terça-feira, 9 de março de 2010

OS 10 DIAS QUE ABALARAM O MUNDO DE LALÁ


Lauro Affonso Faria é um amigo querido e antigo. Flamenguista (ai de mim se esse item do currículo não viesse primeiro), brameiro, cabofriense com alma carioca, jornalista, ex-leão de chácara de boate na Patagônia (cobrindo folga para ter acesso às prateleiras depois do expediente), ator da inolvidável película "Bar Natal", de Wilson Paraná (onde desempenhou com brilhantismo o papel de um biriteiro, depois de mais de 40 anos fazendo "laboratório"), resolveu me sacanear por conta de um frila esportivo que fiz recentemente. Escreveu um conto que, mais uma vez, mostra algo que eu, o Petti, o Paraná e o Varela, entre outros, sempre soubemos: o Lauro dá mesmo para escritor. Um dia eu vou à forra, canalha! Em homenagem à peça rara, pela primeira e última vez na história deste blog o DJ toca a única coisa neste mundo que leva Lauro Affonso Faria às lágrimas... putz, tio Carlito, me perdoa!
O bar Seara do Senhor fica na ala esquerda do setor leste do Portal do Paraíso. Nos finzinhos da tarde, naquela tranqüilidade que só o Céu pode oferecer, os bambas da MPB se reúnem.
Não existem muitas regras, pressa é artigo descartado, pode-se misturar futebol com música, política com literatura; só religião é assunto tabu. Todos respeitam.
Noel Rosa, quase sempre, é o primeiro a chegar. Os outros vão chegando de mansinho, sem nenhum conceito de hierarquia: Cartola, Ari Barroso, Lamartine Babo, Custódio Mesquita, Pixinguinha, Ciro Monteiro, Jamelão, Adoniran Barbosa, Lupicínio Rodrigues, Ataulfo Alves, Mário Lago, Nelson Cavaquinho, Vassourinha, Braguinha, Herivelto Martins, Tom Jobim, Vinícius (com seu indefectível copo de uísque – o Chefe abriu exceção só para ele) e muitos outros, além da figura elegante de Walter Alfaiate, recém-chegado.
Os garçons, maîtres e barmen se revezam entre escritores, poetas e figuras da imprensa em geral. Eles podem envergar as jaquetas de seus clubes de coração e, assim, vemos Jorge Cury, José Lins do Rego, José Maria Scassa e outros, com a camisa do Flamengo; Sandro Moreyra e João Saldanha vestidos como botafoguenses e Nelson Rodrigues, sempre o último a chegar, ostentando orgulhoso o uniforme do Fluminense (no início, reclamavam do atraso, até que ele soltou uma de suas máximas: “Deus, por ser impontual, criou a Eternidade”).
Pode-se observar que ninguém usa a camisa do Vasco da Gama e a explicação era simples: “Estamos esperando Dom Sebastião aparecer”.
Dia desses, Saldanha chama Lamartine num canto:
- Vou precisar de um grande favor seu.
- Pois não, João, estou às ordens. Você está querendo um novo hino para o Botafogo?
- Nada disso. É o seguinte: Lá embaixo, tem um camaradinha meu, colega e admirador do Partidão...
- Que é isso Saldanha? Aqui não pode falar nesse partido, não!
- Deixa de bobagem, Lalá. Aqui pode tudo, o difícil foi chegar aqui; eu, inclusive, passei pelo Purgatório e aquilo é um verdadeiro Inferno!
- Tá legal. Pode continuar.
- Como ia dizendo, o meu coleguinha – também torcedor do Botafogo – Zé Sérgio Rocha, recebeu a missão para escrever textos radiofônicos que exaltem os grandes feitos dos quatro grandes clubes do Rio de Janeiro. Infelizmente o seu querido América ficou de fora.
- Eu já sabia. O Mequinha sempre foi considerado time pequeno ou médio. Por isso eu caprichei no Hino. É ou não é o mais bonito?
- Não resta dúvida. Mas a coisa é por aí. Como você compôs todos os hinos dos times e conhece a alma dos seus torcedores, poderia dar uma força ao Zé Sérgio para que ele possa escrever sobre os outros de igual para igual; senão ele vai puxar a sardinha para a brasa do Fogão.
