quinta-feira, 12 de agosto de 2010

MAIS QUATRO HISTÓRIAS DO MELHOR JORNAL DO MUNDO



Na noite de terça-feira, 31 de agosto, no anexo do Capela, Alfredo Herkenhoff lança seu livro "Memórias de um secretário do Jornal do Brasil". É dia de cercar o cabrito com arroz e brócolis e enviá-lo direto para o estômago, afogado em litros de chope. Antes disso, mais quatro historinhas que me contaram do melhor jornal que o Brasil teve nos últimos 510 anos. No gramofone do Elefantinho do JB, "Ameno Resedá" com a Orquestra do Rancho Flor do Sereno.


O menor título do mundo
Titular matéria pode ser complicado, sobretudo quando o paginador (ou diagramador) dizia ao redator:
“Olhaí. É matéria de colunão. Faz um três de onze”.
Ou seja, o título tinha que ter três linhas e, no máximo, onze batidas em cada uma delas.
O infeliz tinha que se virar.
No velho JB, o secretário do jornal e chefe do Copidesque, José Silveira era o rei do título enxuto. Literalmente, tirava de letra o desafio de acomodar em espaços mínimos o assunto principal da reportagem.
Foi assim, por exemplo, no ano de 1961, quando Juscelino Kubitschek, recém-saído da Presidência da República, foi convidado pelo sucessor Jânio Quadros para assumir a Embaixada do Brasil junto às Nações Unidas.
Provocado por um diagramador a fazer valer sua fama de titulador, usando um formato mínimo, Silveira perguntou se serviria um título de três de três. Sentou diante das pretinhas e batucou na hora:
JK:
ONU
NÃO
Se o Guiness não registrou, devia.

O dia em que ACM chorou
Correu a notícia de que o governador da Bahia ia colocar três pontes de safena.
No JB, Gilberto Menezes Côrtes, responsável pela coluna Informe JB, não pensou duas vezes:
“Antônio Carlos Magalhães vai fazer três pontes: uma com a OAS, outra com a Camargo Corrêa e a terceira com a ADM”.
ACM leu, não gostou e revidou via fax:
“Você esqueceu de dizer que vou fazer uma também com a senhora sua mãe”.
Gilberto replicou:
“Governador, lamento o tom de sua resposta a uma simples brincadeira. Mas devo adiantar que, infelizmente, perdi minha mãe recentemente num trágico acidente automobilístico que levou também meu pai e meu único irmão".
Dizem que o cacique foi às lágrimas, antes de se desculpar pela grosseria e de convidar Gilberto para almoçar no Palácio de Ondina.

O trem do JB
O repórter João Batista de Abreu tinha um compromisso: chegar às sete em ponto na estação da Leopoldina para seguir no trem húngaro em sua primeira viagem a São Paulo.
Chegou às 7h02min, e minutos depois viu quando o ministro Mário Andreazza, seus auxiliares e os puxa-sacos de sempre voltavam da cerimônia de lançamento.
Com medo de ser demitido, pensando na falta que o leite faria à prole botafoguense que em breve botaria no mundo, faria qualquer coisa, menos voltar ao jornal.
O trem era rápido, mas o avião muito mais. Pegou o táxi para o Santos Dumont. Perguntou se tinha vôo para São Paulo e quanto custava. Daria um jeito de pagar, e receber depois do controlador de diárias. Era muita grana, mesmo assim, e note-se que não havia ainda cartão de crédito na mão de qualquer Mané.
Teve um lampejo: e para São José dos Campos? Sabia que o trem passaria na cidade.
Em vez de responder, dando horário do embarque e preço da viagem, o funcionário perguntou o peso do repórter. “72 quilos”, respondeu.
“Então, embarque no portão 1 que é de graça”.
Opa, a sorte mudou de conta. Chegando a São José dos Campos com bastante antecedência, encontrou um primo, professor do Instituto Tecnológico da Aeronáutica, e pediu que ele dissesse qual era a bandeirinha que usaria para obrigar o trem a parar.
“Esqueça. Pega a chave do Fusca e vai para São Paulo”.
O retardatário saiu voado pela Dutra e chegou à Luz antes do bendito expresso magiar. A tempo de entrevistar autoridades e transeuntes na plataforma, de receber o trem e conversar com os passageiros. Do resto cuidaria o fotógrafo Otávio Magalhães, que chegou na hora e embarcou.
Juntou os depoimentos com o ambiente de cada lugar percorrido – ele conhecera o trajeto na viagem experimental, semanas antes – e enviou a matéria pelo telex da sucursal paulistana do JB.
No dia seguinte, chegando ao jornal, soube que o editor nacional Juarez Bahia queria falar com ele.
“Pronto. Nem assim adiantou. Fui demitido”.
Juarez o recebeu na saleta ao lado do Telex, parecia meio chateado. Não era, porém, o que havia pensado.
“Queria te pedir desculpas. Sua matéria foi publicada sem sua assinatura. Por engano, saiu com o crédito da sucursal”.

