A notícia chegou rápido lá em cima, no Catetão. Moram no Catetão todos os presidentes, imperadores, donatários, vice-reis, governadores-gerais e até morubixabas que já deram as cartas em Pindorama.É um palácio enorme, bem maior que o castelo do ex-corregedor Edmar Moreira, e acabou ganhando este nome porque a galera da Velha República, coordenada pelo solitário do Itu, se articulou melhor.
O lugar é cheio de mordomias, tem até banda larga e Telecine, uísque, mesa de sinuca, carteado, etc. Mas como todo mundo ali virou santo, a falta de mulheres e de dinheiro não é tão sentida. Se bem que nem todos os inquilinos eram viciados na plata. Na abalizada avaliação de Pedro I e de Jango, espiritualmente capados mas ainda saudosos dos prazeres carnais, alguns nem mesmo foram muito chegados às fêmeas.
Em vão, o marechal Hermes tentou introduzir no recinto o corta-jaca. Chiquinha Gonzaga bem que tentou penetrar, mas foi barrada no clube do Bolinha, até porque a maestrina nunca foi governo. A torcida pela Dilma é forte na periferia do Catetão. A Princesa Isabel, que poderia reivindicar aposentos no Catetão, por ter ocupado o lugar do pai interinamente, seria a primeira a ingressar ("Até aquele plebeu de Mombaça está lá", queixa-se a autora da Lei Áurea). Sonha a pobre Isabel ser recebida um dia no Catetão pelo menos como aconteceu na Academia, com a Rachel de Queiroz.
Voltando à reunião de Londres, quem recebeu primeiro a notícia? Há dúvidas. Teria sido a mensagem via twitter enviada por Elio Gaspari ao general Geisel, algum sinal de fumaça captado via satélite pelo cacique pataxó que deu as boas-vindas a Cabral ou a notícia foi lida por Pedro II, que continua fiel ao velho e bom telefone, agora vitaminado pela internet?
Voltando à reunião de Londres, quem recebeu primeiro a notícia? Há dúvidas. Teria sido a mensagem via twitter enviada por Elio Gaspari ao general Geisel, algum sinal de fumaça captado via satélite pelo cacique pataxó que deu as boas-vindas a Cabral ou a notícia foi lida por Pedro II, que continua fiel ao velho e bom telefone, agora vitaminado pela internet?
Não importa. O fato é que todos os bambambãs desencarnados já sabem que o filho de Dona Lindu virou o popstar do G-20.
A gargalhada de Getúlio (uma espécie de diretor-geral da Casa, com mandato de 150 anos e direito a reeleição) ecoou pelos intermináveis corredores forrados de veludo do Palácio das Águias Celestiais. Entre baforadas, numa rodinha em que estavam, entre outros, Tomé de Souza, o Marquês do Lavradio, Rodrigues Alves e ACM (como ele conseguiu entrar, ninguém sabe, só os terreiros do Recôncavo...), o Baixinho destilava maldade:
A gargalhada de Getúlio (uma espécie de diretor-geral da Casa, com mandato de 150 anos e direito a reeleição) ecoou pelos intermináveis corredores forrados de veludo do Palácio das Águias Celestiais. Entre baforadas, numa rodinha em que estavam, entre outros, Tomé de Souza, o Marquês do Lavradio, Rodrigues Alves e ACM (como ele conseguiu entrar, ninguém sabe, só os terreiros do Recôncavo...), o Baixinho destilava maldade:
“Fernando Henrique deve estar se roendo! E o Chávez, hein? Este nem se fala”.
Pedro II interveio: “Bem fez meu sobrinho-neto, o Rei de Espanha, quando mandou ele se calar. O pior é que o Chávez continua fazendo das suas. Até convidou aquele facínora do Sudão para visitar a Venezuela!!! Como pode isso?”.
Pedro II é uma das poucas unanimidades do castelo-hotel-cassino. Com o apoio dele, que levou os vice-reis todos no cabresto, Getúlio se eternizaria no Catetão.
O Pai dos Pobres não cabia em si de alegria.
O Pai dos Pobres não cabia em si de alegria.