E Saldanha foi explicando que Lamartine desceria à Terra, incorporaria em Zé Sérgio e daria inspiração para que os escritos fossem produzidos por verdadeiros fanáticos das suas agremiações. E, quando Lalá o inquiriu sobre estas práticas, já que João sempre foi um ateu praticante, este explicou que, por conta de Sandro Moreyra (que aprendeu muito na quadra da Verde-e-Rosa sobre umbanda), iniciara um aprendizado, uma espécie de espiritismo dialético.
E acrescentou: “Não se preocupe. Tudo vai ser monitorado pelo Arcanjo Gabriel, que torce por um time da Palestina.”
- Da Palestina? – Indagou Lalá.
- O Chefão, aqui, exerce um verdadeiro centralismo democrático...
E, Lalá desceu. E incorporou em José Sérgio Rocha.
Os três primeiros dias foram inesquecíveis: Zé Sérgio vestindo o Manto Sagrado Rubro-Negro e zoando tudo e todos nos bares e esquinas. “Somos Penta-Tri-Cariocas”. “Este hexa brasileiro foi no peito e na raça!” “A Libertadores está quase no papo.” O bi-Mundial vem aí!”.
E, os escritos sobre as lendárias jogadas e gols de Zico, Leandro, Júnior, Andrade e Cia., fluíram maravilhosamente.
Depois, veio o Vasco. Foram dois dias de tamanco, calça de mescla escura e camiseta branca, além de uma boina com o signo cruzmaltino. E os resumos das vitórias vascaínas, vindas dos pés de Roberto Dinamite e outros, apareciam no papel como num passe de mágica.
A coisa começou a degringolar quando chegou a vez do Fluminense. Antes de começar os textos sobre as glórias do Tricolor, Zé Sérgio passou três dias usando umas sandálias esquisitas, uma bermuda rosa – curtíssima – e, além da camisa do time, usava pó-de-arroz no rosto e espalhava o produto para tudo que era lado.
Lá em cima, João ficou preocupado e tranqüilizou-se quando o Arcanjo lembrou:
- Sem problemas. O Lalá sempre foi espada. É que o mimetismo – nas coisas dos tricolores – é muito forte para o lado feminino.
Mas, por bem ou por mal, as campanhas vitoriosas do Fluminense foram relembradas e bem escritas pelo Zé.
Acontece, porém, que o boato correu. “Zé Sérgio virou Tricolor”!...
Os amigos acorreram: Maneschy, Barroco, Paraná, Varela etc.
Ninguém pôde reverter aquela situação com o amigo - sabidamente viril - jogando pó-de-arroz para o alto.
Foi, então, que chegou o botafoguense Roberto Petti e, com aquela delicadeza peculiar, vociferou na orelha esquerda dele:
“Se esse encosto não subir, eu vou encher o cavalo de porrada!”
Guinchos, sons guturais e Zé Sérgio, como saindo de um transe hipnótico:
- Hein!...Onde estou? Han!... O que foi?
Tudo voltou ao normal. Zé foi para casa, escreveu bonito sobre o seu glorioso Botafogo – supervisionado por Lalá - e entregou a encomenda em tempo hábil.
E, Lamartine Babo, pôde finalmente no décimo dia, descansar em paz, lá no boteco Seara do Senhor, que fica logo depois da entrada do Portal do Paraíso.
Lauro Affonso Faria

5 comentários:

Eduardo Goldenberg disse...

Muito bom, , muito bom!

Unknown disse...

Em primeiro lugar, sou tricolor. A única torcida de veados de que me lembro foi a Flagay, organizada pelo Clóvis Bornay, que era botafoguense. Lauro e Zé Sérgio, ide tomar nos vossos cus!

Paraná

Roberto Petti disse...

Esta foto postada do Lauro revela muito do seu caráter homossexual. Ele conseguiu o emprego na Patagônia porque tinha caso com o outro leão-de-chácara.

Anônimo disse...

Sempre dou uma passada por aqui. Muito bom e divertido, mas nos últimos tempos (pelos acessos), noto que virou site de relacionamento gay! Só falta o Varela, Paduana e o Maranhão!

É como dizia o velho Mucio Bezerra: "e tem mais, o gato da casa é viado".

werneck

Cesar Tartaglia disse...

Zé, mandaê os contatos do lauro. Quero falar com esse puto.
Cesar Tartaglia