A internet é ferramenta hoje indispensável para quem precisa localizar rapidamente qualquer coisa, descobrir um endereço, xeretar a vida de qualquer um que tenha tido seus 15 minutos de glória, aprender o essencial ou mergulhar em assuntos relevantes e inúteis. O bebê tossiu? A mãe entra no site do doutor Dráuzio Varella. O motor do carro pifou? O dono procura respostas no Yahoo! Aquele canalha foi eleito vereador? Quem sabe o blog do maior inimigo dele conta algum podre? Como era mesmo o nome da alagoana que espancava o marido governador com toalha molhada? Entre no Google e descubra.Para sorte nossa, esses troços, embora porretas, são recentes. A escola ainda é e será por muito tempo o melhor veículo de transmissão de conhecimento. E à medida que envelhecemos, todos nós, que ao longo da vida passamos por tantos episódios estranhos e conhecemos pessoas interessantes, todos, sem exceção, algum dia seremos Forrest Gump. Enquanto o tempo não passa, conto aqui algumas histórias que ouvi dos mais velhos.
NEM SEMPRE O CÉU É O LIMITE
Certa vez, procurei o já veterano publicitário, radialista e homem de televisão Sangirardi Jr. para uma matéria da revista “Shell Notícias”, publicação muito interessante que abria espaço para pautas culturais, editada por meu amigo, o jornalista Chico Aguiar, que hoje trabalha na Petrobras. O entrevistado morava numa ladeira de Copacabana, no posto 2. Autor de alguns dos jingles mais famosos da história do rádio, deixou inédito (até hoje) um livro no qual traçara perfis de gente que se destacou na primeira metade do século passado, a maioria de São Paulo. Todos eram amigos do Sangirardi. Estão nesses originais datilografados, entre outros, Mário de Andrade, Lasar Segall, Flávio de Carvalho e Artur Friedenreich. Até hoje, esse livro não foi publicado. Houve tempo, há mais de dez anos, em que procurei medalhões da propaganda e editoras para propor o lançamento do livro. E nada cobraria. A viúva e a filha, ambas muito simpáticas, também não estavam interessadas em dinheiro. Sei que algumas historinhas e casinhos engraçados daquele monstro da publicidade devem estar reunidos em sites (olha a internet aí, mas nada do que estou contando agora figura no Google), mas não passa disso. Os interessados que entrem no 102 da Telemar/Oi e procurem os parentes desse gênio.

Sangirardi, que no Google você vai conhecer mais como autor de livros sobre plantas afrodisíacas e alucinógenas (um de seus hobbies), era produtor de um dos programas de TV de maior sucesso em São Paulo e no Rio de Janeiro, nos anos 50 e 60. “O Céu é o limite”, apresentado por Jota Silvestre, foi o precursor dos programas de perguntas e respostas na TV Tupi. Num desses programas, um motorista de ônibus, negro, morador em São Paulo, que sabia tudo sobre Cleópatra, a rainha do Egito, estava prestes a ganhar o grande prêmio. O bordão do Jota Silvestre, sempre que alguém acertava a resposta, era “Absolutamente certo!”. O cara estava de casamento marcado e, com este grand finale, receberia a casa toda montada com móveis de ótimas madeiras e eletrodomésticos das melhores marcas, além do dindim de responsa.
Chegou até o final? Chegou, mas não levou. Uma semana antes do último programa, o produtor Sangirardi Jr. foi “convidado” a comparecer ao Ministério da Guerra. Ainda não havia ditadura militar, mas Sangirardi ficou cabreiro. Pensou que alguém o havia denunciado como membro do Partido Comunista, algo assim. Não era nada disso. Foi recebido por um general de quatro estrelas, que se declarou fã do programa e apontou sobre a mesa quatro ou cinco livros grossos, alguns em inglês, outros em francês, biografias de Cleópatra jamais editadas no Brasil.
“Leve esses livros. Com certeza, aquele negro não leu nenhum deles. Aí tem detalhes da vida de Cleópatra que ele jamais responderá”.
“Mas general...”.
“O senhor não vai permitir que um crioulo vença no seu programa, não é? Seria um absurdo! Crioulo não pode entender de Cleópatra”.
Sangirardi não se entregou:
“O problema, general, é que as regras do programa me impedem de usar qualquer livro que não tenha sido editado no Brasil. Infelizmente, não posso atendê-lo”.
“Então, ponha-se daqui para fora!”, ordenou o militar.
O produtor saiu da sala da alta patente escorraçado, mas de cabeça erguida. E torcendo para que o rodoviário ganhasse.
E ganharia, se quisesse. Antes de fazer a última pergunta, Jota Silvestre perguntou ao participante de “O céu é o limite!” se iria continuar ou se contentava com os prêmios já recebidos. Se concordasse, sairia sem a montanha de dinheiro, mas teria a casa toda equipada. Pressionado pela noiva, o especialista em Cleópatra amarelou. Preferiu o prêmio de consolação. Quando ouviu a última pergunta, escolhida sob medida por Sangirardi, não escondeu a tristeza. Era mais fácil do que a maioria das que respondera nas primeiras fases do programa.
JANGO E CASTELO BRANCO, UMA ESTRANHA ALIANÇA
Raul Ryff, jornalista que trabalhou no Jornal do Brasil dos bons tempos e último Secretário de Imprensa da Presidência da República antes do golpe – foi o Franklin Martins de João Goulart – manteve até a morte sua fidelidade ao presidente, que tinha o apelido de Jango. Comunista que aderiu ao trabalhismo – em 1935, ele conseguiu escapar da polícia de Filinto Müller, mas sua mulher, Beatriz Bandeira Ryff, dividiu a mesma cela com Olga Benário, mulher de Luiz Carlos Prestes – guardou histórias saborosas, algumas contadas num livro de memórias. Uma delas, que seus parentes e descendentes hão de lembrar, não foi publicada em “O fazendeiro Jango no governo” porque, segundo dizia o gaúcho velho, poderia ser interpretada como elogio ao primeiro general presidente da safra de 1964.

