes. Procurei, de todas as maneiras, encontrar mais informações sobre essa orquestra e ainda não achei nenhuma pista. Quem souber, mande um comentário para esta postagem.
Quinta-feira, 16 de Julho de 2009
A ORQUESTRA DA CHUVA
Quarta-feira, 15 de Julho de 2009
VAGA EM GOIÂNIA PRA ACESSOR QUE SABE FAZÊ RELIZING
Recebi de uma amiga (e ex-colega da UFF) esta pérola enviada para sua caixa postal por uma dessas agências de emprego da internet. O indigente que oferece emprego realmente precisa de um assessor, mas não precisa de nenhum desses "intelequituais de diproma".
Basta ter completado o ensino médio! Se passar disso, com certeza, vai deixar o chefe em apuros, pois o chefe, com certeza, é um asno.
Uma das tarefas do escravinho ou escravinha é preparar um breve "relizing" - para quem não sabe, é palavra da língua inglesa e não tem nada a ver com release. Esse tipo de "acessor" só precisa mesmo é ficar atento para não errar a razão social do cliente. Vai que o cara ou a madame tenham trocado de nome, a conselho de algum numerologista. Vamos que o cliente seja essa artista baiana, a Cláudia Leitte. Já imaginou se no "relizing" ela vira Leite de novo?
Outro detalhe interessante é que o futuro funcionário precisa entrar em contato com assessores de imprensa de jornais e revistas, ah sim!
E a foto no anúncio diz tudo: se for mulher, loura e com cara de gostosa, o emprego tá garantido!
Tirei o nome de minha chapa e substituí por outro que inventei na hora. Qualquer semelhança é semelhança mesmo. Tem muitos homônimos.
Olá, GILMAR MENDES!
Detectamos que existem vagas que se encaixam com seu perfil profissional.
1 Vaga - Assessor(a) de Imprensa (Anúncio Nº 435015)
Escolaridade: Ensino Médio Completo.
Atividades a serem desenvolvidas:
- Contato com empresas e políticos para agendamento de entrevistas;
- mapeamento, administração / controle da agenda de entrevistas;
- preparar breve relizing com histórico do entrevistado e sugestões para perguntas;
- celebrar convênios e acompanhamento com municípios para divulgação de programa de televisão;
- preparação e envio de pop up de divulgação do programa de televisão, administração, contatos, relacionamento com todos os assessores de imprensa de: jornais, revistas e políticos.
Localidade : Indiferente - Goiânia - GO - Brasil
Escolaridade: Ensino Médio (2º Grau) Completo
Sábado, 11 de Julho de 2009
AOS INIMIGOS DA UNIVERSIDADE PÚBLICA E DOS SONHOS
Minha formatura foi uma decepção. Nossos paraninfos, por algum motivo, desconfio que político, não puderam comparecer - o repórter Luiz Cláudio Cunha e o repórter fotográfico João Batista Scalco, a dupla de jornalistas gaúchos que ganhou o Prêmio Esso pela cobertura do sequestro dos uruguaios Lilian Celiberti e Universindo Díaz, quando havia ditadura nos dois países. Decidimos, então, protestar, e foi um protesto meio anarquista, com alguns formandos de bermuda, enfim, uma comédia.
Felizmente, as coisas mudaram muito, e para melhor. Há poucos dias, formou-se uma nova turma no Instituto de Artes e Comunicação Social (IACS), da Universidade Federal Fluminense. Eu nem sabia disso. Fiquei sabendo agora porque o professor João Batista de Abreu, que foi meu colega na UFF, em três redações (JB, O Globo e Diário de Notícias), em dois cursos de seleção (JB e Bloch) e nas arquibancadas do Engenhão e do Maracanã, me enviou o discurso e a foto da oradora da turma, Raquel Júnia de Magalhães, que veio de Patos de Minas.
Eu não sou chegado a discursos. Deste eu gostei e vocês vão matar rapidinho a charada.
“É este o momento de ver reconhecido o nosso esforço, nossa dedicação, nossa trajetória que seguramente era um sonho para muitos de nós. Alguns saímos de outras cidades para estarmos aqui, e chegando em Niterói, apesar das dificuldades de moradia e outras tantas, tivemos o acolhimento dos colegas nativos, vamos dizer assim.
É difícil essa tarefa de falar por uma turma tão heterogênea. Muitos de nós não nos conhecemos muito bem pelas especificidades de nossas habilitações, pelas diferenças no ritmo com que cada um de nós cumpriu as disciplinas que nos trouxeram hoje até aqui. Mas tentarei traduzir nesse pouco tempo alguns sentimentos que devem ser comuns a todos nós.
Primeiro quero falar da nossa Universidade. E como bem fez um amigo que também se formou aqui há dois anos, agradecer ao povo brasileiro por ter nos proporcionado essa formação. Me recordo muito de um dia, véspera de feriado, eu já estava com a mala pronta para passar o recesso na minha cidade. Precisava ir ao estágio de manhã, voltar para casa e pegar as coisas para ir viajar.
De repente lembro que não tinha quase nada em casa para preparar o almoço e o tempo era pouco. Mas aí o campus do Gragoatá estava no meu caminho e também o bandejão. Fui até lá, estava vazio nesse dia, sem filas. Almocei emocionada pensando o quanto a universidade pública estava me oferecendo naquele momento. Não só uma sala de aula, ainda que precária, os professores, o conhecimento. Naquele momento, ela estava sendo mais do que isso. Era como se fosse a minha mãe, não deixando que eu viajasse sem ter almoçado. Pensei o quanto seria maravilhoso se todos os jovens com 20, 25 anos, como eu, tivessem tido essa oportunidade. Somos privilegiados, meus colegas. Sei que muitos de vocês sabem disso.
Talvez a melhor forma de retribuir esse privilégio seja trabalhando para que nunca se considere natural que apenas 13% dos jovens brasileiros estejam na universidade. Nas públicas, são menos de 4%. Deixo aqui o agradecimento dessa turma a essa universidade, a esse povo que pagou com seus impostos este sonho, e a esperança de que os estudantes que por aqui passarem tenham essa consciência de torná-la cada vez mais pública e mãe dos jovens brasileiros.
Somos comunicadores – cineastas, publicitários, jornalistas. E hoje devemos nos perguntar, pensar em cada ensinamento que tivemos aqui, cada vivência, cada conversa no IACS ou num bar da Cantareira, cada reunião do Diretório Acadêmico, o que é sermos comunicadores? Creio que essa pergunta pode ter um sentido para cada um, mas quero lembrar aqui as palavras de Paulo Freire, educador brasileiro, que acredita que a comunicação é acima de tudo um diálogo. “O diálogo é uma relação horizontal de A com B. Nasce de uma matriz crítica e gera criticidade. Quando dois pólos do diálogo se conectam assim, com amor, com esperança, com fé um no outro, se fazem críticos na busca de algo comum. Só aí existe comunicação, só o diálogo comunica”.
Peço que façamos deste diálogo proposto por Paulo Freire nosso método de atuação pelo resto de nossas vidas. Estamos num momento confuso, de crise financeira, mas também de valores, de informação. Somos a todo momento pressionados pelos imperativos desse sistema, o imperativo financeiro, o do sucesso, o do reconhecimento. Estamos perdendo conquistas de outros que lutaram antes de nós. Mas precisamos lembrar que ainda assim nossa capacidade de criação, de inquietude, de rebeldia pode estar acesa. Somos seres históricos e que constrói a história, obviamente dependendo das condições de cada processo histórico.
Comunicadores, temos em nossas mãos possibilidades incríveis, e uma das mais fantásticas talvez seja a de amplificar vozes. À nossa volta temos milhares de histórias para contar, milhares de situações que não são naturais e não são impossíveis de mudar. Que o cotidiano, a vida à nossa volta, o sofrimento e a alegria do nosso povo sejam as principais matérias-primas da construção do nosso fazer comunicacional. Muito mais do que isso, que as fantasias, os sonhos grandiosos, a revolta nos impregne sempre em nosso trabalho.
Nossas tarefas não são poucas, mas são muito justas. Desejo meus colegas, professores, amigos e familiares aqui presentes que não percamos nunca nossa capacidade de sonhar. A passagem por essa Universidade representou muito em nossas vidas, nos foi fazendo a cada dia diferentes. Lembram a história do rio, que uma mesma pessoa não banha duas vezes no mesmo rio – a pessoa mudou e água do rio também.
Pois, é estamos aqui, transformados em seres que a UFF ajudou a construir. Como dizem em outros países da nossa América Latina, ojalá! Ojalá um dia nos reencontremos, e quem sabe num mundo um pouco melhor, com lembranças maravilhosas para contar desse tempo em que passamos na UFF e com o coração cheio de esperanças na nossa transformação, na transformação da nossa comunicação, do nosso mundo.
Estamos aqui para sonhar, para construir, e foi por isso que a sociedade brasileira nos garantiu essa possibilidade de entrarmos numa universidade. Que nunca percamos essa gratidão e esse compromisso. Quando amigas muito queridas me indicaram para ser oradora, eu disse que o faria com os meus sentimentos mais profundos. Não sei se atingi os objetivos de todos os colegas que estão formando aqui, se não, peço desculpas. O melhor dos meus sentimentos que posso transmitir para vocês hoje é a esperança e a capacidade de acreditar que podemos construir outros valores.
Muito obrigada e parabéns, caros colegas comunicadores!”.
É difícil essa tarefa de falar por uma turma tão heterogênea. Muitos de nós não nos conhecemos muito bem pelas especificidades de nossas habilitações, pelas diferenças no ritmo com que cada um de nós cumpriu as disciplinas que nos trouxeram hoje até aqui. Mas tentarei traduzir nesse pouco tempo alguns sentimentos que devem ser comuns a todos nós.
Primeiro quero falar da nossa Universidade. E como bem fez um amigo que também se formou aqui há dois anos, agradecer ao povo brasileiro por ter nos proporcionado essa formação. Me recordo muito de um dia, véspera de feriado, eu já estava com a mala pronta para passar o recesso na minha cidade. Precisava ir ao estágio de manhã, voltar para casa e pegar as coisas para ir viajar.
De repente lembro que não tinha quase nada em casa para preparar o almoço e o tempo era pouco. Mas aí o campus do Gragoatá estava no meu caminho e também o bandejão. Fui até lá, estava vazio nesse dia, sem filas. Almocei emocionada pensando o quanto a universidade pública estava me oferecendo naquele momento. Não só uma sala de aula, ainda que precária, os professores, o conhecimento. Naquele momento, ela estava sendo mais do que isso. Era como se fosse a minha mãe, não deixando que eu viajasse sem ter almoçado. Pensei o quanto seria maravilhoso se todos os jovens com 20, 25 anos, como eu, tivessem tido essa oportunidade. Somos privilegiados, meus colegas. Sei que muitos de vocês sabem disso.
Talvez a melhor forma de retribuir esse privilégio seja trabalhando para que nunca se considere natural que apenas 13% dos jovens brasileiros estejam na universidade. Nas públicas, são menos de 4%. Deixo aqui o agradecimento dessa turma a essa universidade, a esse povo que pagou com seus impostos este sonho, e a esperança de que os estudantes que por aqui passarem tenham essa consciência de torná-la cada vez mais pública e mãe dos jovens brasileiros.
Somos comunicadores – cineastas, publicitários, jornalistas. E hoje devemos nos perguntar, pensar em cada ensinamento que tivemos aqui, cada vivência, cada conversa no IACS ou num bar da Cantareira, cada reunião do Diretório Acadêmico, o que é sermos comunicadores? Creio que essa pergunta pode ter um sentido para cada um, mas quero lembrar aqui as palavras de Paulo Freire, educador brasileiro, que acredita que a comunicação é acima de tudo um diálogo. “O diálogo é uma relação horizontal de A com B. Nasce de uma matriz crítica e gera criticidade. Quando dois pólos do diálogo se conectam assim, com amor, com esperança, com fé um no outro, se fazem críticos na busca de algo comum. Só aí existe comunicação, só o diálogo comunica”.
Peço que façamos deste diálogo proposto por Paulo Freire nosso método de atuação pelo resto de nossas vidas. Estamos num momento confuso, de crise financeira, mas também de valores, de informação. Somos a todo momento pressionados pelos imperativos desse sistema, o imperativo financeiro, o do sucesso, o do reconhecimento. Estamos perdendo conquistas de outros que lutaram antes de nós. Mas precisamos lembrar que ainda assim nossa capacidade de criação, de inquietude, de rebeldia pode estar acesa. Somos seres históricos e que constrói a história, obviamente dependendo das condições de cada processo histórico.
Comunicadores, temos em nossas mãos possibilidades incríveis, e uma das mais fantásticas talvez seja a de amplificar vozes. À nossa volta temos milhares de histórias para contar, milhares de situações que não são naturais e não são impossíveis de mudar. Que o cotidiano, a vida à nossa volta, o sofrimento e a alegria do nosso povo sejam as principais matérias-primas da construção do nosso fazer comunicacional. Muito mais do que isso, que as fantasias, os sonhos grandiosos, a revolta nos impregne sempre em nosso trabalho.
Nossas tarefas não são poucas, mas são muito justas. Desejo meus colegas, professores, amigos e familiares aqui presentes que não percamos nunca nossa capacidade de sonhar. A passagem por essa Universidade representou muito em nossas vidas, nos foi fazendo a cada dia diferentes. Lembram a história do rio, que uma mesma pessoa não banha duas vezes no mesmo rio – a pessoa mudou e água do rio também.
Pois, é estamos aqui, transformados em seres que a UFF ajudou a construir. Como dizem em outros países da nossa América Latina, ojalá! Ojalá um dia nos reencontremos, e quem sabe num mundo um pouco melhor, com lembranças maravilhosas para contar desse tempo em que passamos na UFF e com o coração cheio de esperanças na nossa transformação, na transformação da nossa comunicação, do nosso mundo.
Estamos aqui para sonhar, para construir, e foi por isso que a sociedade brasileira nos garantiu essa possibilidade de entrarmos numa universidade. Que nunca percamos essa gratidão e esse compromisso. Quando amigas muito queridas me indicaram para ser oradora, eu disse que o faria com os meus sentimentos mais profundos. Não sei se atingi os objetivos de todos os colegas que estão formando aqui, se não, peço desculpas. O melhor dos meus sentimentos que posso transmitir para vocês hoje é a esperança e a capacidade de acreditar que podemos construir outros valores.
Muito obrigada e parabéns, caros colegas comunicadores!”.
Raquel Júnia de Magalhães
HOJE TEM ROBERTO CARLOS NO MARACANÃ

