segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

ANO NOVO NA REDAÇÃO E OUTRAS HISTORINHAS

Ano Novo no Globo. Fui escalado para alguns, mas geralmente era liberado antes da meia-noite. Uma vez, não tive refresco. E o pior é que não acontecia nada. Na Redação, meia dúzia de colegas: o repórter de plantão na Geral, o magrinho e elétrico diagramador Maurício (o popular Nimrod), o secretário da Redação... que adorava passar a data em sua estação de trabalho. Que figura, o Carlos André Marcier! Virou tradição da casa: à meia-noite, ele pegava o trompete e tascava, para desespero geral, a valsinha ianque letrada pelo Braguinha. Adeus, amor/ Eu vou partir/ tralalá tralalá. Não sei por onde anda o Marcier. A melhor história dele aconteceu às vésperas de seu pedido de demissão. Ganhara uma nota preta de herança, mas fez questão de trabalhar até o fim do mês. Num dos últimos plantões, já com os classificados em mãos, eu e Nimrod o ouvimos acordar um sujeito de madrugada e fazer a primeira oferta de compra de uma moto Kawasaki. O cara deve ter dito logo depois pra mulher, na cama:
“O Globo é foda! Anunciou, vendeu na véspera!!!”.

O fim dos tempos segundo o contrabandista
1986 foi o ano do cruzado, a nova moeda, e dos fiscais do Sarney. Foi, também, ano de eleição, aquela em que Darcy Ribeiro, do PDT, perdeu o governo do Estado do Rio de Janeiro para Wellington Moreira Franco, o genro, candidato do PDS, o partido que sucedeu a Arena dos militares. O Jornal do País, do político maranhense Neiva Moreira, ligado a Brizola, não ia bem das pernas. Na virada do ano, o dono jogou a toalha. Luiz Mário Gazzaneo, o editor-chefe, ficou de saco cheio e me passou o comando. Eu era o subeditor-chefe e cuidaria do derradeiro número. Elias Fajardo editava o caderno de cultura. Maria Helena Dutra era nossa crítica de TV. O jornal pedetista da Rua da Lapa tinha ainda em sua pequena equipe João Batista de Abreu Júnior (hoje, professor da UFF), Domingos Trevisan (depois dono de emissora de TV no Paraná) e o caladão e promissor Chico Otávio. O diagramador era o Leo Malina. E a dupla de fotógrafos, dois veteranos de boa estirpe, era egressa de O Cruzeiro. Fizemos um jornal decente na despedida, mas eu e João Batista tivemos uma idéia maluca: fazer uma matéria com o Danilo.
Que Danilo? Danilo era o contrabandista de confiança dos jornalistas cariocas. Percorria semanalmente as redações do Rio vendendo, nos bons tempos, seus importados. Ultimamente, passara a vender queijo e lingüiça que trazia de Juiz de Fora e região. Tava feia a coisa. A entrevista ficou bacaninha e foi acompanhada de uma tabela radiografando a ressaca do Plano Cruzado, que iludira tantos otários. Danilo contou-nos que, no tempo dos salários mais decentes, um editor de jornal comprava todo mês uma caixa de uísque escocês e cinco ou seis pacotes de cigarros americanos; um redator geralmente comprava duas ou três garrafas de scotch e pelo menos três pacotes de Parliament; um repórter... O título era forte, falava na queda do poder aquisitivo do jornalista. Foi nossa vingança bem-humorada dos patrões, sejam de direita ou de esquerda.

Um chato liga para saber do jogo
Toca o telefone na Editoria de Esportes. Alguém quer saber o resultado do jogo. Um porém: era o Brasil disputando vaga na semifinal da Copa de 94. Caiu a ficha? O país inteiro grudado na TV, no rádio de pilha, na conversa dos vizinhos, o Alzirão e milhares de ruas enfeitadas do Oiapoque ao Chuí, assistindo a partida contra a Holanda, jogo pra lá de histórico, movimentadíssimo, sobretudo no 2º tempo, quando os três gols amarelinhos e os dois laranjinhas queimaram o barbante. Só podia ser sacanagem de alguém, quem sabe do então redator Márcio Tavares, o maior gozador do 2º andar da Irineu Marinho, 35. “Pra cima de mim não, meu chapa. Diz a esse puto aí...”.
“Mermão, não é nada disso (a voz do cara era pura aflição). Fiquei preso na porra de um elevador! Consegui sair agora. Não tem mais ninguém no prédio. A rua em frente está morta. A TV da minha sala pifou. E tô ligando da recepção, que tá vazia, porque o porteiro foi encher a cara na esquina e trancou tudo!”.

Beaujolais com 200 gramas de mortadela
Pescoção no JB era novidade até que um dia foi implantado lá também, final dos anos 70. Para amenizar o castigo de trabalhar até altas horas, o pessoal da Economia, por sugestão do subeditor Luiz Gonzaga Larqué, comprou uns vinhos, uns queijos, uns pãezinhos. Trabalho só depois do pequeno banquete. Na Internacional, a idéia foi copiada pelos editores Renato Machado e Luiz Mário Gazzaneo. Amante de bons vinhos, Renato chega com o mais novo Beaujolais. Andréa e Aluízio trazem um queijo francês. Teresa e Gazzaneo, presunto de Parma. Tudo teria corrido muito bem se o redator Osvaldo Maneschy não tivesse ameaçado fazer um misto frio, roquefort com a mortadela que nem Sadia era, juntos e misturados no pãozinho francês também trazido de uma padaria niteroiense. Nosso editor, futuro colunista de vinho, quase teve um troço.

