O que a Educação pode fazer para sepultar o racismo? Essa pergunta foi feita na lata a dois intelectuais e polemistas pra lá de respeitáveis: Nei Lopes e Demétrio Magnoli.
Discordam em quase tudo o que diz respeito à questão, começando pela política de cotas. Mas concordam num ponto: o racismo deve ser combatido nas salas de aula.
Ambos oferecem argumentos substanciais aos leitores de seus artigos, publicados com freqüência em grandes órgãos da imprensa.
Aspas para Nei Lopes, que nos anos 70 trocou a carreira de advogado para tornar-se um dos grandes nomes da música popular brasileira. Ensaísta, ficcionista, dicionarista e militante pelos direitos civis dos afrodescendentes, ele propõe:
“O que a Educação pode e deve fazer é desconstruir o racismo.
Primeiro, admitindo que a África foi berço de civilizações importantes, que influíram decisivamente nos destinos da Humanidade.
Admitindo isso, vamos deixar de estudar o contexto africano apenas a partir da escravidão instituída pelos europeus e a partir de sua ação imperialista e genocida.
Esse é o ponto fundamental: estudar, ensinar a História da África.
A partir daí é que vai se começar a levantar a auto-estima do povo negro e desconstruir o racismo, inclusive abrindo a Universidade aos afrodescendentes, para que nós sejamos, de fato, as vozes dessa revelação”.
Discordam em quase tudo o que diz respeito à questão, começando pela política de cotas. Mas concordam num ponto: o racismo deve ser combatido nas salas de aula.
Ambos oferecem argumentos substanciais aos leitores de seus artigos, publicados com freqüência em grandes órgãos da imprensa.
Aspas para Nei Lopes, que nos anos 70 trocou a carreira de advogado para tornar-se um dos grandes nomes da música popular brasileira. Ensaísta, ficcionista, dicionarista e militante pelos direitos civis dos afrodescendentes, ele propõe:“O que a Educação pode e deve fazer é desconstruir o racismo.
Primeiro, admitindo que a África foi berço de civilizações importantes, que influíram decisivamente nos destinos da Humanidade.
Admitindo isso, vamos deixar de estudar o contexto africano apenas a partir da escravidão instituída pelos europeus e a partir de sua ação imperialista e genocida.
Esse é o ponto fundamental: estudar, ensinar a História da África.
A partir daí é que vai se começar a levantar a auto-estima do povo negro e desconstruir o racismo, inclusive abrindo a Universidade aos afrodescendentes, para que nós sejamos, de fato, as vozes dessa revelação”.
Aspas para Demétrio Magnoli, sociólogo, doutor em Geografia Humana pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP e colunista dos jornais “O Estado de São Paulo” e “O Globo”, que propõe:“A Educação pode contribuir para o combate ao racismo se as aulas de Biologia forem bem ministradas. Elas mostrarão que a crença em raças humanas é um fruto da ignorância.
A Educação pode contribuir para o combate ao racismo se as aulas de História forem bem ministradas. Elas mostrarão que o racismo é um produto histórico recente, do século XIX, e que a raça é uma invenção do racismo.
Acima de tudo, a Educação pode contribuir para o combate ao racismo se a escola for um espaço de afirmação da cidadania, cuja base é o princípio da igualdade perante a lei.
Mas, no Brasil das cotas raciais e da classificação racial compulsória dos estudantes, a escola tende a se converter num espaço de fabricação da crença em raças.
Apesar da Biologia e da História”.
E você, o que acha?



21 comentários:
Fala, José Sérgio. Com certeza que a Educação sepulta o racismo brasileiro. Ensinar História da África,por exemplo, como disse o Nei Lopes, é de extrema importância nessa luta, para que as próximas gerações conheçam melhor, e reconheçam uma herança que pertence a todos nós nesse país mestiço. Herança essa que é amplamente ignorada e escondida a tempo demais.
Cheguei nesse blog aqui do Buteco, que, por sua vez, conheci no Histórias do Brasil. Legal a iniciativa.
Lucas Sáles.
Caro Amigo Zé,
Parabéns pela iniciativa do Blog que começou muito bem e certamente irá blogar (no sentido de bombar)!
Vou acompanhar as postagens e, desde já, me incluo no
time de leitores assíduos.
Por falar em time, Salve o América!
Um forte abraço,
Antonio Batalha
LUCAS: obrigado pelo circuito, que acabou te trazendo pra cá.
BATALHA, tamos aí, valeu pela visita! E já que você é América, não deixe de ir ao Boemia e Nostalgia, do Felipe Quintans, mais vermelho do que o diabo de vocês.
Nei Lopes, o Le Pen brasileiro, não é respeitável.
Ao falar em "escravidão instituída pelos europeus", ele omite que esses africanos já eram escravizados por outros africanos.
Todos eles, brancos e pretos, foram culpados por escravizar quem escravizaram, mas não para Nei Lopes e seu filtro de cor, que reinventa a história da escravidão como se existisse somente a partir do momento em que eles passaram às mãos do portugueses, espanhóis etc.
