Tive até hoje 28 endereços na vida, e não sou filho de militar. Já morei em pensão barata, casa de subúrbio, apartamento perto de praia e até em internato, o Colégio Diocesano de Uberaba, no Triângulo Mineiro. Guardo poucas lembranças desse endereço – Praça Dom Eduardo, nº 5, na colina do bairro das Mercês. Fiquei lá apenas um ano, o de 1966, mas só tenho boas lembranças do ensino de qualidade (fiz lá o 3º ano ginasial) e do bem organizado campeonato de futebol.
Meu time, um dos piores, era o Sabiá, em homenagem ao puteiro de mesmo nome situado na Rua São Miguel, vizinho do Sagrado. Sagrado era o nome de um dos campos onde a bola rolava, nas tardes de quarta e quinta. Eu era lateral-esquerdo mas sempre caía para o meio da zaga, ou seja, fui escalado numa das posições tradicionalmente reservadas para os cabeças-de-bagre. A bola passava sempre, inclusive por baixo das minhas pernas, mas o adversário nem sempre completava o drible. Sim, eu era um beque rústico.
O Diocesano era rígido com a disciplina. Quem aprontasse durante a semana, teria que passar o sábado e o domingo de castigo – os piores, eu incluído, tínhamos que ficar horas durante a noite cumprindo pena numa das 200 e tantas árvores de uma alameda interna, numa escuridão total. Certa vez, fui punido e tive que marcar ponto na árvore 143. Difícil era não perder a conta.
Quando ficávamos reclusos nos fins de semana, o remédio, durante o dia, era jogar bola, enquanto os outros canalhas passeavam, iam ao Zebuliche, bebiam Coca-Cola na Padaria Zebu, assistiam os filmes em cartaz no Cine Zebu, etc. Enfim, uma temporada inesquecível (!!!).
Uma das lembranças mais agradáveis – para se ter uma pálida idéia da noção de agradável num colégio interno – foi o dia em que um dos nossos colegas rompeu um ligamento, jogando bola. Não podíamos sair do colégio por nada. Um dos irmãos maristas que zelavam pelo nosso confinamento tinha ordens para impedir, no peito e na raça, qualquer tentativa de fuga. E o cara era um grosso! Acho que este era brasileiro e se chamava Brás. Irmão Brás, sei lá.
No entanto, tínhamos uma emergência e era preciso levar o Bolacha ou Papagaio – não lembro do apelido da figura, e muito menos do nome cristão – até o hospital de Uberaba. O grosso da portaria concordou em levar alguns de nós para o caso de o médico perguntar algum detalhe sobre o acidente futebolístico.
Meu colega foi atendido por um ortopedista. Enquanto isso acontecia, apareceu outro médico, mais velho, que devia ter cargo na direção do hospital, para dar uns palpites. Deste não esqueci o nome – era o doutor Álvaro Lopes Cançado, assim mesmo, com cedilha. Quando tudo estava mais ou menos resolvido, o doutor Cançado puxou conversa sobre o jogo e tivemos que nos segurar para não cair na risada quando disse que tinha jogado na seleção brasileira.
Perguntou o time da gente – quase todos eram torcedores do Atlético Mineiro e eu, o único do Rio, botafoguense. Ele riu e disse que tinha jogado nesses dois times. Mais motivos para uma furtiva zombaria de adolescentes. Disse também que seu apelido no futebol era Nariz. E nunca tínhamos ouvido falar de nenhum craque com esse nome.
No dia seguinte, um dos maristas bons de papo – havia muitos, quase todos italianos ou franceses – confirmou a história.
Lembrando dessa história, acessei o Google em busca do homem e foi então que tive duas surpresas, uma boa e outra ruim. A boa é que foi Nariz quem criou o primeiro departamento médico de um clube no país, justamente no Botafogo, cujas cor e ausência de cor defendeu, já no profissionalismo, sob um contrato simbólico pelo qual o Glorioso pagava ao doutor um cruzeiro por ano. A má notícia: Nariz suicidou-se em 19 de setembro de 1984 na velha Uberaba, o antigo Sertão da Farinha Podre.
O Diocesano era rígido com a disciplina. Quem aprontasse durante a semana, teria que passar o sábado e o domingo de castigo – os piores, eu incluído, tínhamos que ficar horas durante a noite cumprindo pena numa das 200 e tantas árvores de uma alameda interna, numa escuridão total. Certa vez, fui punido e tive que marcar ponto na árvore 143. Difícil era não perder a conta.
