A ditadura ainda não tinha cara de ditadura no meu tempo de rato da Biblioteca Regional de Copacabana, que ficava no mesmo prédio do curso de inglês do IBEU. Eu adorava a pequena sala onde fui apresentado a muita gente boa, como Aníbal Machado (meu contista favorito), Érico Veríssimo (acho que sei até hoje detalhes sobre cada personagem da trilogia "O Tempo e o Vento"), Dostoievski (meu favorito disparado, li tudo), o inglês Graham Greene e os americanos Scott Fitzgerald e Hemingway. As bibliotecárias gostavam de mim, eu não atrasava a entrega, não emporcalhava o livro... Passei batido pelos franceses, alemães e italianos.
Fiquei meio esnobe na época. Parte, culpa do mergulho na obra do velho Fédor (ou Fiódor, depende, acho que preferiam assim para não lembrar da palavra fedor, mas nas traduções que li ele era Fédor), que me deprimiu bastante e contribuiu para que eu virasse gente. Parte, culpa dos loucos anos 20, da Era do Jazz. Fitzgerald também me jogou lá embaixo, com aquele mundinho besta, sem sentido, sem esperanças, embora divertido com tantas festas na Riviera Francesa e aqueles caras todos falando coisas inteligentes, aquelas mulheres malucas, como a Zelda, que certamente dariam para um estudante pobre como eu.
Em 1965, como no samba de Paulinho da Viola, "tinha eu 14 anos de idade" e ainda não havia "O Pasquim" e nem o programa do Adelson Alves, nas madrugadas da Rádio Globo. O "hebdomadário satírico" (assim era apresentado) abriu minha cabeça para a política e o programa de rádio me fez gostar de samba, quase tanto quanto eu passara a gostar de jazz New Orleans. O rádio tocava um dos sambas do quarto centenário do Rio de Janeiro, gravado por Miltinho com aquele vozeirão meio fanhoso ("Procurei pelo Rio a estátua do Estácio de Sá/ Fui aqui, fui ali, acolá/ E não sei onde está... Cadê a estátua do Estácio de Sá?").
Um dia, voltando à biblioteca, abri exceção para Stefan Zweig, austríaco e judeu. O título "Brasil, país do futuro" me capturou. Na época, achei o máximo. Acho que foi o primeiro brasilianista, mas hoje sou mais cativado pela vida dele, tão bem contada por Alberto Dines, do que pela obra que deixou. É bem verdade que não li mais de três livros de Zweig e não gostei de nenhum.
As primeiras gerações do pós-guerra foram apaixonadas por este país do futuro, mas houve um momento em que a fé se dilacerou. Tentando adaptar (e responder) a pergunta do personagem de Vargas Llosa em "Conversas na Catedral", vou nessa também: E aí? Qual foi o momento exato em que o Brasil se fodeu? Quando perdemos a esperança naquele país do futuro? Foi em 1889, com a Primeira República? Que não foi melhor do que a monarquia do velho e bom Pedro II... Teria sido em 1964? Acho que não. O golpe foi uma merda que deu sentido à vida de muita gente, que passou a acreditar na Revolução com inicial maiúscula. Ou, quem sabe, em 1989 e nos anos seguintes da Era Collor? Acho que está ficando mais quente.
Em 1965, eu morava em Copacabana e ia ao Rian ver as chanchadas da Atlântida. Um dia quebraram o Rian, acho que foi na estréia de "Help", com os Beatles. Não sei se foi em 1965.
Estudei naquele ano no Externato Atlântico, na Raul Pompéia quase esquina com Rainha Elizabeth. Fiz cada ano do ginásio em um lugar diferente. Política em 1965? O diretor do colégio reuniu a garotada no pátio para falar bem do candidato da UDN, Flexa Ribeiro, que tinha como vice um político chamado Danilo Nunes, autor de um livro estranho ("Judas, traidor ou traído?") que só folheei. Muito ruinzinho. O diretor recomendou que fizéssemos a cabeça dos nossos pais a favor do Flexa Ribeiro.
A direita, que quase sempre caminha junta, estava dividida: os partidários mais radicais do golpe queriam Amaral Neto, que "O Pasquim", anos depois, rebatizaria para todo o sempre como "Amoral Nato". Que maravilha aquela eleição! Ganhou o candidato do PTB, Negrão de Lima, um ex-embaixador, um senhor elegante, queimadão de praia (mulato?), que usava chapéu gelot. Não era propriamente um inimigo dos novos donos do poder, mas sua eleição significou uma derrota e tanto para a turma verde-oliva.
Milk shake no Bob´s da Domingues Ferreira, quando havia dinheiro. Sorvete de casquinha do Lopes, no Posto Seis, perto de minha casa (na Francisco Sá) e do cinema Caruso, o melhor do Rio, fora da rede Metro. Na praia, DaMate limão, vendido naqueles tambores e bebido naqueles copinhos cônicos com papel cartão que hoje só se encontra na Laranjada Americana da Travessa do Ouvidor. Acho que ainda encontra. Pelo menos, encontrava, até um dia desses.