- A Fifa – quem diria? - tomou boa decisão. E a CBF já foi avisada: o marketing religioso está proibido nos jogos de futebol. Eu confesso que nem estou torcendo mais por esses caras que, terminado o jogo, surgem com camisas - em inglês, ainda por cima - exaltando Jísus Cráist. São evangélicos, mas podiam ser católicos, macumbeiros, budistas, muçulmanos ou adoradores de belzebu. Não sou religioso, mas esse Jísus Cráist que esses escravos do bispo Macedo, da bispa Sônia e demais picaretas idolatram não tem nada a ver com Jesus Cristo. Cráist é um genérico. Está para Cristo como meu chapa Felipinho Quintans está para o Almir Pernambuquinho.
- Falando em futebol, uma tarde dessas fui ao meu Sindicato participar de uma bela homenagem: a inauguração do Auditório João Saldanha. O evento foi anunciado por uma corrente de jornalistas que torcem pelo Botafogo e estão querendo ajudar o clube a se reerguer, pois do jeito que está, sempre com a faca no pescoço, com jogadores que só esperam uma janela para tentar uma vaguinha em clube europeu ou árabe, em breve o Botafogo periga virar um novo América. Com exceção do Jorge Henrique, que está batendo um bolão no Corinthians, todos os atletas que saem do Botafogo para ganhar mais em outro clube ficam invisíveis.
- O show do Roberto Carlos começa logo mais, com o Maracanã de portões abertos. Faço minhas as palavras de outro chapa e igualmente Felipe, o jornalista e boêmio Felipe Maciel, que pediu a Deus – papo direto, sem esses intermediários picaretas – para morrer antes do parceiro mais esperto do grande Erasmo Carlos e da cega Isolda. A gente não sobreviveria à reprise, durante o funeral que ia durar pelo menos uma semana, de todos os especiais de fim de ano do Rei.
Quinta-feira, 9 de Julho de 2009
SOBRE CURRÍCULOS E FICHAS FALSAS
Já disse aqui que meu voto para presidente em 2010 será dado a um piano de cauda alemão – homem ou mulher, tem que ser meio pesado, pois ando de saco cheio de (apud Tomzé) político de sorriso engarrafado que já vem pronto e tabelado, é somente requentar...Quero gerente de cara feia (como esses dois aí em cima), que não faça o gênero vaselina, e capaz de dar prosseguimento ao que foi feito nos últimos 15 anos, pelos governos Itamar, Fernando Henrique e Lula.
Nem escravo do mercado rei da cocada, nem devoto do estado aparelhado.
Alguém como José Serra ou Dilma Rousseff.
Podem me acusar de estar em cima do muro porque é absolutamente verdadeiro. E tem mais: só vou descer quando me definir – tenho muito tempo para isso.
Um candidato digno, honesto e batalhador resiste à guerra suja? Nem sempre. Por isso, a guerra suja de uma campanha que mal começou é que precisa ser desmontada no dia-a-dia por quem? Por quem, Raimundo Nonato?
Pelos formadores d´opinião, que somos todos os que escrevem, leem, divergem, criticam, polemizam.
Sendo assim, vamos aos fatos:
Serra, felizmente, ainda não foi gravemente atacado. A imprensa não lhe tem sido hostil, mas o meu candidato a candidato do PSDB em 2010 pode ser sovado em praça pública, sim, por conta da firmeza com que defende algumas boas e até más idéias.
Como ex-fumante que voltou a fumar, concordo integralmente com a crítica que hoje é feita a Serra pelo geógrafo Demétrio Magnoli, no Globo. Como deixei o jornal em algum canto e esqueci, o fundamental dessa crítica é que o Serra precisa largar dessa mania de querer administrar até a alma dos outros. Serra não é evangélico nem nada, tem mais é que parar com esses exageros contra os fumantes de Sampa.
Quem está sendo vítima de guerrinha suja hoje é minha candidata a candidato do PT em 2010, a Dilma Rousseff.
Leitor mensal da revista Piauí, li a matéria "Mares nunca dantes navegados" que fizeram da Dilma, 98% favorável à perfilada.
A merda é que os 2% restantes levantaram o caso do currículo, que nos últimos cinco dias fizeram a festa nos jornais.
No entanto, as dúvidas foram totalmente dissipadas pela própria Unicamp.
Sabem onde li? No site da revista Piauí, agorinha mesmo.
Com certeza, os acusadores vão reproduzir, pelo menos trechos.
No entanto, as dúvidas foram totalmente dissipadas pela própria Unicamp.
Sabem onde li? No site da revista Piauí, agorinha mesmo.
Com certeza, os acusadores vão reproduzir, pelo menos trechos.
Pois é, como diria Camões no mesmo poema do qual foi extraído o título: "Passaram inda além da Taprobana".
Serra, dá uma olhada no teu currículo para que não surjam novas intrigas.
A nota da Unicamp está logo abaixo.
A nota da Unicamp está logo abaixo.
A NOTA DA UNICAMP, TIRADA DO SITE DA REVISTA PIAUÍ
A propósito da reportagem “Mares nunca dantes navegados” (Revista Piaui Nº 34, de julho de 2009), com ressonância na edição de 8/7/2009 da Folha de São Paulo (“Dilma admite que currículo acadêmico continha erro”), A Unicamp tem a esclarecer o seguinte:
1. A Sra. DILMA VANA ROUSSEFF foi efetivamente aluna regular do programa de pós-graduação em Ciências Econômicas, no nível mestrado (registro acadêmico nº 78.5090), no Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), de março de 1978 a julho de 1985. A pós-graduanda cumpriu os créditos obrigatórios nas disciplinas exigidas pelo programa de pós-graduação, faltando a elaboração e a defesa de sua dissertação de mestrado.
2. A Unicamp retifica assim a informação prestada anteriormente à revista Piauí por sua Diretoria Acadêmica. O erro decorreu do fato de que, ao efetuar a busca do nome da pós-graduanda no sistema de registros acadêmicos da Unicamp, deixou-se de levar em conta o sobrenome final (Linhares) que a sra. Dilma Vana Rousseff usava na época, e que já não consta de seu registro acadêmico do curso de doutorado.
3. De março de 1998 a dezembro de 1999, a sra. Dilma Vana Rousseff matriculou-se como aluna regular no programa de doutorado em Ciências Econômicas (registro acadêmico nº 98.2714), na mesma unidade da Unicamp. A pós-graduanda cumpriu os créditos obrigatórios nas disciplinas exigidas pelo programa, faltando a elaboração de sua tese de doutorado e a respectiva defesa.
4. Na Unicamp existem cursos de pós-graduação em que o mestrado não é pré-requisito para a realização do doutorado.
Assessoria de Imprensa da Unicamp
Cidade Universitária Zeferino Vaz
Campinas, 8 de julho de 2009.
1. A Sra. DILMA VANA ROUSSEFF foi efetivamente aluna regular do programa de pós-graduação em Ciências Econômicas, no nível mestrado (registro acadêmico nº 78.5090), no Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), de março de 1978 a julho de 1985. A pós-graduanda cumpriu os créditos obrigatórios nas disciplinas exigidas pelo programa de pós-graduação, faltando a elaboração e a defesa de sua dissertação de mestrado.
2. A Unicamp retifica assim a informação prestada anteriormente à revista Piauí por sua Diretoria Acadêmica. O erro decorreu do fato de que, ao efetuar a busca do nome da pós-graduanda no sistema de registros acadêmicos da Unicamp, deixou-se de levar em conta o sobrenome final (Linhares) que a sra. Dilma Vana Rousseff usava na época, e que já não consta de seu registro acadêmico do curso de doutorado.
3. De março de 1998 a dezembro de 1999, a sra. Dilma Vana Rousseff matriculou-se como aluna regular no programa de doutorado em Ciências Econômicas (registro acadêmico nº 98.2714), na mesma unidade da Unicamp. A pós-graduanda cumpriu os créditos obrigatórios nas disciplinas exigidas pelo programa, faltando a elaboração de sua tese de doutorado e a respectiva defesa.
4. Na Unicamp existem cursos de pós-graduação em que o mestrado não é pré-requisito para a realização do doutorado.
Assessoria de Imprensa da Unicamp
Cidade Universitária Zeferino Vaz
Campinas, 8 de julho de 2009.
Sexta-feira, 3 de Julho de 2009
A VERDADEIRA HISTÓRIA DO GOLPE DE HONDURAS
O golpe militar em Honduras confundiu a direita e a esquerda mundiais. Uma nova ideologia surgiu e poucos se deram conta disso.
Só este blogue, nosso parceiro Histórias do Brasil, do professor Simas, e o ex-ministro Roberto Mangabeira Unger – que fala hondurenho com sotaque de Harvard e harvardiano com acento tegucigalpeño – percebemos: por trás do golpe de Honduras estão o efeito borboleta, o gato de Schrödinger e o PMDB!
Vamos aos fatos.
A borboleta e o gato – O ir-e-vir do hoje para o amanhã, ou para o ontem, já foi explicado pela teoria do caos, pelo efeito borboleta, pela máquina do tempo do H.G. Wells e por um montão de seriados no tempo em que a TV era em preto e branco.
O gato é menos conhecido – vem das pesquisas feitas por um físico austríaco sobre superposições quânticas e parte do pressuposto de que um átomo pode estar localizado em dois lugares diferentes ao mesmo tempo.
Schrödinger imaginou um gato dentro de uma caixa, que na verdade eram duas caixas, e dentro dessa caixa, ou melhor dessas duas caixas, havia um vidro de cianureto que podia ser quebrado com uma martelada.
O felino teria o dom da ubiquidade e, com a superposição quântica, tanto podia ficar numa boa, dentro da caixa, como morrer asfixiado pelo cianureto. A borboleta também faz parte da conspiração. Hoje, como diz o camelô, qualquer criança sabe que o bater de asas de borboleta em Niterói pode provocar um tsunami na Ásia ou, pelo menos, um engarrafamento na Ponte.
Resumindo: o futuro já chegou.
Teoria da Relatividade e Teoria da Governabilidade – A tese aqui levantada de que o PT e o PSDB vão empatar na eleição de 2010, formar uma coligação e forçar o PMDB a cair na clandestinidade já virou realidade em Honduras, que é uma espécie de caixa onde o vidro de cianureto foi destroçado pelo martelo!
E é aí que entra o movimento guerrilheiro do PMDB, formado por 171 facções que dominam o país praticamente desde o fim do regime militar. Esse partido criou algo ainda mais fantástico do que a borboleta pé-frio, o gato quântico e a Teoria da Relatividade.
Criou a maquiavélica Teoria da Governabilidade, segundo a qual, seja qual for o partido que estiver no poder (não importa se o PT, o PSDB, o DEM ou o PSOL dos companheiros Heloísa Helena e Tiago Prata), não consegue aprovar porra nenhuma no Congresso Nacional, a menos que o PMDB dê uma mãozinha.
Tornaram-se, portanto, reféns dessa legenda assombrosa que descobriu o óbvio: o bom não é ser o Rei, é ser o melhor amigo do Rei e mandar nele. Nisto reside a ideologia peemedebista, que é uma etapa superior a todos os ismos que a gente conheceu um dia, com exceção do botafoguismo e do portelismo, inatacáveis, pelo menos aqui neste blogue.
Já tem hino e diretoria na PDVSA - A sedição espalhou-se pelo país e já marcou até um encontro para ganhar visibilidade planetária: a Quinta Internacional do PMDB, que se realizará na Ilha de Caras ou, talvez, em Las Vegas, se o subcomandante Agaciel Maia fechar uma parceria com os cassinos e com os concorrentes, digo, com os gângsteres locais.
Pegando o bonde que veio queimando o trilho desde o blog do Simas, sabemos agora – leia aqui – que os rebeldes também já têm um hino, de autoria de Biafra, o Victor Jara de Niterói.
Agora, em primeira mão, este blogue traz uma informação que é uma verdadeira bomba: o golpe militar de Honduras foi desfechado contra uma tentativa de ocupação de Honduras pelos guerrilheiros do PMDB que estavam acumpliciados com Manuel Zelaya e receberam financiamentos da PDVSA, a petroleira do Hugo Chávez, que já tem dois ou três diretores indicados pelo partido!
O golpe de Honduras foi condenado no mundo inteiro, menos aqui, no blogue do Simas e no blogue de Reinaldo Azevedo, aquele jornalista de chapéu, muito culto, mas meio esquerdista para o meu gosto.
Onde entrariam Sarney e Mangabeira – A quartelada foi decidida depois que um dos chefes da guerrilha, talvez o maior deles, o Comandante Sarney (codinomes Ribamar, Marimbondo e Zé do Bigode) entrou em contato com Chávez e com o presidente Manuel Zelaya, que ficaram encantados com o ideário peemedebista e aderiram à Teoria da Governabilidade.
Tudo começou, como diziam os jornalistas pré-diploma, quando Sarney se convenceu de que seria difícil manter seu cargo no Senado. Zé do Bigode correu para o Google para pesquisar quais os países, entidades filantrópicas, academias de letras, clubes de futebol ou sociedades secretas que estavam precisando com urgência de um presidente.
Ficou em dúvida entre a Bolsa Nasdaq e o Congresso de Honduras. A Nasdaq seria muito melhor, em retorno financeiro, mas quando soube que seu ex-presidente, o Madoff, tinha sido condenado a 150 anos de cadeia, o companheiro Sarney virou a página. Desgraça por desgraça, já basta ser senador pelo Amapá e ter que pintar o bigode todo santo dia com tablete de Santo Antônio, pensou.
Ocorreu-lhe que assumir a presidência do Congresso de Honduras seria uma boa saída. Foi então que telefonou para Manuel Zelaya e, depois, para o chefe dele, Hugo Chávez – este ficou particularmente feliz porque ia tirar um aliado de seu maior rival continental, Lula, o presidente do Brasil e do Corinthians.
No entanto, a história vazou. O telefone de Sarney estava grampeado pela Polícia Federal, que tentou plantar a notícia no Ancelmo, no Noblat, no Josias, na Mônica Bérgamo, sem sucesso. No entanto, deu certo no ex-blog do companheiro César Maia. Como todos sabem é de esquerda enquanto ex-blogueiro, embora tivesse sido de direita enquanto prefeito, da mesma forma como voltou a ser botafoguense, agora que perdeu o poder. Antes, ele dizia que César Maia era Botafogo, mas o prefeito era Flamengo. Enfim, até esse blogue ensandecido concorda que o homem é mesmo doido.
A operação é desfechada – O presidente de Honduras, Manuel Zelaya, usava seu pijama de bolinhas azuis favorito quando foi tirado da cama pelos rebeldes do PMDB, usando fardas do exército local, e colocado num avião.
Ficou decepcionado: esperava encontrar um pelotão de fuzilamento, mas em vez disso um comissário de bordo que assistiu dez vezes a “Noviça Rebelde” ofereceu-lhe Pepsi-Cola e uma barra de cereais. O avião era da Gol.
“Não será longa a viagem”, raciocinou Zelaya. “Já sei. Vão me jogar no oceano”. Estava todo pimpão, que nem aquele atacante do Vasco. Imaginou-se um mártir e fantasiou que algum Korda ou Cartier-Bresson faria logo uma foto legal dele para estampar nas camisetas dos maconheiros e iúpis do Leblon e de Vila Madalena.
Qual o quê! Zelaya foi levado para um resort cheio de mordomias em Costa Rica. Este país é uma vergonha para nossa longa tradição golpista latino-americana! Costa Rica nem Forças Armadas tem e o seu povo fraco até hoje não reclamou disso. Dizem que o futuro ex-ministro Nelson Jobim até já enviou um folder para Tegucigalpa, oferecendo consultoria, mas não obteve resposta.
Velhos golpistas bolivianos ficaram excitados com a notícia de que o toque de recolher imposto pelo novo governo duraria 48 horas, mas caíram em profunda depressão quando souberam que ninguém morreu, nem um mísero comuna, um crioulo sequer, um judeu pobre de esquerda, ninguém mesmo.
Mas deu merda! – No dia seguinte, mesmo sob toque de recolher, o comércio abriu (o mesmo não aconteceu, por exemplo, aqui perto de casa, porque o tráfico mandou fechar tudo por causa da morte de um inocente da favela que, por engano, cremou a mãe viva), o povo andava tranquilo nas ruas, feliz da vida por ter se livrado daquele corrupto, digo, do estadista Manuel Zelaya.
Roberto Micheletti, o presidente do Congresso, que assumiu o poder (com o apoio do Supremo Tribunal Federal de Honduras), não existe. É um stuntman, contratado pelo PMDB para atuar nas cenas de perigo. Por trás dele estavam – adivinhem – o comandante José Sarney e o novo ideólogo peemedebista Roberto Mangabeira Unger, que ocuparia o Ministério de Curto, Médio e Longo Prazo (Honduras não tem verba para tantos ministros, ele acumularia as três pastas).
O quebra-cabeças foi se encaixando aos poucos. O PMDB deu o golpe em Honduras, em nome da governabilidade. Sem necessidade de tortura, pelotão de fuzilamento, nada disso. A única baixa, até agora, foi a do jornalista Reinaldo Azevedo, que pirou com a leitura da Constituição hondurenha, dez vezes maior do que a brasileira.
Foi, segundo críticos ferozes do partido, a única coisa boa que o PMDB pós-Ulysses fez em sua história. Estava prestes a colocar em prática, sob a forma de ações de governo, uma nova ideologia – a governabilidade sem derramamento de sangue.
Só não contava com a traição de Hugo Chávez, com a falta de perspicácia de Barack Obama e com essa solidariedade internacional a Zelaya, um concorrente forte na modalidade corrupção.
Se fosse vivo, Nelson Rodrigues repetiria em sua coluna que toda unanimidade é burra. E tome unanimidade: ONU, OEA, União Européia, Obama, Chávez, Fidel, Lula, FHC, Heloísa Helena, Tiago Prata e Bruno Ribeiro! Assim ninguém aguenta mais de uma semana no poder, porra!
O que temos hoje é um pequeno país vítima de um candidato a ditador (que falhou no golpe que pretendia dar) e de um Congresso e de um Supremo ineptos (dirigidos por deputados e juízes sem diplomas que – em vez de impicharem o 171 do Zelaya – foram chamar os milicos!).
Nenhum país aguenta isso: de um lado, um candidato a ditador, e do outro, um bando de candidatos ao Big Brother Honduras.
E foi assim que o PMDB perdeu a chance de assumir a presidência do Senado e o Ministério de Todos os Prazos, em Tegucigalpa.
Ainda bem que o comandante Sarney e seu novo mentor Mangabeira ficaram presos no aeroporto de São Luís do Maranhão e não conseguiram viajar por causa do mau tempo.
Tão pensando o quê? Que o PMDB é amador?
Só este blogue, nosso parceiro Histórias do Brasil, do professor Simas, e o ex-ministro Roberto Mangabeira Unger – que fala hondurenho com sotaque de Harvard e harvardiano com acento tegucigalpeño – percebemos: por trás do golpe de Honduras estão o efeito borboleta, o gato de Schrödinger e o PMDB!
Vamos aos fatos.
A borboleta e o gato – O ir-e-vir do hoje para o amanhã, ou para o ontem, já foi explicado pela teoria do caos, pelo efeito borboleta, pela máquina do tempo do H.G. Wells e por um montão de seriados no tempo em que a TV era em preto e branco.
O gato é menos conhecido – vem das pesquisas feitas por um físico austríaco sobre superposições quânticas e parte do pressuposto de que um átomo pode estar localizado em dois lugares diferentes ao mesmo tempo.
Schrödinger imaginou um gato dentro de uma caixa, que na verdade eram duas caixas, e dentro dessa caixa, ou melhor dessas duas caixas, havia um vidro de cianureto que podia ser quebrado com uma martelada.
O felino teria o dom da ubiquidade e, com a superposição quântica, tanto podia ficar numa boa, dentro da caixa, como morrer asfixiado pelo cianureto. A borboleta também faz parte da conspiração. Hoje, como diz o camelô, qualquer criança sabe que o bater de asas de borboleta em Niterói pode provocar um tsunami na Ásia ou, pelo menos, um engarrafamento na Ponte.
Resumindo: o futuro já chegou.
Teoria da Relatividade e Teoria da Governabilidade – A tese aqui levantada de que o PT e o PSDB vão empatar na eleição de 2010, formar uma coligação e forçar o PMDB a cair na clandestinidade já virou realidade em Honduras, que é uma espécie de caixa onde o vidro de cianureto foi destroçado pelo martelo!
E é aí que entra o movimento guerrilheiro do PMDB, formado por 171 facções que dominam o país praticamente desde o fim do regime militar. Esse partido criou algo ainda mais fantástico do que a borboleta pé-frio, o gato quântico e a Teoria da Relatividade.
Criou a maquiavélica Teoria da Governabilidade, segundo a qual, seja qual for o partido que estiver no poder (não importa se o PT, o PSDB, o DEM ou o PSOL dos companheiros Heloísa Helena e Tiago Prata), não consegue aprovar porra nenhuma no Congresso Nacional, a menos que o PMDB dê uma mãozinha.
Tornaram-se, portanto, reféns dessa legenda assombrosa que descobriu o óbvio: o bom não é ser o Rei, é ser o melhor amigo do Rei e mandar nele. Nisto reside a ideologia peemedebista, que é uma etapa superior a todos os ismos que a gente conheceu um dia, com exceção do botafoguismo e do portelismo, inatacáveis, pelo menos aqui neste blogue.
Já tem hino e diretoria na PDVSA - A sedição espalhou-se pelo país e já marcou até um encontro para ganhar visibilidade planetária: a Quinta Internacional do PMDB, que se realizará na Ilha de Caras ou, talvez, em Las Vegas, se o subcomandante Agaciel Maia fechar uma parceria com os cassinos e com os concorrentes, digo, com os gângsteres locais.
Pegando o bonde que veio queimando o trilho desde o blog do Simas, sabemos agora – leia aqui – que os rebeldes também já têm um hino, de autoria de Biafra, o Victor Jara de Niterói.
Agora, em primeira mão, este blogue traz uma informação que é uma verdadeira bomba: o golpe militar de Honduras foi desfechado contra uma tentativa de ocupação de Honduras pelos guerrilheiros do PMDB que estavam acumpliciados com Manuel Zelaya e receberam financiamentos da PDVSA, a petroleira do Hugo Chávez, que já tem dois ou três diretores indicados pelo partido!
O golpe de Honduras foi condenado no mundo inteiro, menos aqui, no blogue do Simas e no blogue de Reinaldo Azevedo, aquele jornalista de chapéu, muito culto, mas meio esquerdista para o meu gosto.
Onde entrariam Sarney e Mangabeira – A quartelada foi decidida depois que um dos chefes da guerrilha, talvez o maior deles, o Comandante Sarney (codinomes Ribamar, Marimbondo e Zé do Bigode) entrou em contato com Chávez e com o presidente Manuel Zelaya, que ficaram encantados com o ideário peemedebista e aderiram à Teoria da Governabilidade.
Tudo começou, como diziam os jornalistas pré-diploma, quando Sarney se convenceu de que seria difícil manter seu cargo no Senado. Zé do Bigode correu para o Google para pesquisar quais os países, entidades filantrópicas, academias de letras, clubes de futebol ou sociedades secretas que estavam precisando com urgência de um presidente.
Ficou em dúvida entre a Bolsa Nasdaq e o Congresso de Honduras. A Nasdaq seria muito melhor, em retorno financeiro, mas quando soube que seu ex-presidente, o Madoff, tinha sido condenado a 150 anos de cadeia, o companheiro Sarney virou a página. Desgraça por desgraça, já basta ser senador pelo Amapá e ter que pintar o bigode todo santo dia com tablete de Santo Antônio, pensou.
Ocorreu-lhe que assumir a presidência do Congresso de Honduras seria uma boa saída. Foi então que telefonou para Manuel Zelaya e, depois, para o chefe dele, Hugo Chávez – este ficou particularmente feliz porque ia tirar um aliado de seu maior rival continental, Lula, o presidente do Brasil e do Corinthians.
No entanto, a história vazou. O telefone de Sarney estava grampeado pela Polícia Federal, que tentou plantar a notícia no Ancelmo, no Noblat, no Josias, na Mônica Bérgamo, sem sucesso. No entanto, deu certo no ex-blog do companheiro César Maia. Como todos sabem é de esquerda enquanto ex-blogueiro, embora tivesse sido de direita enquanto prefeito, da mesma forma como voltou a ser botafoguense, agora que perdeu o poder. Antes, ele dizia que César Maia era Botafogo, mas o prefeito era Flamengo. Enfim, até esse blogue ensandecido concorda que o homem é mesmo doido.
A operação é desfechada – O presidente de Honduras, Manuel Zelaya, usava seu pijama de bolinhas azuis favorito quando foi tirado da cama pelos rebeldes do PMDB, usando fardas do exército local, e colocado num avião.
Ficou decepcionado: esperava encontrar um pelotão de fuzilamento, mas em vez disso um comissário de bordo que assistiu dez vezes a “Noviça Rebelde” ofereceu-lhe Pepsi-Cola e uma barra de cereais. O avião era da Gol.
“Não será longa a viagem”, raciocinou Zelaya. “Já sei. Vão me jogar no oceano”. Estava todo pimpão, que nem aquele atacante do Vasco. Imaginou-se um mártir e fantasiou que algum Korda ou Cartier-Bresson faria logo uma foto legal dele para estampar nas camisetas dos maconheiros e iúpis do Leblon e de Vila Madalena.
Qual o quê! Zelaya foi levado para um resort cheio de mordomias em Costa Rica. Este país é uma vergonha para nossa longa tradição golpista latino-americana! Costa Rica nem Forças Armadas tem e o seu povo fraco até hoje não reclamou disso. Dizem que o futuro ex-ministro Nelson Jobim até já enviou um folder para Tegucigalpa, oferecendo consultoria, mas não obteve resposta.
Velhos golpistas bolivianos ficaram excitados com a notícia de que o toque de recolher imposto pelo novo governo duraria 48 horas, mas caíram em profunda depressão quando souberam que ninguém morreu, nem um mísero comuna, um crioulo sequer, um judeu pobre de esquerda, ninguém mesmo.
Mas deu merda! – No dia seguinte, mesmo sob toque de recolher, o comércio abriu (o mesmo não aconteceu, por exemplo, aqui perto de casa, porque o tráfico mandou fechar tudo por causa da morte de um inocente da favela que, por engano, cremou a mãe viva), o povo andava tranquilo nas ruas, feliz da vida por ter se livrado daquele corrupto, digo, do estadista Manuel Zelaya.
Roberto Micheletti, o presidente do Congresso, que assumiu o poder (com o apoio do Supremo Tribunal Federal de Honduras), não existe. É um stuntman, contratado pelo PMDB para atuar nas cenas de perigo. Por trás dele estavam – adivinhem – o comandante José Sarney e o novo ideólogo peemedebista Roberto Mangabeira Unger, que ocuparia o Ministério de Curto, Médio e Longo Prazo (Honduras não tem verba para tantos ministros, ele acumularia as três pastas).
O quebra-cabeças foi se encaixando aos poucos. O PMDB deu o golpe em Honduras, em nome da governabilidade. Sem necessidade de tortura, pelotão de fuzilamento, nada disso. A única baixa, até agora, foi a do jornalista Reinaldo Azevedo, que pirou com a leitura da Constituição hondurenha, dez vezes maior do que a brasileira.
Foi, segundo críticos ferozes do partido, a única coisa boa que o PMDB pós-Ulysses fez em sua história. Estava prestes a colocar em prática, sob a forma de ações de governo, uma nova ideologia – a governabilidade sem derramamento de sangue.
Só não contava com a traição de Hugo Chávez, com a falta de perspicácia de Barack Obama e com essa solidariedade internacional a Zelaya, um concorrente forte na modalidade corrupção.
Se fosse vivo, Nelson Rodrigues repetiria em sua coluna que toda unanimidade é burra. E tome unanimidade: ONU, OEA, União Européia, Obama, Chávez, Fidel, Lula, FHC, Heloísa Helena, Tiago Prata e Bruno Ribeiro! Assim ninguém aguenta mais de uma semana no poder, porra!
O que temos hoje é um pequeno país vítima de um candidato a ditador (que falhou no golpe que pretendia dar) e de um Congresso e de um Supremo ineptos (dirigidos por deputados e juízes sem diplomas que – em vez de impicharem o 171 do Zelaya – foram chamar os milicos!).
Nenhum país aguenta isso: de um lado, um candidato a ditador, e do outro, um bando de candidatos ao Big Brother Honduras.
E foi assim que o PMDB perdeu a chance de assumir a presidência do Senado e o Ministério de Todos os Prazos, em Tegucigalpa.
Ainda bem que o comandante Sarney e seu novo mentor Mangabeira ficaram presos no aeroporto de São Luís do Maranhão e não conseguiram viajar por causa do mau tempo.
Tão pensando o quê? Que o PMDB é amador?
DO JORNALISMO, por JOTABÊ MEDEIROS (*)
Passei nos testes, passando a perna em alguns concorrentes. Concorrência, entenderam? Expressão-chave da livre iniciativa. Provavelmente, a empresa que me contratou precisava cumprir aquela cota para não ter encheção de saco do sindicato. “Pega um desses coitados aí das faculdades de jornalismo, paga o piso e tá limpo”.
Tenho a impressão que esse mecanismo, apesar de rústico, garantiu durante alguns anos alguma diversidade na composição social, política e humana das redações. Vocês hão de concordar comigo: é dureza redação na qual todo mundo pensa com a cabeça do dono – ou redação na qual todos os textos parecem escritos por uma única pessoa. E na qual todos parecem vir da mesma região da cidade, e frequentam os mesmos restaurantes, e que acham que o duty free shop do aeroporto é a mais cintilante fronteira.
Se quisessem alguém sem o curso de jornalismo, não havia, como nunca houve, impedimento. Bastava procurar entre os profissionais indicados pelo staff da casa – sobrinhos, filhos, cunhados, concubinas – ou então filhos de juízes, ex-ministros amigos, empreiteiros ou anunciantes de peso.
Esse tipo de mimo intramuros sempre foi largamente praticado na imprensa menos profissional, mas a porta de entrada para as redações era minimamente aberta também para o lúmpen proletariado. Temo que isso tenha acabado.
Alguns bons amigos consideravam a obrigatoriedade uma besteira. Até comemoraram o final dela. São três amigos, nenhum deles fez jornalismo. São ótimos jornalistas, nasceram para o negócio. Mas conheço também péssimos jornalistas que fizeram Ciências Sociais ou Direito.
Pimenta Neves era bacharel em Direito desde 1973. Os partidários do "com diploma" e do "sem diploma" vão acrescentar exemplos de ambos os lados ad nauseum, mas não é esse o ponto. A questão aqui não é de como abastecer o mercado, é mais ampla.
Dizem que não sai jornalista pronto da faculdade de jornalismo. Nunca ouvi falar que o lendário dr. Zerbini saiu médico pronto e notável da faculdade de medicina. O enfrentamento diário com os temas e as dificuldades da profissão é que é fundamental para fazer o profissional. Além de estratégias de aperfeiçoamento contínuo, de cursos, palestras, simpósios e cursos de além graduação.
Considero que há diversas questões atravessadas na discussão sobre a obrigatoriedade do diploma de jornalista para exercer a profissão. Boa parte dos colegas prefere o clichê: os cursos são ruins, não garantem qualidade, os garotos que saem de lá “não sabem escrever”. Para que melhorar seu nível, se podemos simplesmente extinguir sua “origem”, a obrigatoriedade?
Curioso como profissionais de Direito, especialmente aqueles que fizeram o curso na mesma cátedra dos donos de jornal, facilmente acham emprego nas redações, apesar de as faculdades de direito terem um índice de reprovação próximo de 90% no exame da Ordem dos Advogados.
Como o Jânio de Freitas, eu considero uma aberração que tenham levado o tema, de dimensão social, para os domínios do Supremo Tribunal Federal. Nunca foi questão para arbítrio de seis ou sete iluminados da Suprema Corte, mas para a casa da representação popular, o Congresso. Por um motivo simples: o jornalismo tem impacto sobre a vida cotidiana de toda a sociedade, portanto deve ser objeto de atenção do legislativo.
O jornalismo que vem sendo praticado desde a instituição da exigência do diploma foi daninho para a democracia? Não creio. Foi a exigência de diploma que calcificou de alguma forma o jornalismo atual? Não creio.
Não estou aqui defendendo o meu peixe, porque nem tenho peixe. Nem sou sindicalizado, tenho certa alergia aos ritos dos movimentos sociais (aos ritos, não aos movimentos). Tampouco estou me jactando que tenha me tornado um profissional indispensável, um prodígio do jornalismo. Longe disso. Mas, se aprendi a fazer a coisa com cuidado, critério, e sempre muito entusiasmo, devo muito ao curso de jornalismo.
O que aprendi lá? Bom, o curso de jornalismo me empurrou para a discussão das circunstâncias do jornalismo – como ele nasce, como ele resiste, como ele morre às vezes. O curso – e o debate livre dentro dele – me mostrou que o jornalismo pode encobrir interesses diversos, e é importante desbaratá-los (e jamais se confundir com esses interesses). O curso desafiava a gente a buscar a liberdade, o novo, a experimentar, a forçar os cadeados das regras. Claro, um estudante de Letras também pode ser desafiado da mesma forma, mas com qual objetivo?
A questão central do jornalismo, para mim, é a independência. A escolha central que o ofício de jornalista coloca para o profissional é a seguinte: você está com os poderosos ou com os oprimidos? E, já que o poder é migratório, se movimenta e assume diversas formas, é preciso astúcia mínima: com quem está o poder agora?
Como vêem, não é só uma questão de escrever bem ou ter estilo.
Com os agradecimentos a Paulo Lima e a Romildo Guerrante pela indicação
(*) Repórter do Estadão
Quinta-feira, 2 de Julho de 2009
Quarta-feira, 1 de Julho de 2009
DOIS PIANOS DE CAUDA ALEMÃES: O PAI OU A MÃE?
Já disse aqui antes que tenho dois candidatos para 2010.José Serra é meu candidato do PSDB à Presidência da República.
Dilma Rousseff é minha candidata do PT ao mesmo cargo.
São dois pianos de cauda alemães e vou escolher um deles exatamente por este motivo. São - na verdade, eram, pois estão melhorando nesse quesito - difíceis de carregar, duas caras sérias, fazem o tipo gerentão que acho que é o que o país anda precisando.
Gosto mais da Dilma do que do Lula.
E gosto mais do Serra do que do Fernando Henrique.
Lula, antes de virar o Cara, entrou para a política porque o irmão mais velho dele, Frei Chico, o chamou para a militância sindical em São Bernardo do Campo. Ou seja, entrou para defender os interesses dele e de sua categoria profissional.
Dilma entrou para a política como guerreira, de peito aberto, para lutar e, talvez, morrer por um ideal.
Fernando Henrique, antes de se tornar o Príncipe, colocou sua sociologia como mais um lastro do pensamento de esquerda e de oposição que se contrapôs à doutrina da segurança nacional, à ideologia militar dominante. Depois disse para esquecerem o que havia escrito.
Serra, ex-presidente da UNE, mesmo não tendo corrido para pegar em armas, jamais deixou de dar palpites que sempre o colocaram à esquerda, não só de Fernando Henrique, mas também de seu ministro da Fazenda, Pedro Malan. Minha impressão é que vivia brigando com ambos, presidente e ministro.
Hoje, lendo O Globo, vi que meu candidato do PSDB brilhou, com seu artigo sobre os 15 anos do Plano Real.
Eu já gostava do Serra antes disso. Passei a gostar mais ainda. Só não sabia que ele também tinha sido Pai do Real. Ou um deles porque pai, a gente sabe (e o Michael Jackson estava aí até outro dia pra provar), nem sempre é o que faz, mas aquele que cria, que sustenta.
Pelo andar da carruagem, o Real vai acabar que nem o PT. Até um dia desses, quando o PT ainda era um partido meio de esquerda, o que tinha mais no Brasil era fundador do PT.
Hoje, pelo visto, a história se repete com o Real.
Espero que não apareça nenhuma petista no horário eleitoral gratuito para dizer que também é mãe do PAC, senão minha cabeça vai a mil.
Já basta o Real ter tantos pais. O PAC, por enquanto, nem pai tem. Só tem mãe, e mãe só existe uma, né mesmo?
Aguardo o desenrolar da pré-campanha e, depois, da campanha eleitoral propriamente dita, para escolher o piano de cauda alemão mais afinado.
No piano da caixinha de surpresas musicais, o grande Cristóvão Bastos "Mistura e Manda" o chorinho de mesmo título, de autoria de Nelson Alves.
A FEIJOADA DE MARCO CARVALHO VIROU FILME
Quando a gente ouve falar em artes marciais, lembra logo de japonês dando porrada em coreano, tailandês descendo o cacete em vietnamita, etc. O karatê e o tae-kwon-do são esportes considerados artes marciais, mas arte mesmo só a brasileiríssima capoeira. Hoje tem academia de capoeira no mundo inteiro, é sensação em Nova York, e coisa e tal, e esse sucesso todo tem origem na resistência dos negros baianos à opressão e à discriminação que sofriam antes e depois da Abolição.O escritor, cartunista, publicitário e técnico processual do Ministério Público Marco Carvalho, um cara tranquilo como todo bom capoeira (o cara só é meio doido, veja na foto acima), teve há alguns anos a idéia brilhante de romancear a história de Manoel Henrique Pereira (1895-1924) no livro “Feijoada no Paraíso – A Saga de Besouro, o Capoeira”, lançado pela Record.
Manoel não era outro senão o famoso "Besouro Cordão de Ouro", lendário capoeirista de Santo Amaro que também foi imortalizado no samba "Lapinha", dos gênios Baden Powell e Paulo César Pinheiro (som na caixa, no gogó de Elis Regina Carvalho Costa!).
É, portanto, baseado em fatos reais o livro que mostra as aventuras e desventuras de Besouro nos anos 1920. O melhor de tudo é que a bela idéia do Marco virou filme – o longa-metragem "Besouro", do diretor de filmes de publicidade João Daniel Tikhomiroff, que estreia em outubro.
É superprodução aguardada por quem gosta de bom cinema porque vai abordar culturalmente esse esporte que é mais arte do que luta, sem aquelas besteiradas produzidas em Hong Kong.
Filme chato à vista? Engano seu. Inspirada na verve e na pesquisa séria do Marco Carvalho, a roteirista Patrícia Andrade (“Os 2 filhos de Francisco”) entregou um belo enredo a João Daniel, que passou três meses no Recôncavo Baiano rodando o filme, com a participação de capoeiristas locais no elenco, preparados por Fátima Toledo (“Tropa de elite” e “Cidade de Deus”). Para as cenas de porradaria, foi trazido da China o coreógrafo de ação Hiuen Chiu Ku, o mesmo de “Matrix”, “Kill Bill” e “O tigre e o dragão” – que são uns cocôs de filmes, mas não por causa dos efeitos especiais fantásticos do - sem ofensas - Mister Ku.
Meu chapa Marco Carvalho, que tem como outra grande qualidade a paixão pelo Glorioso Botafogo de Futebol e Regatas, já decidiu até o que fazer com o dindim dos direitos autorais dessa feijoada que virou filme e que, com certeza, correrá o mundo: vai apresentar sua tia e fã nº 1 do Léo Batista ao veterano locutor do "Globo Esporte" e pagar um fim de semana (vatapá, bombom Sonho de Valsa e champanhe incluídos) para o casal, no melhor hotel da Ilha de Itaparica.
Terça-feira, 30 de Junho de 2009
RAPIDINHAS DE UM MUNDO FRANCAMENTE EM EBULIÇÃO

