quinta-feira, 3 de junho de 2010

O PIOR SENTIMENTO É A PENA. PALAVRA DE MENDIGO

“O pior sentimento é a pena. A pena destrói qualquer ser humano. Quer acabar com uma pessoa, tenha pena dela”.
Quem fala assim não é nenhum autor de livro de auto-ajuda. É um ex-mendigo que conheci ontem. Chama-se Alamir, não sei o sobrenome.
Foi mendigo durante mais de cinco anos. Perguntei-lhe o que o levou a viver na rua, ao relento, expondo-se às noites frias de inverno.
Quando era garoto, consertava cadeiras de vime em um ponto qualquer da Rio-Petrópolis para ajudar a avó. Quando ela morreu, ficou deprimido e foi viver de esmolas.
Encontrei o Alamir na quarta-feira passada, quando estava papeando com o jornaleiro aqui perto de casa. Franco, o jornaleiro, foi um dos responsáveis pela mudança na vida do Alamir. Emprestou-lhe dinheiro, certa vez, há uns 15 anos, para que comprasse material para voltar a trabalhar com vime nas calçadas de Icaraí.
Alamir é inteligente como o diabo, apesar de semialfabetizado. Contou-me um monte de coisas que eu não sabia sobre os moradores de rua. Aliás, ele detesta o termo morador de rua.
“O certo”, diz, “é mendigo mesmo. O resto é demagogia”.
Como alguém vira mendigo? Ele garante que todos que entraram nessa vida o fizeram por opção.
“Não existe isso de o cara virar mendigo por falta de dinheiro, perda de emprego ou porque foi traído pela mulher. Mendigo é como chamam esse cara, mas ele se considera um sujeito normal. Se o problema é endereço, ele também tem. Só vive se mudando. Sabe por que mendigo muda? Para não ser visto por quem o conhecia antes de ser mendigo. Se aparece algum conhecido ou alguém da família, ele troca de bairro”.
E como alguém assim deixa de ser mendigo? Por acaso, porque estava na hora de mudar de vida. No dia 7 de setembro de 1985, Alamir estava sentado num meio-fio, como sempre, mas como ia ter parada estudantil no Centro de Niterói, alguém o expulsou do local, para não atrapalhar as evoluções da garotada.
Apareceu um senhor do nada e perguntou-lhe se topava ajudá-lo a fazer um jardim. No dia seguinte, Alamir lá estava na casa do velho. Ralou um dia, dois, e no terceiro ele mesmo resolveu tomar o primeiro banho em semanas. O dono da casa não o forçou a nada. No quarto dia, perguntou se ele queria trocar de roupa. E deu-lhe calça e camisa novas.
“Mendigo não gosta de ouvir conselhos, não gosta quando outro tenta lhe impor alguma coisa. Ele vive um processo que tem a ver com a depressão. Alguns morrem mendigos, outros voltam a lutar pela vida. Outra coisa: mendigo não passa fome. Sempre tem alguém que o ajuda. Sempre tem alguém com pena dele. A pena é pior de que todos os pecados capitais juntos”.
Numa ocasião, recém-saído da mendicância, mas ainda vivendo nas ruas – no caso, aí sim, por falta de dinheiro para pagar um aluguel –, estava perto de uma solenidade qualquer e um dos organizadores desse encontro queria que um “morador de rua” falasse. Alamir ficou diante do auditório, pegou o microfone e falou tudo o que pensava.
Um partido político o procurou e o lançou candidato a vereador. Teve pouco mais de 300 votos. Mudou de partido depois da eleição e chegou a concorrer novamente a vereador e, uma vez, a deputado estadual, agora pelo PC do B, com o nome de Alamir do Vime.
Anda com uma foto dele abraçado com o ministro dos Esportes, Orlando Silva. Acredita no PC do B, mas sabe que existem outras formas de fazer política. A que ele prefere não dá votos porque o negócio do Alamir é ajudar mendigo a se reabilitar.
Encerra o papo me dando um número de telefone. E me pede que, se encontrar nas ruas de Niterói um mendigo em dificuldades, precisando de socorro, dê esse número a ele. Outras pessoas não interessam.
Posso ser meio crédulo, mas se o Alamir estivesse interessado em votos, não se preocupava com mendigos. Mendigo não vota. E se despede parafraseando Karl Marx, acho que sem saber:
“Não tenho vergonha de falar sobre o que eu era. Quem esquece o passado está condenado a repetir tudo”.

7 comentários:

Claudio Renato disse...

Bela reportagem, Zé! Você é bom!!!

Unknown disse...

ZÉ , excelente, triste, alegre e emocionante texto !!
Parabens !!

Bart Rabelo disse...

Excelente texto, Zé Sergio. Eu estou preparando um projeto há algumas semanas para escrever um livro e o foco por coincidência é justamente a vida dos moradores de rua. Já escrevi alguns rascunhos mas cheguei à fase das entrevistas para inserir realismo no meu projeto. Você sabe como eu posso fazer para falar com o Alamir? Ele realmente é uma pérola rara. Abraços!

Unknown disse...

Adorei o texto. Emociona e informa.
Beijos.

Valéria disse...

Conheço o Alamir e ele é realmente o que vc diz nesse belo texto. Também conheço seus serviços fantásticos de artesão. Preciso muito encontrá-lo e não tenho conseguido. Por fvor me passe o telefone que ele te deu. Muito obrigada.

KeilaBarcelos disse...

Estava procurando uma forma de ajudar um menino que ajudava a todos do bairro a carregar suas sacolas, mas de uma hora para outra fui vendo ele virar um mendigo no Bairro do Fonseca, Niterói. Por favor preciso urgente o telefone do Alamir. Pelo seu texto sei que ele poderá me ajudar a ajudá-lo. Obrigada e parabéns pelo texto, inspirador

KeilaBarcelos disse...

Parabéns pelo texto, inspirador. Estava procurando aleatoriamente uma forma de ajudar um mendigo do meu bairro, Fonseca. Ele é um jovem rapaz, que ajudava as senhoras do bairro a carregar suas sacolas e, de um hora para outra, simplesmente virou mendigo. Um colega dele diz que foi uma desilusão. Você poderia me enviar o telefone do Alamir? Sei que ele poderá ajudá-lo ou me ajudar a ajudá-lo. Obrigada!