Isso também não está no Google, mas em 1964 ou 1965, lá em Montevidéu, João Goulart recebeu uma denúncia: o regime militar estava construindo um campo de concentração para torturar, prender e matar seus opositores. Mesmo sabendo que fascistas faziam parte do núcleo de poder em Brasília, Jango não quis acreditar nisso. Por via das dúvidas, contratou um fotógrafo da revista “O Cruzeiro”, que lançara uma edição em espanhol no Uruguai, para ir aos arredores do Alegrete ou de Dom Pedrito, um desses municípios, conferir a denúncia.
O fotógrafo cobrou caro, pelos perigos envolvidos, mas cumpriu a missão. E entregou a Jango, em seu rancho, fotos que comprovavam a veracidade da acusação. De acordo com Ryff, imediatamente mandou uma carta a seu sucessor no Palácio da Alvorada (na época, sede do governo, hoje residência do presidente), entregue em mãos.
Na carta, dirigindo-se ao destinatário como “Senhor general Humberto de Alencar Castelo Branco”, Jango foi claro: ou Castelo acabava com o tal campo de concentração de inspiração nazista ou botaria a boca no trombone. A reação de Castelo Branco teria sido melhor do que ele esperava. O general teria ficado realmente enojado com o projeto, levado a cabo pela Linha Dura do regime, e respondeu, verbalmente, ao emissário: “Diga ao senhor João Goulart que a denúncia será investigada e, se for julgada procedente, pode considerar que aquilo terá um fim imediato”.
Ao saber da resposta, Jango chamou de volta o fotógrafo e o enviou ao mesmo local. E as notas fotos demonstraram que Castelo Branco cumprira a palavra. Goulart teria agradecido em outra carta.
No entanto, mesmo não havendo um Auschwitz nos pampas, outros centros de tortura prosperaram durante os 20 anos de sufoco. Mas Castelo Branco já havia morrido, num acidente aéreo em seu estado natal, o Ceará. A Linha Dura efetivamente ocupou o poder durante os governos Costa e Silva e Médici, incluindo o período em que o país foi dirigido por uma Junta Militar. Somente depois dos episódios de tortura e morte do jornalista Vladimir Herzog e do operário Manuel Fiel Filho, foi dado um basta pelo general Ernesto Geisel.
Nunca li essa história de Raul Ryff em lugar nenhum. Ele a contou no tempo em que era redator da Editoria Internacional do Jornal do Brasil, em meados dos anos 70.
Raul Ryff nunca me pareceu um mentiroso. Com a palavra, os historiadores e repórteres que se interessam por nossa História.



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