sábado, 9 de janeiro de 2010

DALVA E HERIVELTO: O TESTEMUNHO DO VARELA


Não sou chegado a novelas e nem mesmo às minisséries. Acho que estas já foram melhores, na mesmíssima Globo. “Dalva e Herivelto”, por exemplo, um puta enredo, poderia ter capítulos mais longos e mais uma ou duas semanas de duração. Falo como telespectador: acho que esta história está sendo contada com pressa, nas coxas. Mas nem por isso me privei de assisti-la. Claro que estou gostando: é um resgate dos anos dourados do rádio. Pronto. Só isso justifica. Adorei a exposição do mau-caratismo do David Nasser, letrista inspirado e escroque do jornalismo. E, mais do que tudo, o mergulho de Adriana Esteves na personagem.
O motivo desta postagem é contar outra história, escrita por alguém que esteve no hospital São Lucas, onde a cantora foi internada. Eduardo Varela, que foi repórter da Rádio Nacional e do Globo antes de virar publicitário e professor da UFF, dá um testemunho importante sobre aqueles que foram os últimos momentos de vida de Dalva de Oliveira. É uma narrativa bem ao jeito do Varela. O DNA do texto está em todos os parágrafos, sobretudo no final. Com direito a um comentário genial de outro amigo a quem o Varela enviou o texto por e-mail, um dia desses.
Com vocês, Dalva de Oliveira e o texto de Eduardo Varela. Ao som de "Fim de comédia", de Ataulfo Alves:

“Dias antes de morrer a Estrela Dalva – ela estava internada direto num hospital de Copacabana – um repórter de uns 22 anos, primeiro emprego e poucas saídas para coisas importantes, recebeu a incumbência de registrar alguma coisa nova no panorama que se arrastava tristemente para o fim: a cantora ia mal, piorava e não morria, atrasando os necrológios feitos por todas as rádios do Rio de Janeiro. A ordem fora deixada à tarde; o repórter chegou, pegou um desajeitado gravador a tiracolo e foi pro hospital.
Lá, coleguinhas disputavam nos corredores uma entrevista com artistas, com o filho da estrela, Peri Ribeiro, e com quem mais importante chegasse. O foca, envergonhado com o tamanho do gravador, resolveu escondê-lo na portaria e ficou andando pelo corredor, no meio do qual estava o quarto da paciente. Ouvido atento, soube de uma enfermeira que ela sofrera várias hemorragias e precisava de sangue.
Assim, deslizou suavemente para as proximidades do quarto – a ausência do gravador ajudava nisso – entreolhou o que ia lá dentro e esperou uma chance, que chegou meia hora depois. Peri, o próprio Peri, ajoelhou-se no corredor, pensativo, ao lado do repórter que, cautelosamente, falou com ele estas possíveis palavras:
“Peri, soube que a Dalva precisa de sangue, é verdade?”.
Ele olhou o moço sem saber o que este fazia ali, talvez fosse um fã, um empregado da casa...
“Sim, outra hemorragia, ontem...”.
“Olha – disse o garoto – quem sabe se a gente fizer um anúncio na Rádio Nacional as pessoas acudam e não haja problema de doação? Sua mãe foi uma das maiores estrelas da Nacional, quem sabe!?”.
O cantor coçou o queixo e fez uma cara de interrogação (“como?”), o que fez o outro se identificar:
“Sou repórter da Nacional, deixei um gravador na portaria, você faz um pedido e quem sabe o problema será resolvido; e aí?”.
Peri Ribeiro chamou o irmão – este é que parecia decidir as coisas por ali – cochichou com ele, voltando-se para o foca com um olhar triste e condescendente, não precisou falar. O rapaz atravessou o salão sob o olhar curioso de alguns colegas e voltou com o imenso gravador de rolo, ajoelhando-se ao lado dos filhos da cantora. O pedido, feito por Peri, não tinha um minuto de duração, mas era claro, não será preciso escandi-lo. O repórter voltou à rádio, preparou a matéria, entregou ao editor com o texto retirado do gravador e foi embora. Tinha prova na universidade onde era aluno de Jornalismo.
No dia seguinte, ao chegar ao trabalho por, volta do meio-dia, encontrou o diretor da emissora (o velho e exagerado Arakem Távora) de pé, à frente de todos os repórteres da tarde, alguns dos tempos de ouro da Nacional, e ouviu assustado o primeiro elogio de sua curta vida de jornalista, algo assim:
“Que sirva pra todo mundo. Esse garoto está aqui há poucos meses e teve a coragem de enxergar uma notícia onde ninguém viu. A gravação vai ao ar de hora em hora, o hospital está jorrando sangue. Parabéns!”.
Vendo agora a minissérie da Globo e as cenas – irretocáveis – feitas no quarto do hospital onde a estrela padecia, aquele repórter (61 anos e com o pau ainda duro) estica a cabeça para ver na TV se aparece o corredor e, encostado na parede em frente, um jovem de 22 anos assustado e inseguro com o que tinha feito”.

