Quando entro na casa de alguém, não reparo na bagunça e nem na decoração. Nem lá em casa faço isso. Minha mulher que o diga. Anteontem mesmo, ela me perguntou o que havia de novo no corredor e meu palpite foi uma lua pendurada no teto, mas ela está ali desde que o Hollywood não tinha filtro e o Chacrinha era em preto e branco. Mas abri uma exceção e, já que estou falando em preto e branco, quando fui ao Bip-Bip pela primeira vez fiquei encantado com a decoração do bar do Alfredinho, cujas paredes retratam episódios gloriosos da Humanidade. Minha alma também é forrada com aqueles recortes de jornais.
O excesso de efemérides quarentonas adiou para hoje o registro dos 40 anos deste pé-sujo fundamental do Rio de Janeiro, que foi comemorado em 13 de dezembro de 2008 com o lançamento de Bip-Bip, 40 anos – Histórias de um Bar, organizado por Marcelo Moutinho, Luís Pimentel e Francisco Genu. Peço licença para reproduzir um dos textos da obra, do meu amigo e escriba Eduardo Goldenberg, proprietário do www.butecodoedu.blogspot.com, um dos endereços mais visitados da blogosfera carioca e o nº 1 da Tijuca.
Com vocês, a verve do Edu. E para o Alfredinho, saudações alvinegras pelos 40 anos e uma noite de seu pequeno grande botequim que, segundo o autor da fábula abaixo, só tem um defeito.
O excesso de efemérides quarentonas adiou para hoje o registro dos 40 anos deste pé-sujo fundamental do Rio de Janeiro, que foi comemorado em 13 de dezembro de 2008 com o lançamento de Bip-Bip, 40 anos – Histórias de um Bar, organizado por Marcelo Moutinho, Luís Pimentel e Francisco Genu. Peço licença para reproduzir um dos textos da obra, do meu amigo e escriba Eduardo Goldenberg, proprietário do www.butecodoedu.blogspot.com, um dos endereços mais visitados da blogosfera carioca e o nº 1 da Tijuca.
Com vocês, a verve do Edu. E para o Alfredinho, saudações alvinegras pelos 40 anos e uma noite de seu pequeno grande botequim que, segundo o autor da fábula abaixo, só tem um defeito.
Uma fábula, de porre, pro Bip-Bip
“Tijucano de quatro costados, como eu, tem um hábito insuportável, mas que é fabuloso ao mesmo tempo (espero que vocês me entendam, pô, ou parem por aqui mesmo!): o que há de melhor, em todos os sentidos (incluindo audição, olfato, tato, paladar e visão) está na Tijuca. O melhor supermercado? Na Tijuca, é evidente, onde os preços, ó, são mais em conta. A melhor padaria? Nem em Paris!, nem em Paris!, a melhor padaria fica na Tijuca. As mulheres mais bonitas do Brasil? Estão na Tijuca, caminhando pelas ruas da Tijuca, de saia e sandália de dedo, deixando a gente pra morrer... E por aí vai.
O que quero lhes dizer é que o maior elogio que pode partir de um sujeito que tem a água do rio Maracanã correndo nas veias, de um sujeito que sente bater o coração como o surdo de marcação do Salgueiro, é o seguinte:
- O Bip-Bip só tem um defeito...
- É? Qual?
- Não fica na Tijuca...
O cara, encostado no balcão do Rio-Brasília, templo do bairro zona-norte, ainda tenta argumentar, limão da casa na mão direita:
- Mas Copacabana é a Tijuca com praia...
- Que papo de corretor, malandragem! Tijuca é Tijuca. Mas falta o Bip-Bip no pedaço...
O sujeito, virando o limãozinho num só gole e pedindo outro ao Joaquim, exagera:
- Mas, então! O Joaquim é o Alfredinho sem a barba!!!
O Joaquim, num raríssimo momento de humildade:
- Quem me dera! Quem me dera!
Aos quarenta anos de idade, esse vagabundo — pra quem, como nós, ama os botequins, taí um tremendo adjetivo! — encanta desde 68 a dama da gargantilha acesa no pescoço (salve, Blanc!). Copacabana derrete-se desde então quando chega na Almirante Gonçalves e dá de cara com o malandro, à direita de quem vem da praia. Do alto, de longe, o Cantagalo a tudo assiste — e desde aquele tempo.