- Nem Zelaya nem Micheletto. O melhor nome para operar a transição em Honduras é Roberto Mangabeira Unger. O ex-ministro de Longo Prazo do Brasil já foi procurado por emissários da ONU e da OEA e topou a proposta. Antes de voltar para Harvard, já liberado pelo Lula, Mangabeira Unger irá a Tegucigalpa e prometeu resolver tudo, no máximo, em 25 anos. Será acompanhado de uma pequena comitiva de intérpretes formada pelo fonoaudiólogo Simon Wajntraub, pelo rabino Henry Sobel e pelo treinador Joel Santana. Sobel traduzirá Mangabeira para o fono, e este para Natalino, que se comunicará diretamente com o povo. O Deportivo Motagua, time de maior torcida do país, teme que o excesso de poderes acumulados por Joel Santana resulte na contratação de Obina e Toró.
- Quem quer dinheiro? A Justiça dos Iunaites Esteites condenou a 150 anos de xilindró o ex-presidente da Nasdaq Bernard Madoff, que passou a perna em 8 mil magnatas e falsas celebridades do mundo inteiro. As maiores editoras do mundo já fizeram ofertas a Madoff por sua biografia, o que significa que, nos próximos 150 anos, o mega-especulador vai nadar em euros, dólares, yens e yuans. O biógrafo de Madoff, Fernando Moraes, disse ter recebido muitos pedidos de milionários brasileiros que se queixaram de não ter caído no golpe. Um deles, Roberto Justus, ameaçou processá-lo, caso não entre no livro de ouro do maior fraudador de todos os tempos, na mesma página do Donald Trump. Madoff cumprirá a sentença na Ilha de Caras.
- Capricha que é garantido. O Festival de Parintins, que graças a Deus acabou, com aqueles bois ridículos e suas torcidas-axés, teve seu alvará cassado por um juiz amazonense e será encenado em breve na sala de julgamentos do Supremo Tribunal Federal. Nossa reportagem foi acionada e já apurou os votos que serão dados pelos ministros. O presidente Gilmar Mendes, escolhido para a relatoria, votará no Boi Garantido e deverá ser acompanhado por quase todos os colegas, com exceção de Joaquim Barbosa, único voto garantido até agora do Boi Caprichoso. Marco Aurélio de Mello, sempre uma caixinha de surpresas, só de sacanagem, deve votar no Bumba-meu-Boi. Rasgo meu diploma de cozinheiro formado pelo Senac se isso não acontecer.
- O MST que se cuide! Há mais de três dias, o senador Arthur Virgílio (PSDB-AM ou PSDB-SP, um deles) ocupa a tribuna da mais côncava de nossas Casas Parlamentares para esclarecer a população sobre os motivos secretos que o levaram a empregar três filhos, a mulher e a irmã de seu chefe de gabinete, bem como o fato de ter passado alguns dias em Paris torrando a grana de um tal de Agaciel, que ele chamava, na intimidade, pelo apelido carinhoso de Nina. Será entrevistado na estréia do novo programa do Gugu e, no dia seguinte, de manhãzinha, participará de uma coletiva com Ana Maria Braga e o Louro José, ocasião em que falará das virtudes balsâmicas do açaí, do cupuaçu e do guaraná Pajé.
- Marimbondos me mordam! Enciumado, o mega-senador José Sarney (PMDB-AP ou PMDB-MA, um desses dois) prometeu vingança. Ficará exposto à visitação pública durante sete dias seguidos no Salão Nobre da Academia Brasileira de Letras, acompanhado em tempo real pelo Datena. O senador Sarney vai escrever a segunda parte da obra-prima de seu conterrâneo Ferreira Gullar. O “Poema Mais Sujo Ainda” será publicado em capítulos semanais em sua coluna na Folha de S. Paulo. José Sarney já confidenciou a seus amigos: quando deixar a literatura e o Brasil em paz, será candidato à presidência da Nasdaq, na vaga de Madoff.
Segunda-feira, 29 de Junho de 2009
O GOLPE DE HONDURAS É ARMAÇÃO DO WOODY ALLEN
Êpa, com circunflexo!Que golpe foi este?
Estados Unidos, Venezuela e Cuba estão juntos, ao lado do presidente deposto.
A OEA condenou o golpe e pediu a volta imediata de Manuel Zelaya ao cargo.
O presidente deposto, em vez de assassinado, foi sequestrado e despachado pelos militares para Costa Rica, um país vizinho conhecido por suas tradições democráticas... e que nem Exército tem!
No lugar do deposto entrou um companheiro de partido que ocupa a presidência do Congresso, Roberto Micheletti.
O presidente derrubado queria mudar a Constituição do país, a três meses da eleição, para poder se reeleger.
Assumiu em nome de um partido de direita e virou chavista.
A suprema corte de Justiça está contra o presidente deposto.
O alto comando militar foi dissolvido porque o principal comandante militar negou-se a apoiar a realização do plebiscito.
O exército tomou as ruas da capital hondurenha, sob toque de recolher.
Um diplomata brasileiro diz que a cidade parece tranquila. As escolas e o comércio abriram.
E o presidente que assumiu, Roberto Micheletti, disse há pouco que aceitaria receber o presidente deposto de braços abertos, desde que o Chávez não venha junto.
Foi golpe, contragolpe ou o argumento de Woody Allen para filmar a continuação de “Bananas”?
Sábado, 27 de Junho de 2009
AULA DE JORNALISMO NUM BAR DO FLAMENGO
Esta postagem abre uma série de textos sobre a decisão do STF, que “acabou o diploma” de jornalista. Acabou mesmo? O jurista José Paulo Cavalcanti Filho diz que não, e eu transcrevo aqui um arrazoado escrito por ele. Também reproduzo outros bons textos – de Jânio de Freitas, Alberto Dines, Muniz Sodré, João Batista de Abreu, Nilo Sergio Gomes e Henrique Acker. No texto abaixo, conto a história comovente de um grande professor de jornalismo que tive, num boteco do Flamengo, cujos ensinamentos, felizmente, ignorei.Uma noite dessas, liguei a TV para assistir, como sempre faço, ao programa Observatório da Imprensa. Alberto Dines tinha três entrevistados – o jurista José Paulo Cavalcanti Filho, o professor Muniz Sodré e o ex-ombudsman da Folha e do IG Mário Vitor Santos. Dos três, conhecia dois pessoalmente. Muniz Sodré foi meu professor num nos primeiros semestres do Instituto de Artes e Comunicação Social da UFF. Mário Vitor, meu colega no mesmo IACS.
Ao longo da vida profissional, tive e tenho colegas e amigos contra e a favor do diploma ou de sua obrigatoriedade para o exercício profissional. Comecei em 1973, quando eram raros os jornalistas com diploma. Muitos nem tinham quaisquer outros diplomas.
Dos três, o que mais me surpreendeu foi o gênio da raça Mário Vitor Santos, nem tanto por aplaudir a decisão do STF, mas pela cara de pau de repetir a ladainha de que o diploma foi imposição do regime militar para restringir a liberdade de informação e por falsear a verdade quando afirmou que o jornalismo que se pratica hoje nas empresas tem baixa qualidade e, pior, que isso ocorre por culpa dos jornalistas que nelas trabalham, não dos patrões e seus paus-mandados.
Lembrei de uma boa história logo depois de desligar a TV.
O FURO DO ANO - Foi no tempo do governo Figueiredo, quando estava chegando ao fim o rodízio militar na Presidência da República. A situação era relativamente amena, com a anistia decretada e muita gente boa e ruim de volta do exílio. Qualquer zé-mané falava mal do governo. Parecia que estávamos na democracia.
Era, se não me engano, um sábado. O Jornal do Brasil já havia fechado o primeiro clichê e, em vez de tomar o rumo de Niterói, eu e meu amigo e colega de editoria Osvaldo Maneschy estávamos a caminho do Lamas para encher a cara e falar mal do governo. Existe coisa melhor do que falar mal do governo, depois de 20 anos de ditadura?
Antes, paramos num boteco da esquina da Barão do Flamengo, onde hoje acho que é franquia do Devassa. Paramos porque reencontrei ali um ex-colega da UFF, um lourinho de fala mansa que enchia o saco de todo mundo no diretório acadêmico, pois era craque em manipulações.
O cara gostava de dar a última palavra sobre tudo, mas ninguém jamais o vira botando a mão na massa. Adorava mandar. Nem seus companheiros do MR-8 o aturavam muito, mas era um rapaz esperto e, por isso, acabou comandando o Diretório Acadêmico de Comunicação da UFF, o Daco.
Parei. Afinal, era um ex-colega. Apresentei-o ao Maneschy e batemos um papo rápido, coisa de 20 minutos, se tanto. O cara estava feliz da vida. Depois de alguns estágios na profissão, alguém tivera a idéia de chamá-lo para trabalhar em um novo jornal de esquerda que surgia. Ia para São Paulo fazer o que mais gostava: dar ordens.
Mário Vitor Santos tinha mais razões para se alegrar: sob seu comando, a Hora do Povo poria, dias depois, na primeira página, uma manchete pesada, que fizera seus leitores babarem com a informação de que encontrariam no jornal uma longa relação de personalidades, um monte de corruptos, que tinham contas numeradas na Suíça.
Eu e o Maneschy tivemos essa informação, portanto, em primeiríssima mão. E nos olhamos, meio espantados. Conta numerada, como o próprio nome diz, tem números, não nomes e sobrenomes. Porém, sabe-se lá! E não é que alguns nomes foram citados pelo Mário Vitor? Tinha de tudo: ministro da ditadura, deputado da oposição, empresário, banqueiro, o diabo.
Quem é a fonte disso aí?, indaguei.
– O Partido Socialista da Suíça!!!
Maneschy caiu na besteira de perguntar como iriam provar a denúncia. E eu reforcei a pergunta do Maneschy, pois, afinal, aquilo poderia acabar dando cadeia. Três ou quatro anos mais velho do que o novo big boss do jornalismo panfletário, realmente fiquei preocupado com o cara, mesmo não fazendo parte de seu grupo político ou de seu círculo de amigos. E mais ainda depois que ele disse que a coisa tinha origem num dossiê de esquerdistas helvéticos, ou seja, um bando de doidos.
– Pelo menos algum dos caras acusados vai confirmar alguma coisa? – perguntei candidamente.
O TORTURADOR ARREPENDIDO - Minha pergunta tinha sentido. Outro jornal nanico, o Em Tempo, publicara um listão com 400 ou 500 nomes de torturadores. As fontes eram suas vítimas. E mais: o número seguinte do Em Tempo foi ainda melhor porque um dos torturadores concordara em falar, confirmando que, sim, realmente havia participado daquela merda toda e estava arrependido. Detalhe: morreu assassinado depois do mea culpa, e dizem que por ex-colegas de batente.
Voltando ao buteco, foi bobagem perguntar se a história que a Hora do Povo publicaria tinha lastro. Levamos um esporro do futuro diretor do jornal. Na base da brincadeira, com aquele jeito manso que eu conhecia, fomos acusados de imbecis que ainda acreditavam na imprensa burguesa, na imparcialidade jornalística, nesse negócio babaca de ouvir o outro lado.
Foi uma bela lição de jornalismo que tive ali. Ainda bem que gosto de ouvir o outro lado. E no outro lado estavam alguns dos meus mestres de jornalismo da UFF, como o Antônio Theodoro de Barros e o Nilson Lage, que pensavam bem diferente daquele rapazinho radical.
Daí meu espanto por sua performance no Observatório da Imprensa.
Claro que já estava careca de saber que há muito tempo as posições de Mário Vitor Santos haviam mudado, como sempre, radicalmente.
Tive ânsia de vômito ao ouvi-lo dizer – tudo bem que provocado pelo Alberto Dines – que convidaria prazerosamente o ministro Gilmar Mendes para dirigir uma publicação, quem sabe da Casa do Saber.
Ô CIENTISTA! Ô TEATRÓLOGO! - Disse mais o entrevistado: graças ao Supremo, teremos agora diretores de teatro, produtores de cultura, cientistas, advogados, escritores e outros mais bem preparados intelectualmente para que as redações de jornais, telejornais e o escambau possam dar um salto de qualidade.
Duvido muito, com o salário que mesmo os grandes jornais pagam, que gente “tão preparada” aceite coberturas rotineiras. Imaginei logo o Cascon, na Reportagem do Globo, dizendo a uns e outros:
– Ô “Cientista”! Vai lá na Fiocruz que logo mais tem a coletiva da suína!
– Ô “Teatrólogo”! A escuta soube agora que uma menina de quatro anos levou uma bala perdida ali perto do Morro da Mineira! Vai lá pra ver se foi peça da PM ou do movimento!
– Ô “Data Vênia”! Inverteram a mão na Atlântica, tá a maior quizumba no calçadão. Vai lá e mete um habeas corpus no Eduardo Paes!
Estranhei muito que tantas sandices tivessem saído da boca de um professor de... Jornalismo. Pobres alunos da Faculdade Casper Líbero, onde nosso ex-radical deu ou ainda dá aulas...!
Respeito os argumentos dos jornalistas de verdade, não dos burocratas de redação, que são contrários ao diploma de Comunicação ou de Jornalismo, mas achei demais ouvir tantas sandices do entrevistado de Dines.
Posso estar enganado, mas não estou convencido de que alguém passe muito tempo nesta profissão, onde se ganha pouco e se trabalha muito, se não tiver realmente vocação. E quem tem vocação, ou acha que tem, procura um curso de jornalismo. Evidente que ampliar o saber é fundamental. Então que faça também outros cursos, além de Comunicação Social ou Jornalismo. O de Economia é um ótimo exemplo. O de Direito, sei lá...
As figuras que conheço e conheci nesta profissão se orgulham de ser ou de ter sido repórteres, redatores, editores, diagramadores, repórteres fotográficos, etc.
O jornalismo de “baixa qualidade” nem mesmo tem mais ex-repórteres, ex-redatores, ex-editores. Agora o quente é ter passado de ombudsman, de ouvidor de portal, webwriter, etc.
Até cagação de regras tem limites. Não dá para respeitar opinião, seja lá qual for, de quem apagou do próprio currículo a passagem pelo jornal Hora do Povo (esse negócio de apagar história revela que o stalinismo continua em alta), onde aquela história do listão de contas “numeradas” na Suíça deu mesmo cadeia.
Não para ele, é claro. Para outros.
VIVA O DIPLOMA!, por MUNIZ SODRÉ (*)
Em fevereiro de 2007, a Newspaper Association of America anunciou, durante sua convenção anual em Las Vegas, o lançamento de uma campanha nacional para incutir no público leitor a idéia de que o jornal do futuro será uma “multiplataforma de informação”, o que implica na prática a junção empresarial e cultural do papel com a Web. Daí, slogans do tipo “a Internet é a melhor coisa que poderia acontecer aos jornais”. Mas será essa também a melhor coisa que poderia acontecer aos jornalistas?Esta questão tem alguma pertinência para o atual debate sobre a exigência de diploma universitário.Em princípio, é preciso debater a hipótese de que essa nova face da informação pública possa pôr em crise a própria identidade do jornalismo clássico como mediação discursiva e como funcionalidade específica de um grupo profissional. Disto um claro sintoma é a questão levantada por um arauto da chamada cibercultura: “Seria ainda necessário, para se manter atualizado, recorrer a esses especialistas da redução ao menor denominador comum que são os jornalistas clássicos?”. A resposta, de certo modo, começa a ser dada pelos grandes conglomerados do jornalismo impresso, por meio da progressiva conversão empresarial do papel à eletrônica. Nada impede que o jornalismo troque de suporte preferencial, uma vez que os conteúdos informativos, na medida da independência de sua forma técnica, podem passar de um suporte para outro, sem alterar substancialmente a sua natureza. A despeito do potencial midiático da Internet, a digitalização em si mesma não é um medium, e sim um processo técnico (informático).
Veja-se o livro: mesmo digitalizado continua a ser “livro”, isto é, a organizar seqüencialmente os conteúdos de acordo com a milenar forma códice (codex), embora ainda sejam grandes as dificuldades de leitura de textos extensos na tela do computador. Daí, as hibridizações formais, já praticadas por alguns jornais, entre a escrita tradicional e a escrita para a tela do computador, oferecendo ao público a opção de leitura jornal entre resumos e textos maiores.
Ainda o livro: também não se pode passar por cima da evidência de que, em nossa modernidade, a forma códice (escrita unidirecional, páginas organizadas em cadernos e costuradas), depois chamada livro, impôs-se aos usos e aos espíritos como locus do conhecimento centrado, da leitura que constitui pastoralmente a cidadania, da produção do sentido e do real medidos pela escala do humanismo.O mesmo se dá com o jornal. Pode trocar de suporte técnico, pode mesmo existir na complementação dos suportes (papel e eletrônica), mas continua impelido, como forma moderna e democrática da comunicação, pela ideologia humanista que garante a cidadania. Eventuais descaminhos não podem elidir a evidência de que a imprensa brasileira, por exemplo, jamais deixou, em seus 200 anos de existência de estar presente, como parte essencial, nas causas que ajudaram a dar à Nação a sua face atual – a abolição da escravatura (de cuja campanha participou a maioria dos jornais provinciais) e a criação da república. O jornalismo, no Brasil e no resto do mundo, reflete as questões públicas decisivas para os rumos da Nação.
Como conceber hoje o funcionamento dessa instituição “quase-pública”, geradora da informação necessária ao cidadão para o pleno funcionamento da democracia, sem uma formação universitária, especializada, de jornalistas? Informação não é mero produto, nem serviço: é o próprio solo da sociedade em que vivemos, é o campo onde joga o cidadão. Se a garantia dessa formação adequada se espelha hoje no diploma, viva o diploma.
(*) Presidente da Fundação Biblioteca Nacional, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro e doutor em Comunicação pela Sorbonne
APRENDIZ DE COZINHEIRO, por JOÃO BATISTA DE ABREU(*)
Nesses 55 anos de estrada, confesso que vivi. Profissional e afetivamente. Mas que me perdoe Pablo Neruda, nunca aprendi a cozinhar. Sei apenas de cozinha de jornal. Aquele trivial simples, como fazer títulos e linhas de apoio, legenda e texto-legenda, chamada, macaca e outros adereços. Aprendi a botar tempero na matéria alheia, numa época em que o copidesque do Jornal do Brasil estava repleto de gurmês de fino trato. E eu, apenas um aprendiz de cozinheiro.Nesses 35 anos de janela, compreendi que a paisagem nos oferece várias lições e que nos cabe assimilá-las ou não. A universidade se apresenta como um balcão de ofertas. Uma oferta democrática porque permite a aprendizes conhecer, experimentar, refletir, enfim preparar receitas que, espera-se, algum dia serão destinadas à sociedade. No espaço da sala de aula pode-se sim ensinar técnicas jornalísticas. Se não acreditasse nisso, preferiria pedir demissão.
Quando um poder supremo desmerece uma profissão desqualifica também sua formação. Ignora o longo tempo de dedicação de jovens que buscam nos bancos escolares ascensão social e a perspectiva de encontrar um lugar digno na sociedade, sem depender de favores, práticas de nepotismo ou arranjos partidários.
Talvez seja essa possibilidade que incomode tanto. Silenciosamente, a universidade pode contribuir para dotar cidadãos das mais variadas origens sociais de uma reflexão crítica, sem qual ele não exerceria qualquer profissão de nível superior na sua plenitude.
Como repórter, aprendi que a maioria dos jornalistas não costuma ser convidada para banquetes e aqueles que o são correm o risco de pagar uma conta alta na carreira. Certa vez, ao entrevistar um empresário durante um coquetel para o qual eu não fora convidado, arranquei-lhe algumas respostas enquanto ele degustava tranquilamente um camarão, sem ao menos ter a educação de oferecer ao entrevistador. Interpretei aquela atitude como um recado, que marcava a distinção do lugar social entre os dois personagens.
Os filmes de Buñuel ensinam como as refeições representam um lugar de exclusão e inclusão na sociedade burguesa. A constatação nos ajuda a entender a metáfora do ministro onipotente. Novamente a demarcação entre os que sentam à mesa do banquete e os que preparam a comida. Sem diploma, e portanto sem os benefícios econômicos que dele advêm, o que se deseja é que fiquemos sempre condenados a preparar a comida alheia, especialmente a dos comensais de banquetes.
Aos jovens cozinheiros, candidatos a chefes de cozinha, fica a advertência. Não confundam o lugar do jornalista com os dos representantes da Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP), principal articuladora do lobby que derrubou a obrigatoriedade do diploma. Ho Chi Minh – cozinheiro da colonial Marinha francesa –, nos mostrou que é possível um pequeno Davi de olhos puxados sair vitorioso na luta contra Golias. A nossa luta é a do feijão com arroz contra o supreme de frango.
(*) Jornalista com diploma
O DIPLOMA NÃO ACABOU, por J. PAULO CAVALCANTI (*)
NÃO, O diploma dos jornalistas não acabou. A decisão do Supremo Tribunal Federal, na última semana, limitou-se a dizer que o decreto-lei 972/69 era incompatível com a Constituição democrática de 1988. Mais nada.E merece elogios - por pretender, esse monstrengo da Redentora, exercer o controle do jornalismo a partir do Estado. Era nele que estava, em regra acessória (artigo 4º, V), a exigência de diploma para registro dos jornalistas no Ministério do Trabalho.
Ocorre que, tecnicamente, jamais poderia o STF declarar sem valor o decreto-lei e deixar vigendo uma de suas regras. Sem juízo de valor, no julgamento, sobre o dito diploma -que poderá voltar a ser exigido em outra lei. Apenas isso.
O mais são palavras ao vento. Inclusive as do eminente presidente Gilmar Mendes, que, mais uma vez, expressa opinião pessoal sobre tema que pode vir a ser discutido no Supremo - em vez da reserva que, como regra, a seus ministros conviria guardar em situações assim.
Isso posto, cabe então perguntar se, afinal, esse diploma é bom ou ruim para a cidadania.
Não há consenso. Divididos, os países, em três posições. Primeiro grupo, o dos que exigem diploma: Bélgica, África do Sul, Arábia Saudita e mais 11 pequenos. Segundo grupo, o dos que não aceitam nenhum tipo de limitação ao exercício da profissão: Chile, Áustria e Suíça, na linha de “um modelo de desregulamentação” absoluto, como defendido pelo ministro Gilmar Mendes. Duas visões francamente minoritárias, pois.
Havendo ainda um terceiro grupo, bem mais amplo, dos países que admitem algum tipo de exigência prévia para o exercício da profissão, segundo padrões culturais não uniformes: idade mínima, escolaridade, ausência de condenação penal, algum curso médio ou superior, curso preparatório específico, estágios compulsórios.
Esse panorama considera só a base legal; um diploma, no mundo real, significa maiores chances de obter emprego e/ou salário melhor.
Na Alemanha, por exemplo, quase nenhum jornal importante contrata quem não tem diploma. Nos Estados Unidos, onde ele também não é exigido, há 400 faculdades, 120 cursos de pós-graduação e 35 doutorados; sem contar que, na média, 80% das Redações são compostas por diplomados.Maior diferença, entre Redações brasileiras e estrangeiras, é precisamente a quantidade de jornalistas com cabelos brancos: abundantes, nas democracias consolidadas, e escassos, no Brasil, pelo uso indiscriminado de estagiários, lumpens na profissão, mão de obra jovem e barata.Mas por que jornais, em regra, tanto querem jornalistas diplomados?A resposta é simples. Por ser dispendioso ensinar, dentro das Redações, a fazer um jornal. E também porque jornalistas aprendem, nas universidades, que errar custa caro.
Nos Estados Unidos, com vitória dos demandantes em 75% dos casos, a média das indenizações oscila entre US$ 100 mil e US$ 200 mil dólares.Com frequência, vai muito além disso. Por exemplo: Leonard Ross x “New York Times”, US$ 7,5 milhões; Richard Sprague x “Philadelfia Inquirer”, US$ 34 milhões; Victor Feazel x Dallas Television Station, US$ 58 milhões; “Wall Street Journal” x Money Management Analytical Research, US$ 222,7 milhões.Dando-se então que jornalistas formados, por estatisticamente errar menos, valem mais. E ganham bem mais também, claro. Desde que haja leis de imprensa decentes, faltou dizer. O que nunca tivemos -e continuamos sem ter.
Posta a questão em tons técnicos e mais serenos, o que se vê hoje em nosso país é um cenário anormal. Exótico. Porque, em toda parte, são os próprios jornalistas que não aceitam a exigência do diploma, enquanto aqui sua defesa é feita pela Fenaj (Federação Nacional dos Jornalistas). E empresas sempre pedem diploma -enquanto aqui as restrições contra ele partem de um de nossos mais respeitados jornais, a Folha de S. Paulo. Coisas do Brasil.
Dando os trâmites por findos, assim, cumpre agora esperar por legislação específica do Congresso Nacional - a quem cabe, com mais propriedade e mais legitimidade, estabelecer requisitos para o exercício das profissões. A ele cumprindo, afinal, decidir se o diploma deve ser mesmo exigido.
Ou não.
(*) Jurista, ex-presidente do CADE e da EBN
AS EMOÇÕES DO DIA SEGUINTE, por ALBERTO DINES (*)
As edições de quinta-feira (25/6) do Globo e da Folha de S. Paulo ofereceram sinais de que a grande imprensa está disposta a rever o insensato apoio a duas recentes decisões do Supremo Tribunal Federal relativas à atividade jornalística.No Globo, um abundante noticiário (pág. 10) reproduziu o debate do dia anterior sobre o Direito de Resposta, promovido pela Escola da Magistratura do Rio.
Convém lembrar que no fim de abril, a grande mídia exultou com a decisão do STF extinguindo integralmente a Lei de Imprensa. Arrependeu-se logo depois porque a liquidação pura e simples da lei sem algo que a substituísse deixou um perigoso vácuo legal. Agora, ao participar do evento dos magistrados (que precisam de leis para basear seus veredictos), fica visível ao leitor que o jornalão carioca está reconsiderando o assunto.
A Folha atravessa um dos momentos mais difíceis da sua história recente – devido a proximidade com o senador Sarney – por isso foi mais rápida e ressuscitou menos de uma semana depois a questão do diploma de jornalismo por meio de um artigo do jurista José Paulo Cavalcanti Filho.
Imaginava o jornalão paulista que o nosso maior especialista em direito de comunicação faria coro aos que condenaram o diploma. Já na edição televisiva do Observatório da Imprensa de terça-feira (23/6), mestre Cavalcanti havia arrasado grande parte da argumentação das empresas jornalísticas; na quinta-feira, no artigo da Folha, foi ainda mais incisivo.
Para o Globo será fácil e conveniente endossar o clamor dos magistrados por um estatuto que regulamente o Direito de Resposta. Mas para a Folha será mais muito complicado. Afinal a cruzada contra o diploma foi iniciada por ela há 34 anos e, ao longo deste tempo, publicaram-se os maiores disparates e falácias não apenas sobre o diploma, mas principalmente sobre a profissão de jornalista que o jornal deveria respeitar e valorizar.
A ressaca do day after promete muitas emoções.
(*) Jornalista, escritor e criador do Observatório da Imprensa
A LIBERDADE DAS MÁS RAZÕES, por JÂNIO DE FREITAS (*)
"Liberdade de expressão" não é uma expressão de liberdade, é uma fórmula cuja utilidade política está em encobrir limitações e condicionantes do direito de expressão. Umas necessárias à sociedade, outras impostas para preservação de domínio.Magistrados e advogados abusaram do uso da expressão que sabem ser falaciosa, para chegar à extinção, pelo Supremo Tribunal Federal, da exigência de diploma específico para profissionais do jornalismo. A exigência, não nascida dos motivos repetidos no STF, foi um excesso problemático desde sua criação em 1969, mas nem por isso deixou de produzir um efeito muito saudável e nunca citado, no STF ou fora. Em lugar do diploma específico, a obrigatoriedade de algum curso universitário, não importa qual, seguida de um curso intensivo de introdução aos princípios e técnicas do jornalismo, seria a fórmula mais promissora para a melhor qualidade dos meios de comunicação.É um argumento rústico a afirmação de que diploma obrigatório de jornalismo desrespeita a Constituição, por restringir o direito à liberdade de expressão. É falsa essa ideia de que o jornalismo profissional seja o repositório da liberdade opinativa. São inúmeros os meios de expressão de ideias e opiniões. E, não menos significativo, a muito poucos, nos milhares de jornalistas, é dada a oportunidade de expressar sua opinião, e a pouquíssimos a liberdade incondicional de escolha e tratamento dos seus temas. (A esta peculiaridade sua, a Folha deve a arrancada de jornal sobrevivente para o grande êxito).A matéria-prima essencial do jornalismo contemporâneo não é a opinião, é a notícia. Ou seja, a informação apresentada com técnicas jornalísticas e, ainda que a objetividade absoluta seja um problema permanente, sem interferências de expressão conceitual do jornalista. A grande massa da produção dos jornalistas profissionais não se inclui, nem remotamente, no direito à liberdade de expressão. Há desvios, claro, mas a interferência de formas opinativas no noticiário serve, em geral, à opinião e a objetivos (econômicos ou políticos) da empresa. Neste caso há, sim, uma prática à liberdade de expressão, no entanto alheia ao jornalismo, aí reduzido a mera aparência de si mesmo.
Os colaboradores, não profissionais de jornalismo, são os grandes praticantes do direito de liberdade de expressão nos meios de comunicação. E nunca precisaram de diploma de jornalista. A extinção da exigência de diploma em nada altera as possibilidades, as condicionantes e as limitações da liberdade de expressão na produção do jornalismo. Altera o que chamam de mercado de trabalho para os níveis iniciais do profissionalismo. Para os níveis mais altos, há muito tempo as empresas adotaram artifícios para dotar suas redações de diplomados em outras carreiras que não o jornalismo. À parte a questão legal, o resultado é muito bom.Com o diploma, extinto à maneira de um portão derrubado e dane-se o resto, o STF eliminou sem a menor consideração o efeito moralizante, não só para o jornalismo, trazido sem querer pela exigência de curso. Efeito sempre silenciado. Deu-se que os anos de faculdade e seu custo desestimularam a grande afluência dos que procuravam o jornalismo, não para exercê-lo, mas para obter vantagens financeiras, sociais e muitas outras. Tal prática sobreviveu à exigência do curso, porém não mais como componente, digamos, natural do jornalismo brasileiro. É lógico que as empresas afirmem critérios rigorosos para as futuras admissões, mas sem que isso valha como segurança de passar da intenção à certeza.O julgamento do recurso antidiploma trouxe uma revelação interessante, no conceito que a maioria do Supremo e os advogados da causa mostraram fazer da ditadura. Segundo disseram, já a partir do relatório de Gilmar Mendes, o decreto-lei com a exigência de diploma era um resquício da ditadura criado, em 69, para afastar das redações os intelectuais e outros opositores do regime. Ah, como eram gentis os militares da ditadura. Repeliram a violência e pensaram em uma forma sutil, e legal a seu modo, de silenciar os adversários nos meios de comunicação, um casuísmo constrangido.
Nem que fosse capaz de tanto, a ditadura precisaria adotá-lo. Sua regra era mais simples: a censura e, se mais conveniente, a prisão.O julgamento no STF dispensou a desejável associação entre direito à liberdade de expressão e, de outra parte, recusa a argumentos inverazes. A boas razões preferiu a demagogia.
(*) Jornalista, colunista e membro do Conselho Editorial da Folha de S. Paulo
MAIS UMA FATURA, por HENRIQUE ACKER (*)