"ensinar a História da África", como ele pede, é dizer o que ele omite.
Ainda fala em uma situação "abrindo a Universidade aos afrodescendentes", como se ele fosse fechada - na verdade, vem sendo parcialmente fechada é aos eurodescendentes.
E deixa clara sua discriminação contra quem tem pele clara, ao dizer "para que nós sejamos, de fato, as vozes dessa revelação”.
Nei Lopes quer que ele e os que têm a mesma cor sejam "as vozes"; quem for mais clarinho, não.
Isso chama-se discriminação racial. E não é nadinha respeitável.
João, bem-vindo a este blog pluralista. É batendo boca que a gente se entende. Mas que comparação maluca que tu fez, meu caro... Le Pen!?!?
Concordo plenamente com o Demétrio, cota racial nada mais é do que racismo. Por que ao invés disso, não se discute a educação básica nesse país, pra que se criem realmente condições igualdade no acesso as Universidades, independente de cor pele, cabelo, sexo ou o que seja?...
Parabéns pelo Blog Grande Zé Sergio.
Abraço,
Marcelo Vidal
João (de quê?), contrariando minha abominação ao anonimato (ou semi, o que dá na mesma), vou me dirigir a você, porque o espaço é novo e eu acredito que as regras devam ser construídas aos poucos.
Se você aprendesse a ler, facilitaria o debate. Vamos lá, tentando ser didático: "...vamos deixar de estudar o contexto africano apenas a partir da escravidão instituída pelos europeus". Ele não omite nada. Não omite porque é profundo conhecedor da História Africana, e você não pense que está contando uma grande novidade dizendo que a escravidão já era conhecida e praticada entre os africanos. Não diz que a "escravidão instituída pelos europeus" foi a única que existiu. Ele apenas está dizendo, na frase, que a "escravidão instituída pelos europeus" (essa, não outras formas de escravidão) deixará de ser o paradigma de estudo daquela riquíssima História, que terá de passar a ser estudada por seus próprios enfoques referenciais. Poderá ser aboradada pelas relações econômicas, pelos fluxos migratórios dentro do continente, pelas guerras e invasões, pela história dos grandes impérios, pelos traços comuns das inúmeras e maravilhosas culturas que se desenvolveram, etc. etc. Até pelo viés da escravidão que se praticava (não menos odiosa do que qualquer forma de exploração do homem pelo homem, mas, se você leu, em vez de simplesmente ter ouvido falar, sabe que em TODOS OS SENTIDOS POSSÍVEIS não é comparável, como nenhuma outra forma de escravidão que a humanidade conheceu, em crueldade, desumanidade, brutalidade), o que duvido um pouco, pelo simples fato de que, apesar de largamente disseminada, NUNCA teve um caráter fundamental nem determinante de quaisquer processos históricos relevantes, ATÉ a chegada dos europeus e introdução do elemento mercantil, i.e., a transformação do escravo em mercadoria. Esse elemento, sim, mudou completamente o panorama não só do continente e da relação entre seus povos, mas de todo o Novo Mundo e a Europa também, por que não? É só isso que está escrito ali.
Muitas outras estão escritas nos textos de Nei Lopes e nos de muita gente respeitável, que está cansada de saber que a escravidão não foi inventada no séc. XVI. Mas aí, no texto que vc comenta, não.
Também não entendi a comparação que João fez. Aliás, Zé, acabei de colocar um link no meu blog para esse teu espaço. Aproveitei também para escrever um texto sobre o desfile da Cubango em 1979 - Afoxé - destacando tua presença na escola como primeiro destaque, representando o Obá Alafim Oyó Araketu. Inesquecível.
Abração
Meio chato esse negócio de que a civilização só nos será apresentada na sala de aula. Racismo é crime? Pois bem, então ele deve ser combatido com ação policial. O que civiliza é a certeza de que o infrator, qualquer infrator, será punido.
Sem dúvida alguma adoraria concordar com Magnoli. Se vivêssemos em uma sociedade “benetton”: feliz, igualitária e multicoloria em que pessoas, em suas cores diferentes, desfrutassem dessa diversidade em harmonia. Seria uma maravilha de verdade! Mas, como sempre a dona realidade tem suas sutilezas, a história não é bem essa. Infelizmente a despeito de tantas coisas boas nesse país, carregamos também a vergonha de ser uma das nações mais desiguais do planeta. E tal desigualdade tem cor sim senhor! E os dados, que não servem para muita coisa, ao menos nos mostram que a coisa vai de mal a pior. A população brasileira composta por 49,9% de brancos e 49,5% de pretos e pardos, tem seu seleto grupo mais rico, aquele famigerado 1%, bem branquinho, 88,4%. Já a azarada parcela da população que foi despencar do céu pra cair direto entre os 10% mais pobres, está bem próxima do nosso jeito moreno ser: é composta por 73,5% de pardos e pretos. Quando se fala de educação então a coisa piora: entre os brancos a proporção de analfabeto é de 7%, enquanto a de doutor com até 24 anos, 51%!