Oldemário e o coronel
Na ditadura, em qualquer empresa pública ou privada, a área de segurança tinha um poder tremendo. No Jornal do Brasil dos anos 70, nem tanto. O chefe, um certo coronel Melo, chegava até a ser cordial, mas impunha um clima pesado, nada condizente com o de uma redação de jornal. O respeito deu adeuzinho quando seus subordinados foram se meter com Oldemário Touguinhó. Não era permitido entrar no JB usando bermuda, mas Oldemário precisou dar um pulinho na editoria de esportes, numa manhã, para pegar alguma coisa que havia esquecido na gaveta.
Foi assim que me contaram essa história:
O segurança foi barrá-lo na portaria. O editor se identificou e pediu novamente para ter acesso ao elevador. Iria apenas à sala pegar uns papéis. A paciência de Oldemário foi embora quando ouviu a frase:
“O senhor não pode subir de bermuda. São ordens do coronel Melo!”.
“Ah, é? Então vai tomar no cu. E diga ao coronel Melo que eu mandei ele também tomar no cu!”.
O segurança não sabia o que fazer. Oldemário, muito puto, resolveu não insistir mais.
Na segunda-feira, o telefone toca na editoria. Era pro Oldemário.
“Oldemário, boa tarde. Aqui é o coronel Melo. Tudo bem contigo?”.
“Pode falar, coronel”.
“Oldemário, aconteceu uma coisa desagradável. Um subordinado meu me contou... etc. etc.”.
“Pois não, coronel, o que o senhor quer mesmo saber?”.
“Ah, Oldemário, eu só queria saber se isso aconteceu mesmo, afinal de contas...”.
“Coronel, parabéns! Seu subordinado não mentiu. Agora, o senhor faz o seguinte: o senhor vai tomar no cu que eu tenho mais o que fazer”.

8 comentários:

Romildo Guerrante disse...

Tô mijando de rir com a história do Oldemário. Aliás, não posso usar esse verbo que me lembro que o Roberto Pompeu de Toledo (a quem chamavam na redação de "Pomposo de Toledo") me demitiu do copy da política do JB em 1989 por que eu disse num texto da campanha política que "os militantes do Collor tinham mijado no carro dos partidários do Lula". E havia uma recomendação dele: Collor tem partidário, Lula tem militante. No cu da madrugada, cansado, eu troquei as bolas. Fui pra rua. Marcelo Pontes tentou reverter a coisa, pedi a ele que não fizesse nada. Eles alegaram outra suposta razão: o doutor Brito teria ficado chocado com a expressão. Fingi que acreditei. Era mentira. Era bafo de parangolé de cachaça, como eu dizia quando era criança. Fui trabalhar com a Ciléa Gropillo na Shell. E foi ótimo.

Fábio Lau disse...

Belas hitórias, Zé. Esta do Oldemário se transformou em um filme. Vi toda a cena. Agora, a do JB não foi bem assim não. 7h02 ele ainda estava preso no engarrafamento da ponte...hhe

Anônimo disse...

Amigo Sérgio, adorei a menção, mas cabem duas ressalvas: nunca fui editor do Informe JB (editei a Economia e o Informe Econômico 1982-83);
não foi uma nota no Informe JB, mas um artigo assinado na pág. 11 por mim em 1992 (era editorialista) quando o PC Farias falou no Congresso:
- Vamos deixar de hipocrisia, senhores!", alertando que a corrupção não tinha começado no governo Collor.

