sábado, 11 de julho de 2009

AOS INIMIGOS DA UNIVERSIDADE PÚBLICA E DOS SONHOS


Minha formatura foi uma decepção. Nossos paraninfos, por algum motivo, desconfio que político, não puderam comparecer - o repórter Luiz Cláudio Cunha e o repórter fotográfico João Batista Scalco, a dupla de jornalistas gaúchos que ganhou o Prêmio Esso pela cobertura do sequestro dos uruguaios Lilian Celiberti e Universindo Díaz, quando havia ditadura nos dois países. Decidimos, então, protestar, e foi um protesto meio anarquista, com alguns formandos de bermuda, enfim, uma comédia.
Felizmente, as coisas mudaram muito, e para melhor. Há poucos dias, formou-se uma nova turma no Instituto de Artes e Comunicação Social (IACS), da Universidade Federal Fluminense. Eu nem sabia disso. Fiquei sabendo agora porque o professor João Batista de Abreu, que foi meu colega na UFF, em três redações (JB, O Globo e Diário de Notícias), em dois cursos de seleção (JB e Bloch) e nas arquibancadas do Engenhão e do Maracanã, me enviou o discurso e a foto da oradora da turma, Raquel Júnia de Magalhães, que veio de Patos de Minas.
Eu não sou chegado a discursos. Deste eu gostei e vocês vão matar rapidinho a charada.

É este o momento de ver reconhecido o nosso esforço, nossa dedicação, nossa trajetória que seguramente era um sonho para muitos de nós. Alguns saímos de outras cidades para estarmos aqui, e chegando em Niterói, apesar das dificuldades de moradia e outras tantas, tivemos o acolhimento dos colegas nativos, vamos dizer assim.
É difícil essa tarefa de falar por uma turma tão heterogênea. Muitos de nós não nos conhecemos muito bem pelas especificidades de nossas habilitações, pelas diferenças no ritmo com que cada um de nós cumpriu as disciplinas que nos trouxeram hoje até aqui. Mas tentarei traduzir nesse pouco tempo alguns sentimentos que devem ser comuns a todos nós.
Primeiro quero falar da nossa Universidade. E como bem fez um amigo que também se formou aqui há dois anos, agradecer ao povo brasileiro por ter nos proporcionado essa formação. Me recordo muito de um dia, véspera de feriado, eu já estava com a mala pronta para passar o recesso na minha cidade. Precisava ir ao estágio de manhã, voltar para casa e pegar as coisas para ir viajar.
De repente lembro que não tinha quase nada em casa para preparar o almoço e o tempo era pouco. Mas aí o campus do Gragoatá estava no meu caminho e também o bandejão. Fui até lá, estava vazio nesse dia, sem filas. Almocei emocionada pensando o quanto a universidade pública estava me oferecendo naquele momento. Não só uma sala de aula, ainda que precária, os professores, o conhecimento. Naquele momento, ela estava sendo mais do que isso. Era como se fosse a minha mãe, não deixando que eu viajasse sem ter almoçado. Pensei o quanto seria maravilhoso se todos os jovens com 20, 25 anos, como eu, tivessem tido essa oportunidade. Somos privilegiados, meus colegas. Sei que muitos de vocês sabem disso.
Talvez a melhor forma de retribuir esse privilégio seja trabalhando para que nunca se considere natural que apenas 13% dos jovens brasileiros estejam na universidade. Nas públicas, são menos de 4%. Deixo aqui o agradecimento dessa turma a essa universidade, a esse povo que pagou com seus impostos este sonho, e a esperança de que os estudantes que por aqui passarem tenham essa consciência de torná-la cada vez mais pública e mãe dos jovens brasileiros.
Somos comunicadores – cineastas, publicitários, jornalistas. E hoje devemos nos perguntar, pensar em cada ensinamento que tivemos aqui, cada vivência, cada conversa no IACS ou num bar da Cantareira, cada reunião do Diretório Acadêmico, o que é sermos comunicadores? Creio que essa pergunta pode ter um sentido para cada um, mas quero lembrar aqui as palavras de Paulo Freire, educador brasileiro, que acredita que a comunicação é acima de tudo um diálogo. “O diálogo é uma relação horizontal de A com B. Nasce de uma matriz crítica e gera criticidade. Quando dois pólos do diálogo se conectam assim, com amor, com esperança, com fé um no outro, se fazem críticos na busca de algo comum. Só aí existe comunicação, só o diálogo comunica”.
Peço que façamos deste diálogo proposto por Paulo Freire nosso método de atuação pelo resto de nossas vidas. Estamos num momento confuso, de crise financeira, mas também de valores, de informação. Somos a todo momento pressionados pelos imperativos desse sistema, o imperativo financeiro, o do sucesso, o do reconhecimento. Estamos perdendo conquistas de outros que lutaram antes de nós. Mas precisamos lembrar que ainda assim nossa capacidade de criação, de inquietude, de rebeldia pode estar acesa. Somos seres históricos e que constrói a história, obviamente dependendo das condições de cada processo histórico.
Comunicadores, temos em nossas mãos possibilidades incríveis, e uma das mais fantásticas talvez seja a de amplificar vozes. À nossa volta temos milhares de histórias para contar, milhares de situações que não são naturais e não são impossíveis de mudar. Que o cotidiano, a vida à nossa volta, o sofrimento e a alegria do nosso povo sejam as principais matérias-primas da construção do nosso fazer comunicacional. Muito mais do que isso, que as fantasias, os sonhos grandiosos, a revolta nos impregne sempre em nosso trabalho.
Nossas tarefas não são poucas, mas são muito justas. Desejo meus colegas, professores, amigos e familiares aqui presentes que não percamos nunca nossa capacidade de sonhar. A passagem por essa Universidade representou muito em nossas vidas, nos foi fazendo a cada dia diferentes. Lembram a história do rio, que uma mesma pessoa não banha duas vezes no mesmo rio – a pessoa mudou e água do rio também.
Pois, é estamos aqui, transformados em seres que a UFF ajudou a construir. Como dizem em outros países da nossa América Latina, ojalá! Ojalá um dia nos reencontremos, e quem sabe num mundo um pouco melhor, com lembranças maravilhosas para contar desse tempo em que passamos na UFF e com o coração cheio de esperanças na nossa transformação, na transformação da nossa comunicação, do nosso mundo.
Estamos aqui para sonhar, para construir, e foi por isso que a sociedade brasileira nos garantiu essa possibilidade de entrarmos numa universidade. Que nunca percamos essa gratidão e esse compromisso. Quando amigas muito queridas me indicaram para ser oradora, eu disse que o faria com os meus sentimentos mais profundos. Não sei se atingi os objetivos de todos os colegas que estão formando aqui, se não, peço desculpas. O melhor dos meus sentimentos que posso transmitir para vocês hoje é a esperança e a capacidade de acreditar que podemos construir outros valores.
Muito obrigada e parabéns, caros colegas comunicadores!”.