“O bagual corintiano é minha cria espiritual. Não fossem os bons antecedentes trabalhistas, minha Carta Testamento, Lula não teria tanto cartaz. O povo de quem fui escravo não será mais escravo de ninguém! Sem medo de ser feliz, bah!”.
Getúlio divertia-se misturando slogans de propósito e soletrou soletrando cada palavra de Barack Obama:
“É o político mais popular da Terra. Ele é o cara!”.
Em outra rodinha, só de militares, Deodoro, Floriano, Hermes, Dutra e a turma de 1964 divergiam na busca de explicações, recorriam às lembranças dos ensebados manuais castrenses, tentando enxergar cenários grandiosos para a grande potência que, enfim, parece a caminho de se consolidar.
Em outra rodinha, só de militares, Deodoro, Floriano, Hermes, Dutra e a turma de 1964 divergiam na busca de explicações, recorriam às lembranças dos ensebados manuais castrenses, tentando enxergar cenários grandiosos para a grande potência que, enfim, parece a caminho de se consolidar.
“Sem a Revolução, apesar dos erros que cometemos, nada disso teria acontecido”, observou Geisel. Floriano emendou de bate-pronto que “o menino fez bem, colocou a gringalhada no devido lugar”. Castello sorria: “Bem que eu queria restaurar logo a democracia, lembram? Se não fosse aquele “acidente”... A roda quase se desfez aí, o trio da Junta foi saindo de fininho.
Dutra estava mudo. Figueiredo notou e cochichou com Médici: “Ele ainda não sabe de nada, Emílio. É o pior de todos nós. Vai ser burro assim na casa do car*%$##@, por&%$#!!!”.
Juscelino também estava quieto, com cara de preocupado. Perto dele, Mem de Sá rolou pelo chão de rir com a tirada de Cunhambebe, que é meio de esquerda e tão sacana como Getúlio:
“Não é só o FHC e o Hugo Chávez, ô velho matador (assim o índio brabo se referia carinhosamente à turma lusitana da Colônia). O pé-de-valsa, o Grande Chefe Branco de Diamantina, também está com inveja. Será que o nome dele vai continuar sendo marquetado pelo povo que quer eleger a Dilma?”.
Campos Salles, que teve seus dias de glória durante o mandato tucano, olhou o cacique de cima para baixo, daquele jeitão paulista quatrocentão, e estava prestes a passar uma descompostura no canibal, sendo contido pelo sisudo Morais, o mais Prudente até no nome.
“O que será que deu no Juscelino?”, agora todos estavam preocupados. O mineiro era um dos mais populares moradores do Palácio, conversava até com os antigos inimigos, até jogou pif-paf com o Costa e Silva um dia desses...
Tancredo (dizem que Sarney, quando parar definitivamente de pintar o cabelo, vai encontrar um osso duro de roer para conseguir uma vaga no Catetão) foi atrás do amigo e conterrâneo:
“O que houve, Nonô? Estão dizendo que você ficou enciumado, mas lhe conheço bem. Você não é disso... Me conta por que estás tão cabisbaixo”.
“Pois é, Tancredo, mas você é que devia estar mais preocupado do que eu. Não me senti rebaixado, jamais me sentiria. Até gosto do Lula. Se fosse mais velho, daria um bom vice-presidente em 1965...”.
“Então, o que houve, homem de Deus?”.
“Pensa comigo, Tancredo. Lembra que rompi com o FMI no meu governo?”.
“É claro. Foi a primeira coisa que pensei. E não entendi porque eu é que devo ficar mais preocupado”.
“Aqueles caras nos esganaram durante décadas. Agora, com a crise, a coisa fedeu tanto que até ao Brasil estão recorrendo. E o Lula já disse que vai emprestar umas patacas pra ajudar os emergentes que vão mal das pernas ...”.
“Sim, e daí? Será uma causa nobre. Você acha que o Lula fez mal?”.
“Claro que fez, Tancredo. Do jeito que o Lula é, vai chamar os marqueteiros e danar a inventar programa social pelo mundo afora. Já imaginou, Tancredo? Ele vai botar quem para acompanhar esses projetos todos? Quem vai ficar viajando o mundo inteiro em nome do governo brasileiro para distribuir nossas benesses. Raciocina, Tancredo. Como nós dois não acreditamos que a Dilma vai emplacar, é jogada do Lula para fazer o candidato dele do peito presidente. É o Serra, Tancredo, a paulistada ganhou de novo. Lula vai soltar pelo mundo teu neto, nosso candidato! E o menino que já adora um avião...”.