Entre os negros? Bobagem! Na faculdade? 19%. Analfabeto? 15,6.
Bom, e assim vai...
E mesmo que todos tivessem acesso a um mesmo tipo de escola, isto é, uma escola em que fossem bem ministradas as aulas de biologia e história (e que ninguém nos ouça, aquelas mesmas que durante muito tempo serviram para legitimar preconceitos e ideologias), ainda assim brancos e negros não estariam em condições de igualdade, tendo em vista a escolaridade das famílias, a possibilidade de investimentos em educação etc.
Tudo isso pra dizer que não estamos em pé de igualdade perante a lei nem aqui nem na China e que se não existirem políticas para corrigir tais abismos, vamos continuar nessa toada da escabrosidade durante muito tempo ainda. Enfim, não acho que serão as cotas as grandes responsáveis por transformar a escola em espaço de fabricação de crenças e raças, ela já detém seu próprio arsenal para reprodução de desigualdades e preconceitos, o que devemos fazer é destruir esses mecanismos, como diz nosso sábio Nei Lopes.
Desculpe pelo tamanho do texto, acabei me empolgando!
Beijos e parabéns pelo blog.
Não sei se vc se lembra de mim, sou a companheira do Favela.
Acredito que a universidade é de todos. Branco, preto, índio, europeu. Mas para isso acontecer é preciso mudar radicalmente o ensino nas escolas públicas para que seja possível as classes baixas terem chances de competir de igual para igaul com os filhos-de-papai que dominam as universidades públicas no BRASIL.
PS: Vim do blog do EDU.
Abraço
Rodrigo Medina
Eu, geógrafo, nem um pouco classista e muito menos racista, acho o Nei Lopes um mestre e o Demétrio Magnoli um picareta.
Abraços, Zé!
Olha o bonde do debate passando, ô trem bão.
VIDAL, SZEGERI, SIMAS, MARONA, MILENA, RODRIGO E DIEGO: bem-vindos e apareçam sempre no QUEM É VIVO!
MILENA, claro que lembro, linda! (com todo respeito ao ilustre, combativo e numeroso clã dos Tirone da Barra Funda). Só não se desculpe novamente por comentários longos. É o que eu mais faço nos outros blogs.
MARONA, valeu pelo link no teu http://blogdomarona.blogspot.com/, que é uma das minhas leituras diárias.
SZEGERI, não posso dizer o mesmo porque tu leva um tempão para atualizar o teu, caboclo!
DIEGO, outro texto de prima da blogosfera e habituê de alguns dos melhores lugares de cultura popular que conheço.
SIMAS, valeu pela inclusão digital, no bom sentido.
VIDAL, companheirão, bate ponto aqui também, sempre!
RODRIGO MEDINA, somos parceiros na leitura do BUTECO DO EDU, que tem para este blog aqui a mesma importância que a Mangueira tem pro Salgueiro: é como se fosse a madrinha do QUEM É VIVO. Esteja em casa!
Zé Sérgio, você chegou à blogsfera de primeira classe, com um design lindinho!!!!!
Vou linká-lo em meu modesto bloguinho. E já tenho mais leitura obrigatória diária.
Quanto à polêmica das cotas, já chega, né? Elas existem e está no momento é de se lutar por uma escola básica decente. Porque os colégios públicos, onde pretos, mestiços, alguns brancos e todos os pobres se encontram hoje é dedicado à preparação de cidadãos de segunda clsse que servirão as elites. Ninguém está interessado em educar ou em ensinar, apenas em adestrar os alunos o suficiente para tratarem com respeito quem lhes concede a graça de um empreguinho.
Eu conheci de perto a escola pública durante um ano de total e absoluta falta de recursos, em que matriculei meus filhos num desses locais de passatempo para alunos.
OLGA, VALEU! E o bão de tudo é que foi 0800, graças a meus parceiros da Cyan.
E pensar que escola pública já foi o máximo, né?
Ainda estou aprendendo a mexer nesse troço, mas na semana que vem vou listar os meus blogs favoritos tambem e o teu estará lá, evidente. Bjs
Zé Sergio: esse Rodrigo Medina é aquele que até hoje não emoldurou o autógrafo do Szegeri.
Abraço.
Pára com esse negócio de Veja, João.
Luiz.
Zé Sergio: Após uma semana tumultuadíssima, li apenas hoje - todos os textos! - o Quem é vivo sempre aparece, que já figura, obviamente, entre meus preferidos. Saudade sua!
Abraço.
PS: Sobre a questão desde texto: com uma mulher dessa que eu tenho, não preciso dizer nada mais. Desce uma Brahma!
FAVELA, desce mais uma porque não bebo ímpar! Valeu pela marcação de ponto. Também ando enrolado pacas nesse fim de ano. Mas em breve vamos secar algumas. Abração!
And where at you logic?
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