Paranóicos do mundo inteiro estranham a falta de notícias sobre o LHC, o mega-acelerador de partículas construído na maior moita, durante mais de 20 anos, por centenas de cientistas e milhares de trabalhadores braçais de dezenas de países. O LHC entrou em funcionamento em setembro passado, num túnel circular subterrâneo, cavado na fronteira franco-suíça, com o objetivo de recriar os instantes iniciais do Universo, o Big Bang com trilha sonora e o escambau.
Lembram que em dezembro, ou seja, este mês, teríamos novidades? Que a engenhoca provocaria colisões de prótons na máxima velocidade, dizem que 99,9% da velocidade da luz? Cadê? Não se fala mais nisso? Morreu o assunto?
Essas colisões teriam como finalidade identificar o Bóson de Higgs, que uns e outros chamam de “Partícula de Deus”. Houve quem temesse que o treco poderia abrir buracos negros capazes de engolir o planeta, todo o Sistema Solar, o que inclui Niterói e São Gonçalo.
O LHC (também conhecido como Colisor de Hádrons) é um super-super-super-super-super-acelerador de partículas e hoje corre o risco de ficar que nem o sincrociclotron que o governo brasileiro comprou em Chicago na década de 40 e, sem saber o que fazer com aquilo, mandou para Niterói.
Em 2002, fui entrevistar César Lattes por outro motivo e, quando falei que morava em Niterói, o grande físico brasileiro, descobridor da partícula méson-pi e garfado na entrega do Prêmio Nobel de 1950 pelos ingleses, foi logo perguntando pelo sincrociclotron.
A resposta estava na ponta da língua porque, antes de viajar para Campinas, tratei de me informar sobre o assunto com dois amigos, o professor Antônio Serbeto, do Instituto de Física da UFF, e o historiador Emmanuel de Macedo Soares, que conhece todas as versões oficiais e extra-oficiais da terra de Araribóia nos últimos 400 anos.
Lembram que em dezembro, ou seja, este mês, teríamos novidades? Que a engenhoca provocaria colisões de prótons na máxima velocidade, dizem que 99,9% da velocidade da luz? Cadê? Não se fala mais nisso? Morreu o assunto?
Essas colisões teriam como finalidade identificar o Bóson de Higgs, que uns e outros chamam de “Partícula de Deus”. Houve quem temesse que o treco poderia abrir buracos negros capazes de engolir o planeta, todo o Sistema Solar, o que inclui Niterói e São Gonçalo.
O LHC (também conhecido como Colisor de Hádrons) é um super-super-super-super-super-acelerador de partículas e hoje corre o risco de ficar que nem o sincrociclotron que o governo brasileiro comprou em Chicago na década de 40 e, sem saber o que fazer com aquilo, mandou para Niterói.
Em 2002, fui entrevistar César Lattes por outro motivo e, quando falei que morava em Niterói, o grande físico brasileiro, descobridor da partícula méson-pi e garfado na entrega do Prêmio Nobel de 1950 pelos ingleses, foi logo perguntando pelo sincrociclotron.
A resposta estava na ponta da língua porque, antes de viajar para Campinas, tratei de me informar sobre o assunto com dois amigos, o professor Antônio Serbeto, do Instituto de Física da UFF, e o historiador Emmanuel de Macedo Soares, que conhece todas as versões oficiais e extra-oficiais da terra de Araribóia nos últimos 400 anos.
A história do sincrociclotron niteroiense é do senhor cacete! Pode ser considerado hoje um aceleradorzinho de meia tigela perto do LHC, mas na época era o que havia de mais "muderno", era "tequinologia de ponta"!Só que quem o trouxe dos EUA não entendeu como funcionava e não soube explicar ao pessoal da Universidade o que fazer com aquela joça. César Lattes, que morou uns tempos deste lado de cá da Poça, num lugar chamado Matapaca, em Pendotiba (mas não teve nada a ver com a tal compra), teve um acesso de riso quando soube que o troço fora canibalizado e só então passou a ter alguma utilidade.
“Os meninos fizeram muito bem!”, reagiu.