Tancredo empalideceu e até disse uns palavrões, o que raramente fazia:
Campos Salles, que teve seus dias de glória durante o mandato tucano, olhou o cacique de cima para baixo, daquele jeitão paulista quatrocentão, e estava prestes a passar uma descompostura no canibal, sendo contido pelo sisudo Morais, o mais Prudente até no nome.
“O que será que deu no Juscelino?”, agora todos estavam preocupados. O mineiro era um dos mais populares moradores do Palácio, conversava até com os antigos inimigos, até jogou pif-paf com o Costa e Silva um dia desses...
Tancredo (dizem que Sarney, quando parar definitivamente de pintar o cabelo, vai encontrar um osso duro de roer para conseguir uma vaga no Catetão) foi atrás do amigo e conterrâneo:
“O que houve, Nonô? Estão dizendo que você ficou enciumado, mas lhe conheço bem. Você não é disso... Me conta por que estás tão cabisbaixo”.
“Pois é, Tancredo, mas você é que devia estar mais preocupado do que eu. Não me senti rebaixado, jamais me sentiria. Até gosto do Lula. Se fosse mais velho, daria um bom vice-presidente em 1965...”.
“Então, o que houve, homem de Deus?”.
“Pensa comigo, Tancredo. Lembra que rompi com o FMI no meu governo?”.
“É claro. Foi a primeira coisa que pensei. E não entendi porque eu é que devo ficar mais preocupado”.
“Aqueles caras nos esganaram durante décadas. Agora, com a crise, a coisa fedeu tanto que até ao Brasil estão recorrendo. E o Lula já disse que vai emprestar umas patacas pra ajudar os emergentes que vão mal das pernas ...”.
“Sim, e daí? Será uma causa nobre. Você acha que o Lula fez mal?”.
“Claro que fez, Tancredo. Do jeito que o Lula é, vai chamar os marqueteiros e danar a inventar programa social pelo mundo afora. Já imaginou, Tancredo? Ele vai botar quem para acompanhar esses projetos todos? Quem vai ficar viajando o mundo inteiro em nome do governo brasileiro para distribuir nossas benesses. Raciocina, Tancredo. Como nós dois não acreditamos que a Dilma vai emplacar, é jogada do Lula para fazer o candidato dele do peito presidente. É o Serra, Tancredo, a paulistada ganhou de novo. Lula vai soltar pelo mundo teu neto, nosso candidato! E o menino que já adora um avião...”.
Tancredo empalideceu e até disse uns palavrões, o que raramente fazia:
“Juscelino, você tem razão. Nunca mais o Aécio vai voltar para o batente. E Minas vai perder novamente! Puta que os pariu, esses paulistas são foda!”.
(O fundo musical daquele Pororó Pororó Pororó no Catete do Além tem o sopro poderoso de Raul de Barros).



3 comentários:
Grande texto, grande texto ! Forcei uma barra danada para aceitar a Dilma, depois que aceitei , também acho que não vai emplacar. Quanto ao Lula Zé , ainda não "desapeguei".
Que texto esplêndido!!!
Só não consegui saber quem é o "plebeu de Mombaça"? Algum regente pré-maioridade de Pedro II? Ou algum nativo da nossa Mombaça cearense?
Abraços.
Guigo, o plebeu de Mombaça é Mauro Benevides, que assumiu interinamente a presidência numa viagem do Itamar Franco. Aproveitou bem suas 48 horas de “pudê”, enfiando uma caravana de amigos, parentes e puxa-sacos no Boeing presidencial que aterrissou em sua terrinha natal, lá no Ceará, pra mode o povo saber que ele tinha arrebentado a boca do balão. De lá pra cá, mesmo ainda sendo deputado e estando oficialmente vivo, ninguém mais falou no coitado, motivo pelo qual foi declarado politicamente morto e imediatamente entronizado no Catetão, onde chegou num jatinho emprestado pelo conterrâneo Tasso Jereissati.
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