quarta-feira, 22 de abril de 2009

DEMISSÃO DE JORNALISTA PODE SER UMA BOA HISTÓRIA


Os incautos que lêem esse blog vão lembrar que um dia desses contei algumas histórias de redação ou casos envolvendo jornalistas. Começo hoje a contar novas historinhas e o tema é demissão, Lombaaardiii! Caros leitores, já fui testemunha de tudo quanto é tipo de demissão. Teve até um cara de mal com vida que inventou, na redação do Globo, a demissão via e-mail. Se ele não gostava de alguma matéria ou não ia com a cara de alguém, pedia socorro à tecnologia e, plact, plect, plact, pé na bunda do infeliz! O figurão nunca me fez nada, mas era tamanha minha ojeriza a ele, por causa das tais demissões eletrônicas, inclusive de colegas que eu gostava, que certa vez mudei de editoria só para não ter o desprazer de conviver com a figura. Já vi ou ouvi falar até de demissão em pleno sambódromo, no meio do desfile da Mangueira; de colegas que não estavam em listas negras e que, ao saber que outros estariam, e teriam mais dificuldades para se recolocar no mercado, punham seus próprios nomes no listão; e até mesmo de repórter que estava na bica para ser promovido e, por engano, tivera o nomezinho assinalado na relação errada, tipo o convidado bem trapalhão vivido pelo Peter Sellers. Isso tudo fora os incontáveis passaralhos que faziam vítimas em massa com seus vôos rasantes. Vou contar algumas que me foram enviadas.

O forno crematório do Roriz
Esta veio de Brasília, diretamente do micro turbinado de meu amigo Cezar Motta, o popular Diabo Verde, ex-chefe de reportagem da Rádio JB, ex-uma porção de coisas, hoje radicado na Ilha da Fantasia, onde pretende botar em breve, merecidamente, seu boi na sombra.
Foi assim. Em 1990, o governador Joaquim Roriz anunciou a construção do forno crematório em Brasília e o assunto ganhou capa no Correio Braziliense do dia seguinte. Só que o redator resolveu florear o texto do repórter e acrescentou uns cacos em defesa da cremação, dizendo algumas obviedades: “para evitar que alguém seja enterrado vivo, o que já aconteceu com vítimas de catalepsia...”, e coisa e tal.
Antes das nove da manhã, um diretor do jornal, notório adversário da concordância verbal, surgiu furioso na redação. Foi direto ao aquário:
– Quem foi o irresponsável que escreveu essa bobagem?
Vendo que o autor não se acusava, o editor Alfredo Lobo decidiu não entregá-lo. E reagiu com altivez:
– O responsável pela primeira página sou eu.
E foi demitido no ato pelo cretino.

No meio de uma entrevista
Em 1985, o país sob a tal da Nova República (lembram?), meu chapa Nilo Sérgio Gomes era editor de Economia da Rádio JB, “cheio de gás”, conforme conta. Membro da oposição sindical dos jornalistas, dirigira uma reunião uma ou duas noites antes no Sindicato.
No meio da tarde, ele estava na híbrida (aparelho usado para gravar, editar e colocar no ar as entrevistas feitas por telefones), entrevistando o economista e professor universitário Carlos Lessa, que viria a ser presidente do BNDES.
De repente, Nilo foi interrompido de forma truculenta pelo chefe do jornalismo, que rezava pela cartilha do Maluf e não andava nada satisfeito com a militância político-sindical do editor responsável pelo noticiário econômico da emissora.
Enquanto ouvia o esporro, o bom Nilo tentou enrolar o entrevistado:
– Um instantinho, professor Lessa. Parece que estou sendo demitido.
Parece? Estava mesmo.
Para espanto dos colegas.
Bem no meio de uma entrevista.