Quando ficávamos reclusos nos fins de semana, o remédio, durante o dia, era jogar bola, enquanto os outros canalhas passeavam, iam ao Zebuliche, bebiam Coca-Cola na Padaria Zebu, assistiam os filmes em cartaz no Cine Zebu, etc. Enfim, uma temporada inesquecível (!!!).
Uma das lembranças mais agradáveis – para se ter uma pálida idéia da noção de agradável num colégio interno – foi o dia em que um dos nossos colegas rompeu um ligamento, jogando bola. Não podíamos sair do colégio por nada. Um dos irmãos maristas que zelavam pelo nosso confinamento tinha ordens para impedir, no peito e na raça, qualquer tentativa de fuga. E o cara era um grosso! Acho que este era brasileiro e se chamava Brás. Irmão Brás, sei lá.No entanto, tínhamos uma emergência e era preciso levar o Bolacha ou Papagaio – não lembro do apelido da figura, e muito menos do nome cristão – até o hospital de Uberaba. O grosso da portaria concordou em levar alguns de nós para o caso de o médico perguntar algum detalhe sobre o acidente futebolístico.
Meu colega foi atendido por um ortopedista. Enquanto isso acontecia, apareceu outro médico, mais velho, que devia ter cargo na direção do hospital, para dar uns palpites. Deste não esqueci o nome – era o doutor Álvaro Lopes Cançado, assim mesmo, com cedilha. Quando tudo estava mais ou menos resolvido, o doutor Cançado puxou conversa sobre o jogo e tivemos que nos segurar para não cair na risada quando disse que tinha jogado na seleção brasileira.
Perguntou o time da gente – quase todos eram torcedores do Atlético Mineiro e eu, o único do Rio, botafoguense. Ele riu e disse que tinha jogado nesses dois times. Mais motivos para uma furtiva zombaria de adolescentes. Disse também que seu apelido no futebol era Nariz. E nunca tínhamos ouvido falar de nenhum craque com esse nome.
No dia seguinte, um dos maristas bons de papo – havia muitos, quase todos italianos ou franceses – confirmou a história.
Lembrando dessa história, acessei o Google em busca do homem e foi então que tive duas surpresas, uma boa e outra ruim. A boa é que foi Nariz quem criou o primeiro departamento médico de um clube no país, justamente no Botafogo, cujas cor e ausência de cor defendeu, já no profissionalismo, sob um contrato simbólico pelo qual o Glorioso pagava ao doutor um cruzeiro por ano. A má notícia: Nariz suicidou-se em 19 de setembro de 1984 na velha Uberaba, o antigo Sertão da Farinha Podre.
Na foto acima, Nariz está de pé, com uma touca na cabeça. É o segundo da direita para a esquerda



3 comentários:
O Nariz também aparece numa das histórias do livro "O Menino no Espelho", de Fernando Sabino.
O time do Atlético e compunha dos seguintes craques: Kafunga, Nariz, Maurício, Mauro, Brant, Caieira, Chafir, Said, Oiram, Jairo, Cunha.(...)
De posse da bola, Jico Leite penetra a defesa conrária, mas se choca violentamene com Nariz e rola no chão, contundido, botando sangue pelo nariz. (...)
Depois de dominá-la numa manobra que arrancou aplausos da torcida, e tendo Jacy na cobertura, driblei Nariz, deixando-o estatelado de surpresa, e tabelei com meu companheiro.
(O resto da história, só lendo o capítulo VIII, pp. 142-156)
Abraços!
É incrível, mas o Nariz também aparece logo nas primeiras páginas do "Gato preto em campo de neve", livro em que Erico Verissimo relata siua primeira viagem aos Estados Unidos, nos anos 40. O que o Nariz tem a ver com o peixe? Só lendo.
Abraços
Marecha
Eu tinha uma brochura da Globo, já descascada. O gato nem preto era mais. Vou ver se o Digão tem. No Sabino, ele foi citado en passant. O Érico vai mais adiante? Vou ver, vou ver. Engraçado nessa foto, Marechal, é o Aimoré, goleiro, agachado. A foto - depois é que vi - já tinha usado antes aqui no blog. Está maior lá embaixo.
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