Pouco tempo depois, revi a figura numa reunião da organização clandestina à qual pertencíamos, realizada no apê que eu alugara na véspera, em Copacabana. O que discutimos ali não lembro, só sei que cada um foi cobrir um ponto. Depois nos reencontramos mais algumas vezes, no dia-a-dia do movimento estudantil de meados dos anos 70, durante o governo Geisel. Achei engraçado que meu chapa já não exagerava nas madeixas, sabem por quê? É que o nosso grupo político tinha um manual de conduta hilário, que recomendava uso de trajes sóbrios e comportamento exemplar. Ai de quem fosse preso com um mísero baseado no bolso da calça. Isso equivaleria quase a uma traição. Além de levar porrada da polícia, teria que se ver com o próprio grupo.
De lá pra cá, muita água rolou, fomos ligados ao mesmo partido na legalidade, no qual ele militava bem mais e continua militando. Há poucos anos, fomos parceiros num livro maluco de contos (“Parem as máquinas – Jornalistas que valem mais de 50 contos”), escrito por 53 colegas de profissão. O texto dele, “A bailarina do Café Primor”, que conta as atribulações de um serial killer dos anos 40, seguramente é um dos meus favoritos.
Temos hoje algumas opiniões divergentes, menos quando o assunto é o Glorioso Botafogo de Futebol e Regatas. Aí fechamos e não tem polêmica. Outro ponto de consenso é que ambos achamos que o ano de 1964 foi um dos piores momentos da história do Brasil. Mais velho do que eu dois anos, o Nilo tem lembranças mais nítidas daquele 1º de abril. Eu lembro da vigília familiar em torno do rádio, durante a madrugada de 31 para 1º, a gente ouvindo notícias sobre o golpe em andamento. E, no dia seguinte, minha avó Adelina, a portuguesa mais desbocada e engraçada da Rua Cantilda Maciel, no bairro da Abolição, resumir numa frase suas impressões sobre a passagem de uma porrada de tanques pela Avenida Suburbana, vindos da Vila Militar e a caminho do palácio do Lacerda:
“Puta que os pariu! Vai começar a pouca vergonha, caralhos me fodam!”.
Com vocês, as lembranças do Nilo sobre a fatídica efeméride castrense. E na vitrolinha metida a besta, pra não ter saudade da ditadura, uma canção desesperada de um tal de Julinho da Adelaide, pseudônimo usado por Chico Buarque pra driblar a Censura.
* * *
45 anos de uma sexta-feira
Nilo Sergio Gomes
“Há 45 anos, um dia sombrio e estranho, com muitas notícias estranhas, marcou a vida de muita gente, e a minha também. Faltava menos de um mês para completar 14 anos, mas sou incapaz de lembrar-me como foi o dia de meu aniversário, naquele ano também sombrio de 1964. Mas tenho nítidas na memória as lembranças daquele dia agitado, cheio de informações desencontradas.
Em casa, minha mãe e eu não tínhamos televisão. Era somente o rádio, de preferência, a Mayrink Veiga ou a Rádio Nacional. Sintonizamos na primeira, pois era uma emissora extremamente popular, apresentava, aos domingos, o programa “A Hora do Trabalhador”, que tinha atrações maravilhosas, como a dupla sertaneja Miro e Mirinho. O apresentador era o radialista Raimundo Nobre de Almeida. Não esqueço até hoje este nome.
Pois, até altas horas da noite ficamos com os ouvidos no rádio, mas tudo era nebuloso, muita informação desencontrada. Na Nacional, não era diferente. Mas na Rádio Globo as notícias já davam como certa a renúncia do presidente João Goulart, o Jango. Jango que conheci vendo-o apertar a mão das pessoas, inclusive de minha mãe, logo após a vitória do Brasil na final da Copa do Mundo de 1962.
Era uma sexta-feira e, no sábado, até a feira na rua Tadeu Kociusko, no Bairro de Fátima, Centro do Rio, estava esquisita. O final de semana foi um dos piores de minhas lembranças e, na semana seguinte, as aulas foram suspensas. No mesmo sábado, 1º de abril, a rádio Mayrink Veiga ficou fora do ar. Mas, no domingo, não havia mais dúvida. Jango fora deposto. Os militares assumiram o poder. Carlos Lacerda, governador do Rio de Janeiro, dava show, falando em praticamente todas as emissoras. Eu não gostava do Lacerda, mas gostava do Jango. Lacerda que logo depois acabaria com as oficinas profissionalizantes da Escola Técnica Ferreira Viana, onde eu estudava e aprendi tipografia, primeiro encontro com minha profissão de jornalista.
Levei muitos anos, décadas, para voltar a ver meu país com gente alegre andando nas ruas, como via costumeiramente até 31 de março de 1964. Quando as aulas recomeçaram, até os passageiros do bonde pareciam tristonhos, diferentes. Faltava alguma coisa, que eu levaria anos para perceber o que era: a alegria havia se ido. Meu desejo de ser militar, aviador da Aeronáutica, também se foi naqueles dias. Nunca mais pensei em ser militar. Pelo contrário, passei a ter ódio de militares e levaria muitos anos, bem depois da chamada "redemocratização", para entender que a história militar do Brasil tem e teve muitos percalços, mas que ela não necessariamente se confunde com o movimento golpista de 1964.