Não foi só isso. Como o pessoal do governo (a UFF não teve culpa) não sabia o que fazer, colocaram o sincrociclotron numa sala grande, com a porta trancada a sete chaves. Um "burocra" foi contratado para tomar conta. Ganhava só para ir todos os dias para o “local de trabalho”, a bordo de um carro oficial, com motorista e tudo. Quando dava na telha, o cara abria cuidadosamente a porta para ver se estava tudo bem, de segunda a sexta, com horário de almoço. Antes de encerrar o expediente, às cinco da tarde, dava uma última espiada, tirava o paletó da cadeira e se mandava. Consta que, às sextas-feiras, até desejava “bom fim de semana” ao sincrociclotron. Isso até se aposentar. Depois disso, o sincro (vamos ser íntimos) já estava tão enferrujado que ninguém mais teve medo da coisa.
Bom, essa parte do burocrata não sei se é verdade, mas não duvido nada.
Antes que algum folgado aparecesse na salona e usasse o acelerador de partículas já meio mambembe para fazer cafezinho, os físicos da nova geração, já no tempo em que o lugar virou da UFF (Universidade Federal Fluminense), tiveram a boa idéia de partir para a ignorância e ir levando os pedaços do sincro que poderiam ter utilidade em seus trabalhos de pesquisa. Pelo menos, foi o que me contaram.
Ouvi muito boas histórias de Lattes e de sua mulher, Marta, que fora sua aluna na USP. Em 2002, moravam no bairro campineiro de Barão Geraldo, perto da Unicamp, não muito distante da casa do meu amigo Bruno Ribeiro.
Num país cheio de celebridades como o nosso – modelos, manequins, apresentadores de TV, rainhas de bateria, atores de Malhação, ex-namoradas do Ronaldo, todo mundo é celebridade! –, encontrei um ser humano verdadeiramente importante para a história desse planetinha chinfrin (é o terceiro à esquerda de quem vem do Sol no sentido Júpiter, não tem como errar) e, ao mesmo tempo, totalmente despido de frescuras.
Já era idoso, mas lúcido. O que ele esquecia (foi raro acontecer), Marta lembrava. Ouvia um choro de Pixinguinha num daqueles discos pesados de antigamente, devia ser gravação da Casa Edison. Ele detestava CDs e não confiava nem mesmo nos vinis que surgiram no pós-guerra. Dizia que o grave mais baixo e o agudo mais alto só eram registrados nos discões que colecionava.
Na parede da sala de sua casa, confortável mas sem qualquer luxo, havia um quadro de Portinari, amigão deles. Na tela, o artista retratou uma cena da família de Lattes – um acidente com arma de fogo que, por pouco, não custou a vida dele e do irmão, que brincava com a arma do pai. Uma terceira figura no quadro era a mãe de ambos, horrorizada com a quase tragédia. Foi tudo verdade e a pintura foi feita depois que Portinari ouviu a história.
Quando deixou Londres e veio para a América do Sul fazer a pesquisa de campo, num observatório dos Andes bolivianos - e que resultou na descoberta do méson-pi -, César Lattes teria morrido se pegasse o avião errado. A passagem já estava comprada na companhia inglesa British qualquer coisa. Vivia um tempo difícil, no pós-guerra, e a comida era escassa na Inglaterra (lembram do filme "Nunca te vi, sempre te amei", com Anthony Hopkins?). Quando soube que o serviço de bordo da Panair do Brasil era muito melhor, o cientista trocou de vôo para ter direito a um bife suculento. Fez bem: o avião inglês caiu na África e o contrafilé estava ao ponto. Ele ainda viveria muito tempo, só morreu em 2005.
A melhor história de todas, porém, ainda está por acontecer. Faltam exatamente quatro anos para isso.
Depois de ter sido jogado para escanteio por ocasião da entrega do Prêmio Nobel de 1950 (Cesar Lattes e o italiano Giuseppe Occhialini, seu parceiro nas descobertas, tiveram os nomes omitidos e quem ficou com os louros da descoberta do méson-pi foi o chefe deles no laboratório da Universidade de Bristol, Cecil Powell), um dia encontrou-se com o físico dinamarquês Niels Bohr, Prêmio Nobel de 1922, pioneiro da energia nuclear e inimigo da bomba atômica.
Bohr disse-lhe que foi um absurdo não ter sido premiado e que sabia o porquê. Prometeu contar tudo numa carta que seria aberta 50 anos depois de sua própria morte. A carta, se existe mesmo, se não foi lero-lero do escandinavo, pode estar escondida em alguma gaveta do Instituto Niels Bohr, em Copenhague.
