segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

EU E O ZÉ, O ZÉ E EU

Mudei muito. O sujeito que eu conheci nos idos de 1968, quando foi apresentado à política estudantil no Pedro II, ou em 1973, quando entrou na UFF, ou ainda em 1989, quando lulou pela primeira vez, pois bem, aquele carinha magrelo de óculos ... esse aí embaixo. A foto foi tirada pela polícia política do governo peruano, e permitiu que o Zé fosse à Cordilheira do Condor, cobrir para o JB uma guerra de araque (qualquer dia falo sobre isso) entre o Peru e o Equador. Detalhe: na hora de confeccionar o documento, o soldado não colocou o prenome do Zé, que é José, como se sabe.

... voltando à vaca fria, aquele cara tímido e metido a radical ao mesmo tempo, que fumava duas carteiras de Hollywood (depois Free, depois Carlton) por dia, que pichava muros no Centro do Rio e panfletava nas barcas às seis da manhã, aquele sujeito que levava esporros do Gazzaneo por ser “porralouca” (me chamava disso o tempo inteiro, hoje só me chama de “ô maluco!”), que preferia o MEP ao Partidão, que em 1982 escolheu o Brizola em vez do Miro, e em 1989 lulou para Presidente da República, aquele cara não vai me perdoar nunca, mas mudei de opinião sobre quase tudo o que pensava.
E mesmo mudando de opinião, sei que continuo aquele mesmo cara, não é estranho? Esse negócio de blog deve provocar essas confusões, é uma droga auto-referente. Mas, às vezes, não dá para escapar de falar de si mesmo por uma razão simples. A gente se sente canastrão por dizer coisas que não diria alguns anos antes, algumas décadas atrás.
E, por isso, a gente tem que se explicar, ou melhor, tem que explicar a si (mim) mesmo que o sacana e o traíra não sou eu. É outro.
Peraí, como é o outro? O outro também tem o direito de mudar de opinião, né mesmo?
Sinto-me dizendo àquele sujeito de antes:
“Ô Zé Sergio! A possibilidade de reeleição indefinida do Hugo Chávez é um escárnio. Ô Zé de 1968, você que amava mais o Fidel do que os Beatles e os Rolling Stones, esse cara é um ditador, e não me venha com aquela história de ditadura do proletariado que era também uma merda, mas era uma coisa muito diferente do que essa tal de revolução bolivariana”.
“Cala a boca, burguesão escroto! Eu bem que sabia como ia terminar essa merda de blog que tu inventou, revisionista de merda! O Chávez está fazendo o que é certo, tem mais é que enfiar a revolução bolivariana goela abaixo dos ianques”.
“Revolução bolivariana? Hahaha!”.
Putz, que cara chato! Lembro dele em 1973, recém-chegado à UFF. Logo de cara, puseram o nome do cara numa chapa para concorrer à direção do DCE. Uma chapa de esquerda, diga-se, mas que queria travar uma luta acadêmica e tinha como objetivo primeiro o diploma de jornalista. O resto viria depois. Era o pessoal da PEG (que lutava contra a política educacional do governo, numa primeira etapa da luta). Logo na primeira reunião com os membros da outra chapa, mudou de lado porque os outros eram mais “de esquerda”, falavam em construção da unidade. O sujeito que eu era em 1973, nesse ponto, estava certo, acredito nisso até hoje.
A propósito, hoje eu sou esse cara aí embaixo, o folião fantasiado de membro da ala terrorista do Islã português no Cordão do Boitatá, onde estarei domingo que vem, sem falta.

Lembro de outra história hilária daquele cara que eu fui. No tempo de um certo Movimento de Emancipação do Proletariado (caralho!!!), eu vivia de um lado pro outro com o cartão da combativa advogada Eny Raimundo Moreira, que eu nem conhecia pessoalmente. Só sabia que, se fosse preso, deveria recorrer a ela. Um dia, no JB, o velho Gazza, calabrês de pai e mãe, nascido em Alagoas, Partidão doente, palmeirense dos quatro costados, me perguntou o que eu faria se fosse em cana. Tirei o cartão do bolso. Outro esporro:
“Porra, vocês porraloucas são burros mesmo! Essa advogada do MEP é boa, mas não tem a experiência do Jansen, do Marcelo, do Modesto. Tem que procurar o Jansen, porra!”.
Bom, passei a andar com os dois cartões – com o da dra. Eny e com o do dr. Humberto Jansen. Se, por acaso, eu fosse preso sob suspeita de ter ligações com o MEP, opa, pedia para ligar pra dra. Eny. Se me metesse em algum outro tipo de enrascada, sei lá, durante uma passeata, procurava o dr. Jansen. Assim eu enganaria os canas, que iam pensar que eu era do “pessoal da Reforma”. O povo do Partidão detestava quando era chamado assim.
Já ouço o Zé magrelo:
“Esse negócio de parar de fumar deve ter contribuído também para seu avacalhamento, sua deterioração moral. Volta a fumar, burguês filho de uma puta!”.
Ele não sabe, isso sim, a merda que fez começando a fumar. A culpa foi daquele infeliz, que chegou a usar até cabelo black power, pode isso? Vai ser metido assim na puta que o pariu! Sim, me deixou essa herança da qual me livrei há quase dois meses e, por enquanto, sem sentir saudade alguma.
Putz! Acho que vou votar no Serra. Mas até aí, nada demais. Serra é mais de esquerda que o Lula, na opinião de quem sou hoje. O Lula é aquele sujeito que vive berrando sempre que ligo a TV, como se estivesse me dando uma ordem qualquer. Vai dar ordens lá no sindicato, porra! Que história ridícula aquela de que cortaria “até o batom da Dilma”, mas não as obras do PAC.
Ô demagogia barata!
“Tu queria o quê, burguesão de merda? Vai ver que tu é Serra hoje porque no telefone sempre se enganam com o nosso nome. Hoje mesmo, ligando pro plano de saúde, quando tu disse seu nome, a mulher perguntou “José Serra?”.
Sujeito horrível. Cala a boca, animal! Pode ficar tranquilo que, se não for o Serra, pode ser que eu também goste de ter a Dilma como presidente.
Numa coisa, nós dois, o Zé de ontem e o de hoje, concordamos: por motivos diferentes, não queremos nem pensar em ver na Presidência o pegador de misses, o amigo do Garnero e do Accioly, o neto do Tancredo. É o mais moço dos três pretendentes e o mais velho de todos. Meu Deus, já imaginaram o PMDB raposando todos os galinheiros?
Fora Aécio Neves, no resto discordamos em quase tudo. Mas acho que, bem lá no fundo, nós nos entendemos, eu e o Zé, o Zé e eu.

2 comentários:

Luiz Antonio Simas disse...

Zé, o Accioly foi convidado pelo Kleber Leite para liderar a recuperação financeira do Flamengo.

José Sergio Rocha disse...

Partindo o convite de quem partiu, só fico abismado de não ter chamado o Madoff.