Hoje é 31 de março de 2009. 45 anos se foram, minha juventude também se foi e a investi na luta de resistência contra a ditadura. Luta que teve passagens difíceis, algumas prisões, muitas privações, até porque, filho de trabalhadores, não poderia escolher outro caminho que não o da luta, inclusive, a luta clandestina. 45 anos se passaram daquela sexta-feira estranha, que até hoje povoa minha memória. Ainda me vejo, ao lado de minha mãe, ouvido colado no rádio tentando saber o que se passara. Hoje, felizmente, o que se passara já passou. Ainda existem generais e almirantes arrogantes, mas a vida está um pouco melhor. A democracia é precária e dominada pelo poder econômico, mas está bem melhor. Avançamos enquanto povo e sociedade e, pelo visto, nos encaminhamos para uma sociedade menos injusta, mais plural e diversificada, com o povo usufruindo de direitos e mais oportunidades.
De dentro de mim, lá dentro, ainda mora um menino. Ele tem quase 14 anos e sonha que nunca mais este país tão amado tenha que passar, outra vez, por uma experiência tão amarga e tão triste. Tão desigual. E isso só depende da gente, de você, de mim, de todas e todos nós que hoje desfrutamos de um país melhor. Ainda falta muito. Mas, meu sonho é que uma sexta-feira como aquela nunca mais se repita. Nunca mais”.
Em casa, minha mãe e eu não tínhamos televisão. Era somente o rádio, de preferência, a Mayrink Veiga ou a Rádio Nacional. Sintonizamos na primeira, pois era uma emissora extremamente popular, apresentava, aos domingos, o programa “A Hora do Trabalhador”, que tinha atrações maravilhosas, como a dupla sertaneja Miro e Mirinho. O apresentador era o radialista Raimundo Nobre de Almeida. Não esqueço até hoje este nome.
Pois, até altas horas da noite ficamos com os ouvidos no rádio, mas tudo era nebuloso, muita informação desencontrada. Na Nacional, não era diferente. Mas na Rádio Globo as notícias já davam como certa a renúncia do presidente João Goulart, o Jango. Jango que conheci vendo-o apertar a mão das pessoas, inclusive de minha mãe, logo após a vitória do Brasil na final da Copa do Mundo de 1962.
Era uma sexta-feira e, no sábado, até a feira na rua Tadeu Kociusko, no Bairro de Fátima, Centro do Rio, estava esquisita. O final de semana foi um dos piores de minhas lembranças e, na semana seguinte, as aulas foram suspensas. No mesmo sábado, 1º de abril, a rádio Mayrink Veiga ficou fora do ar. Mas, no domingo, não havia mais dúvida. Jango fora deposto. Os militares assumiram o poder. Carlos Lacerda, governador do Rio de Janeiro, dava show, falando em praticamente todas as emissoras. Eu não gostava do Lacerda, mas gostava do Jango. Lacerda que logo depois acabaria com as oficinas profissionalizantes da Escola Técnica Ferreira Viana, onde eu estudava e aprendi tipografia, primeiro encontro com minha profissão de jornalista.
Levei muitos anos, décadas, para voltar a ver meu país com gente alegre andando nas ruas, como via costumeiramente até 31 de março de 1964. Quando as aulas recomeçaram, até os passageiros do bonde pareciam tristonhos, diferentes. Faltava alguma coisa, que eu levaria anos para perceber o que era: a alegria havia se ido. Meu desejo de ser militar, aviador da Aeronáutica, também se foi naqueles dias. Nunca mais pensei em ser militar. Pelo contrário, passei a ter ódio de militares e levaria muitos anos, bem depois da chamada "redemocratização", para entender que a história militar do Brasil tem e teve muitos percalços, mas que ela não necessariamente se confunde com o movimento golpista de 1964.
Hoje é 31 de março de 2009. 45 anos se foram, minha juventude também se foi e a investi na luta de resistência contra a ditadura. Luta que teve passagens difíceis, algumas prisões, muitas privações, até porque, filho de trabalhadores, não poderia escolher outro caminho que não o da luta, inclusive, a luta clandestina. 45 anos se passaram daquela sexta-feira estranha, que até hoje povoa minha memória. Ainda me vejo, ao lado de minha mãe, ouvido colado no rádio tentando saber o que se passara. Hoje, felizmente, o que se passara já passou. Ainda existem generais e almirantes arrogantes, mas a vida está um pouco melhor. A democracia é precária e dominada pelo poder econômico, mas está bem melhor. Avançamos enquanto povo e sociedade e, pelo visto, nos encaminhamos para uma sociedade menos injusta, mais plural e diversificada, com o povo usufruindo de direitos e mais oportunidades.
De dentro de mim, lá dentro, ainda mora um menino. Ele tem quase 14 anos e sonha que nunca mais este país tão amado tenha que passar, outra vez, por uma experiência tão amarga e tão triste. Tão desigual. E isso só depende da gente, de você, de mim, de todas e todos nós que hoje desfrutamos de um país melhor. Ainda falta muito. Mas, meu sonho é que uma sexta-feira como aquela nunca mais se repita. Nunca mais”.



Um comentário:
Olá
Estou buscando alguma forma de contato com o Nilo.
Por acaso você poderia me auxiliar?
Att.
Odilon
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