O sonâmbulo da redação
Uma demissão que não esqueço foi a do ilustrador e chargista Mem de Sá. Querido por todos, o velho Mem passava o dia inteiro na redação do Globo, chegando antes que qualquer chefia e saindo depois do fechamento, que nem alma penada. Usava óculos fundo de garrafa e caminhava com muita dificuldade. Era um pau-pra-toda-obra.
Antes, lembrei de outra história dele, que o próprio Mem contava, ingenuamente, a todos. Hoje, tantos anos depois, já dá para tirar do baú. Mem de Sá tinha um ídolo: Ibrahim Sued. O colunista social mais famoso do país, e também um dos maiores adversários da ortografia e da gramática, certo dia cismou de fabricar uísque – um troço horrendo chamado Old Lord. Para tocar o negócio, arranjou financiadores na grã-finagem carioca. Chamou o amigo para ajudá-lo na, digamos, captação do faz-me-rir.
– Ô Mem! Tu tem um casacão grande, cheio de bolsos? Se não tem, pega esse aí, que é teu (a generosidade da figura era tão verdadeira quando seu horror à última flor do Lácio). E faz o seguinte: amanhã bem cedo, vai nesses caras aí (entregou uma lista enorme, cheia de sobrenomes conhecidos da alta sociedade) e recebe umas encomendas. Bota tudo neste malão que também vou te dar. Se tiver mais, enfia no casaco.
Mem achou estranho, mas topou. No dia seguinte, acordou cedo e saiu por aí, apertando campainhas nos endereços mais nobres do Rio de Janeiro. Os ricaços e madames atendiam estremunhados de sono, pediam “um instantinho” e voltavam com bufunfa ao vivo e a cores, cheques ao portador, essas coisas que não fazem a felicidade de ninguém, mas ajudam pacas.
Colocou tudo na mala. Quando já não havia lugar para tanta grana, foi enchendo os bolsos do casacão, que deve ter sido aquele que o colunista trouxe de uma viagem à União Soviética. Se o querido Mem fosse desse PT de hoje em dia, até a cueca serviria de cofrinho.
Lá pelas tantas, dever cumprido, voltou ao escritório do colunista grandalhão, o Turco, como o chamava. Este abriu a mala com o capital inicial de seu uísque de banheira e despachou nosso herói com uma das melhores notícias que Mem de Sá recebeu em toda a vida.
– O que tá no casaco é teu.
Tanto dinheiro que deu para comprar um apartamentinho, se não me engano, na Rua do Riachuelo, bem perto do Globo.
Mas a verdade é que o Mem de Sá ficava pouco tempo no cafofo. O tempo inteiro ele passava no jornal. Certo dia, foi visto arrumando a gaveta, com a expressão pra lá de arrasada. Tinha sido demitido. Repórteres, redatores, editores, diagramadores, fotógrafos, todos emudeceram de repente. O resto da tarde e da noite foi assim, um clima de funeral como poucas vezes vi na redação da Irineu Marinho, 35.
A certa altura, alguém não se aguentou e saiu-se com esta:
– Caralho! Isso não foi aviso prévio! Foi ordem de despejo!

Que nem marido chifrado
Queimando meu próprio filme, vou contar como foram minhas duas demissões. No Jornal do Brasil, em meados dos anos 90, mudou o editor de Política. Éramos nada menos do que quatro subeditores para apenas um repórter. O JB já estava em crise. É claro que um dos subs fatalmente dançaria e eu estava certo de que seria o alvo da trolha, seja por ter sido contratado recentemente, seja porque o novo editor preferiria trabalhar com os outros colegas, todos ótimos profissionais e excelentes colegas, e eu era o único que não havia trabalhado antes com ele. Nada contra o critério, seja qual for.
Para piorar minha situação, o novo chefe trouxera um editor-adjunto (ou seja, mais um!), que parecia ir com a minha cara. Na véspera de tirar férias, assim como quem não quer nada, perguntei-lhe de sopetão se minha ausência, por acaso, estava nos planos do chefe. Afinal de contas, eu teria um mês pago para procurar novo trabalho.
– De jeito nenhum! Tire suas férias que isso não passa pela cabeça dele – respondeu-me veemente, e tenho certeza de que o cara acreditava mesmo nisso.
Claro que eu estava cabreiro, mas relaxei. Um mês depois, no exato dia de minha volta ao batente, peguei meu busão em Niterói e encontrei a bordo do 999 um amigo, Barcímio Amaral, então redator do Globo, personagem de boas histórias que em breve vou contar também. Mal o vi e sentei na poltrona ao lado, o Bá tascou à queima-roupa com a sutileza que lhe é peculiar:
– E aí, Zé? Já arranjou emprego?
Gelei na hora.
– Por quê? Você tá sabendo de alguma coisa?
– De trabalho, não. Vou procurar saber.
– Não, cara! Que história de demissão é essa?!
Meu vizinho de poltrona matou a pau, exagerando nas tintas:
– Porra, só você não sabe. Eu sei, tá todo mundo sabendo, tudo quanto é redação sabe, o Rio de Janeiro inteiro sabe, menos você! Tavas ganhando quanto mesmo?