Os morros do Rio, donos de linguagem particularíssima, têm — vocês sabiam disso? — suas manhas, seus códigos. Paulo Emílio da Costa Leite, que virou encantado quando morava na Guajaratuba, na Tijuca, já nos contou sobre a história do Borel, da Formiga, do Turano e da Casa Branca, os quatro que se encontraram num botequim lá na Praça Saens Peña pra tomar um porre federal, de onde saíram abraçados.
Pois foi o Cantagalo, em 68, quem soprou pro Cabritos que a coisa ali embaixo valia a pena.
— Se essa rua fosse minha... — sussurrou Cabritos.
O da Saudade, passeando pelo Parque da Catacumba, sacou o clima e quis saber qual era. Animadíssimo, deu a dica ao Redentor, que já manjava tudo do alto, o onipresente, do outro lado da Lagoa, esticando o pescoço pra ouvir o burburinho antes da cidade acordar.
O Sumaré soube em segundos da novidade, desceu correndo a Redentor, estrada que tem o nome do Todo Poderoso de granito, e foi dar no Alto da Boa Vista. O Borel sentiu o movimento, estrilou, inteirou-se da boa nova e teve a idéia. A Formiga, coladinha a ele, piscou o olho em sinal de cumplicidade. O Turano, que ficou invocado, e a Casa Branca, que ficou com ciúme, também ouviram o tal nome — “Bip-Bip” — e trataram de espalhar o troço.
E deu-se o que o Paulo Emílio escondeu de nós: depois do porre federal, tomaram o metrô imaginário e saltaram, os quatro, cambaleantes, na também imaginária estação do Cantagalo, na altura da Miguel Lemos. Desceram em direção ao mar, dobraram à direita na Aires de Saldanha e desembocaram na rua indicada pelo Cantagalo, onde a coisa valia a pena... — isso, lembrem-se, no tempo em que o galo ainda cantava por lá (salve, Paulinho Pinheiro!).
Nunca mais esqueceram o Bip-Bip.
Pois, quando os quatro voltaram, a coisa chegou ao Salgueiro, correu Tijuca, e hoje o bairro todo se ressente disso, da falta que o Bip-Bip faz.
Eu, que nasci há quase quarenta anos — mais precisamente quatro meses depois do vagabundo em questão! — na Ordem Terceira da Penitência, de frente para o Borel, ouvi, juro que ouvi, ainda na maternidade, mamando no peito de mamãe com os olhos abertos, a voz do Borel, como se me ninando:
- Cresce, menino, cresce e atravessa o morro pra conhecer o Bip-Bip...
Um sábio, o Borel”.
O que quero lhes dizer é que o maior elogio que pode partir de um sujeito que tem a água do rio Maracanã correndo nas veias, de um sujeito que sente bater o coração como o surdo de marcação do Salgueiro, é o seguinte:
- O Bip-Bip só tem um defeito...
- É? Qual?
- Não fica na Tijuca...
O cara, encostado no balcão do Rio-Brasília, templo do bairro zona-norte, ainda tenta argumentar, limão da casa na mão direita:
- Mas Copacabana é a Tijuca com praia...
- Que papo de corretor, malandragem! Tijuca é Tijuca. Mas falta o Bip-Bip no pedaço...
O sujeito, virando o limãozinho num só gole e pedindo outro ao Joaquim, exagera:
- Mas, então! O Joaquim é o Alfredinho sem a barba!!!
O Joaquim, num raríssimo momento de humildade:
- Quem me dera! Quem me dera!
Aos quarenta anos de idade, esse vagabundo — pra quem, como nós, ama os botequins, taí um tremendo adjetivo! — encanta desde 68 a dama da gargantilha acesa no pescoço (salve, Blanc!). Copacabana derrete-se desde então quando chega na Almirante Gonçalves e dá de cara com o malandro, à direita de quem vem da praia. Do alto, de longe, o Cantagalo a tudo assiste — e desde aquele tempo.
Os morros do Rio, donos de linguagem particularíssima, têm — vocês sabiam disso? — suas manhas, seus códigos. Paulo Emílio da Costa Leite, que virou encantado quando morava na Guajaratuba, na Tijuca, já nos contou sobre a história do Borel, da Formiga, do Turano e da Casa Branca, os quatro que se encontraram num botequim lá na Praça Saens Peña pra tomar um porre federal, de onde saíram abraçados.
Pois foi o Cantagalo, em 68, quem soprou pro Cabritos que a coisa ali embaixo valia a pena.
— Se essa rua fosse minha... — sussurrou Cabritos.