Que razões levaram juízes do Supremo Tribunal Federal a determinar não ser preciso um diploma para o exercício da profissão de jornalista? Difícil saber, mas o certo é que não podem ser as que foram externadas nos votos dos senhores ministros.
Qualquer pessoa pode ser jornalista desde que saiba escrever? O texto jornalístico é confundível com um texto literário? Afinal, que argumentos são estes? O que determina a existência dos meios de comunicação?
A notícia é sempre um fato ou conjunto de fatos que destoam, fora do comum, inesperados para o conjunto da sociedade. A matéria do jornalismo é o FATO, que pode ser um assassinato, um acidente, a renúncia de um mandatário ou um golpe de Estado. O que dá a esses fatos diferenciados a cara de notícia é justamente o trabalho do repórter, aquele que reporta, que levanta as informações preferencialmente no local onde o fato acontece e os traduz, de forma clara e objetiva para a sociedade, através de um dos meios de comunicação: jornal, emissora de rádio, canal de TV ou página da internet.
O encadeamento do FATO em si com uma série de fatos correlatos (quem, onde, como, quando e por que) formam o núcleo da notícia, o resumo, o lead como chamamos no jargão jornalístico. Segue-se o corpo da matéria, na qual o repórter descreve de forma mais detalhada possível o acontecido, enriquecendo o texto com mais informações e muitas vezes com opiniões contraditórias colhidas entre testemunhas, pessoas envolvidas ou mesmo analistas sobre o assunto em questão.
O trabalho de colher informações sobre o fato e encadeá-las de forma clara e objetiva numa matéria cabe ao repórter, espécie de narrador dos acontecimentos para o leitor, ouvinte, telespectador ou internauta. A este trabalho se segue - numa redação de jornal de grande circulação, de uma emissora de rádio ou canal de TV - o do redator, que procura resumir e ordenar de forma lógica o conjunto de informações colhidas pelo colega que traz o material da rua. Por fim, cabe ao editor a responsabilidade de dar à matéria o devido destaque, colocando-a ou não na primeira página, na chamada do noticiário da rádio ou da TV, escolhendo o espaço e a melhor manchete para o texto.
Não se pode esperar de um leigo que conheça a cadeia produtiva que envolve o jornalismo, mas é inadmissível que juízes de um tribunal da importância do STF anunciem uma decisão sem levar em conta a especialização necessária ao exercício de uma profissão. Ainda mais numa sociedade em que a informação é considerada preciosa para quem analisa e decide.
Senhores ministros do STF, jornalismo definitivamente não é literatura. O texto literário não tem limites, é infinito em suas formas e objetivos, por isso é literatura e ainda bem que é assim. Pode ou não estar vinculado à realidade. Muitos de nós, jornalistas, enveredaram pelo livro-reportagem, espécie de matéria de maior fôlego que dá origem a uma publicação literária. Alguns escritores, como Euclides da Cunha, foram também jornalistas. Graças a ele e sua forma objetiva de coletar, ordenar e descrever fatos, o país pode conhecer em detalhes a dureza dos combates da Guerra de Canudos, na riqueza de informações de “Os Sertões”.
É perfeitamente admissível que escritores assinem colunas nos jornais, como o fazem muitos deles até hoje. No entanto, o jornalismo do cotidiano, que enche as páginas dos jornais, que ocupa os noticiários de rádio, internet e de TV todos os dias, só pode ser obra do trabalho especializado de profissionais preparados para isto: os jornalistas. Cabe aos literatos, economistas, filósofos e até porque não aos juristas, analisar ou comentar os fatos já publicados, irradiados ou televisados pelos jornalistas.
Não, senhores ministros, não basta saber escrever para ser ou se tornar jornalista. É preciso estudar, dedicar-se, conhecer os meios de comunicação e as variadas formas que eles oferecem de apresentar a notícia. Existe uma técnica jornalística, que tem sido mascarada pela falta de objetividade verificada em muitos dos cursos de comunicação espalhados Brasil afora.
Tenho pra mim a impressão de que dois aspectos foram determinantes para a decisão de 18 de junho de 2009 do STF. O primeiro, a pressão de grandes meios de comunicação em sua luta permanente por desvalorizar o profissional de imprensa. O segundo, um misto de mediocridade e rancor de figuras poderosas que se viram desmoralizadas pelos últimos fatos envolvendo a estranha boa vontade daquele órgão com os poderosos e o lamentável bate-boca entre seu presidente e um dos ministros do Tribunal.
Sobrou para a sociedade brasileira pagar mais esta conta.
Qualquer pessoa pode ser jornalista desde que saiba escrever? O texto jornalístico é confundível com um texto literário? Afinal, que argumentos são estes? O que determina a existência dos meios de comunicação?
A notícia é sempre um fato ou conjunto de fatos que destoam, fora do comum, inesperados para o conjunto da sociedade. A matéria do jornalismo é o FATO, que pode ser um assassinato, um acidente, a renúncia de um mandatário ou um golpe de Estado. O que dá a esses fatos diferenciados a cara de notícia é justamente o trabalho do repórter, aquele que reporta, que levanta as informações preferencialmente no local onde o fato acontece e os traduz, de forma clara e objetiva para a sociedade, através de um dos meios de comunicação: jornal, emissora de rádio, canal de TV ou página da internet.
O encadeamento do FATO em si com uma série de fatos correlatos (quem, onde, como, quando e por que) formam o núcleo da notícia, o resumo, o lead como chamamos no jargão jornalístico. Segue-se o corpo da matéria, na qual o repórter descreve de forma mais detalhada possível o acontecido, enriquecendo o texto com mais informações e muitas vezes com opiniões contraditórias colhidas entre testemunhas, pessoas envolvidas ou mesmo analistas sobre o assunto em questão.
O trabalho de colher informações sobre o fato e encadeá-las de forma clara e objetiva numa matéria cabe ao repórter, espécie de narrador dos acontecimentos para o leitor, ouvinte, telespectador ou internauta. A este trabalho se segue - numa redação de jornal de grande circulação, de uma emissora de rádio ou canal de TV - o do redator, que procura resumir e ordenar de forma lógica o conjunto de informações colhidas pelo colega que traz o material da rua. Por fim, cabe ao editor a responsabilidade de dar à matéria o devido destaque, colocando-a ou não na primeira página, na chamada do noticiário da rádio ou da TV, escolhendo o espaço e a melhor manchete para o texto.
Não se pode esperar de um leigo que conheça a cadeia produtiva que envolve o jornalismo, mas é inadmissível que juízes de um tribunal da importância do STF anunciem uma decisão sem levar em conta a especialização necessária ao exercício de uma profissão. Ainda mais numa sociedade em que a informação é considerada preciosa para quem analisa e decide.
Senhores ministros do STF, jornalismo definitivamente não é literatura. O texto literário não tem limites, é infinito em suas formas e objetivos, por isso é literatura e ainda bem que é assim. Pode ou não estar vinculado à realidade. Muitos de nós, jornalistas, enveredaram pelo livro-reportagem, espécie de matéria de maior fôlego que dá origem a uma publicação literária. Alguns escritores, como Euclides da Cunha, foram também jornalistas. Graças a ele e sua forma objetiva de coletar, ordenar e descrever fatos, o país pode conhecer em detalhes a dureza dos combates da Guerra de Canudos, na riqueza de informações de “Os Sertões”.
É perfeitamente admissível que escritores assinem colunas nos jornais, como o fazem muitos deles até hoje. No entanto, o jornalismo do cotidiano, que enche as páginas dos jornais, que ocupa os noticiários de rádio, internet e de TV todos os dias, só pode ser obra do trabalho especializado de profissionais preparados para isto: os jornalistas. Cabe aos literatos, economistas, filósofos e até porque não aos juristas, analisar ou comentar os fatos já publicados, irradiados ou televisados pelos jornalistas.
Não, senhores ministros, não basta saber escrever para ser ou se tornar jornalista. É preciso estudar, dedicar-se, conhecer os meios de comunicação e as variadas formas que eles oferecem de apresentar a notícia. Existe uma técnica jornalística, que tem sido mascarada pela falta de objetividade verificada em muitos dos cursos de comunicação espalhados Brasil afora.
Tenho pra mim a impressão de que dois aspectos foram determinantes para a decisão de 18 de junho de 2009 do STF. O primeiro, a pressão de grandes meios de comunicação em sua luta permanente por desvalorizar o profissional de imprensa. O segundo, um misto de mediocridade e rancor de figuras poderosas que se viram desmoralizadas pelos últimos fatos envolvendo a estranha boa vontade daquele órgão com os poderosos e o lamentável bate-boca entre seu presidente e um dos ministros do Tribunal.
Sobrou para a sociedade brasileira pagar mais esta conta.
(*) Jornalista e radialista
O DIPLOMA DE JORNALISTA E O MINISTRO QUE TEM CAPANGAS, por NILO SERGIO GOMES (*)
O fim da exigência do diploma para o exercício da profissão de jornalismo, decidida pelo STF pela ampla maioria de 8 votos a um, colocou o escriba das notícias na berlinda. O patronato e as empresas, em geral, ficaram muito satisfeitos com a decisão, diferentemente dos profissionais, cuja reação foi da frustração à perplexidade. Entretanto, a discussão que se espalhou pela mídia e na sociedade deve evitar a superfície da questão e aproveitar o momento para um necessário aprofundamento do debate a respeito do jornalismo praticado no Brasil, em especial, o da mídia hegemônica, ou seja, as grandes empresas e conglomerados de comunicação do país, a chamada grande imprensa.Não é de hoje que o noticiário da grande mídia vem sendo questionado. Cada vez mais e, sobretudo, com crescente abrangência no meio social, o jornalismo “vendido” pelas grandes redes de comunicação é colocado sob suspeita. Suspeição que sobe de tom em períodos eleitorais, quando esmagadora parcela desta mídia hegemônica assume a defesa de candidaturas sem, contudo, esclarecer e informar a seus leitores, ouvintes e telespectadores sobre este posicionamento. Nas eleições de 2006, esta suspeição ficou tão evidente que serviu de estopim para o surgimento de um movimento intitulado dos “Sem-Mídia”, cujo primeiro ato foi de protesto em frente à sede de um dos mais emblemáticos representantes desta “mídia hegemônica”, a Folha de S. Paulo.
E o que se questiona nesta mídia hegemônica, além da parcialidade com que quase sempre conduz sua “cobertura jornalística” nos processos eleitorais? Questiona-se, em geral, a postura de “dona da verdade” e a parcialidade também com que realiza a cobertura dos fatos sociais. Sim, porque nem todos os atores sociais tem o mesmo espaço midiático. O Movimento dos Sem Terra, um dos exemplos mais explícitos, quase sempre aparece na mídia no papel de vilão ou “baderneiro”. Pouco sabemos a respeito das atividades que o MST realiza, por exemplo, na educação, na comunicação e na própria agricultura, origem do movimento. Quais as contribuições do MST nessas áreas, ele que é um movimento que já acumula décadas de existência, congregando milhares de militantes? Pela mídia, nã o o sabemos.
Enquanto militantes do MST quase sempre são apresentados sob a roupagem de “vândalos”, empresários acusados de grandes fraudes ou que estão sob investigação da Polícia Federal ou do Ministério Público recebem outro tratamento desta mesma mídia. É o caso de Daniel Dantas, notório “subversivo” da ordem e dos bons costumes financeiros. O caso dele é o que mais chama a atenção, mas não é o único. Aí estão Maluf, Edemar Ferreira (ex-dono do Banco Santos), Angelo Calmon de Sá...
O diploma de jornalista, portanto, não impediu e nem impede que o noticiário seja levado à população de forma enviesada, quando não totalmente distorcida. Um olhar mais atento à cobertura que esta mídia hegemônica realiza – e não é de hoje – na área política, percebe as induções a que muitas e tantas vezes leitores são levados por uma determinada manchete ou por combinações de fotos e textos produzindo sentidos e significações que não necessariamente são verdadeiros. Está na memória social a edição manipulada do debate final nas eleições de 1989, transmitida pelo telejornal de maior audiência no país.
Ou seja, o diploma, de per si, não impede que a população e a sociedade sejam mal informadas. Tanto que sob os auspícios das novas tecnologias, outros lugares de fala vem se multiplicando através da internet, colocando em xeque, tantas vezes, o que foi noticiado na noite anterior por um telejornal ou que é a manchete do dia de um grande jornal.
Diferentemente do que tentou fazer crer em seu relatório o presidente do STF, Gilmar Mendes, a regulamentação da profissão de jornalista não foi uma dádiva da ditadura militar. Esta regulamentação, da qual decorreu a exigência do diploma, é uma luta que os jornalistas começaram a travar lá atrás, nos primeiros anos do século XX. Não foi um favor, menos ainda meio de impedir a livre circulação de idéias nos jornais. Até hoje, intelectuais de renome ocupam espaços privilegiados na imprensa, oferecendo suas opiniões e críticas a respeito dos mais variados temas. O que ocorreu durante a ditadura, todos sabemos, é que com diploma ou sem ele a livre manifestação do pensamento estava cerceada. Essa era a questão.
A comunicação é um direito humano e esta consciência se expande na sociedade com celeridade razoável, nos dias de hoje. O jornalismo é uma forma de comunicação cada vez mais presente e importante no cotidiano das sociedades, mas que implica, contudo, na adoção de técnicas de texto, de apuração e de edição, usos estes que devem ser, sim, alvo de controle social, para que não se desvirtuem dos princípios éticos que exigem a percepção de todas as abordagens possíveis que envolvam um fato social determinado. É a própria sociedade, através de suas entidades e organizações sociais, quem melhor pode exercer este monitoramento, de modo a garantir a pluralidade de visões e análises sobre o fato noticiado.
Ao misturar alhos e bugalhos com a notícia, o presidente do STF, seja lá com que intenções, demonstrou não entender nem de cozinha, muito menos de jornalismo. Talvez, lembrando o implícito que lhe foi dito, semanas atrás, a plenos pulmões e em plena corte, ele só entenda mesmo do ofício de dar ordens a capangas. Mas isso não diz respeito ao debate sobre o jornalismo e a exigência do diploma para o exercício da profissão.
* Jornalista, professor universitário e doutorando da Escola de Comunicação da UFRJ.
Sexta-feira, 26 de Junho de 2009
GUERRILHA DO PMDB DESCOBRE SUA SIERRA MAESTRA!
Para quem chegou agora, vou resumir. O empate eleitoral em 2010, entre os candidatos a presidente do PT e do PSDB, deu origem a uma coligação dos dois partidos e forçou o PMDB a cair na clandestinidade. Agora dividida em 171 facções guerrilheiras, a legenda se esforça para garantir seu lugar na História entre os grandes movimentos armados. Isso tudo pode ser conferido em algumas postagens do QUEM É VIVO SEMPRE APARECE e, aqui, nas anotações revolucionárias do Professor Simas, direto do blog HISTÓRIAS DO BRASIL.Prepare seu coração pras coisas que eu vou contar.
Ué Ling-ton estava sentado à beira do acampamento guerrilheiro, às margens da Lagoa de Itaipu, puxando pela memória, seu passado maoísta, alguma luz sobre o que fazer. Achou legal a expressão, mas logo se deu conta de que Lênin já havia escrito um livro com esse título, “O que fazer?”.
De repente, Ué Ling-ton (Wellington em chinês yakisôbico), um dos codinomes do companheiro Moreira, comandante-em-chefe da DN (Dissidência de Niterói, uma das 171 facções do Novo PMDB) teve uma idéia: encomendou duas quentinhas no Caneco Gelado do Mário para ele e um sobrinho que aderiu à guerrilha, e distribuiu os tíquetes-refeição para sua tropa, que já estava reclamando que saco vazio não fica em pé.
Mas ainda não era isso. O que queria mesmo era botar em prática uma medida de grande impacto, capaz de dar visibilidade nacional, quiçá mundial, ao movimento armado de seu partido. Sentado num banco, assistia encantado aos exercícios que seus homens faziam no calçadão. Uns treinavam artes marciais ou tiro alvo, outros aprendiam a montar explosivos e outros mais recebiam ensinamentos sobre montagem de caixa dois.
Estava orgulhoso da turma. Em breve, seriam combatentes destacados da grande revolução bolivarianista – nenhuma referência ao Chávez, é que a insurreição seria deflagrada numa cobertura da Avenida Atlântica com Rua Bolívar.
Porém, raciocinou, faltava aqueles homens experiência internacional.
Internacional era a palavra-chave.
Logo, o antigo combatente maoísta lembrou da Associação Internacional dos Trabalhadores, fundada em Londres para unir os sindicatos e lideranças políticas de esquerda. A Primeira Internacional foi uma continuação das lutas sangrentas da Comuna de Paris. Não deu certo. Veio, então, a Segunda Internacional, ou Internacional Socialista, que existe até hoje e tem suporte nos partidos social-democratas. O PSDB e o PT são chegados. "Não nos interessa", pensou Moreira. A Terceira Internacional é a dos comunistas. “Estamos fora também”. A Quarta é a dos trotsquistas, deve ser até engraçada porque os trotsquistas são hilários, malucos-beleza. O companheiro Moreira esqueceu logo o assunto. “Deixa pro povo da Heloísa Helena, do PSTU etc.”.
Foi, então, que teve o estalo de Vieira.
Contou ao jovem correligionário:
– Vamos fazer a Quinta Internacional, que vai ser a melhor de todas. A Internacional do PMDB!
Evidente que o rapaz não entendeu xongras, mas o principal ideólogo da jihad surgida após o fatídico empate eleitoral entre o PT e o PSDB nas eleições de 2010 – decisão das urnas que acabou com aquela lenga-lenga de governabilidade e fez do PMDB um partido clandestino – já havia tomado sua decisão.
A mensagem chegou via twitter para todos os comandantes das demais correntes do PMDB.
Partido clandestino que vira movimento guerrilheiro precisa ter mais do que um hino, uma bandeira, um programa de lutas e homens valorosos dispostos a lutar até a morte por seus ideais.
Precisa também de um mega-evento, de um super-lançamento mundial.
Bem distante de Itaipu, às margens do Lago Paranoá, o subcomandante Agaciel foi encarregado da logística, da parte financeira, enfim, de toda a organização da Quinta Internacional.
Coube a ele selecionar, com os rigores de um Comitê Olímpico Internacional, o lugar mais adequado com um puta auditório, os locais de hospedagem, repasto e diversão, um cassino não iria mal, muita champanhe, scotch, vodca polonesa, caviar russo ou iraniano, mulheres e garotões sarados, e tudo mais que fosse necessário para garantir o sucesso da iniciativa.
Por aclamação, o Comitê Central do Novo PMDB – formado pelos comandantes das 171 facções – decidiram o local, muito melhor do que a Sierra Maestra daquele pessoal que adora uma rumba:
A Quinta Internacional do PMDB vai movimentar a Ilha de Caras!
Domingo, 21 de Junho de 2009
O QUEBRA-CABEÇAS QUE VIROU DOCUMENTÁRIO
Ri daquele título porque me lembrou “Eram os deuses astronautas?”. Ou seja, parecia ficção científica de quinta categoria. Mas não, era profecia pura.
Quando termina o documentário “Razões para a guerra”, a pergunta que a gente faz é outra: quando vai cair esta nova Roma chamada Estados Unidos da América?
Não sou anti-americano. Se for enumerar todos os ianques que admiro, vou perder a conta, e entre eles estão incluídos alguns presidentes – Abraham Lincoln, Franklin Delano Roosevelt, Jimmy Carter e, torço por ele, Barack Obama. Sou também fã do cacique Touro Sentado (pela surra que deu na 9ª Cavalaria), do Martin Luther King, do Louis Armstrong, do Duke Ellington e, para não acharem que sou racista, também sou fã do Francis Albert Sinatra. E outros milhares.
Apesar daquele crítico de barbicha, Rubens Ewald Filho, ter achado o filme chato, é uma aula de História. Eu sabia que as bombas de Hiroxima e Nagasaki vitimaram civis, mas desconhecia até agora, por não ter lido Gore Vidal, que os japoneses tinham passado os últimos meses antes dessas bombas tentando se render.
O alvo daquelas bombas não foi o Japão, foi Stalin, isso eu sabia, mas não com tantos detalhes. Foi uma declaração de guerra. A Guerra Fria.
O filme mistura cenas reais da Segunda Guerra Mundial às duas invasões do Iraque. Tem personagens interessantes. Um policial aposentado que viu do metrô a explosão das duas torres, e numa delas estava o filho dele. Um cara de 21 anos que, literalmente sem pai nem mãe, e sem um puto no bolso, resolveu se alistar porque a guerra era o único mercado que enxergava. Uma militar do Pentágono que ficou enojada daquilo tudo e pediu demissão. Dois pilotos que só faltavam chorar de emoção por terem lançado bombas em Bagdá que só fizeram vítimas civis, mas nem eles sabiam, tanto tempo depois. Um médico iraquiano, revoltado, porque no hospital de campanha só chegavam crianças e mulheres, nenhum militar. Outro iraquiano, que pegou na veia: “Míssil inteligente? Caiu sobre esta casa e matou uma família”.
O filme, ao contrário do que diz o bestalhão que morre de amores pelo Hugh Grant, monta as peças do quebra-cabeças chamado “Complexo Industrial Militar”. A expressão foi usada pelo presidente Eisenhower – um republicano, o general que comandou os Aliados contra o nazismo – para alertar o povo americano de algo terrível: a indústria armamentista havia se tornado poderosa demais e era preciso contê-la.
O Complexo Industrial Militar é um tripé que envolve as Forças Armadas, a indústria e o Congresso americano. E aí outro fato que eu desconhecia: cada projeto dessa indústria tem a fabricação de suas peças distribuídas pelos estados. Se alguém defende o fim de um deles, sempre aparece um deputado para defender os 100 empregos que gera, ou melhor, os 500 votos que representa.
Esta indústria, como sabemos, chegou a ponto de inventar, na era Bush-Cheney, um novo negócio chamado "terceirização da guerra", que envolveu a "livre iniciativa" na fabricação de privadas e de centenas de outros itens não necessariamente bélicos que enriqueceram a Halliburton e outras empresas.
Eugene Jarecki, o diretor, deu ao filme o mesmo título original, “Why we fight?” (Por que nós lutamos?), dos filmes de propaganda feitos por Frank Capra para o Pentágono, com o objetivo de levantar o ânimo dos americanos na guerra contra o nazifascismo, a última guerra justa da qual os EUA participaram no século XX.
Acabei de devolver. “Razões para a guerra” foi produzido pela Sony em 2005 mas só agora entrou nos catálogos das locadoras.
Eugene Jarecki, o diretor, deu ao filme o mesmo título original, “Why we fight?” (Por que nós lutamos?), dos filmes de propaganda feitos por Frank Capra para o Pentágono, com o objetivo de levantar o ânimo dos americanos na guerra contra o nazifascismo, a última guerra justa da qual os EUA participaram no século XX.
Acabei de devolver. “Razões para a guerra” foi produzido pela Sony em 2005 mas só agora entrou nos catálogos das locadoras.
Acrescento: pior de tudo é que, quando cair, a gente talvez tenha saudade dos ianques. Já imaginou um mundo bipolar tendo, de um lado, a China, e de outro, uma potência árabe?
Sexta-feira, 19 de Junho de 2009
DIRETO DA COZINHA DO PODER JUDICIÁRIO
Tal como os desembargadores da 8ª Câmara Criminal do TJ-RJ, os cozinheiros seguem as receitas que criam ou copiam, só que, diferentemente dos doutores em leis, que veneram ou se acham obrigados a venerar cada vírgula do Código Penal e demais cartapácios das respectivas estantes, o pessoal da cozinha não se atém tanto assim aos livros culinários. A massa deve sempre ficar al dente, o arroz soltinho, o bife ao ponto? Tudo bem, mas existem interpretações pessoais que podem alterar o modo de preparo, alternativas para a escolha dos ingredientes, segredos para tornar os pratos mais saborosos.
Existem grandes livros de receitas como a Constituição, o Código Penal, o Código de Processo Penal, o Código Civil etc., mas sei que existem também críticas a um negócio chamado progressão do regime aberto pro semi-aberto, integral pra fechado, e divergências até mesmo sobre o que é o crime hediondo.
Veja o caso do traficante Elias Maluco. Ele comandou a tortura, despedaçou com uma espada e queimou o corpo despedaçado do jornalista Tim Lopes. Sete anos depois do crime, ganhou na Justiça a progressão de regime, que passou de integral a fechado, e poderá em breve ser beneficiado pela liberdade condicional.
Seu advogado pediu e teve negado o novo julgamento, mas conseguiu mudar o tipo de pena do réu, já condenado em primeira instância. Craque!
Existem grandes livros de receitas como a Constituição, o Código Penal, o Código de Processo Penal, o Código Civil etc., mas sei que existem também críticas a um negócio chamado progressão do regime aberto pro semi-aberto, integral pra fechado, e divergências até mesmo sobre o que é o crime hediondo.
Veja o caso do traficante Elias Maluco. Ele comandou a tortura, despedaçou com uma espada e queimou o corpo despedaçado do jornalista Tim Lopes. Sete anos depois do crime, ganhou na Justiça a progressão de regime, que passou de integral a fechado, e poderá em breve ser beneficiado pela liberdade condicional.
Seu advogado pediu e teve negado o novo julgamento, mas conseguiu mudar o tipo de pena do réu, já condenado em primeira instância. Craque!
Os desembargadores da 8ª Câmara Criminal, que devem entender muito mais de leis do que o defensor do Elias Maluco, ficaram preocupados apenas com o ponto.
A defesa comemorou: no regime integral seu cliente, coitado, teria que cumprir os (incríveis...) 28 anos e seis meses de prisão a que foi condenado, mas com a progressão, o réu já pode pedir o regime semi-aberto e até mesmo a liberdade condicional, por já ter cumprido (segundo o advogado) ou estar próximo de cumprir (segundo a matemática) um terço da pena.
A defesa comemorou: no regime integral seu cliente, coitado, teria que cumprir os (incríveis...) 28 anos e seis meses de prisão a que foi condenado, mas com a progressão, o réu já pode pedir o regime semi-aberto e até mesmo a liberdade condicional, por já ter cumprido (segundo o advogado) ou estar próximo de cumprir (segundo a matemática) um terço da pena.
Peraí, é um terço mesmo? Já foi um quinto ou um sexto, então a coisa melhorou, hein?
Em fevereiro de 2007, o traficante Zeu, do bando de Elias Maluco, conseguiu essa excrescência chamada progressão. Em julho daquele ano, saiu do presídio em Niterói para visitar a família e até hoje não teve vontade de voltar. O próprio Elias Maluco, quando assassinou o Tim, gozava de liberdade graças ao mesmo benefício.
O crime de setembro de 2002, se vocês lembram, foi praticado pelo próprio chefe da quadrilha, usando uma espada de samurai. E o corpo de Tim Lopes foi incinerado no “micro-ondas” de pneus descoberto dias depois pela polícia na favela de Vila Cruzeiro.
Em fevereiro de 2007, o traficante Zeu, do bando de Elias Maluco, conseguiu essa excrescência chamada progressão. Em julho daquele ano, saiu do presídio em Niterói para visitar a família e até hoje não teve vontade de voltar. O próprio Elias Maluco, quando assassinou o Tim, gozava de liberdade graças ao mesmo benefício.
O crime de setembro de 2002, se vocês lembram, foi praticado pelo próprio chefe da quadrilha, usando uma espada de samurai. E o corpo de Tim Lopes foi incinerado no “micro-ondas” de pneus descoberto dias depois pela polícia na favela de Vila Cruzeiro.
Sobrou um pedaço de osso que, através do exame de DNA, identificou a vítima.
O doutor Gilmar está certo: uma boa equipe de cozinheiros poderia, quem sabe, se sair melhor do que a turma da egrégia corte.
O doutor Gilmar está certo: uma boa equipe de cozinheiros poderia, quem sabe, se sair melhor do que a turma da egrégia corte.
Quinta-feira, 18 de Junho de 2009
UM HOMEM DE BEM NA MIRA DAS MILÍCIAS
O parlamentar Marcelo Freixo (na foto) e seu assessor Vinícius George estão em risco de sofrer um atentado contra suas vidas por grupos milicianos do Rio de Janeiro. Planos foram descobertos pela polícia em uma busca e apreensão de milícias em maio. Parte de uma investigação de longo prazo contra membros de grupos de milícias que tomaram o controle de mais de cem territórios pobres do Rio de Janeiro, a busca também encontrou cartas do chefe da milícia de Rio das Pedras – um bairro na Zona Oeste da cidade –, um sargento antigo da polícia militar, solicitando suporte de outro grupo miliciano para assassinar a dupla.Ao final da operação, não foram feitos esforços para deter o chefe da milícia de Rio das Pedras que enviou o pedido para assassinar Marcelo Freixo e Vinícius George. Ainda que os dois estejam sendo providos de alguma proteção, a Anistia Internacional considera que é fundamental o imediato reforço da mesma, em conformidade com o desejo de ambos.
Marcelo Freixo e Vinícius George começaram a receber ameaças de morte em junho de 2008 quando foi instalada a CPI para investigar a expansão das milícias no Rio de Janeiro, da qual Freixo foi presidente.
A CPI foi formada por parlamentares e investigou o padrão de envolvimento de governos estaduais nas atividades ilegais das milícias antes de apresentar seu relatório final, submetido ao Parlamento do estado e ao Ministério Público para potenciais processos penais.
Há preocupação, no entanto, que as recomendações feitas pelo relatório final da CPI não tenham sido plenamente implementadas pelas autoridades municipais, estaduais e federais, especialmente aquelas destinadas à criminalização e repressão das atividades de que financiam os grupos. Isto significou a continuidade de expansão das milícias apesar da detenção de alguns de seus membros-chave.
As milícias são compostas por policiais, agentes prisionais e bombeiros afastados que expulsaram traficantes de drogas das favelas alegando oferecer segurança. No entanto, efetivamente controlam comunidades através da violência, extorquindo dinheiro para provisão de segurança bem como serviços de gás, transporte, TV a cabo entre outros. Eles são acusados de empunhar o poder político, garantindo, através de intimidação, votos a certos parlamentares. Embora existam no Rio de Janeiro há algum tempo, a súbita expansão das milícias remonta a dezembro de 2006, quando mais de 100 favelas foram dominadas por grupos milicianos.
As tentativas de investigar e denunciar o papel das milícias no Rio de Janeiro encontrou ameaças e violência, incluindo o rapto e tortura de 3 jornalistas do jornal O Dia, acompanhados de um morador em maio de 2008 e o bombardeio de uma delegacia em julho.
O crescimento dos grupos milicianos pode ser atribuído há décadas de uma política de segurança publica baseada na negligência, violação de direitos humanos e impunidade de autores, permitindo que policiais criminosos e corruptos prosperem à custa daqueles que trabalham incansavelmente para servir à comunidade.
De acordo com recentes relatórios de jornais que citam a frouxa segurança e os privilégios usufruídos por policiais mantidos em detenção no “Batalhão Especial Prisional”, unidade prisionalespecial em que agentes policiais são detidos, acentua-se ainda mais a preocupação com a segurança dos dois homens.
O relatório das investigações policiais descobriu casos de autorização para saída de agentes para ameaçar ou matar testemunhas. Investigações policiais apontaram a prisão como “um terreno de recrutamento para assassinos”. Diversos membros das milícias se encontram detidos nessa unidade.
Recomendações:Envie apelos o mais rapidamente possível, em português ou na sua própria língua;
– Assegurando que para Marcelo Freixo e Vinicius George, ambos dedicados ao enfrentamento às atividades das milícias, seja fornecida uma proteção eficaz em conformidade com os seus desejos;– Instando as autoridades a realizar rapidamente uma investigação independente e imparcial de todas as ameaças contra Marcelo Freixo e Vinicius George; e que os responsáveis sejam levados à Justiça; – Instando as autoridades a denunciar publicamente as atividades das milícias e a definir um plano conjunto, com um cronograma claro, para implementar todas as recomendações da CPI para combater a propagação das milícias e do crime organizado;
– Solicitando que sejam dados passos eficazes para trazer à justiça os líderes e os membros das milícias;
– Instando as autoridades a tomar medidas imediatas para investigar o Batalhão Especial Prisional, e que as autoridades envolvidas nas atividades criminosas sejam levadas à Justiça.
As milícias são compostas por policiais, agentes prisionais e bombeiros afastados que expulsaram traficantes de drogas das favelas alegando oferecer segurança. No entanto, efetivamente controlam comunidades através da violência, extorquindo dinheiro para provisão de segurança bem como serviços de gás, transporte, TV a cabo entre outros. Eles são acusados de empunhar o poder político, garantindo, através de intimidação, votos a certos parlamentares. Embora existam no Rio de Janeiro há algum tempo, a súbita expansão das milícias remonta a dezembro de 2006, quando mais de 100 favelas foram dominadas por grupos milicianos.
As tentativas de investigar e denunciar o papel das milícias no Rio de Janeiro encontrou ameaças e violência, incluindo o rapto e tortura de 3 jornalistas do jornal O Dia, acompanhados de um morador em maio de 2008 e o bombardeio de uma delegacia em julho.
O crescimento dos grupos milicianos pode ser atribuído há décadas de uma política de segurança publica baseada na negligência, violação de direitos humanos e impunidade de autores, permitindo que policiais criminosos e corruptos prosperem à custa daqueles que trabalham incansavelmente para servir à comunidade.
De acordo com recentes relatórios de jornais que citam a frouxa segurança e os privilégios usufruídos por policiais mantidos em detenção no “Batalhão Especial Prisional”, unidade prisionalespecial em que agentes policiais são detidos, acentua-se ainda mais a preocupação com a segurança dos dois homens.
O relatório das investigações policiais descobriu casos de autorização para saída de agentes para ameaçar ou matar testemunhas. Investigações policiais apontaram a prisão como “um terreno de recrutamento para assassinos”. Diversos membros das milícias se encontram detidos nessa unidade.
Recomendações:Envie apelos o mais rapidamente possível, em português ou na sua própria língua;
– Assegurando que para Marcelo Freixo e Vinicius George, ambos dedicados ao enfrentamento às atividades das milícias, seja fornecida uma proteção eficaz em conformidade com os seus desejos;– Instando as autoridades a realizar rapidamente uma investigação independente e imparcial de todas as ameaças contra Marcelo Freixo e Vinicius George; e que os responsáveis sejam levados à Justiça; – Instando as autoridades a denunciar publicamente as atividades das milícias e a definir um plano conjunto, com um cronograma claro, para implementar todas as recomendações da CPI para combater a propagação das milícias e do crime organizado;
– Solicitando que sejam dados passos eficazes para trazer à justiça os líderes e os membros das milícias;
– Instando as autoridades a tomar medidas imediatas para investigar o Batalhão Especial Prisional, e que as autoridades envolvidas nas atividades criminosas sejam levadas à Justiça.
Recebi essa mensagem e a transcrevo integralmente porque concordo com a urgência na tomada de providências que garantam a integridade de Freixo e Vinicius, bem como a continuidade do trabalho que fazem.
Os demais interessados devem usar os meios a seu dispor para divulgar esses fatos e destinar mensagens com esse teor ao ministro da Justiça, Tarso Genro; ao governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral; e ao procurador-geral de Justiça (MPRJ), Cláudio Soares Lopes.
Os demais interessados devem usar os meios a seu dispor para divulgar esses fatos e destinar mensagens com esse teor ao ministro da Justiça, Tarso Genro; ao governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral; e ao procurador-geral de Justiça (MPRJ), Cláudio Soares Lopes.
Quarta-feira, 17 de Junho de 2009
"JORNALISTA É IGUAL A COZINHEIRO?", texto publicado no blog de PAULO MOREIRA LEITE, na versão online de Época
"Quando o Supremo Tribunal Federal decidiu abolir o diploma de jornalista como exigência para o exercício da profissão, uma imagem veio a minha cabeça — esta foto que você pode ver aí acima, de Vladimir Herzog, morto em outubro de 1975, no DOI-CODI paulista.Conheci Herzog na revista Visão, onde ele era um editor exigente e perfeccionista, que me ofereceu alguns frilas quando eu me iniciava na profissão. Herzog era diretor de jornalismo da TV Cultura, em São Paulo, quando foi conduzido para aquela dependência militar — de onde não saiu com vida. Para muitos jovens de minha geração, Herzog foi um exemplo de coragem e capacidade de resistência.
Muitas décadas se passaram desde então. Vivemos numa democracia estável.
Os tempos mudaram. Jornalistas são ameaçados no Oriente Médio, na América Central, no Irã. Raramente no Brasil.
Ontem, ao justificar o fim do diploma, Gilmar Mendes, presidente do STF, usou palavras assim:
“Quando uma noticia não é verídica ela não será evitada pela exigência de que os jornalistas frequentem um curso de formação. É diferente de um motorista que coloca em risco a coletividade. A profissão de jornalista não oferece perigo de dano à coletividade tais como medicina, engenharia, advocacia nesse sentido por não implicar tais riscos não poderia exigir um diploma para exercer a profissão. Não há razão para se acreditar que a exigência do diploma seja a forma mais adequada para evitar o exercício abusivo da profissão”, disse.
Mendes apontou para uma semelhança original, entre o trabalho de um jornalista e o de um cozinheiro. Ele disse:“Um excelente chefe de cozinha poderá ser formado numa faculdade de culinária, o que não legitima estarmos a exigir que toda e qualquer refeição seja feita por profissional registrado mediante diploma de curso superior nessa área. O Poder Público não pode restringir, dessa forma, a liberdade profissional no âmbito da culinária. Disso ninguém tem dúvida, o que não afasta a possibilidade do exercício abusivo e antiético dessa profissão, com riscos eventualmente até à saúde e à vida dos consumidores.”
Tais Gasparian, a advogada que representou o Sindicato das Empresas de Jornal, afirmou durante julgamento que a profissão de jornalista é desprovida de qualificações técnicas, sendo “puramente uma atividade intelectual”.
Conheci o pai de Tais Gasparian, o empresário Fernando Garsparian. Ele foi dono do jornal Opinião, alvo de perseguição duríssima por parte do regime militar, inconformado com seus artigos sobre a Dívida Externa, sobre o arrocho salarial e outros temas que a censura mantinha fora dos jornais.
Mas o jornal de Gasparian insistia, teimava e publicava. Também trouxe de volta para a imprensa brasileira as idéias exiladas de Celso Furtado, Fernando Henrique Cardoso e outros intelectuais perseguidos. Em minha modesta opinião, pode-se dizer com alguma boa vontade que Celso Furtado, Fernando Henrique, e outros, exerciam uma atividade “puramente intelectual” — não o jornalista que publicava seus artigos.
Não é por fazer pouco das cozinheiras e chefes que não gosto da comparação do presidente do STF. Já obtive, à mesa, alegrias que a maioria das reportagens não me proporcionaram, em iguarias preparadas por profissionais sem diploma de nenhum tipo — só o da labuta da vida.
Mesmo reconhecendo que vivemos num país democratizado, onde respiramos o oxigênio da liberdade nas 24 horas do dia, estranho a comparação. Ao contrário do que disse Gilmar Mendes, a profissão de jornalista oferece sim “perigo de dano a coletividade.” São muitos e recentes os exemplos que demonstram que o mau exercício do jornalismo ajuda a criar preconceitos, consolida mentiras e distorções que uma sociedade pode levar décadas para resolver.
A imprensa que se omite e foge de verdades amargas causa um imenso prejuízo a seu público.
Não estudei jornalismo e não tenho diploma de jornalista. Conquistei o direito de exercer a profissão porque tinha um lugar no mercado de trabalho. Não defendo interesses próprios neste debate.
Minha opinião é que, certa ou errada, a exigência de diploma ajudou a modernizar a profissão de jornalista e elevou o padrão cultural das redações. Num país onde o ensino fundamental e médio são aquilo que são, um diploma é uma diferença positiva. Nossos jornais deixam muito a desejar até hoje mas não há dúvida que o Brasil tinha uma imprensa pior antes do diploma.
Vivemos num país corporativo, onde muitas profissões são fechadas e controladas. Para o sujeito ser advogado, por exemplo, ele não só precisa ter curso superior como precisa passar no exame da OAB. Em minha modesta curiosidade de jornalista sem diploma, eu me pergunto se tantas exigências se justificam pelo fato de que a profissão de advogado oferece “perigo de dano a coletividade” ou se, como o jornalista, ele não pode ser comparado a um cozinheiro?
Tenho dúvidas sobre o caráter democrático do diploma universitário, num país onde a universidade só está aberta à elite. Este me parece um ponto sério a considerar no debate, na medida em que a imprensa é a forma material da liberdade de expressão.
Outra dúvida é: precisamos de um curso de graduação de jornalismo, com quatro anos de duração? Poderia ser um curso de pós-graduação, como em alguns países?
Não tenho dúvida de que o jornalismo é uma técnica, que se desenvolveu a partir do século XIX. As escolas de jornalismo não foram criadas por uma opção pedante de profissionais ou de empresários, mas como parte do esforço das sociedades modernas para produzir e divulgar informações confiáveis.
Noções como isenção profissional, consulta às fontes, equilíbrio, boa fé, foram criadas e aperfeiçoadas neste processo. A idéia de conflito de interesses foi definida e sistematizada, tornando questionável o trabalho de quem é jornalista nas horas de folga.
Embora não precisem mais de um diploma, eu acho que os candidatos a jornalistas continuam precisando de boa escolas. Essa é a questão a se resolver, daqui para a frente".
Texto e foto extraídos do blog do jornalista Paulo Moreira Leite, da Época Online.
Coloquei aqui porque concordo integralmente. Acabo de postar um comentário lá.
COLUNA SOCIAL DA GUERRILHA DO PMDB: HERÁCLITO ENTROU NA FACA PARA TOCAR O TERROR NO PIAUÍ
Lembram daquela foto do senador Heráclito Fortes, quando anunciou o início da guerrilha do PMDB? Era imagem anterior à cirurgia que fez em junho de 2009 para reduzir o abdomen. Heráclito, como todos sabem, é peemedebista infiltrado entre os demos e sua verdadeira motivação para entrar na faca foi que precisava preparar-se para assumir o comando da Coluna Cajuína/Movimento Piauí Existe (CC/MPI), uma das 171 facções em que se dividiu o antigo PMDB.
Hoje, o bravo cangaceiro ideológico engana as volantes do governo petitucano que se atrevem a persegui-lo no sertão de seu estado natal. O problema é que os rebeldes de Heráclito, tal e qual os jagunços mais espertos, vivem cruzando a fronteira com o Maranhão e isso tem desagradado muito ao núcleo terrorista da Praia do Calhau, liderado pelo companheiro Sarney. “No meu curral, não”, já reclamou o patriarca que saneou e moralizou o Senado nos idos de 2009.
Veja na foto como o companheiro Heráclito ficou parecido com o Marco Maciel!
Veja na foto como o companheiro Heráclito ficou parecido com o Marco Maciel!
A partir de amanhã, leiam no blog www.hisbrasil.blogspot.com ou aqui mesmo mais notícias sobre o movimento armado e peripatético que ofuscou a Grande Marcha da China, a Frente Sandinista e a Coluna Prestes.
Segunda-feira, 15 de Junho de 2009
A FEIRA DO PASSARINHO, por ROMILDO GUERRANTE
"Funciona em Maceió há quase 50 anos a chamada Feira do Passarinho, no bairro da Levada, área pobre da cidade, com índices baixos de saneamento e elevados de violência. Conheci a feira há mais ou menos 30 anos. Voltando a Maceió na semana passada, quis saber se ainda existia. Poucos a conheciam como Feira do Passarinho, pois ao longo desses anos ela ficou mais conhecida como Feira do Rato, tal a proliferação de ladrões nos dois lados do trilho por onde passa, mais ou menos de hora em hora, um trem suburbano da CBTU, com janelas protegidas por grades para evitar que os vidros sejam quebrados a pedradas pela vizinhança da linha.
A feira é montada não só ao lado da linha, mas também SOBRE a linha, onde se instalam os sem-barraca e para onde se estendem os puxadinhos dos com-barraca.
Quando soa o apito do trem, os mascates, em ação rápida, desmontam aquilo tudo. O trem passa e, fantástico!, menos de um minuto depois está tudo reinstalado.
Fui alertado para ficar no início da feira, não me aventurar lá para os fundos, área perigosa, onde até mesmo armas de fogo são vendidas. A polícia de vez em quando faz uma blitz, mas, provavelmente avisados, os vendedores de armas desaparecem. Como somem também os vendedores de peças de veículos roubados. A feira é tão tradicional como receptadora de produtos roubados que a primeira coisa que alguém faz quando é roubado é procurar o produto do roubo lá na feira. E faz a negociação, normalmente, se encontrar. E dizer que a feira, em sua origem, era apenas uma feira de escambo, onde se trocava bicicleta por cavalo velho, eletrola por saco de milho.
Infelizmente, no dia em que fui lá (domingo passado), chovia, a luz estava péssima para fotos. Mas deu pra registrar.