Então, listei lendas sobre isso, desde quando o marinheiro da frota de Cabral disse: "Terra à vista", e um empreiteiro, no convés, emendou, "é pedra, é pedra...".
Falei de Washington Luiz, com o "governar é abrir estradas"; de Brasília, com o Sebastião Camargo que chegou lá com um caminhão à frete e virou bilionário; de Andreazza; de Maluf e cheguei ao ACM (governador operado pelo Adib Jatene). E eram quatro pontes: que nominei:" duas para a OAS e duas para a Odebrecht, as empreiteiras queridas de seu baiano coração". Lembrei também que a OAS era chamada de Obrigado Amigo Sogro - um genro (depois ex) era sócio.
Minha resposta também foi um pouco diferente. Disse que lamentava mais um desperdício de tempo e dinheiro públicos, pois minha mãe havia falecido em acidente com o pai e o irmão mais novo (1981). E emendava que ela tinha deixado, porém, sólidas noções de boas maneiras para os outros sete filhos, além de ética política, aprendidas na UDN. (o irmão do meu pai que deu nome ao Edifício Garagem Menezes Côrtes era deputado federal e líder da UDN quando morreu em 1962, semanas após ser reeleito o quinto mais votado no Rio, indo a Brasília num jatinho da FAB). Portanto, o ACM teria de enfrentar muita gente briosa.

Ele demorou a responder e eu já tinha um outro fax pronto, desaforado, com um P.S.: E tem mais, folgado é cú de baiano (Wilson Figueiredo, chefe dos editoriais, disse que eu não podia mandar de jeito nenhum. Eu mandaria) - quando chegou o telex dele se desculpando.
O Marcelo Pontes, editor do Informe JB, soube e quis botar a troca de ofensas, mas não deixei. Mesmo assim ele pôs algo, daí a sua confusão.

O ACM abusava de mandar desaforos para jornalistas que não faziam o seu jogo e passar notas, com as ofensas, com a sua versão apenas para as colunas amigas.
O pior é que nos desaforos, como no meu, ele terminava assim: Cordialmente, Antonio Carlos Magalhães. Na minha replica, mandei lá. Cordialmente, Gilberto Menezes Côrtes. Na tréplica dele veio: Cordialmente, mesmo, Antonio Carlos Magalhães.
Fiz o artigo justamente para explorar o depoimento do PC e os escândalos do Collor e também para desmistificar o ACM. Quando o Marcelo Pontes virou editor e autografava um livro no Paço Imperial para o ACM, o Wilson Figueiró me pegou pelo braço para falar com ele. Falamos cordialmente.

Um grande abraço, Gilberto.

mari disse...

Ri demais! Caramba, em cada comentário uma história melhor! Mas não vou contar nenhuma, só rir mesmo!!!

José Sergio Rocha disse...

Valeu, Romildo, Lau e Gilberto! Gilberto, a história, como diz Marinilda, ficou melhor ainda. Aguardo as que você prometeu mandar. Ô Marinilda, deixa de frescura e conta umas também. abs

Anônimo disse...

Meio de fechamento, vejo minha comadre Fátima Lúcia Reis Belchior, grande repórter que na época cobria Energia, às gargalhadas com a Tininha (Cristina Calmon) e com a (Ângela) Santangelo, se não me engano. Eu estava meio longe, quis saber qual era a graça, e a Fátima apontou para o ramal dela, para eu telefonar.
Assim fiz.
O telefone dela tocou, mas minha ligação deu ramal ocupado.
Ela tirou do gancho e, mesmo à distância,entendi o que ela falou:
"ELAS ESTÃO ME SACANEANDO PORQUE EU DISSE QUE FAÇO TREZENTAS ABDOMINAIS POR DIA".
Do outro lado da linha, uma voz grave e cavalheiresca responde:
"Meus parabéns, mas aqui quem fala é o presidente do Banco Central, Carlos Geraldo Langoni, e eu só queria falar com o Gilberto".

BRUNO CARTIER

José Sergio Rocha disse...

Grande Bruno: saudações alvinegras!!!

Guina Araújo Ramos disse...

Muito bom, Zé Sérgio.
Continue estimulando o surgimento (e administrando as versões) destas histórias, que aão mesmo imperdíveis!