Em 1965, em meio às festividades do quarto centenário, me despedi do Rio. A hepatite forçou um reencontro com meu pai em um lugar chamado Iturama, no Triângulo Mineiro. O ano seguinte, 1966, foi todo passado num colégio interno de Uberaba. Nas férias de dezembro de 1966, voltei para a Cidade Maravilhosa, agora com 401 anos.
Em que exato momento, o Brasil (como dizia o pessoal do Pasquim), o Brasil óóó, top-top-top? Será que hoje voltamos a ter esperanças? Eu acho que sim, apesar do governo e da oposição que temos.
Quer me deixar petista roxo? Bota o Artur Virgílio ou o Tasso Jereissati na TV. Ou o Mainardi falando gracinhas. Putz! Acho que o Mainardi faz o jogo do Lula.
Quer que eu vire tucano radical? Bota a base aliada na TV, o Sarney, os mensaleiros e aloprados.
Quer que eu pire? Bota o Lula no vídeo. Me dá nojo quando nosso líder fica saracoteando de um lado pro outro, despejando aquelas frases de efeito agora recheadas de vulgaridades. Eu falo palavrão pra caralho, mas nem eu aguento. Tá na cara que, no caso do Lula, é coisa de marqueteiro. Não tem espontaneidade alguma. Isso deve estar fazendo algum efeito bom de marketing. Em mim, é que não.
Mas há ocasiões em que o ex-quase-sucessor do Cavaleiro da Esperança (eu gostava muito mais do apelido do que do Prestes, que, pensando bem, eu nem gostava tanto) acerta. Como no dia em que foi à Academia, que comemorava o centenário de Machado de Assis e lançava a reforma ortográfica. Só que o assunto daquele dia foi o cassino financeiro. Coitado do Cícero Sandroni, alvejado pelos perdigotos presidenciais. No entanto, Lula falou o que eu queria ouvir naquele dia. Seja como for, tire as crianças da sala quando o presidente abrir a boca na fase atual. Eu sou maior de idade, não tem problema.
Ah, sim! Em 1965, eu não comia ninguém.
Fiquei meio esnobe na época. Parte, culpa do mergulho na obra do velho Fédor (ou Fiódor, depende, acho que preferiam assim para não lembrar da palavra fedor, mas nas traduções que li ele era Fédor), que me deprimiu bastante e contribuiu para que eu virasse gente. Parte, culpa dos loucos anos 20, da Era do Jazz. Fitzgerald também me jogou lá embaixo, com aquele mundinho besta, sem sentido, sem esperanças, embora divertido com tantas festas na Riviera Francesa e aqueles caras todos falando coisas inteligentes, aquelas mulheres malucas, como a Zelda, que certamente dariam para um estudante pobre como eu.
Em 1965, como no samba de Paulinho da Viola, "tinha eu 14 anos de idade" e ainda não havia "O Pasquim" e nem o programa do Adelson Alves, nas madrugadas da Rádio Globo. O "hebdomadário satírico" (assim era apresentado) abriu minha cabeça para a política e o programa de rádio me fez gostar de samba, quase tanto quanto eu passara a gostar de jazz New Orleans. O rádio tocava um dos sambas do quarto centenário do Rio de Janeiro, gravado por Miltinho com aquele vozeirão meio fanhoso ("Procurei pelo Rio a estátua do Estácio de Sá/ Fui aqui, fui ali, acolá/ E não sei onde está... Cadê a estátua do Estácio de Sá?").
Um dia, voltando à biblioteca, abri exceção para Stefan Zweig, austríaco e judeu. O título "Brasil, país do futuro" me capturou. Na época, achei o máximo. Acho que foi o primeiro brasilianista, mas hoje sou mais cativado pela vida dele, tão bem contada por Alberto Dines, do que pela obra que deixou. É bem verdade que não li mais de três livros de Zweig e não gostei de nenhum.
As primeiras gerações do pós-guerra foram apaixonadas por este país do futuro, mas houve um momento em que a fé se dilacerou. Tentando adaptar (e responder) a pergunta do personagem de Vargas Llosa em "Conversas na Catedral", vou nessa também: E aí? Qual foi o momento exato em que o Brasil se fodeu? Quando perdemos a esperança naquele país do futuro? Foi em 1889, com a Primeira República? Que não foi melhor do que a monarquia do velho e bom Pedro II... Teria sido em 1964? Acho que não. O golpe foi uma merda que deu sentido à vida de muita gente, que passou a acreditar na Revolução com inicial maiúscula. Ou, quem sabe, em 1989 e nos anos seguintes da Era Collor? Acho que está ficando mais quente.
Em 1965, eu morava em Copacabana e ia ao Rian ver as chanchadas da Atlântida. Um dia quebraram o Rian, acho que foi na estréia de "Help", com os Beatles. Não sei se foi em 1965.