Sobre o que rola quando o trem apita na curva, conta o repentista Tchello de Barros:
"...e esse trem quando apita
é um aviso pro povo
que tira a tralha do trilho
num agito pavoroso.
Mas mal o trem vai embora
lá está tudo de novo".
A feira será removida, anunciou mês passado a prefeitura local, para que possam ser feitas as obras de instalação de um sistema de bondes modernos que irão cobrir os 32km de linha, percurso pelo qual os passageiros pagam hoje R$ 0,50".
Valeu Romildo!
Domingo, 14 de Junho de 2009
NÉTIUÔRQUE DE BLOGS VAI COBRIR GUERRILHA DO PMDB
A partir desta quarta-feira, com narração do locutor que vos fala e comentários de Luiz Antônio Simas, o "Professor que o Brasil consagrou" (e vice-versa), o QUEM É VIVO SEMPRE APARECE entra em rede nacional com o blog HISTÓRIAS DO BRASIL (http://www.hisbrasil.blogspot.com/) para transmitir os melhores momentos da luta encarniçada que o PMDB vai travar a partir de 1º de janeiro de 2011, data em que decide cair na clandestinidade - num oferecimento de Petrobras, Brahma Chopp e Óticas do Povo (morou?). Leia o manifesto a respeito da imagem que você está vendo na telinha:
“A foto acima é antiga, de junho de 2009. Os átomos estavam em repouso, já haviam jantado e se preparavam para tirar uma soneca quando a Juventude Rebelde do PMDB tomou o poder na USP. Naquele tempo ainda não havia guerrilha, mas foi como o assalto ao quartel de Moncada. No caso, uma mancada da reitora, da polícia e, por que não dizer?, também dos nossos estudantes, uns porraloucas.
Mas a garotada da LER QI (eles têm QI elevado e leem muito, sobretudo os clássicos “Ereções de um jegue”, de Marx e Engels, e “Juventino, o padre pedófilo”, de Lenine e Lula Queiroga) não estava nem aí para probleminhas quânticos e de relatividade, mesmo porque no PMDB tudo é relativo: aquela PEC é relativa à reeleição do senador Fulano, aquela montanha de dinheiro que devia ser destinada a programas sociais é relativa à conta bancária do deputado Sicrano, etc. O vereador Beltrano, que ficou de fora da divisão do numerário, também entendeu que, relativamente à parte que lhe toca, pelo menos deve entrar no rachuncho das empresas de ônibus, e o resto é aquela festa, né mesmo?
Na foto, como dizíamos, a Juventude Rebelde do PMDB participava de um churrasco de confraternização com a reitora da USP e com a polícia de São Paulo (a bateria nota 10 da Vai Vai, em primeiro plano, foi uma das atrações do convescote) quando um de seus integrantes, o ex-posadista Júpiter dos Santos Filho, recém-chegado do planeta Plutão, resolveu ficar com a reitora. Diante da reação negativa do marido da gostosa, nossa torcida jovem organizada ocupou as instalações universitárias, sendo que alguns ficaram lá até a aposentadoria".
Mas a garotada da LER QI (eles têm QI elevado e leem muito, sobretudo os clássicos “Ereções de um jegue”, de Marx e Engels, e “Juventino, o padre pedófilo”, de Lenine e Lula Queiroga) não estava nem aí para probleminhas quânticos e de relatividade, mesmo porque no PMDB tudo é relativo: aquela PEC é relativa à reeleição do senador Fulano, aquela montanha de dinheiro que devia ser destinada a programas sociais é relativa à conta bancária do deputado Sicrano, etc. O vereador Beltrano, que ficou de fora da divisão do numerário, também entendeu que, relativamente à parte que lhe toca, pelo menos deve entrar no rachuncho das empresas de ônibus, e o resto é aquela festa, né mesmo?
Na foto, como dizíamos, a Juventude Rebelde do PMDB participava de um churrasco de confraternização com a reitora da USP e com a polícia de São Paulo (a bateria nota 10 da Vai Vai, em primeiro plano, foi uma das atrações do convescote) quando um de seus integrantes, o ex-posadista Júpiter dos Santos Filho, recém-chegado do planeta Plutão, resolveu ficar com a reitora. Diante da reação negativa do marido da gostosa, nossa torcida jovem organizada ocupou as instalações universitárias, sendo que alguns ficaram lá até a aposentadoria".
Brahma na jogada! Agora é com você, Apolinho da Tijuca!
Quarta-feira, 10 de Junho de 2009
RAUL DO TROMBONE FOI TOCAR NOUTRA FREGUESIA
Há uns quatro ou cinco anos fui na casa dele, na ensolarada freguesia de Maricá, com alguns amigos - dois deles, Floriano e Salvador, viviam lá. A festa era para levantar uma grana pro gênio, que estava meio caidinho, de dinheiro e saúde. Mas foi pegar no instrumento para remoçar uns quarenta anos. Soprou com força Na Glória, Pororó, Voltei ao meu lugar, das que me lembro. Na vitrolinha, outro clássico das gafieiras, Paraquedista, de José Leocádio, que também faz parte do repertório mais conhecido.Aos 93 anos, Raul de Barros foi ensinar trombone aos anjos.
Terça-feira, 9 de Junho de 2009
URGENTE: A PRIMEIRA IMAGEM DA GUERRILHA DO PMDB
Janeiro de 2011 - Direto do Túnel do Tempo (este nos leva ao futuro)"Integrante da Ala Jovem do PMDB de Lutas e de Massas é cercado pela repressão no campus de uma universidade paulista, depois que o grupo radical foi flagrado tentando subornar um vice-reitor.
O rebelde, que não foi identificado, conseguiu livrar-se dos gorilas que pretendiam torturá-lo nos porões da democracia. Graças ao empenho do dirigente desta facção. De seu QG no Vale da Ribeira, o companheiro Orestes Quércia fez uma oferta irrecusável ao comando do Batalhão de Choque.
O PMDB de Lutas e de Massas é uma das 171 correntes do novo movimento que explodiu no país após o empate entre Serra e Dilma nas urnas.
Como foi amplamente noticiado logo abaixo, este empate deu origem à inédita coalizão PT-PSDB e, em consequência, o Partido do Movimento Democrático Brasileiro optou pela clandestinidade.
Afinal, se algumas das principais figuras do PT e do PSDB passaram por isso, e se revezavam no poder desde 1994, por que não fazer o mesmo?
Com a transformação em movimento guerrilheiro, as divergências tão comuns nas antigas organizações de esquerda também aconteceram no partido, daí o aparecimento da fração quercista PMDB de Lutas e de Massas e de outros grupos, sendo mais notáveis o Movimento PMDB (do companheiro Requião), Ala Vermelha Pernambucana (do companheiro Jarbas), Ulysses Presente (do companheiro Simon), Vanguarda Revolucionária da Praia do Calhau (do companheiro Sarney), Articulação de Centro (do companheiro Michel), PMDB é Nosso e o Petróleo Também (companheiro Lobão), MR-W3 (do companheiro Roriz), Campo Majoritário de Alagoas (do companheiro Renan), Frente Baiana de Libertação Nacional (do companheiro Geddel), Conexão Chuvisco (do companheiro Garotinho, que até o fechamento deste manifesto havia voltado à facção de origem), Dissidência de Niterói (do companheiro Moreira) e os temíveis Comando Nelson, Danton e Farah (este com sede em Paris e dirigido pelo companheiro Cabral) e Comando Farah, Danton e Nelson (da Zona Oeste, sob a liderança do companheiro Picciani).
A luta continua!".
(Este manifesto foi encontrado nos blogs, orkuts, facebooks, twitters e youtubes que os guerrilheiros colocaram no ar, com o patrocínio da Petrobras e das Óticas do Povo. Na Rádio PMDB AM, Mercedes Sosa canta Me gustan los estudiantes).
Segunda-feira, 8 de Junho de 2009
O DIA EM QUE O PMDB CAIU NA CLANDESTINIDADE
No primeiro turno da eleição de 2010, os dois candidatos mais fortes empataram. Situação pra lá de esdrúxula. Apenas meia dúzia de votos os separaram e as coligações concordaram que o melhor mesmo era deixar para resolver no segundo turno.Os marqueteiros vibraram com a triplicação dos salários, uma vez que foram recontratados... pela coalizão adversária. Todos ganharam. Os financiadores de campanha repartiram o bolo. Os lobistas piraram. O dono de um instituto de pesquisa que havia previsto vitória folgada de um dos postulantes à Presidência da República foi agredido a socos e pontapés por um senador.
O impossível aconteceu: os presidentes do TSE, Joaquim Barbosa, e do STF, Gilmar Mendes, pela primeira vez, concordaram em alguma coisa: data vênia, não havia melhor solução do que aguardar o novo aviso das urnas.
Claro que houve discordâncias. Heloísa Helena, terceira colocada, teve sua posse defendida por Mão Santa, que ganhou as páginas amarelas da Veja. Os inimigos do voto eletrônico, o pedetista Osvaldo Maneschy à frente, denunciaram fraudes no sistema.
Antes do segundo turno, remarcado para o dia 23 de dezembro – os candidatos ganharam mais tempo para convencer o eleitor – muita coisa estranha aconteceu no Brasil e no mundo. Los Angeles devastada pelo terremoto, São Paulo na Segundona, o novo papa iraniano, o flagra do padre Marcelo e do bispo Macedo pedindo conselhos no terreiro do Alaketu... nem mesmo a substituição de Roberto Carlos por Roberto Justus no especial de fim de ano da Globo superou o assunto eleição como o mais lido na internet durante as longas semanas.
Até que o dia D chegou. Emissoras de rádio e televisão, jornais impressos e eletrônicos de todo o planeta vieram cobrir. A ONU e o governador Sérgio Cabral enviaram observadores. O estresse finalmente chegava ao fim. Milhões de brasileiros compareceram aos locais de votação e o índice de abstenção foi menor até do que na Albânia do falecido Enver Hoxha.
Na mesma noite, o novo empate técnico estava nos portais, blogs, twitters, orkuts e facebooks. Somente no dia seguinte, sexta-feira, véspera de Natal, saiu o novo resultado. Empate. Desta vez cravado.
62.341.274 votos para José Serra.
62.341.274 votos para Dilma Rousseff.
Nem mais, nem menos.
Com uma diferença: desta vez, ninguém reclamou. O resultado foi acatado.
Reunidos em um restaurante da Asa Sul, os maiores especialistas do mundo em governabilidade levaram a sério o plano B proposto pelo senador Heráclito Fortes, o companheiro infiltrado no DEM. E ele mesmo, o autor da idéia, foi escalado para dar a entrevista:
“É isso mesmo o que os senhores estão ouvindo. Fui informado agorinha mesmo que o PMDB caiu na clandestinidade. O PMDB e outros partidos da antiga base aliada do presidente... dos últimos presidentes que tivemos”.
“Mas, senador, não entendo uma coisa. Por que o senhor veio dar esta notícia? Desde ontem não localizamos ninguém do comando do PMD...”.
“Não localizaram porque eles já estão fazendo guerrilha”.
“Isso tem a ver com o anúncio da coligação PT-PSDB?”.
“O que o senhor acha da escolha do Malan para ministro da Fazenda e do Palocci para o Planejamento?”.
“...Artur Virgílio líder do governo no Senado e Arlindo Chinaglia líder na Câmara?”.
“... o senhor sabe o que o Michel Temer foi fazer na Venezuela?”.
“Não estou autorizado a falar mais nada. O que eu tinha a dizer, já disse. Agora, por favor, com licença que eu também vou à luta”.
Nos próximos capítulos, em algum ponto da blogosfera, leiam os "Diários da Guerrilha do PMDB".
“Não estou autorizado a falar mais nada. O que eu tinha a dizer, já disse. Agora, por favor, com licença que eu também vou à luta”.
Nos próximos capítulos, em algum ponto da blogosfera, leiam os "Diários da Guerrilha do PMDB".
Domingo, 7 de Junho de 2009
O CORONEL E O COMPUTADOR
Aguinaldo Ramos deu uma guinada na vida, não é a-toa que o chamam de Guina. Repórter fotográfico dos bons, continua clicando, agora também nas teclas. Enveredou pelos bosques da ficção e reúne seus textos no livro virtual 2010, o ano que será o fim. Um dos contos é inspirado em "O Coronel e o Lobisomem", obra-prima de José Cândido de Carvalho. Leia sua deliciosa continuação para esse tempo literalmente maluco de aquecimento global e que tais, tecle (ou clique) 2110ofim03.blogspot.com.TUCANOS PETISTAS E PETISTAS TUCANOS
Na postagem abaixo (se tiver saco, leia, para entender esta aqui), digo que vou votar num piano de cauda alemão, ou seja, no Serra ou na Dilma. Vou me estender mais um pouco sobre isso: como não sou tucano e nem petista, entre meus muitos defeitos não está o de carimbar, a torto e a direito, rótulos de certo e errado – o PSDB e o PT têm essa mania, herdada, respectivamente, dos autênticos do MDB e dos doutrinaristas e dogmatistas da velha esquerda.Já simpatizei mais com o PSDB, embora nunca tivesse votado em alguém do partido. Se meu título de eleitor fosse do Rio, não de Niterói, votaria sim, para vereador, aliás, vereadora.
Já fui do PT, com carteirinha e tudo, antes que os hunos invadissem o partido. Votei no Lula para presidente cinco vezes, contando segundos turnos. Mas nas eleições parlamentares já preferi o PDT e o PSOL.
Ah! Também já votei no Brizola, e não me arrependo.
Falando assim, parece que detesto o PSDB e o PT, ou que amo os dois de paixão, mas não é verdade nem uma coisa, nem outra. São dois partidos com ótimos quadros que pensam o país. O problema é que vivemos sob o presidencialismo, que força as duas legendas, tão próximas na ideologia, a disputarem o mesmo eleitorado de formadores de opinião.
Como os formadores de opinião não enchem o Maracanã, o PT e o PSDB são forçados a meter a mão no pântano, a implorar o apoio do PMDB e dos pmdbzinhos vira-latas que fabricam os piores e mais votados vereadores e prefeitos em todas as bibocas, e estes, por sua vez, são cabos-eleitorais fortíssimos dos piores e mais votados deputados federais e senadores.
Num regime parlamentarista, em vez disso, petistas e tucanos poderiam ser aliados na formação dos gabinetes, promovendo um rodízio de primeiros-ministros. E, eventualmente, incluir até outros partidos que o tempo se encarregaria de melhorar.
Minha intenção em votar num piano de cauda parte dessa lógica. Por isso, não estou nem aí para os arranca-rabos entre tucanos e petistas que fingem não pensar da mesma maneira e se esfolam porque só enxergam a disputa pela hegemonia.
No fundo, porém, os melhores petistas e os melhores tucanos estão carecas de saber que o país ganharia muito mais com a aliança PT-PSDB, que por enquanto só acontece em Sergipe e em alguns municípios de outros estados.
Sábado, 6 de Junho de 2009
MEU VOTO É PARA UM PIANO DE CAUDA ALEMÃO
Inspirado na postagem abaixo, sobre o marechal Lott, já tomei uma decisão: em 2010 vou votar num piano de cauda. Chega de violões desafinados, pistons estridentes e cavaquinhos mal tocados. O piano de cauda é certo – só não escolhi a marca ainda. Serra ou Dilma? Dilma ou Serra?Apesar de ser difícil de carregar, o piano de cauda é instrumento adequado para ambientes amplos como o nosso, que tem 8,5 milhões de quilômetros quadrados.
José Serra ou Dilma Rousseff, Dilma Rousseff ou José Serra, por enquanto reina a dúvida, mas ambos são pianos de cauda legítimos.
São meus candidatos a candidatos, embora desconfie que estejam sendo usados apenas para ensaios, o que é comum no caso dos pianos, tenham cauda ou não.
Deve ser paranóia minha: as pesquisas de intenção de votos revelam que o povo parece cansado de outros instrumentos de sopro, corda e percussão. Não é assim que queremos ver a banda tocar, é o que diz, no momento, a voz das ruas.
Dilma e Serra começam a conquistar as platéias e acho isso bom para o país que sonhamos ver, ainda vivos. Um deles, se depender do meu voto, vai estrear no concerto marcado para 1º de janeiro de 2011.
Dos políticos que levam o povo na flauta eu também estou cheio. De Cabral ao impeachment do Collor, eles dominaram o palco.
Esse país é tão louco que só começou a tomar jeito quando um mineiro nascido no meio do mar, dizem que num navio da Costeira, assumiu a Presidência em circunstâncias excepcionais. Minas só tem Mar de Espanha, que é roça, não tem praia. No entanto, foi bom enquanto durou. Era muita areia pro caminhãozinho do Itamar, mas tivemos uma boa chance de compará-lo com os que vieram antes. Não era preparado para o cargo, tanto que entrou porque era vice (e agora parece que o querem de novo no Palácio do Jaburu). Mas era um piano de cauda sério, apesar das bobagens daquela República do Pão de Queijo.
Conto nos dedos os antecessores dele que, apesar das lambanças e dos horrores, deram boas contribuições ao país: Mem de Sá, por ter expulsado os franceses; um ou dois marqueses do tempo do vice-reinado; Dom João VI hoje reabilitado, o filho Pedro que declarou a Independência e o neto Pedro, que consertou as cagadas do pai; o marechal Floriano, apesar do facínora Moreira César sempre por perto; os paulistas Campos Salles, que consertou a economia por uns tempos, e Rodrigues Alves, que modernizou o Rio de Janeiro; o mineiro Artur Bernardes, que foi o que devia ser na época, um nacionalista radical; o maior de todos, Getúlio Vargas que inventou a nossa infra-estrutura; vá lá, o Juscelino... e ... o Geisel. Pois é, me desculpem, mas o piano de cauda alemão que tocava no rodízio dos quartéis também deu seu empurrão.
A tal da “Nova República” foi aquele fracasso de bilheteria. Aí saíram os marimbondos de fogo e chegou o midiático caçador de marajás, que enviou a mão no teu bolso (no meu não, pois não tinha um puto na poupança) e que em boa hora recebeu o bilhete azul.
Do Itamar eu já falei. A partir dele, nos últimos 15 anos, e novamente digo “apesar de tantas lambanças”, surgiram – como se saíssem de uma estante do Mark Twain – o Príncipe e o Cara.
Quem gosta de um, geralmente detesta o outro. Eu não. Acho que são flautistas, mas pelo menos bem ensaiados, com repertório novo e razoavelmente bem cuidado.
E agora? Que entre um piano de cauda pesado e mais confiável. Imagino que os marqueteiros estejam decepcionados com 2010. Esses caras só vêem na eleição presidencial o espetáculo de fogos de artifício, adoram as cores azul e vermelha porque lembram as convenções americanas e só gostam de nadar em água rasa.
Sabem fazer presidentes e sucessores e, do jeito que a coisa anda, são até capazes de decidir quem é “o melhor nome”, o candidato “de maior apelo”. Devem estar fofocando enquanto não pegam no batente das campanhas:
“Vai ser a eleição mais chata do planeta! Dois pianos de cauda alemães!”.
Torcem, sem dúvida, pela entrada em cena de personas como o simpaticíssimo Aécio ou alguém parecido com a Marta. Serve até o Ciro, bom de porrada.
“Imagina se alguém pode ser tão ranzinza, autoritário e carrancudo como esses dois”.
“Um nem parece filho de verdureiro e ex-líder estudantil”.
“A outra, nem mineira é de verdade, não tem alma pessedista”.
Tô fora para o que pensam os marqueteiros. Mais assustados do que eles, só mesmo os especialistas em governabilidade. Aqueles que, sai governo, entra governo, como diria o Caetano, exercem seus podres poderes, desde que a mulher, a cunhada e o sobrinho estejam bem contemplados.
Chega de vaselina. Tá na hora dessa gente de cara fechada e espírito público mostrar seu valor.
Dilma é minha candidata a candidato do PT. E ponto final.
Serra é meu candidato a candidato do PSDB. E ponto final.
Ao PMDB e demais pmdbzinhos nanicos e coligados, desejo que sumam das nossas vistas. E que se dane a “governabilidade”.
Serra é meu candidato a candidato do PSDB. E ponto final.
Ao PMDB e demais pmdbzinhos nanicos e coligados, desejo que sumam das nossas vistas. E que se dane a “governabilidade”.
Direto da Rádio Berlim, o trecho mais famoso da Ópera dos Três Vinténs. O mais adequado seria Wagner, alemão demais pro nosso gosto, né não? Nem piano aparece, mas tudo bem, tá dado o recado musical.
Domingo, 31 de Maio de 2009
O MARECHAL QUE NÃO BRINCAVA EM SERVIÇO
Esse jingle em forma de marchinha foi composto há 50 anos por Rutinaldo Silva e Vicente Amar e foi estopim de polêmicas no comando da campanha do marechal Henrique Teixeira Lott à presidência da República. Não era tocado fora do antigo Estado do Rio, que, para quem não sabe, era o mesmo estado em que nos encontramos, menos a cidade do Rio de Janeiro, então Distrito Federal, capital da República, depois Estado da Guanabara, hoje capital do RJ.O sururu teve origem na letra esquerdista da marchinha, que contrastava com o perfil do Lott, candidato da coligação PSD-PTB à sucessão de Juscelino Kubitschek, militar legalista, avesso a golpes na política e nos quartéis, mas antes de tudo um homem conservador. De comunista, de esquerdista, Lott não tinha nada. Mas era o melhor candidato na época. O outro, que o venceu, Jânio Quadros, renunciou sete meses após assumir o cargo e, de certa forma, sua tresloucada passagem pela política abriu caminho para o golpe militar de 1964.
Em certo trecho do jingle, os autores dão o seguinte recado:
“Quem for contra a democracia,
vai entrar em fria, vai entrar em fria
A turma que não gosta do trabalho,
A turma que não gosta do trabalho,
vai cair do galho, vai cair do galho
E os entreguistas vão levar sumiço
porque o marechal não brinca em serviço”.
Recado mais claro, impossível. Se eleito fosse, de acordo com a marchinha, Lott mandaria para a cadeia ou para o cemitério aqueles que a turma do PTB fluminense considerava inimigos da Pátria. Claro que Lott não seria tão radical – esse perfil não condizia com ele. Mas era a grande aspiração de parte de um eleitorado, cansado de certos varejos da política.
No resto do país, o jingle do marechal foi outro, bem mais ameno.
Nas eleições de 1960, como todos sabem, Jânio ganhou de Lott em quase todos os estados da federação. Uma das poucas exceções foi o antigo Estado do Rio, na época governado por Roberto Silveira, que encomendou o jingle à dupla de compositores.
Muitas e boas histórias daquela campanha eleitoral são contadas no livro “Como não se faz um presidente”, do jornalista mineiro Milton Senna, esgotado há décadas. Senna, que queria Lott em Brasília, acompanhou o candidato pelo país afora e foi excelente observador de episódios e detalhes que contribuíram para a derrota do marechal.
A comparação que faz dos dois candidatos mostra como Jânio, uma raposa para galinheiro nenhum botar defeito, era extremamente atento ao burburinho das ruas, enquanto seu oponente perdia terreno por conta da integridade ingênua.
Sempre que convidado para algum comício, evento, solenidade, etc., Jânio perguntava antes:
– Tem povo? Se tiver povo, eu vou!
Já o marechal, em mais de uma oportunidade, quando os cabos-eleitorais tentavam tirá-lo do chão para criar aquela imagem, muito em voga nos anos 50 e sempre reproduzida pelos jornais, do “candidato nos braços do povo”, dava um esporro em regra nesses auxiliares:
– Não me tirem do chão. Tenho pernas!
E os entreguistas vão levar sumiço
porque o marechal não brinca em serviço”.
Recado mais claro, impossível. Se eleito fosse, de acordo com a marchinha, Lott mandaria para a cadeia ou para o cemitério aqueles que a turma do PTB fluminense considerava inimigos da Pátria. Claro que Lott não seria tão radical – esse perfil não condizia com ele. Mas era a grande aspiração de parte de um eleitorado, cansado de certos varejos da política.
No resto do país, o jingle do marechal foi outro, bem mais ameno.
Nas eleições de 1960, como todos sabem, Jânio ganhou de Lott em quase todos os estados da federação. Uma das poucas exceções foi o antigo Estado do Rio, na época governado por Roberto Silveira, que encomendou o jingle à dupla de compositores.
Muitas e boas histórias daquela campanha eleitoral são contadas no livro “Como não se faz um presidente”, do jornalista mineiro Milton Senna, esgotado há décadas. Senna, que queria Lott em Brasília, acompanhou o candidato pelo país afora e foi excelente observador de episódios e detalhes que contribuíram para a derrota do marechal.
A comparação que faz dos dois candidatos mostra como Jânio, uma raposa para galinheiro nenhum botar defeito, era extremamente atento ao burburinho das ruas, enquanto seu oponente perdia terreno por conta da integridade ingênua.
Sempre que convidado para algum comício, evento, solenidade, etc., Jânio perguntava antes:
– Tem povo? Se tiver povo, eu vou!
Já o marechal, em mais de uma oportunidade, quando os cabos-eleitorais tentavam tirá-lo do chão para criar aquela imagem, muito em voga nos anos 50 e sempre reproduzida pelos jornais, do “candidato nos braços do povo”, dava um esporro em regra nesses auxiliares:
– Não me tirem do chão. Tenho pernas!
Só que as pernas não o levaram para o Palácio da Alvorada, na época o palácio do governo, hoje residência do presidente da República.
Sexta-feira, 29 de Maio de 2009
O JORNAL QUE NÃO QUEREM QUE CHEGUE AOS 90
Já imaginou um monte de gente recebendo bilhete azul pelo viva-voz? “Não se iludam. O jornal acabou...”. O aviso prévio foi dado pelo antigo proprietário, Luiz Fernando Levy, em tom lamentoso, à redação da Gazeta Mercantil – um jornal que em 2010 completará ou completaria 90 anos de existência e, além de ter sido um farol para a economia ao longo de décadas, já teve o melhor suplemento cultural da cidade. No total são 62 jornalistas acostumados à rotina de salários atrasados e más condições de trabalho. Quando a bomba estourou, já havia até data para a última edição: 1º de junho, segunda-feira.Em assembleia na porta do jornal, nesta quarta, 27/05 (acabo de ler no site do Sindicato), os jornalistas que ainda tocam a Gazeta viram-se no meio da briga de cachorro grande entre Levy e o quebrador de empresas Nelson Tanure, este querendo devolver o jornal ao antigo dono, sob a alegação de que a dívida é alta, e se preparando para recorrer da penhora de suas ações na Intelig, determinada pela Justiça em São Paulo. O dinheiro servirá ou serviria para pagar R$ 200 milhões em dívidas trabalhistas.
O mais estranho é que o empresário, queixoso de dívidas, pegou o jornal exatamente porque estava falindo. Orgulha-se desse tipo de tacada no mundo dos negócios – deve ser divertido, tipo esporte radical. O que a gente imagina quando alguém assume o controle de uma empresa deficitária é que tentará salvá-la, mas o negócio dos quebradores de empresas consiste, exatamente, em quebrá-las. “Onde estão os problemas é que estão as grandes chances”, é a frase preferida do Murdoch dos trópicos.
Nas postagens abaixo, histórias do tempo em que dona Olivetti mandava no JB e seu Remington era o cara no Globo, ou vice-versa.
JÁ ME DISSERAM QUEM SÃO VOCÊS