Qual é nossa manchete de amanhã?
Hedyl Valle Júnior foi um dos chefes mais engraçados que tivemos no JB. Todas as noites, uma mulher – não se sabe de que veículo concorrente – ligava para saber qual seria a manchete do JB no dia seguinte. O chefe da Redação, Paulo Henrique Amorim, sapateava nervoso embaixo da cadeira com a demora no fechamento. Na hora de sempre, o telefone do Copy Desk tocou. Era a tal mulher. “Um momentinho, minha senhora”, diz o Hedyl e se dirige ao chefe, seu amigo: “Paco, aquela senhora quer saber qual será nossa manchete de amanhã...”. Paulo Henrique responde furioso: “Sei lá, Hedyl! Quem tem que saber é você, que ainda não fechou essa porra!”. Hedyl volta ao telefone com a mesma voz tranqüila: “Minha senhora, é o seguinte: eu não só desconheço qual será nossa manchete, como acabo de levar um esporro do meu chefe por causa de sua pergunta. Passar bem!”.

Cuidado com o que fala. Pode custar caro
Joaquim Campello Marques ficou anos sem tirar férias no JB porque fazia parte da equipe que estava criando a moderna edição do dicionário Aurélio. Não arredava pé do jornal, segundo ele, para não perder o contato com a língua. Foi pelo Campello que soubemos de uma novidade: até as palavras podem ter dono. É o caso de pré-estréia, bela solução encontrada para substituir a expressão francesa avant-première, em voga. O Aurélio nunca deixa de citar o proprietário.

Papa libera a masturbação
João Zicardi Navajas, futuro diplomata, era redator da Internacional do JB. Estava de plantão quando chegou a matéria da ANSA, agência de notícias italiana que vendia seu conteúdo ao JB, dizendo algo assim: tendo em vista a crise de vocações sacerdotais, o Vaticano estava cogitando de suavizar o regime dos seminários católicos, pondo fim a certas punições infligidas aos seminaristas mais jovens e ainda vulneráveis às tentações da carne. Zicardi não conversou. Tascou a seguinte manchete numa página interna, em segundo clichê:
“Papa libera a masturbação”.
Mas a secretaria do jornal deu o contra. Uma pena! Era o que a matéria dizia.

O pipoqueiro ganhava mais do que a gente
Alexandra Bertola, já veterana do Globo, um noite tomava seu chopinho sagrado no bar do Felipe, esquina de Santana com Irineu Marinho. O grupo que pedia a saideira, depois do fechamento, reclamava dos salários que andavam baixos. Alguém comentou que o pipoqueiro que fazia ponto em frente ao buteco faturava tantos cruzeiros. Bertola não se conformou.
No dia seguinte, o jornal perdia uma grande repórter. Uma das poucas pessoas que enfrentaram certo senador baiano, de iniciais ACM, que se julgava sócio do doutor Roberto.

O acento e o assento
“Hedyllllllll!!!!”, berra o chefe de Redação.
“Fala, Paco”.
“Júri tem assento????”.
Na hora do fechamento, todo mundo cansado, não é raro dar um branco.
“Claro que tem!”.
“Como claro????”, insiste Paulo Henrique.
“Já pensou o sujeito ficar horas e horas no tribunal... ouvindo rrrrrréplicas... ouvindo trrrrréplicassss... sem um mísero banquinho para sentar?”.

"Me inclui fora dessa"
Paulinho hoje dirige uma van na Barra da Tijuca e é querido pelos passageiros, atesta um deles, minha amiga Cláudia. Moreno, baixinho, falante, o cara foi diagramador do Globo. Uma vez, encantado com o texto do mestre Fernando Calazans, matou a pau: “Modéstia à parte, o Calazans escreve MUITO!”. Outra sacada do Paulinho virou bordão que já ouvi até longe do Rio, mas um monte de gente que trabalhou no Globo, nos anos 80, pode testemunhar a real autoria. O dedo do editor girava, apontando os coitados que ralariam no Pescoção, ou seja, trabalhariam na madrugada de sexta para sábado, fazendo a edição de domingo. “Você, você...”. Sentindo a bola quicar perigosamente em sua área, Paulinho fez o corta-luz genial:
“Chefia, me inclui fora dessa!”.

3 comentários:

Marcelo Pinto disse...

Modéstia à parte, esse Zé Sergio escreve MUITO!
Tomara que a série continue em 2009.

Anônimo disse...

Fala PAULINHO, que história é essa de usar nome falso?
Este blog agradece e retribui as mensagens de Feliz Natal e Ano Novo, que por terem praticamente o mesmo texto o blogueiro que vos escreve optou por não reproduzir. Meus votos de ótimos 2009-2010 (sim, o ano que vem terá 24 meses, em vista da crise) para todos, começando pelos missivistas Leandro Brandão, Mônica Araújo, Luiz de Freitas, Cláudio Schmidt, Sônia Schmidt, Tatiana Eris, Edvaldo Tirre, Wanderley Portilho, Cristina Cretton, Osvaldo Maneschy, Wallace Grecco, Eduardo Varela e Roberto Petti Pinheiro. Como estarei fora nos próximos dias, desde já agradeço e retribuo as mensagens enviadas a partir de hoje e até a primeira semana de janeiro.

Olga de Mello disse...

Zé, bom ano novo e um adendo. O Marcier continuou no Globo depois da herança. Ele só saiu mesmo no passaralho de 93. Nosso último encontro foi no sindicato, assinando a homologação da demissão, então. Como era uma senhora figura, ele foi, por um longo tempo, pai-de-santo, com terreno próprio, em Niterói. Depois, fechou. Disse que sua missão acabara.