O texto do Varela termina aqui. E o comentário a quem me referi na introdução, de outro jornalista e professor da UFF, João Batista de Abreu, em resposta ao e-mail do nosso amigo comum, diz o seguinte:
“Varela,
Gostei muito da história. Estava acreditando até aquela referência ao pau duro, aos 61 anos.
Aí vi que era ficção.
Abraços,
JB”.

15 comentários:

ricardo dias disse...

Sensacional...muito boa cronica!!!

Carlos Marchi disse...

Beleza de texto, o do Varela. Mostra que, confirmando o dito, a realidade sempre supera a ficção. Em qualidade, emoção e humanidade. Não vi a minissérie, mas o repórter foca da realidade é muito melhor que o da ficção (repórteres de ficção, aliás, são sempre uns bobões atrapalhados e estabanados).

Romildo Guerrante disse...

Grande Varela, bela história. E, aqui pra nós, temos de dar um jeito no João Batista com esse negócio de, sem suspeitar de seu texto, desconfiar de sua virilidade...

Cinemusique disse...

Vocês são muito engraçados!
bjs

AOS QUARENTA A MIL disse...

Fantástico Zé Sergio ! Bacana mesmo, adorei a mini série mesmo sendo nas coxas.

Realmente vale mutio a pena a leitura do seu blog.

Forte abraço!

Dayse Mary de Andrade disse...

Zé Sérgio e Varela, vocês são alguns dos amigos queridos que não me saem do pensamento quando vejo ou ouço resgates dos anos 1950da nossa "era do rádio". Varela, mesmo que você um dia não fique mais de pau duro , agora você me levou quase ao orgasmo com tanto brilhantismo num texto, continua sendo único na maneira de contar uma história. Roubou a cena ! Você é da era que se dava gosto de ouvir ou ler alguém ! E como cantava Francis : "Eduardo Varela, menino levado da breca.....rsrsrs...."o peixe é pro fundo da rede mas seu texto não é pra ficar entre quatro paredes"
Beijos aos dois.

Dayse Mary de Andrade

Luiz Antonio Simas disse...

Ô Zé, concordo inteiramente contigo. Pior: soube que o material filmado era muito maior, mas na grade da Globo começa nessa segunda feira o Big Brother Brasil. Uma semana para Dalva e Herivelto e três meses para o BBB. É mole?
Abraço

Felipe Quintans disse...

Pois é, , uma pobre semaninha de Dalva e Herivelto. Se é pra fazer vamos fazer direito, porra. Como bem lembou o Simão, o que interessa é o bigbródi. Lástima!

Fábio Lau disse...

Belo texto. É sabido que todo foco tem mais de um anjo da guarda. Que nos abandona no momento em que o furo passa a ser uma necessidade e não mais um acidente de percurso, ou uma ação do anjo da guarda. Parabéns, Abreu.

Fábio Lau

Fábio Lau disse...

Favor trocar foco por foca. Ora pois, pois.

Claudio Renato disse...

Que história incrível, Zé! Muito interessante...Saudade do velho jornalismo!

Diego Moreira disse...

Assisti com a maior atenção do mundo a minissérie por razões emocionais. Meu velho avô foi amigo do casal e, de vez em quando, batia uns bordões acompanhando o trio de ouro na Nacional. Confesso que chorei qundo vi um tio-velho figurante fazendo o papel que ele gostava de cumprir.

Anônimo disse...

Zessérgio, parabéns! Finalmente uma nova (e ótima) matéria!

Infelizmente não vi a série, que parece ter sido tão excitante, capaz de empinar até a pipa do vovô.

Um abraço,
Daniel Sinder

Anônimo disse...

Zé Sérgio: Raramento assisto às minisséries da Globo porque nunca estou em casa nesse horário, mas pude ver dois ou três capítulos do programa. Confesso, chorei emocionada no final quando vi as imagens reais do enterro da Dalva de Oliveira que tenho marcadas na minha memória - tinha apenas 11 anos quando ela se foi. Dalva e Elizeth eram as cantoras preferidas da minha mãe, por isso conheço bem a obra de ambas. Ouvi com verdadeiro deleite a trilha sonora da minissérie, a despeito das merecidas críticas ao casal de atores escalados para os papéis título do programa, só o fato de trazê-los de volta - Dalva e Herivelto - a um público que nem sabe mais quem eles foram e sua importância para A MPB, já é um bom serviço prestado pela emissora do "plim plim". Penso que se o programa tivesse sido mais longo talvez se tornasse cansativo. Do jeito que foi feito, ficou um gostinho de "quero mais". Você não acha? Abraços. Sonia Palhares

José Sergio Rocha disse...

Não acho, Sônia. A ideia, sem dúvida, foi ótima, mas acho tudo muito corrido. Vi todos os capítulos. Pode ter dado um gostinho aos que, como nós, viveram uma pequena parte daquela época ou conhecem um pouco mais a obra dos personagens, mas... e o pessoal mais novo? Houve claramente uma opção pela audiência fantástica da grande porcaria do Big Brother. Por que não resumem o Big Brother, digamos, em uma única apresentação de 2 minutos e meio (os 2 minutos do comercial, evidente)???