Falando em ditadura e censura, o JB era alvo constante do mau humor dos militares. O velho Raul Ryff, ex-assessor de imprensa do presidente João Goulart, depois redator da Internacional do JB, era um dos mais visados. “De pé pelo Brasil!”, costumava dizer o bravo jornalista gaúcho, repetindo o slogan da Revolução de 1930. O Ryff de vez em quando desaparecia e a gente não sabia se estava preso ou se tinha ido ao Uruguai visitar o amigo Jango. De volta, sempre trazia alguma história bonita, dramática ou engraçada, sempre contada daquele jeito peculiar do povo dos Pampas, usando expressões hilárias.
Numa dessas, comentou que José Gomes Talarico, que também fazia as tais viagens a Montevidéu para levar e trazer recados do presidente deposto para seus aliados, tinha passado péssimos momentos. O DOPS teria obrigado o ex-deputado a ficar nu e um agente insinuou que Talarico poderia ter trazido alguma mensagem enfiada vocês sabem aonde. Ryff se escangalhava de rir contando o episódio: “O Talarico ficou muito sem graça, mas se recusou. Parecia um piá bosteado na beira do rancho”.
A ditadura não gostava de Alberto Dines e deve ter comemorado sua saída da direção do JB, em 1973. No lugar dele entrou o novo comandante, Walter Fontoura, vindo de São Paulo, e às vésperas de sua chegada o pessoal ficou meio cabisbaixo. Fontoura, seguramente, devia ser unha e carne com os gorilas. Era o que se dizia. E quase todos acreditaram nisso. Inclusive o Almeidinha, redator do Copy Desk e assessor de um general presidente de uma daquelas autarquias da época.
Logo que assumiu, ele foi dar as boas-vindas ao novo chefão, todo prosa. Mas caiu do cavalo. Minutos depois, Walter Fontoura foi de sala em sala (só a Reportagem Geral ocupava um espaço aberto, na época) conhecer e se fazer conhecido pelos repórteres, redatores, editores etc.
O grande momento foi no Copy Desk, onde se apresentou e deu uma notícia em primeira mão que quebrou imediatamente o clima ruim:
"Pessoal, acabo de saber tudo pelo Almeida. Ele já me contou quem são os comunistas da Redação! Agora vamos trabalhar".
Numa dessas, comentou que José Gomes Talarico, que também fazia as tais viagens a Montevidéu para levar e trazer recados do presidente deposto para seus aliados, tinha passado péssimos momentos. O DOPS teria obrigado o ex-deputado a ficar nu e um agente insinuou que Talarico poderia ter trazido alguma mensagem enfiada vocês sabem aonde. Ryff se escangalhava de rir contando o episódio: “O Talarico ficou muito sem graça, mas se recusou. Parecia um piá bosteado na beira do rancho”.
A ditadura não gostava de Alberto Dines e deve ter comemorado sua saída da direção do JB, em 1973. No lugar dele entrou o novo comandante, Walter Fontoura, vindo de São Paulo, e às vésperas de sua chegada o pessoal ficou meio cabisbaixo. Fontoura, seguramente, devia ser unha e carne com os gorilas. Era o que se dizia. E quase todos acreditaram nisso. Inclusive o Almeidinha, redator do Copy Desk e assessor de um general presidente de uma daquelas autarquias da época.
Logo que assumiu, ele foi dar as boas-vindas ao novo chefão, todo prosa. Mas caiu do cavalo. Minutos depois, Walter Fontoura foi de sala em sala (só a Reportagem Geral ocupava um espaço aberto, na época) conhecer e se fazer conhecido pelos repórteres, redatores, editores etc.
O grande momento foi no Copy Desk, onde se apresentou e deu uma notícia em primeira mão que quebrou imediatamente o clima ruim:
"Pessoal, acabo de saber tudo pelo Almeida. Ele já me contou quem são os comunistas da Redação! Agora vamos trabalhar".
O RECADO DA DIVINA