Estudei naquele ano no Externato Atlântico, na Raul Pompéia quase esquina com Rainha Elizabeth. Fiz cada ano do ginásio em um lugar diferente. Política em 1965? O diretor do colégio reuniu a garotada no pátio para falar bem do candidato da UDN, Flexa Ribeiro, que tinha como vice um político chamado Danilo Nunes, autor de um livro estranho ("Judas, traidor ou traído?") que só folheei. Muito ruinzinho. O diretor recomendou que fizéssemos a cabeça dos nossos pais a favor do Flexa Ribeiro.
A direita, que quase sempre caminha junta, estava dividida: os partidários mais radicais do golpe queriam Amaral Neto, que "O Pasquim", anos depois, rebatizaria para todo o sempre como "Amoral Nato". Que maravilha aquela eleição! Ganhou o candidato do PTB, Negrão de Lima, um ex-embaixador, um senhor elegante, queimadão de praia (mulato?), que usava chapéu gelot. Não era propriamente um inimigo dos novos donos do poder, mas sua eleição significou uma derrota e tanto para a turma verde-oliva.
Milk shake no Bob´s da Domingues Ferreira, quando havia dinheiro. Sorvete de casquinha do Lopes, no Posto Seis, perto de minha casa (na Francisco Sá) e do cinema Caruso, o melhor do Rio, fora da rede Metro. Na praia, DaMate limão, vendido naqueles tambores e bebido naqueles copinhos cônicos com papel cartão que hoje só se encontra na Laranjada Americana da Travessa do Ouvidor. Acho que ainda encontra. Pelo menos, encontrava, até um dia desses.
Em 1965, em meio às festividades do quarto centenário, me despedi do Rio. A hepatite forçou um reencontro com meu pai em um lugar chamado Iturama, no Triângulo Mineiro. O ano seguinte, 1966, foi todo passado num colégio interno de Uberaba. Nas férias de dezembro de 1966, voltei para a Cidade Maravilhosa, agora com 401 anos.
Em que exato momento, o Brasil (como dizia o pessoal do Pasquim), o Brasil óóó, top-top-top? Será que hoje voltamos a ter esperanças? Eu acho que sim, apesar do governo e da oposição que temos.
Quer me deixar petista roxo? Bota o Artur Virgílio ou o Tasso Jereissati na TV. Ou o Mainardi falando gracinhas. Putz! Acho que o Mainardi faz o jogo do Lula.
Quer que eu vire tucano radical? Bota a base aliada na TV, o Sarney, os mensaleiros e aloprados.
Quer que eu pire? Bota o Lula no vídeo. Me dá nojo quando nosso líder fica saracoteando de um lado pro outro, despejando aquelas frases de efeito agora recheadas de vulgaridades. Eu falo palavrão pra caralho, mas nem eu aguento. Tá na cara que, no caso do Lula, é coisa de marqueteiro. Não tem espontaneidade alguma. Isso deve estar fazendo algum efeito bom de marketing. Em mim, é que não.
Mas há ocasiões em que o ex-quase-sucessor do Cavaleiro da Esperança (eu gostava muito mais do apelido do que do Prestes, que, pensando bem, eu nem gostava tanto) acerta. Como no dia em que foi à Academia, que comemorava o centenário de Machado de Assis e lançava a reforma ortográfica. Só que o assunto daquele dia foi o cassino financeiro. Coitado do Cícero Sandroni, alvejado pelos perdigotos presidenciais. No entanto, Lula falou o que eu queria ouvir naquele dia. Seja como for, tire as crianças da sala quando o presidente abrir a boca na fase atual. Eu sou maior de idade, não tem problema.
Ah, sim! Em 1965, eu não comia ninguém.



6 comentários:
Que volta ao tempo bacana! Os copinhos de papel da Laranjada Americana ainda estão lá.
Tu é velho pacas. Beijo.
Zé,
adoro suas histórias..
Esse blog ta ótimo, leio sempre!
Parabéns!
Beijo!
Um blog divertido, "incorreto politicamente" ao extremo, que maravilha !
Fora com aquele texto insipido, inodoro, incolor e insosso que a gente costuma ver por ai'...
Acho que vou gostar muito de vir aqui todos os dias !
Parabens !
Humberto
Maravilha, meu velho, maravilha!
JÚLIA, querida!, e HUMBERTO (obrigados, cara, somos obrigados a ser politicamente incorretos!): Bem-vindos e não reparem a bagunça!
SIMAS (hisbrasil.blogspot.com) e FELIPINHO (boemiaenostalgia.blogspot.com): salve Vovó Luiza e dona Saquarema!
Que delícia vc lembrar da Copacabana de minha tenra infância. Em 65 eu era apenas uma menininha que ingressava, aos 4 anos, no Jardim de Infância, mas em Ipanema, onde morava. Copacabana era meu passeio noturno (as famílias caminhavam pelas ruas nas noites de verão) e minha praia favorita. Eu adorava o Posto 6, de águas calmas, embora fosse levada sempre para o mar alto de Ipanema. Era bom demais ser uma carioquinha naquela época. Ainda é bom. Mas havia um sabor esmaecido no passado que só memórias como as suas nos fazem relembrar. Beijo!
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