Raquel Júnia de Magalhães

8 comentários:

Anônimo disse...

José,

Engraçado topar com esse post. Sou niteroiense e estudante de Jornalismo de universidade particular. Sempre me identifiquei com a UFF, mas, por motivos diversos, não tive a oportunidade de ingressar por meio de vestibular tradicional. Não foi suficiente pra desfazer o sonho, pois desde 2007 venho verificando as possibilidades de tentar a transferência externa para a UFF. Finalmente esse ano consegui participar do processo. Trinta dias antes da prova foi publicada a bibliografia (6 livros) e pensei que seria quase impossível, pois trabalho no Rio e perco muito tempo no trânsito, além de chegar cansado. O resultado saiu há poucos dias e tive a felicidade de ver meu esforço recompensado, conquistando o primeiro lugar do concurso. Não que isso me encha os olhos, mas é um reconhecimento que emociona, além da felicidade de ter o sonho realizado, de poder estar num lugar que, longe de ser perfeito, pelo menos tem muito mais a ver com os meus valores do que uma sala repleta de alunos desinteressados, como vinha sendo.

O texto da Raquel remete a uma esperança que eu, aqui do outro lado e ainda bem no comecinho da jornada, também tenho. Um sentimento que tem a ver com toda a luta em busca de uma realidade diferente, a começar pelo ambiente acadêmico. Gostei da leitura!

Grande abraço e parabéns pelo blog, que tenho tido o prazer de acompanhar há pouco tempo mas muito me agradou desde a primeira visita.

Rodrigo Sánchez

José Sergio Rocha disse...

Bacana, Rodrigo! Parabéns pela transferência e pela pontuação! Acho que teus futuros professores e alguns colegas, que sei que lerão esta postagem, já foram com tua cara antes de conhecê-lo. Manda ver, meu chapa.

Raquel Júnia disse...

Rodrigo, parabéns! Fico mais tranquila quando penso que sempre ingressam pelo menos alguns estudantes esparançosos na universidade pública... Que você consiga transformar a esperança na mobilização sempre necessária. Por favor, não desanime.

José Sergio, gostei muito do blog. É muito bom encontrar espaços como este. Obrigada por ter publicado o texto.

Grande abraço,
Raquel

Anônimo disse...

Bravo, Raquel!!!

Vitor Fraga disse...

Mais uma prova de que o espírito crítico sempre promove bons encontros!
O espírito crítico da Raquel, que já conhecia, conseguiu transformar um simples discurso formal de formatura (sempre tão chatos) em uma bela defesa de um mundo mais justo.
E o do Zé, que conheci outro dia, conseguiu perceber o quanto é importante divulgar palavras que não compactuam com o estado de coisas.
Parabéns aos dois!

LUCÍLIA MACHADO disse...

LI, ME EMOCIONEI E ASSINO EMBAIXO. E COMO DIZEM OS MINEIROS, "BOM DEMAIS DA CONTA"...

AOS QUARENTA A MIL disse...

Maravilhoso o discurso, ainda acho que o Jornalismo é para quem tem este talento em especial e que a educação é para todos , para todos... não pode ser privilégio de quem tem dinheiro.

José Sergio Rocha disse...

Raquel, feliz ficamos nós com tua sacada!
Bruno, Vitor, Lucília e Mônica que o digam.