O baile Parece que foi hontem (assim mesmo, com h) era esperado o ano inteiro pelo povo das redações até que neguinho começou a torcer o nariz, dizendo que era coisa de velho. A Coopim, cooperativa de jornalistas que tinha à frente Fichel Davit Chargel, Domingos Meirelles e Ronaldo Buarque, entre outros, promoveu mais de 20 edições da festança onde só se entrava com fantasia da época ou smoking, summer, enfim, traje a rigor. A produção era esmerada e dinheiro para isso não faltava, pois os maiores anunciantes corriam para patrocinar a brincadeira que tinha sempre duas atrações principais – a Orquestra Tabajara, do maestro Severino Araújo, e um grande nome da música popular brasileira, gente do tempo do rádio e das gafieiras. A bagunça começava lá pelas nove da noite e terminava quase as seis da manhã.
Envergando meu summer alugado, fui a quase todos os bailes, o primeiro na ABI, depois na Galeria dos Empregados do Comércio, no Clube Espanhol do Humaitá e até no Copacabana Palace (Dick Farney e Cauby Peixoto), até se fixar no Monte Líbano. Neste clube vi Sílvio Caldas se despedindo do palco (ele era famoso por encerrar a carreira e voltar) pela última vez, a Ângela Maria, o Miltinho, os Cariocas.
Muitas cenas inesquecíveis e uma lembrança marcante: Ronaldo Buarque, um dos pais da idéia, exigiu que, quando morresse, fosse enterrado com o smoking ou summer que usava no baile. Assim foi feito.
Entre as cenas que não dá para esquecer, o show de Elizeth Cardoso, já no Monte Líbano. Sempre que chegava a hora da grande atração, o apresentador pedia a todos que voltassem para suas mesas para curtirem melhor o espetáculo. Alguns, meio bêbados, como os barbudos aí da foto menor – o então gerente da Souza Cruz Eduardo Varela (com os olhos azuis da Sheila, com os quais é casado até hoje) e Lauro Faria (hoje assessor de imprensa da Funcefet, em segundo plano, jogando um lero para uma criatura que nem ele deve lembrar mais quem era) – não ouviram o pedido e
continuaram na pista. O apresentador insistiu, com educação, no que foi interrompido pela Divina Elizeth, que deu a contra-ordem:
– Pessoal, com licença dos meus amigos da Coopim, eu vou fazer outro pedido a vocês. Por favor, voltem à pista e dancem. Vai ser um prazer pra mim, não esqueçam que comecei minha carreira artística como crooner do Dancing Avenida, picotando carnê. Pés-de-valsa, tá na hora de sacudir o esqueleto!
Não foi preciso dizer duas vezes.
Envergando meu summer alugado, fui a quase todos os bailes, o primeiro na ABI, depois na Galeria dos Empregados do Comércio, no Clube Espanhol do Humaitá e até no Copacabana Palace (Dick Farney e Cauby Peixoto), até se fixar no Monte Líbano. Neste clube vi Sílvio Caldas se despedindo do palco (ele era famoso por encerrar a carreira e voltar) pela última vez, a Ângela Maria, o Miltinho, os Cariocas.
Muitas cenas inesquecíveis e uma lembrança marcante: Ronaldo Buarque, um dos pais da idéia, exigiu que, quando morresse, fosse enterrado com o smoking ou summer que usava no baile. Assim foi feito.
Entre as cenas que não dá para esquecer, o show de Elizeth Cardoso, já no Monte Líbano. Sempre que chegava a hora da grande atração, o apresentador pedia a todos que voltassem para suas mesas para curtirem melhor o espetáculo. Alguns, meio bêbados, como os barbudos aí da foto menor – o então gerente da Souza Cruz Eduardo Varela (com os olhos azuis da Sheila, com os quais é casado até hoje) e Lauro Faria (hoje assessor de imprensa da Funcefet, em segundo plano, jogando um lero para uma criatura que nem ele deve lembrar mais quem era) – não ouviram o pedido e
continuaram na pista. O apresentador insistiu, com educação, no que foi interrompido pela Divina Elizeth, que deu a contra-ordem:– Pessoal, com licença dos meus amigos da Coopim, eu vou fazer outro pedido a vocês. Por favor, voltem à pista e dancem. Vai ser um prazer pra mim, não esqueçam que comecei minha carreira artística como crooner do Dancing Avenida, picotando carnê. Pés-de-valsa, tá na hora de sacudir o esqueleto!
Não foi preciso dizer duas vezes.
O ESPAÇO DO JORNAL NÃO É DE BORRACHA

Quem conta é o Romildo Guerrante, repórter que circula com desembaraço entre Paris e São Gonçalo:
"Zé Silveira chefiava a reportagem do JB numa fase difícil, meados da década de 70, acumulando a chefia – que dividia com Lutero Soares – com a edição do jornalão. Um belo dia encomendou uma matéria especial de domingo a um grupo de repórteres. A matéria seria coordenada por Sérgio Fleury, repórter apurador meticuloso e de texto corretíssimo, que fazia parte de uma trupe privilegiada de 16 repórteres especiais.
Quem fazia as tais matérias ditas "dominicais" ficava fora da pauta do dia a dia. Não me lembro o tema, acho que era Baía de Guanabara. As dominicais eram matérias mais extensas, tinham 10/12 laudas, e geralmente assinadas, o que encantava a geração de repórteres a que pertenci, porque lhes reconhecia o valor e os identificava no mercado. Naquela época só se assinava matéria de domingo, e assim mesmo se fosse muito boa. Durante a semana, só assinava matéria o repórter que produzisse algo muito especial, fora do comum, ou que tivesse exigido algum esforço excepcional.
Uma semana depois, o Fleury bota cerca de 30 laudas da encomenda sobre a mesa do Silveira. Quando Silveira chega do almoço e dá de cara com aquele pacote sobre a mesa, chama o Fleury, que vai lá no aquário com as mãos para trás. Silveira, alternando o olhar nos olhos do Fleury com as páginas sem fim que folheava daquele pacote, perguntou:
– Fleury, essa matéria tem prefácio?".
Quem fazia as tais matérias ditas "dominicais" ficava fora da pauta do dia a dia. Não me lembro o tema, acho que era Baía de Guanabara. As dominicais eram matérias mais extensas, tinham 10/12 laudas, e geralmente assinadas, o que encantava a geração de repórteres a que pertenci, porque lhes reconhecia o valor e os identificava no mercado. Naquela época só se assinava matéria de domingo, e assim mesmo se fosse muito boa. Durante a semana, só assinava matéria o repórter que produzisse algo muito especial, fora do comum, ou que tivesse exigido algum esforço excepcional.
Uma semana depois, o Fleury bota cerca de 30 laudas da encomenda sobre a mesa do Silveira. Quando Silveira chega do almoço e dá de cara com aquele pacote sobre a mesa, chama o Fleury, que vai lá no aquário com as mãos para trás. Silveira, alternando o olhar nos olhos do Fleury com as páginas sem fim que folheava daquele pacote, perguntou:
– Fleury, essa matéria tem prefácio?".
ANARQUISTA TAMBÉM É BOM DE MANCHETE

“A Merda” foi um jornal anarquista que chegou a ter leitores fiéis e boas tiragens em Portugal após a Revolução dos Cravos, em 25 de abril de 1974. O diário elegeu imediatamente como inimigo o general Spínola, que pouco ou nada tinha feito para derrubar o governo neo-salazarista de Marcelo Caetano e assim mesmo assumiu a presidência.
Louco para livrar-se dos militares esquerdistas e governar sozinho, Spínola foi forçado a renunciar. Recorreu, então, a um expediente manjado: inventou que os inimigos planejavam matar seus aliados. Na noite de 10 de março de 1975, meteu o pé na porta de uma base militar e tentou dar um golpe, que não deu certo porque Lisboa foi ocupada no dia seguinte pelos paraquedistas do 1º Regimento de Artilharia Ligeira, cuja sigla era RAL 1.
Ao peçonhento não restou outra saída: tirou o time naquele 11 de março.
Mas o melhor ainda estava por vir: no dia 12, “A Merda” estampou na primeira página uma das melhores manchetes de jornais em todos os tempos:
RAL 1 x SPÍNOLA 0!
Louco para livrar-se dos militares esquerdistas e governar sozinho, Spínola foi forçado a renunciar. Recorreu, então, a um expediente manjado: inventou que os inimigos planejavam matar seus aliados. Na noite de 10 de março de 1975, meteu o pé na porta de uma base militar e tentou dar um golpe, que não deu certo porque Lisboa foi ocupada no dia seguinte pelos paraquedistas do 1º Regimento de Artilharia Ligeira, cuja sigla era RAL 1.
Ao peçonhento não restou outra saída: tirou o time naquele 11 de março.
Mas o melhor ainda estava por vir: no dia 12, “A Merda” estampou na primeira página uma das melhores manchetes de jornais em todos os tempos:
RAL 1 x SPÍNOLA 0!
QUE BELA COLEGA DE TRABALHO, RRROOOCHAAA!

Entrevistei o Brizola uma vez, para o Jornal do Brasil. Aliás, entrevistamos, eu e a repórter Valéria Blanc. Eu era subeditor da Política e o que nos levou ao encontro da lenda trabalhista foi um arranca-rabo entre ele e o então ministro da Justiça do governo Itamar Franco, Maurício Corrêa.
Maurício Corrêa também era do PDT e as coisas não andavam muito bem entre ele e Brizola, o chefe do partido. Como a entrevista foi marcada numa sexta-feira, dia de pescoção, e teria que ser publicada no domingo, foi uma correria só. Levando-se em conta que Brizola nunca respondia ao que lhe era perguntado, a menos que quisesse muito falar a respeito, e que era preciso escrever material suficiente para fechar uma página, a editora Regina Zappa achou boa a idéia de irem dois para a entrevista, marcada para o fim da tarde e que teria, portanto, de ser escrita no fim da noite ou de madrugada. Não levamos fotógrafo, as fotos seriam mesmo do arquivo e a página estava desenhada.
O detalhe é que eu não esperava esse compromisso e estava com blaser, mas sem gravata. Brizola não se importaria com isso, mas seria melhor o traje completo. Pedi emprestada ao jovem repórter Luís Antônio Ryff, neto do queridíssimo Raul, uma bela gravata vermelha. Saímos da Avenida Brasil, eu e a Valéria, e fomos recebidos no apê do homem, na Avenida Atlântica. Tentamos fazer algumas perguntas, mas ele era mesmo incorrigível. Só respondeu algumas. A matéria nem era tão boa, pois as declarações mais fortes (e nem tanto assim) foram do ministro, que, se não me engano, nos deu por telefone.
Logo de cara, uma cena engraçada. Ao me ver, e já sabendo nossos nomes, elogiou a gravata, para todos os efeitos minha:
– Rrrrocha! (nunca ninguém me chamou assim, com tantos “erres”). Que bela gravata! Estás parecendo um maragato! Veja a minha, o que acha?
Maurício Corrêa também era do PDT e as coisas não andavam muito bem entre ele e Brizola, o chefe do partido. Como a entrevista foi marcada numa sexta-feira, dia de pescoção, e teria que ser publicada no domingo, foi uma correria só. Levando-se em conta que Brizola nunca respondia ao que lhe era perguntado, a menos que quisesse muito falar a respeito, e que era preciso escrever material suficiente para fechar uma página, a editora Regina Zappa achou boa a idéia de irem dois para a entrevista, marcada para o fim da tarde e que teria, portanto, de ser escrita no fim da noite ou de madrugada. Não levamos fotógrafo, as fotos seriam mesmo do arquivo e a página estava desenhada.
O detalhe é que eu não esperava esse compromisso e estava com blaser, mas sem gravata. Brizola não se importaria com isso, mas seria melhor o traje completo. Pedi emprestada ao jovem repórter Luís Antônio Ryff, neto do queridíssimo Raul, uma bela gravata vermelha. Saímos da Avenida Brasil, eu e a Valéria, e fomos recebidos no apê do homem, na Avenida Atlântica. Tentamos fazer algumas perguntas, mas ele era mesmo incorrigível. Só respondeu algumas. A matéria nem era tão boa, pois as declarações mais fortes (e nem tanto assim) foram do ministro, que, se não me engano, nos deu por telefone.
Logo de cara, uma cena engraçada. Ao me ver, e já sabendo nossos nomes, elogiou a gravata, para todos os efeitos minha:
– Rrrrocha! (nunca ninguém me chamou assim, com tantos “erres”). Que bela gravata! Estás parecendo um maragato! Veja a minha, o que acha?
Não sou entendido em moda, mas posso garantir que nunca vi gravata tão horrorosa. Era azul clara e tinha o desenho de um canguru. Acho que ele tinha várias iguais aquela.
– É australiana!
Como se eu não soubesse. Brizola naquela época, era apaixonado pela Austrália, que deve ser um Uruguai grandão. Essa mania pela Austrália nunca me convenceu, acho que foi uma bela sacada dele para deixar os militares (ainda no poder, mas já em tempo de distensão) menos nervosos. Valéria, visivelmente, segurava o riso. Eu já havia percebido duas coisas: uma, que o entrevistado não ia nos oferecer nada de bom; e duas, que o foco de seu interesse era aquela moça loura, alta, bonita e muitíssimo bem-humorada.
A conversa durou meia hora, se tanto, uma abobrinha atrás da outra. De repente, levantou-se e prometeu que teríamos material para escrever, pois a entrevista continuaria depois de outra, já programada, no estúdio do SBT no Rio, com o Bóris Casoy. Fomos até São Cristóvão e na TV o caudilho não agiu diferente. O Bóris tentava, tentava e nada de bom saía. A coisa durou uns 10 ou 15 minutos, com tela dividida, e quando terminou já passava de onze e meia.
– E a nossa entrevista, governador? É para domingo, depois de amanhã.
– É claaaro que vamos charlar! Vamos encontrar um local melhor para vocês.
– É australiana!
Como se eu não soubesse. Brizola naquela época, era apaixonado pela Austrália, que deve ser um Uruguai grandão. Essa mania pela Austrália nunca me convenceu, acho que foi uma bela sacada dele para deixar os militares (ainda no poder, mas já em tempo de distensão) menos nervosos. Valéria, visivelmente, segurava o riso. Eu já havia percebido duas coisas: uma, que o entrevistado não ia nos oferecer nada de bom; e duas, que o foco de seu interesse era aquela moça loura, alta, bonita e muitíssimo bem-humorada.
A conversa durou meia hora, se tanto, uma abobrinha atrás da outra. De repente, levantou-se e prometeu que teríamos material para escrever, pois a entrevista continuaria depois de outra, já programada, no estúdio do SBT no Rio, com o Bóris Casoy. Fomos até São Cristóvão e na TV o caudilho não agiu diferente. O Bóris tentava, tentava e nada de bom saía. A coisa durou uns 10 ou 15 minutos, com tela dividida, e quando terminou já passava de onze e meia.
– E a nossa entrevista, governador? É para domingo, depois de amanhã.
– É claaaro que vamos charlar! Vamos encontrar um local melhor para vocês.
E, para mim, mas acho que em tom alto o suficiente para que a moça ouvisse:
– Mas, francamente, Rrrrrocha, que bela colega de trabalho tu tens!
Seguimos no carro dele, eu e Valéria no banco traseiro, Brizola no carona, tendo atrás e na frente mais dois carros com os seguranças. Fomos parar, a nosso pedido, na esquina da Avenida Brasil com aquela rua da igreja, cujo nome esqueci, bem em frente ao JB.
Entrevista? Quem dera. O tempo inteiro, Sua Excelência alternava conversa fiada e elogios à jovem repórter. Num dado momento, o sacana do Leonel não resistiu e, como quem não quer nada, deu um jeito de colocar a mão no joelho da coleguinha, mas de um modo que poderia parecer meio paternal. Profissa!
Seguimos no carro dele, eu e Valéria no banco traseiro, Brizola no carona, tendo atrás e na frente mais dois carros com os seguranças. Fomos parar, a nosso pedido, na esquina da Avenida Brasil com aquela rua da igreja, cujo nome esqueci, bem em frente ao JB.
Entrevista? Quem dera. O tempo inteiro, Sua Excelência alternava conversa fiada e elogios à jovem repórter. Num dado momento, o sacana do Leonel não resistiu e, como quem não quer nada, deu um jeito de colocar a mão no joelho da coleguinha, mas de um modo que poderia parecer meio paternal. Profissa!
Só que o nosso deadline estava estourando e, pensando bem, o pouco que ele nos contara, juntando com o desabafo do Maurício Corrêa, já daria para o gasto. Quando viu que a coisa estava caminhando para um terreno perigoso, Valéria, muito franca, mas sem passar recibo, cortou o barato do sucessor de Getúlio e Jango e praticamente me empurrou para fora do carro. Saímos correndo feito loucos não só para tentar um segundo, em vez de terceiro clichê. Não dava mais para segurar as gargalhadas.
A matéria rendeu meia página de texto e o resto enchemos de fotos.
O JORNALISTA QUE MORREU DE FOME

Morrer de fome existe sim, não apenas no sentido figurado, que o digam os desabrigados do Maranhão e de outros estados castigados pelas chuvas e enchentes no Nordeste. Até jornalista morre de fome. Teve um que, desempregado, virou mendigo no Campo de Santana, e não tem tanto tempo. Não sei por onde anda. Tomara que esteja muito bem.
O caso mais famoso, porém, aconteceu há quase 100 anos. Gustavo de Lacerda, de pai branco e mãe escrava, socialista radical, chegou ao Rio de Janeiro, vindo de Santa Catarina, e trabalhou em vários jornais importantes, como O País, onde o pagamento era em vales.
Foi um dos idealizadores do Congresso Operário Brasileiro e, enfrentando muita oposição, um dos criadores e primeiro presidente da entidade que, em 1908, começou a prestar assistência aos profissionais de imprensa e seus familiares, o que incluía atendimento médico e até moradia.Um ano depois de fundar a ABI, Gustavo de Lacerda morreu, aos 55 anos, num leito da Santa Casa de Misericórdia. Subnutrido.
O caso mais famoso, porém, aconteceu há quase 100 anos. Gustavo de Lacerda, de pai branco e mãe escrava, socialista radical, chegou ao Rio de Janeiro, vindo de Santa Catarina, e trabalhou em vários jornais importantes, como O País, onde o pagamento era em vales.
Foi um dos idealizadores do Congresso Operário Brasileiro e, enfrentando muita oposição, um dos criadores e primeiro presidente da entidade que, em 1908, começou a prestar assistência aos profissionais de imprensa e seus familiares, o que incluía atendimento médico e até moradia.Um ano depois de fundar a ABI, Gustavo de Lacerda morreu, aos 55 anos, num leito da Santa Casa de Misericórdia. Subnutrido.
O XÁ DA PÉRSIA CHEGA AO ESPÍRITO SANTO