Se, até lá, o mega-acelerador LHC não der chabu e o planeta não desaparecer no meio do Nada Cósmico, os adeptos de teorias conspiratórias, entre os quais me incluo, vamos aguardar, ansiosos, a chegada do dia 18 de novembro de 2012 (o sábio dinamarquês morreu neste dia e mês em 1962) para saber o porquê da sacanagem que fizeram com esse brasileiro tão importante.
Tão importante e, ao mesmo tempo, tão simples, que virou até personagem de samba-enredo da Mangueira (“Ciência e Arte”, 1947), de autoria de Cartola e Carlos Cachaça.




11 comentários:
Grande samba-enredo, Zé, grande samba-enredo. Que perdeu, se não estou errado.
Abraços
Martecha
Perdeu! Perdeu! Mas não esculacharam...
Aliás, você que escreve blog e tem muito tempo pra gastar, que tal produzir comigo um disco só com sambas-enredo que perderam? Difícil vai ser escolher apenas 20.
Braço
Marecha
Começamos quando? Proponho o Simas para também integrar a comissão julgadora. Não esqueça de Invenção de Orfeu, do Paulo Brazão, para a Vila Isabel.
Seu blog tem "sustança", Zé. E não poderia ser de outro modo, já que a sugestão veio do Cézar Motta. Também tenho saudade de quando a bola era redonda. Abração
Salve NELSON OLIVEIRA, coleguinha de Brasília. Amigo do Cezão "Diabo Verde" Motta é meu chapa também e, sendo assim, desde logo se sinta sócio desse cafofo, seja para espernear ou falar bem. Bem-vindo, Nelson!
Maravilha a obra primorosa de Cartola e Carlos Cachaça!
Eis os versos com desfecho triunfal:
TU ÉS MEU BRASIL EM TODA PARTE
QUER NA CIÊNCIA OU NA ARTE
PORTENTOSO E ALTANEIRO
OS HOMENS QUE ESCREVERAM
TUA HISTÓRIA
CONQUISTARAM TUAS GLÓRIAS
EPOPÉIAS TRIUNFAIS
E QUERO NESTE POBRE ENREDO REVIVÊ-LOS
GLORIFICANDO OS NOMES SEUS
LEVA-LOS AO PANTEÃO
DOS GRANDES IMORTAIS
POIS MERECEM MUITO MAIS
NÃO QUERENDO LEVÁ-LOS AO CUME DA ALTURA
CIENTISTAS TU TENS E TENS CULTURA
E NOS RUDES POEMAS
DESTES POBRES VATES
HÁ SÁBIOS COMO PEDRO AMÉRICO
E CÉSAR LATTES.
Abraço!
Cara,
Lá, na minha querida vermelha-e-amarela Tom Maior, escola que ajudei a fundar em 1973 (veja você, antes do nascimento do PT!), em Pinheiros, São Paulo, também tem uns sambas que perderam, mas ficaram na memória e na história silenciosa de muita gente...
(gostei do blog, mas ainda vou voltar a ele com mais calma...)
Abraço,
Álvaro
Valeu a lembrança, DIEGO. Lattes foi homenageado também pelo Gil em Qanta, mas não chegou nem perto.
ÁLVARO, sou mais a Tom Maior do que essa agremiação da qual também já fui componente. Volta logo, pô!
Lattes não foi apenas meu vizinho. Moramos juntos nos áureos tempos de república estudantil, comemos as mesmas mulheres. Fui eu, ainda, que o induzi ao hábito do tabagismo - ao qual se manteve fiel até o fim da vida. Fui eu, também, que recomendei seu nome ao Nobel e que orientei Cartola e Carlos Cachaça na feitura do samba que a Mangueira prestou em sua homenagem. É uma injustiça que a história não registre o meu nome quando se fala do grande César Lattes. Não fosse você, meu bom e velho Ze Sérgio, eu continuaria lambendo o limbo.
Eu já sabia, prezado BRÜNNO. Cesar Lattes me contou isso tudo. Inclusive aquele vexame que você deu na entrega do Nobel em Oslo ou Estocolmo: "Inglês filho da puta, tira a mão desse diploma! O caneco é nosso! BRASIIIIILLLLLL! BRASIIIIILLLLL!".
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