BEATRIZ, sergipana nascida em 1924, tinha pouco mais de 10 anos quando sua mãe, Mirtes, tida como louca, morreu ainda jovem, deixando seis filhos (outros quatro ou cinco morreram no parto ou crianças de colo). A loucura da mãe de Beatriz, provavelmente, não passava de histeria, mas nos anos 1930 isso não era conhecido.
Depois da matança, por ser o filho mais velho, JOSÉ teve que fugir de São Miguel dos Campos e foi parar na casa do governador de Alagoas, que era tio dele. O governador matriculou-o numa escola agrícola e, ainda adolescente, deu-lhe o primeiro emprego, na pistolagem.
BEATRIZ teve mais sorte: Lourdes, prima de sua mãe, veio de Penedo, do outro lado do São Francisco, para criar a filharada de Mirtes, lá em Propriá, na outra margem do rio. Acabou casando com Antônio, pai de Beatriz, e foram muito felizes. Antônio era filho de um judeu holandês e de uma negra. Mirtes era filha de um português e de uma cabocla. Lourdes tocava piano e acordeon. Antônio tinha um bar que era também restaurante e salão de bilhar e bancava o jogo de roleta na cidade. Antônio era um homem pacífico e querido na cidade.
Um dia, JOSÉ matou por engano um homem rico e teve que fugir de Alagoas. Passando por Sergipe, casou com Beatriz contra a vontade de Antônio. Os dois fugiram.
Tiveram uma filha em 1945 e um filho em 1951.
No final dos anos 1940 e início da década seguinte, JOSÉ enriqueceu na construção civil, nos tempos dos prefeitos Prestes Maia e Faria Lima. Perdeu o dinheiro fazendo maus negócios.
Moravam no bairro paulistano da Aclimação. BEATRIZ sabia das amantes de José e um dia cismou que ia trabalhar. Foi aeromoça da Cruzeiro do Sul. José não concordou e em 1954 estavam separados.
Em 1960, JOSÉ votou em Jânio Quadros. BEATRIZ votou no Marechal Henrique Lott.
JOSÉ foi para Iturama, no interior de Minas, e virou sócio de uma fazenda na região do Triângulo. Quando a propriedade foi vendida em 1966, os sócios chamaram o Exército alegando que ele estava organizando uma guerrilha. Mas José era de direita, janista ferrenho, e convenceu os militares que foram prendê-lo de que tinham armado para ele.
BEATRIZ, depois da separação, veio morar no bairro de Copacabana, no Rio. Demitida pela empresa aérea, tornou-se funcionária pública federal. Para complementar o orçamento doméstico, aprendeu a costurar copiando os moldes de uma revista alemã de moda, Burda. Como levava jeito para a coisa, teve freguesas ricas, entre elas duas embaixatrizes.
JOSÉ, depois de perder o que tinha no Triângulo Mineiro, foi administrar dois latifúndios em Jussara, Goiás. Tinha uma fazendola entre as duas fazendonas. Casou pela segunda vez, com a Miriam, filha de russo com alemã, e teve um terceiro filho, no bairro de Vila Helena, hoje Moema. José entendia muito de gado. Nunca fumou e nem bebeu. Dormia às oito da noite e acordava antes das quatro. Morreu nos anos 80, quando o coração parou.
BEATRIZ não casou novamente, mas viveu alguns anos com um colega do serviço público, cuja família morava no bairro da Abolição, onde o filho do primeiro casamento foi morar com os avós postiços. Não tiveram filhos. Beatriz tinha um francês razoável e lia muito. Fumava um cigarro atrás do outro e, quando bebia, só gostava de vinho. Quando se aposentou, passava as noites em claro, pilotando a Singer de pedal. Morreu nos anos 90, também porque o coração parou.
A gente vive até o coração parar. Aprendi isso com meus pais, que estão na foto.
Na caixinha musical, o clarinete de Luiz Americano e o acordeon de Chiquinho em Intrigas no boteco do Padilha.



9 comentários:
Baaah, isso é vorteio de norte a sul, vixe! Quem disser que uma boa foto (ou um escrito de coração) não captura a alma é pouco - ou ruim da cabeça...
Salve tupis, guaranis (e o bom português, claro).
... e os negros que vieram à força da África, e os "cristãos novos" que escaparam das fogueiras do Santo Ofício...!
Baita saga familiar. Um enredo e tanto. Lembra Guimarães Rosa. Não sei porque voce não bota no papel. Sugestão de título: Dores e as histórias de amor.
História emocionante. À medida que lia, sofria a ansiedade da próxima revelação. Uma história cheia de trancos da vida, do Nordeste para São Paulo, de lá para Minas. Tudo no Brasil, mas uma história universal, um belo roteiro de filme! Com a vantagem - e as dores - de não ser ficção.
PQP... seu FDP... PQP...
Pois é, Fábio Lau deu a pauta. Essa história maravilhosa precisa ser contada em mínimos detalhes, assim mesmo, cheia de flash-backs, ora ela, ora ele, ora os filhos. Dizer que o texto é lindo, Zé, é chover no molhado. Tu é um puta texto, meu amigo. E, como todos sabemos, quem tem puta texto vai melhorando à medida que a idade chega. Assim é contigo, também. Amém.
Entre o sépia da imagem e o surto da história, salvamo-nos todos!
O filho,os atuais leitores,os posteriores...Foto e texto bem casados para sempre. Então publica!Mas invoquei com o título sugerido,ainda não é esse.
Viver é só isso. Planta-se afetos. Em nossos corações e no de alguém.
Abraço
Maysa
Beijo, Dinda. Saudade de você pacas...
Zé Sérgio, seu Cabra da Peste!:
Esta saga familiar dá - ao menos -um belo de um cordel, misturando pistoleiro, máquina de costurar e aero-moça.
Vc tem que escrever uma novela contando tudo!
Abração.
Lauro Mengo faria.
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