Quantas pessoas se apaixonaram pelas vozes das novelas, na era de ouro da Rádio Nacional? Pior que os artistas não tinham seus rostos conhecidos do público, e alguns por um ótimo motivo – eram feios. Na TV, as paixões são igualmente arrebatadoras e engana-se quem pensa que isso só acontece com os fãs das modelos-manequins que faturam mais do que os verdadeiros atores e atrizes. A tia de um amigo meu não perde a programação esportiva da Globo, o que inclui os gols do Fantástico. Diz meu chapa Marco Carvalho, autor de “Feijoada no Paraíso – a saga de Besouro, o capoeira”, que a velhinha – solteira desde o tempo em que o Estado Novo fazia jus ao nome – se empeteca toda, bota roupa legal, se maquia, só para ver na telinha seu objeto de desejo... o Léo Batista, mais antigo apresentador da televisão brasileira em atividade, com mais de 60 anos de carreira.
– Um dia eu rodo a baiana e vou pra porta da Globo só pra beliscar aquele lindo, aquele bochechudo! – sonha em voz alta a vivida senhora, para deleite dos sobrinhos e sobrinhos-netos, um bando de sacanas.
Mas o rádio é o rádio e a história que agora reproduzo foi enviada por meu amigo Eduardo Varela, hoje professor da UFF, ex-repórter do Globo. Lembram do Eliakim Araújo, que hoje mora nos EUA? No tempo em que ainda não tinha seu rosto na TV, quando trabalhava na Rádio JB, ele quase foi pedido em casamento por um amiga nossa, a serventuária da Justiça Gerusa Dan Moraes, que veio do Espírito Santo para morar muitos anos em Niterói.
Os dois viviam no Bar Natal, um pé-sujo inesquecível no Centro de Niterói, que foi demolido para a construção de um shopping.
Uma vez, conta o Varela, Gerusa me segredou que ficava louca quando ouvia a voz do Eliakim, na JB AM.
– Varela, eu fico louca com aquele homem! Quando ele diz “Teerã urgente! O Xá Reza Pahlevi afirmou ontem...”, qualquer coisa assim, chego a ter um orgasmo! Acordo cedo todo dia só pra ouvir o noticiário!
Entre aspas, o texto do Varela:
“Isso foi dito no meio de uma porrada de cervejas e guardei a confidência daquela amiga que veio de Jerônimo Monteiro, cidade também conhecida como Jerominho. Naquele lugar, Gerusa tinha uma pequena casa, dois ou três bois, um poço e uma vida simples. Com a família, morava uma tia querida, dona Placídia, que perdoava a vida um tanto desregrada da sobrinha no Rio de Janeiro.
Meses depois, eu fazia o house organ de uma multinacional e teria que gravar um audiovisual sobre a empresa. Os diretores queriam que fosse escalada voz mais badalada da época: o próprio Eliakim. Liguei para ele – o cara era super gente boa – e marcamos a hora da gravação num estúdio da Rua Santa Luzia, Centro do Rio.
Enquanto o vozeirão gravava no aquário, lembrei da Gerusa e, numa máquina de escrever, fiz um texto. Eliakim riu e topou a brincadeira.
Muito sério, voltou ao estúdio e, após um pigarro, mandou em tom de edição extraordinária:
– E atenção, atenção! O Xá Reza Pahlevi acaba de chegar a Jerônimo Monteiro para conhecer Gerusa Dan Moraes, que admira muito a cultura persa. Jerominho recebeu o visitante de braços abertos e a comitiva se hospedou na casa da própria Gerusa, onde o Xá do Irã travou longa conversa com Titia Placídia para conhecer detalhes sobre o fechamento iminente do Bar Natal”.
A gravação foi presenteada à Gerusa, com música de fundo e tudo. Ela levou a fita à cidade natal e pediu audiência ao prefeito, que não se fez de rogado: no ato, concedeu ao Xá do Irã e ao apresentador da JB AM o título de Cidadão Honorário.
– Um dia eu rodo a baiana e vou pra porta da Globo só pra beliscar aquele lindo, aquele bochechudo! – sonha em voz alta a vivida senhora, para deleite dos sobrinhos e sobrinhos-netos, um bando de sacanas.
Mas o rádio é o rádio e a história que agora reproduzo foi enviada por meu amigo Eduardo Varela, hoje professor da UFF, ex-repórter do Globo. Lembram do Eliakim Araújo, que hoje mora nos EUA? No tempo em que ainda não tinha seu rosto na TV, quando trabalhava na Rádio JB, ele quase foi pedido em casamento por um amiga nossa, a serventuária da Justiça Gerusa Dan Moraes, que veio do Espírito Santo para morar muitos anos em Niterói.
Os dois viviam no Bar Natal, um pé-sujo inesquecível no Centro de Niterói, que foi demolido para a construção de um shopping.
Uma vez, conta o Varela, Gerusa me segredou que ficava louca quando ouvia a voz do Eliakim, na JB AM.
– Varela, eu fico louca com aquele homem! Quando ele diz “Teerã urgente! O Xá Reza Pahlevi afirmou ontem...”, qualquer coisa assim, chego a ter um orgasmo! Acordo cedo todo dia só pra ouvir o noticiário!
Entre aspas, o texto do Varela:
“Isso foi dito no meio de uma porrada de cervejas e guardei a confidência daquela amiga que veio de Jerônimo Monteiro, cidade também conhecida como Jerominho. Naquele lugar, Gerusa tinha uma pequena casa, dois ou três bois, um poço e uma vida simples. Com a família, morava uma tia querida, dona Placídia, que perdoava a vida um tanto desregrada da sobrinha no Rio de Janeiro.
Meses depois, eu fazia o house organ de uma multinacional e teria que gravar um audiovisual sobre a empresa. Os diretores queriam que fosse escalada voz mais badalada da época: o próprio Eliakim. Liguei para ele – o cara era super gente boa – e marcamos a hora da gravação num estúdio da Rua Santa Luzia, Centro do Rio.
Enquanto o vozeirão gravava no aquário, lembrei da Gerusa e, numa máquina de escrever, fiz um texto. Eliakim riu e topou a brincadeira.
Muito sério, voltou ao estúdio e, após um pigarro, mandou em tom de edição extraordinária:
– E atenção, atenção! O Xá Reza Pahlevi acaba de chegar a Jerônimo Monteiro para conhecer Gerusa Dan Moraes, que admira muito a cultura persa. Jerominho recebeu o visitante de braços abertos e a comitiva se hospedou na casa da própria Gerusa, onde o Xá do Irã travou longa conversa com Titia Placídia para conhecer detalhes sobre o fechamento iminente do Bar Natal”.
A gravação foi presenteada à Gerusa, com música de fundo e tudo. Ela levou a fita à cidade natal e pediu audiência ao prefeito, que não se fez de rogado: no ato, concedeu ao Xá do Irã e ao apresentador da JB AM o título de Cidadão Honorário.
SE FICAR PARADO, NINGUÉM SE MOLHA
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Haroldo Habib, além de lavar tomates com detergente muito antes de isso virar moda, tinha outras teorias, e uma das melhores, lembra Márcio Tavares, era sobre o que se deve fazer quando chove torrencialmente.
– A melhor coisa que a gente deve fazer no temporal é andar devagar. Quando mais você corre, mais se molha.
Tavares deu a cutucada fatal:
– Entendi. Então, se eu ficar parado, não me molho, fico sequinho, é isso?
O turco quase o esgoelou.
– A melhor coisa que a gente deve fazer no temporal é andar devagar. Quando mais você corre, mais se molha.
Tavares deu a cutucada fatal:
– Entendi. Então, se eu ficar parado, não me molho, fico sequinho, é isso?
O turco quase o esgoelou.
A CACHOEIRA DECLAMADA E INTERPRETADA NO BOTECO

O texto é de Emmanuel de Macedo Soares, móveis e utensílios deste blog:
“Rio de Janeiro, lado de lá da poça. As noites sacramentais do Lamas. Não esse arremedo minúsculo que continua ali, a poucos metros, mas o antigão, imenso Maracanã da boemia, no Largo do Machado. Havia mais jornalistas naquele reduto do que em qualquer congresso internacional de Imprensa. E não só jornalistas. Também alguns excelsos representantes da laboriosa classe dos tipógrafos, que naqueles antanhos pré-computadores transformavam em letrinhas de chumbo o que inventávamos nas Olivettis de última geração.
Um deles era o Tobias Monteiro, chefe dos linotipistas do falecido Diário de Notícias, que tinha dois defeitos essenciais: bebia como gambá e era poeta. Na verdade, meio poeta e meio ator, porque além de declamar os quilométricos poemas que escrevia, quando lhe ia o álcool ao cerebelo cismava de encenar o texto...
Sua criação predileta era “A Cachoeira de Paulo Afonso”, que ouvíamos falsamente embevecidos, aos risos e aplausos. Principalmente nos trechos em que ele, empolgado pela birita e pela emoção, se atirava e rolava pelo chão do velho Lamas, como se fosse as encapeladas águas da dita cuja cachoeira. Metade copiado de Castro Alves, metade dos açucarados sonetos do J. G. de Araújo Jorge, que importa? Tobias era o nosso poeta preferido.
Lá uma noite – devia ser verão, pois tínhamos exagerado nas lourinhas suadas – Tobias declamava sua monumental obra-prima quando reparamos em dois rapazes numa mesa próxima, tão ou quanto alcoolizados, que pareciam entediados com o espetáculo. Desconhecidos na roda, descobrimos depois que eram engenheiros.
Terminada a performance, mal sacudia o festejado autor a poeira das roupas, um dos jovens se aproximou dele e perguntou, com aquela voz arrastada e gaguejante de bêbado:
O– Es...ses... ver...sos... hic... são seus?
O bom baiano, preparando-se para ouvir o maior elogio do mundo, estufou o peito de orgulho e confessou o crime:
– São!
– O sr. me per...mite duas ob...servações?
– Claro, claro! Sou aberto a críticas...
– Em primeiro lugar... hic... o poema é uma merrrrrda... Em segun...do lu...lugar, agora não é mais Cachoeira de Paulo Afonso. É Hidrelétrica do São Francisco...
Pobres rapazes. Saíram corridos do Lamas debaixo de vaia, e por pouco não levam umas boas bordoadas, para aprenderem a respeitar o talento alheio...
Eu disse talento? Deixa prá lá...”.
“Rio de Janeiro, lado de lá da poça. As noites sacramentais do Lamas. Não esse arremedo minúsculo que continua ali, a poucos metros, mas o antigão, imenso Maracanã da boemia, no Largo do Machado. Havia mais jornalistas naquele reduto do que em qualquer congresso internacional de Imprensa. E não só jornalistas. Também alguns excelsos representantes da laboriosa classe dos tipógrafos, que naqueles antanhos pré-computadores transformavam em letrinhas de chumbo o que inventávamos nas Olivettis de última geração.
Um deles era o Tobias Monteiro, chefe dos linotipistas do falecido Diário de Notícias, que tinha dois defeitos essenciais: bebia como gambá e era poeta. Na verdade, meio poeta e meio ator, porque além de declamar os quilométricos poemas que escrevia, quando lhe ia o álcool ao cerebelo cismava de encenar o texto...
Sua criação predileta era “A Cachoeira de Paulo Afonso”, que ouvíamos falsamente embevecidos, aos risos e aplausos. Principalmente nos trechos em que ele, empolgado pela birita e pela emoção, se atirava e rolava pelo chão do velho Lamas, como se fosse as encapeladas águas da dita cuja cachoeira. Metade copiado de Castro Alves, metade dos açucarados sonetos do J. G. de Araújo Jorge, que importa? Tobias era o nosso poeta preferido.
Lá uma noite – devia ser verão, pois tínhamos exagerado nas lourinhas suadas – Tobias declamava sua monumental obra-prima quando reparamos em dois rapazes numa mesa próxima, tão ou quanto alcoolizados, que pareciam entediados com o espetáculo. Desconhecidos na roda, descobrimos depois que eram engenheiros.
Terminada a performance, mal sacudia o festejado autor a poeira das roupas, um dos jovens se aproximou dele e perguntou, com aquela voz arrastada e gaguejante de bêbado:
O– Es...ses... ver...sos... hic... são seus?
O bom baiano, preparando-se para ouvir o maior elogio do mundo, estufou o peito de orgulho e confessou o crime:
– São!
– O sr. me per...mite duas ob...servações?
– Claro, claro! Sou aberto a críticas...
– Em primeiro lugar... hic... o poema é uma merrrrrda... Em segun...do lu...lugar, agora não é mais Cachoeira de Paulo Afonso. É Hidrelétrica do São Francisco...
Pobres rapazes. Saíram corridos do Lamas debaixo de vaia, e por pouco não levam umas boas bordoadas, para aprenderem a respeitar o talento alheio...
Eu disse talento? Deixa prá lá...”.
ERA UMA VEZ, MUITO ANTES DA MÁFIA DAS VANS

Romildo Guerrante conta aquilo que neguinho chama hoje de making of de uma matéria que fez, no Jornal do Brasil, sobre a corrupção nos transportes. Pois é, três décadas antes de surgir a máfia das vans, já havia polícia metida nesse furdunço.
Diz como foi, Romildo!
“No início da década, eu engatinhava como repórter de transportes e trânsito. Tinha dois anos de redação quando saímos da Rio Branco para a Avenida Brasil. Vivíamos a ditadura Médici. Quase todo dia eu ia às ruas com um fotógrafo para surpreender kombis que faziam transporte clandestino. Era o início da máfia das vans.
Por hábito de apuração criado no JB, anotava as placas das kombis apreendidas. Observei depois de umas duas semanas de cobertura que as mesmas kombis que eram apreendidas reapareciam no "trabalho" dois dias depois.
Fiquei intrigado com aquilo. Busquei minhas fontes. Todo mundo com medo de falar.
Um belo dia, uma secretária me chamou num canto, sete da noite, hora de voltar pra redação, e me disse o seguinte: o diretor (do Detran, um brigadeiro, durante certo tempo aquilo lá foi feudo da Aeronáutica) não poderia me receber naquele dia porque estava irritadíssimo. Descobriu que as kombis que seus agentes apreendem na cidade são liberadas pela Secretaria de Segurança, porque pertencem a detetives de lá.
Fui pro jornal e escrevi 20 linhas.
No dia seguinte, ao passar pelo Detran, o clima era de extrema animosidade comigo. Um porta-voz do diretor me disse que o secretário de Segurança queria falar comigo (não me lembro mais o nome dele, foi no primeiro governo Chagas Freitas). Fui lá, no antigo prédio do Dops. Ele me botou na sala e falou de sua contrariedade com a matéria, depois tentou me intimidar pra que eu desse a fonte.
Finalmente, me disse o seguinte: a partir de amanhã o senhor não vai mais cobrir o Detran. Venha diariamente aqui pra Secretaria de Segurança. Tremi de medo. Voltei para o jornal assustadíssimo, havia ameaças todo dia. Fui falar com o Carlos Lemos, chefe de Redação.
Lemos, tranquilo, me disse o seguinte, dirigindo-se ao repórter bobinho: "Ô Romildo, o dia que o secretário de segurança pautar repórter meu, eu fecho este botequim".
Rimos os dois. Fiquei aliviado. Me mandou prosseguir na cobertura. Só que, ao chegar ao Detran, no dia seguinte, meu acesso não foi autorizado. Fiquei por ali, abordando uns e outros, ligando para tentar bypassar a proibição, até que consegui algumas matérias. Um belo dia, circulando em volta do prédio, vi uma construção estranha de madeira nos fundos, uma espécie de jirau. Pergunta dali, pergunta daqui, um motorista do Detran, que não sabia da minha interdição, me contou a história:
– O brigadeiro teve um enfarte e eles estão fazendo um elevador provisório porque ele não pode subir escadas.
Chamei um fotógrafo e documentamos a obra. Mais 20 linhas, agora recheadas com a história do enfarte: o brigadeiro tinha discutido uma semana antes com o proprietário de um posto de gasolina que falira em Vila Isabel. E o posto faliu porque o Detran mudou a mão de uma rua que descia de Jacarepaguá em frente ao posto do cidadão. O trânsito passou todo a ser feito na rua paralela, onde alguém tinha edificado um posto de gasolina novinho, de outra bandeira.
Foi sair a matéria e as coisas pioraram muito. Dois ou três dias depois, estava eu na porta do Detran interceptando possíveis fontes quando veio em minha direção um policial civil que eu conhecia de vista, conhecido como Marreco, citado no livro do Hélio Silva como torturador. Passou junto a mim e disse baixinho:
– Cuidado, garoto, que você pode morrer atropelado.
Sobrevivi pra contar a história”.
Diz como foi, Romildo!
“No início da década, eu engatinhava como repórter de transportes e trânsito. Tinha dois anos de redação quando saímos da Rio Branco para a Avenida Brasil. Vivíamos a ditadura Médici. Quase todo dia eu ia às ruas com um fotógrafo para surpreender kombis que faziam transporte clandestino. Era o início da máfia das vans.
Por hábito de apuração criado no JB, anotava as placas das kombis apreendidas. Observei depois de umas duas semanas de cobertura que as mesmas kombis que eram apreendidas reapareciam no "trabalho" dois dias depois.
Fiquei intrigado com aquilo. Busquei minhas fontes. Todo mundo com medo de falar.
Um belo dia, uma secretária me chamou num canto, sete da noite, hora de voltar pra redação, e me disse o seguinte: o diretor (do Detran, um brigadeiro, durante certo tempo aquilo lá foi feudo da Aeronáutica) não poderia me receber naquele dia porque estava irritadíssimo. Descobriu que as kombis que seus agentes apreendem na cidade são liberadas pela Secretaria de Segurança, porque pertencem a detetives de lá.
Fui pro jornal e escrevi 20 linhas.
No dia seguinte, ao passar pelo Detran, o clima era de extrema animosidade comigo. Um porta-voz do diretor me disse que o secretário de Segurança queria falar comigo (não me lembro mais o nome dele, foi no primeiro governo Chagas Freitas). Fui lá, no antigo prédio do Dops. Ele me botou na sala e falou de sua contrariedade com a matéria, depois tentou me intimidar pra que eu desse a fonte.
Finalmente, me disse o seguinte: a partir de amanhã o senhor não vai mais cobrir o Detran. Venha diariamente aqui pra Secretaria de Segurança. Tremi de medo. Voltei para o jornal assustadíssimo, havia ameaças todo dia. Fui falar com o Carlos Lemos, chefe de Redação.
Lemos, tranquilo, me disse o seguinte, dirigindo-se ao repórter bobinho: "Ô Romildo, o dia que o secretário de segurança pautar repórter meu, eu fecho este botequim".
Rimos os dois. Fiquei aliviado. Me mandou prosseguir na cobertura. Só que, ao chegar ao Detran, no dia seguinte, meu acesso não foi autorizado. Fiquei por ali, abordando uns e outros, ligando para tentar bypassar a proibição, até que consegui algumas matérias. Um belo dia, circulando em volta do prédio, vi uma construção estranha de madeira nos fundos, uma espécie de jirau. Pergunta dali, pergunta daqui, um motorista do Detran, que não sabia da minha interdição, me contou a história:
– O brigadeiro teve um enfarte e eles estão fazendo um elevador provisório porque ele não pode subir escadas.
Chamei um fotógrafo e documentamos a obra. Mais 20 linhas, agora recheadas com a história do enfarte: o brigadeiro tinha discutido uma semana antes com o proprietário de um posto de gasolina que falira em Vila Isabel. E o posto faliu porque o Detran mudou a mão de uma rua que descia de Jacarepaguá em frente ao posto do cidadão. O trânsito passou todo a ser feito na rua paralela, onde alguém tinha edificado um posto de gasolina novinho, de outra bandeira.
Foi sair a matéria e as coisas pioraram muito. Dois ou três dias depois, estava eu na porta do Detran interceptando possíveis fontes quando veio em minha direção um policial civil que eu conhecia de vista, conhecido como Marreco, citado no livro do Hélio Silva como torturador. Passou junto a mim e disse baixinho:
– Cuidado, garoto, que você pode morrer atropelado.
Sobrevivi pra contar a história”.
NÃO ACONTECEU ABSOLUTAMENTE NADA

Outra jóia dos tempos românticos, pré-ditadura, dessa profissão que, dizem, está chegando ao fim. Contada com a verve do Emmanuel de Macedo Soares:
“Quando comecei a mexer com jornal já existia a firma M. Alves, do Manoel Alves, especializada em serviços fotográficos. Pessoalmente nunca vi nenhuma foto batida pelo próprio Manoel, mas dizem que existe. O fato é que por ali passaram grandes profissionais, entre eles o inesquecível Lívio Campos, pai do Livinho, que sendo mais sortudo andou clicando algumas das melhores beldades do planeta para a revista Playboy.
Mas não é do Lívio que vou falar por enquanto. É do Waldomiro, que ficou no seu lugar quando ele mudou de mala e cuia para Macaé. Problema é que Lívio era um senhor repórter fotográfico e Waldomiro queria porque queria seguir seus passos, mas tava meio difícil. Uma coisa era fotografar casamentos e formaturas, outra muito diferente era o dia a dia da cidade, que amanhã precisa estar na primeira página dos jornais.
O Waldomiro era lento, até no andar, mas queria ser repórter fotográfico. Bom rapaz, amigo de todo mundo, pedia a um, pedia a outro, queria pelo menos a chance de um teste. Premiado pela persistência, alguém conseguiu dobrar a ranzinzice do Teodoro de Barros, e lá foi ele fazer seu estágio, ou coisa parecida, na sucursal de Ultima Hora.
Havia um comício de operários na praça do Rink, e comício de operários, como todo mundo sabe, era coisa de comunistas. Mandaram o Waldomiro cobrir. Lá foi ele, naquele passinho lento, o olhar distraído sempre pra cima, a eterna expressão de calma e felicidade no sorriso. As horas passam, e nada dele voltar. Desesperado, pois as matérias eram diagramadas e o jornal impresso no Rio, Teodoro começa a entrar no seu estado normal de irritação.
Aleluia, chega afinal o Waldomiro. Teodoro pede que apresse as fotos, já está atrasado. Fotos? Que fotos? Não havia fotos. Como, não havia fotos? Não houve fotos porque não houve o comício. A Polícia chegou, começou a dar tiros pra cima, um festival de cacetetes e saiu todo mundo correndo. Como ele foi lá para cobrir um comício, e não tiroteios e correrias, a máquina foi conservada em estado de absoluta virgindade. O estágio, obviamente, acabou. Tempos depois encontro o Waldomiro, os amigos conseguiram para ele um emprego de fotógrafo na perícia da Polícia Técnica. Carreira feliz, se não morreu deve estar placidamente aposentado. Afinal, carro batido e defunto estatelado no asfalto são muito mais pacientes que os chefes de redação”.
“Quando comecei a mexer com jornal já existia a firma M. Alves, do Manoel Alves, especializada em serviços fotográficos. Pessoalmente nunca vi nenhuma foto batida pelo próprio Manoel, mas dizem que existe. O fato é que por ali passaram grandes profissionais, entre eles o inesquecível Lívio Campos, pai do Livinho, que sendo mais sortudo andou clicando algumas das melhores beldades do planeta para a revista Playboy.
Mas não é do Lívio que vou falar por enquanto. É do Waldomiro, que ficou no seu lugar quando ele mudou de mala e cuia para Macaé. Problema é que Lívio era um senhor repórter fotográfico e Waldomiro queria porque queria seguir seus passos, mas tava meio difícil. Uma coisa era fotografar casamentos e formaturas, outra muito diferente era o dia a dia da cidade, que amanhã precisa estar na primeira página dos jornais.
O Waldomiro era lento, até no andar, mas queria ser repórter fotográfico. Bom rapaz, amigo de todo mundo, pedia a um, pedia a outro, queria pelo menos a chance de um teste. Premiado pela persistência, alguém conseguiu dobrar a ranzinzice do Teodoro de Barros, e lá foi ele fazer seu estágio, ou coisa parecida, na sucursal de Ultima Hora.
Havia um comício de operários na praça do Rink, e comício de operários, como todo mundo sabe, era coisa de comunistas. Mandaram o Waldomiro cobrir. Lá foi ele, naquele passinho lento, o olhar distraído sempre pra cima, a eterna expressão de calma e felicidade no sorriso. As horas passam, e nada dele voltar. Desesperado, pois as matérias eram diagramadas e o jornal impresso no Rio, Teodoro começa a entrar no seu estado normal de irritação.
Aleluia, chega afinal o Waldomiro. Teodoro pede que apresse as fotos, já está atrasado. Fotos? Que fotos? Não havia fotos. Como, não havia fotos? Não houve fotos porque não houve o comício. A Polícia chegou, começou a dar tiros pra cima, um festival de cacetetes e saiu todo mundo correndo. Como ele foi lá para cobrir um comício, e não tiroteios e correrias, a máquina foi conservada em estado de absoluta virgindade. O estágio, obviamente, acabou. Tempos depois encontro o Waldomiro, os amigos conseguiram para ele um emprego de fotógrafo na perícia da Polícia Técnica. Carreira feliz, se não morreu deve estar placidamente aposentado. Afinal, carro batido e defunto estatelado no asfalto são muito mais pacientes que os chefes de redação”.
O DIA EM QUE O POVO SAUDOU O REI ERRADO

Foi em 1990, ano em que Pelé completou 50 anos de idade. Todos os jornais e suplementos esportivos do país fizeram matérias grandes para contar tudo sobre a vida do Edson Arantes do Nascimento dentro e fora do gramado. Teve até jogo na Europa entre as equipes do Brasil e do Resto do Mundo, reunindo craques do passado. Falando nisso, fomos derrotados por 2x1.
Aproveitando o embalo, Odair Pimentel, repórter esportivo do Globo na sucursal de São Paulo, lembrou uma ótima história. O Santos dos áureos tempos excursionava pela África e era sempre aquele frenesi dos fãs no Pelé, que mal conseguia andar sem ser perturbado pela moçada.
Como Odair tinha certa semelhança com seu grande amigo, o Rei, topou a brincadeira sugerida por alguém da delegação e se fez passar por Pelé. Mal desembarcou no aeroporto, usando a camisa dez, foi cercado por uma multidão. Desfilou de carro aberto e coisa e tal, sendo ovacionado, beijado, abraçado, cuspido, essas coisas. Tem uma versão segundo a qual uns guerrilheiros do país africano estavam meio revoltados e teriam planejado um atentado e teria sido esta a razão do Odair se apresentar como sósia-cobaia.
Seja como for, deu tudo certo. Naquele dia, Pelé foi poupado do carinho das massas e conseguiu sair do avião sem ser percebido. O que Odair Pimentel nunca esqueceu é que foi o Rei por um dia.
Voltando a 1990, nosso editor de esportes era o Mário Marona, que pediu ao então redator, hoje repórter, Márcio Tavares para ler o relato do Odair, escrever a matéria, legendar e titular.
Márcio Tavares fez o combinado. Mas resolveu aprontar com o chefe. Marona quase caiu da cadeira ao ler o título que o Márcio botou:
“O dia em que o povo saudou o crioulo errado”.
Pura sacanagem, evidente. O título verdadeiro era outro – se não me engano, “O dia em que a multidão saudou o Rei errado”.
Aproveitando o embalo, Odair Pimentel, repórter esportivo do Globo na sucursal de São Paulo, lembrou uma ótima história. O Santos dos áureos tempos excursionava pela África e era sempre aquele frenesi dos fãs no Pelé, que mal conseguia andar sem ser perturbado pela moçada.
Como Odair tinha certa semelhança com seu grande amigo, o Rei, topou a brincadeira sugerida por alguém da delegação e se fez passar por Pelé. Mal desembarcou no aeroporto, usando a camisa dez, foi cercado por uma multidão. Desfilou de carro aberto e coisa e tal, sendo ovacionado, beijado, abraçado, cuspido, essas coisas. Tem uma versão segundo a qual uns guerrilheiros do país africano estavam meio revoltados e teriam planejado um atentado e teria sido esta a razão do Odair se apresentar como sósia-cobaia.
Seja como for, deu tudo certo. Naquele dia, Pelé foi poupado do carinho das massas e conseguiu sair do avião sem ser percebido. O que Odair Pimentel nunca esqueceu é que foi o Rei por um dia.
Voltando a 1990, nosso editor de esportes era o Mário Marona, que pediu ao então redator, hoje repórter, Márcio Tavares para ler o relato do Odair, escrever a matéria, legendar e titular.
Márcio Tavares fez o combinado. Mas resolveu aprontar com o chefe. Marona quase caiu da cadeira ao ler o título que o Márcio botou:
“O dia em que o povo saudou o crioulo errado”.
Pura sacanagem, evidente. O título verdadeiro era outro – se não me engano, “O dia em que a multidão saudou o Rei errado”.
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