Zé do Oooovoooo!
A outra demissão aconteceu alguns anos depois, no Globo (para onde fui, aliás, dois ou três dias depois de minha saída do JB). Esta foi até engraçada e tantas versões surgiram – a história correu chão mesmo e confesso que é melhor quando contada pelo Cid Benjamin – que sou obrigado a dizer realmente como aconteceu.
No tempo em que eu era redator da Editoria de Esportes, o então redator Márcio Tavares, lá pelas tantas do fim da tarde, início da noite, mandava seu bordão diário, com voz de locutor de filme de terror:
Zé do Ooooovooooo!
Quem me arranjou o apelido foi outro colega, Anilde Werneck, que no fim da vida veio morar em Niterói. Sacou o apelido quando me viu comendo ovo cozido num bar em Icaraí (o Steak House) que ele também frequentava. Achou graça não sei por quê e, no dia seguinte, inventou para todo mundo na editoria que este era meu apelido em Niterói. Zé do Ovo e eu passamos, então, a ser a mesma pessoa.
Honestamente, eu não ligava para isso. Até me divertia quando estava de bom humor. No entanto, quando escrevia ou reescrevia alguma matéria chata, preocupado com dinheiro ou puto da vida com qualquer outra coisa, reagia com os bons modos que aprendi num colégio suíço onde fiz o primário:
Zé do Ovo é a puta que o pariu!
A redação vinha abaixo. Meses depois, eu estava de volta à Editoria Política do Globo, onde já havia trabalhado antes. Mas o Tavares, mestre na gozação, não esquecia seu bordão:
– Zé do Ooooovoooooooo!
A coisa se repetia. Se eu estava bem, mandava o Márcio delicadamente se catar, algo assim. Caso contrário, o xingamento era mais pesado. Até que mudou a chefia. Entrou meu chapa Ramiro Alves, tendo como editora-adjunta uma moça que gostava de ver novelas quando o fechamento comia solto. Ah! Ela também imitava muito bem a economista Maria da Conceição Tavares. A porra da novela atrapalhava mais nas sextas, dia de pescoção (antecipação do fechamento da edição dominical). A coisa não ia acabar bem.
Logo na primeira noite, Ramiro fez questão de tomar um chope comigo e com o Barcímio Amaral. Fomos a um bar grandão no Leme. Suando frio na careca, Ramiro disse para nós dois:
– Por favor, vejam se não vão fazer merda enquanto eu for editor. Vocês são dois malucos. Um encrenca muito, outro reclama pra cacete. Porra, eu adoro vocês dois e quero contar com vocês, que são ótimos profissionais. Não me decepcionem, pelo amor de Deus!
Claro que rimos muito. Mas saímos do bar na Atlântica, eu e o Barcímio, com certeza de que o outro é que teria um ataque de pelanca.
Barcímio é que estava certo. E a culpa foi de um capítulo especial da porra da novela (devia ser o último, a Globo deita e rola nesses casos). A moça, evidente, não desgrudava da telinha. E nada de planejar o pescoção, que só começou por volta de meia-noite, juro! Todo mundo de saco cheio! Para piorar as coisas, tivemos também uma edição extraordinária do berro gutural do Márcio Tavares:
Zé do Oooovooooo!
– É a puta que o pariu!
Eis que, finalmente concentrada no batente, a subeditora noveleira descobriu, no meio de uma dominical sobre invasão de terras, alguém com o apelido de Manuel do Ovo. Podia ter ficado quieta, mas não resistiu à gracinha:
– Ih, gente! Tem um Manuel do Ovo aqui na matéria. Deve ser parente do Zé do Ovo...
Levantei da cadeira puto e disse à senhorinha, que mal me dirigia a palavra (uma das razões pelas quais estranhei a gozação), que brincadeiras desse tipo eu só aceitava quando vinham de amigos, e ela não era. Enfim, estava zangado de vera. Fui demitido no dia seguinte, por insubordinação. Achei o fim da picada ter que me retratar (me disseram que isso poderia resolver) e saí, sinceramente, com a alma levinha, levinha, e pronto para outros e melhores trabalhos que surgiram depois. Deve ser por isso que até hoje detesto novela.

4 comentários:

Barcímio Amaral disse...

Essa do Mem de Sá, ordem de despejo, só pode ter sido derivada de outra frase do Rath, sempre ele: "Mem de Sá não paga imposto sindical, paga IPTU"

AOS QUARENTA A MIL disse...

Ah, mas que é muito bom ser insubordinado em determinandos assuntos , isso é... Belas histórias, parabéns!

Olga de Mello disse...

Zé, maravilhosas essas histórias - não enquanto vivenciadas, mas quando contadas por você.
A minha demissão mais acachapante foi a de uma editora, da qual fui defenestrada exatos 45 dias após entrar. Na véspera, descobri um erro crasso de uma diretora editorial. Era caso de se refazer a edição do livro toda, pois o erro estava na contracapa do dito cujo. Lógico que o livro foi distribuído com erro e eu, que o percebera, cortada da folha de pagamento.

Rodrigo disse...

Ótimas histórias. Minha única demissão foi surreal, embora nao muito engraçada. Depois de passar mais de um mês pedindo para ser demitido (tinha sido ameaçado por um "superior", que arregou na hora de concretizar o ato, e aí passei a exigir a demissão), acalmei. Aí, é claro, me demitiram.