O da Saudade, passeando pelo Parque da Catacumba, sacou o clima e quis saber qual era. Animadíssimo, deu a dica ao Redentor, que já manjava tudo do alto, o onipresente, do outro lado da Lagoa, esticando o pescoço pra ouvir o burburinho antes da cidade acordar.
O Sumaré soube em segundos da novidade, desceu correndo a Redentor, estrada que tem o nome do Todo Poderoso de granito, e foi dar no Alto da Boa Vista. O Borel sentiu o movimento, estrilou, inteirou-se da boa nova e teve a idéia. A Formiga, coladinha a ele, piscou o olho em sinal de cumplicidade. O Turano, que ficou invocado, e a Casa Branca, que ficou com ciúme, também ouviram o tal nome — “Bip-Bip” — e trataram de espalhar o troço.
E deu-se o que o Paulo Emílio escondeu de nós: depois do porre federal, tomaram o metrô imaginário e saltaram, os quatro, cambaleantes, na também imaginária estação do Cantagalo, na altura da Miguel Lemos. Desceram em direção ao mar, dobraram à direita na Aires de Saldanha e desembocaram na rua indicada pelo Cantagalo, onde a coisa valia a pena... — isso, lembrem-se, no tempo em que o galo ainda cantava por lá (salve, Paulinho Pinheiro!).
Nunca mais esqueceram o Bip-Bip.
Pois, quando os quatro voltaram, a coisa chegou ao Salgueiro, correu Tijuca, e hoje o bairro todo se ressente disso, da falta que o Bip-Bip faz.
Eu, que nasci há quase quarenta anos — mais precisamente quatro meses depois do vagabundo em questão! — na Ordem Terceira da Penitência, de frente para o Borel, ouvi, juro que ouvi, ainda na maternidade, mamando no peito de mamãe com os olhos abertos, a voz do Borel, como se me ninando:
- Cresce, menino, cresce e atravessa o morro pra conhecer o Bip-Bip...
Um sábio, o Borel”.



8 comentários:
Zé Sérgio
Gosto muito do seu texto, suas histórias,doces memórias...
Ah,é lógico, adorei o seu blog.
Lucília Machado
Quem não foi perdeu! foi linda a noite!!!
ê bip, ê bip!!!
Salve, Zé! O nome do blog não poderia ser mais apropriado: porque quem deixa de aparecer por aqui - um dia, que seja - logo se dá conta das doses valiosas de História que perdeu, reveladas, sempre, de uma forma e com um humor que não se vêem tão facilmente por aí.
Eu que não perco mais esse bonde, que daqui a pouco nem do lado de fora (pendurado) eu consigo lugar...
Zé
Seu blog está ótimo. Não poderia esperar nada diferente de você. A história da D. Ivone Lara "num certo fundo de pensão" foi muito engraçada, especialmente para quem conhece as figuras cujos nomes não foram explicitamente citados. Continue firme.
Gostaria que você verificasse se o endereço do blog do EDu está correto em seu texto pois tentei entrar com este endereço e não foi possível localiza-lo.
Abraços e sucesso.
Paulo e Marília
LUCÍLIA, há quanto tempo??!! Parece que foi hontem hehe!
CADERNO, és um blog. Sendo assim, Quemévivosempreaparece.blogspot.com agradece sua visita. É, não fomos, perdemos a festa do Bip-Bip. Fica pra outra.
MARCELO, até que enfim tu pegou o bonde, já andando. Agora dá um jeito de fugir do condutor portuga.
PAULO SÉRGIO e MARÍLIA, salve a boemia isabelina. Escrevi o endereço do Buteco do Edu certo. Faltou só o http:// mas isso nem precisa mais. No entanto, se o problema continuar, vão no Google e escrevam Buteco do Edu, que vai dar certo. Abração em dobro!
Não seria esse, Dinda - me diga tu aí que és muito mais sabido e muito menos cansado - o maior texto de Eduardo Goldenberg em todos os tempos???
Sze, mermão, com certeza é. Mas não duvido que o primogênito de Isaac e Mariazinha amanhã mesmo produza outro ainda melhor, pois de onde vem sempre tem mais. A merda é que ele vai colocar em seu próprio buteco, o pelvelço!
Zé: é sacanagem do Szegeri. Ele fez esse comentário só pra me sacanear. Não fala comigo vai fazer - o quê? - mais de mês. Email nem a fórceps; telefonema, nenhum. Comentário no meu humílimo blog, então... Tsc.
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