quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

CAMPELO, O HOMEM-DICIONÁRIO

Nunca entrei no Palácio do Planalto, mas me contaram que só um gabinete não tinha o retrato do Sarney, no tempo em que o intelectual maranhense era o inquilino nº 1 da Viúva. Justamente a sala do jornalista Joaquim Campelo Marques, um de seus assessores mais próximos. Em vez da foto presidencial, com faixa e o escambau, Campelo pendurou na parede um raio X do Sarney. Aos visitantes mais espantados dizia, fingindo a maior indignação:
“Quero ver se tem alguém aqui neste palácio que conhece melhor o presidente da República!!! Quero só ver!!! Tão pensando o quê!!!”.
Campelo é um daqueles personagens inesquecíveis de quem trabalhou no Jornal do Brasil nos anos 60 e 70. Competentíssimo, passou um bom período no Copy Desk, onde era seguramente o redator mais consultado não só por repórteres como pelos editores do jornal, além dos colegas de editoria (entre os quais Álvaro Mendes, Tite de Lemos, Ivan Junqueira etc.). E o motivo era que ele pilotava nada menos do que a versão moderna do Aurélio, um certo dicionário que estava sendo relançado na época... Ficou anos no JB sem tirar férias para não perder contato com a língua. Fora do jornal, era dono da editora Alhambra, na Rua das Marrecas, onde só publicava coisa fina.
Quando, por descuido, o carvalhão da História colocou seu amigo José de Ribamar na presidência, Campelão foi junto, como assessor de primeira linha, levando a garrafinha de tiquira que escondia na gaveta, seu português fluentíssimo e seu humor politicamente incorreto.
Tive a sorte de revê-lo no final de 2008, na Fiorentina, num daqueles encontros legais organizados por Vera Perfeito, Sérgio Fleury e outros ex-colegas da Avenida Brasil 500.
Agora, passo a palavra ao Sílvio Ferraz, que foi editor de Economia daquele jornal fantástico. Num comentário pra lá de simpático, postado no texto sobre o AI-5, lá embaixo, Sílvio conta mais duas histórias hilárias da grande figura:

Olha, andei procurando pelo Campelo e caí no blog por mero acaso. Então, olha aí uma do Campelo quando eu era editor de Economia e ele era meu copy. Sexta, meio-dia, ele telefona:
- Sílvio, olha, hoje estou me sentindo tão bem que não posso ir trabalhar!
Outra: eu conversava com Campelo no corredor na porta da Economia. Passa o Elio Gaspari e me diz:
- Ô Silvio, você ainda conversa com esse cara? Vê o que ele colocou no dicionário como foda.
Entrei, consultei o Aurélio e o verbete foda dizia, como primeira acepção, “coisa desagradável".

Um comentário:

Anônimo disse...

Campelo, na função de vice-presidente do conselho editorial do Senado, acaba de publicar, em quatro volumes, História da Literatura Ocidental, obra-foda de Otto Maria Carpeaux que estava esgotada desde a segunda edição, feita nos anos 70 pela Alhambra do mesmo Campelo. Há vida inteligente em Brasília.
Abraços do
Marecha