A imagem mais antiga que eu guardo é a de um rádio branco no quarto da casa onde morávamos, no bairro paulistano da Aclimação. Eu devia ter uns três anos e era neste quarto que ficava meu berço, cuja madeira, me contaram, certa vez lustrei com cocô. Pode ser viagem, mas lembro de ter ouvido o Ademar de Barros falando naquele rádio. Talvez porque alguém comentou que era o Ademar falando.Ademar hoje é tido como decano dos corruptos, mas tinha sua grandeza. A expressão “rouba, mas faz” surgiu por causa dele. O Ademar era tão sacana que certa vez, “injustamente acusado” de alguma patifaria, foi ao rádio e fez uma peroração mais ou menos assim:
“Se cai uma tempestade em São José dos Campos, a culpa é do Ademar. Se tem enchente no Tietê, a culpa é do Ademar. Ontem eu li que uma chenhora (ele falava assim) deu a luz a trigêmeos em Chorocaba. Antes que me acujem de alguma coisa, gostaria de dizer a todos vochês, e juro por Nocha Chenhora Aparechida, que não piso em Chorocaba há quase um ano e meio”.
Havia também um retrato enorme de Ademar de Barros no Flor do Rio, bar, bilhar e restaurante do meu avô, na pequena Propriá, em Sergipe, à beira do São Francisco. Vovô era politicamente ingênuo. Naquele bar, dizem, o legendário Carne Frita, filho da terra, aprendeu a matar a sete. O Flor do Rio não existe mais. Hoje, o prédio abriga o Fórum de Propriá. Meu avô morreu há um tempão. E o Carne Frita, também.
Já os corruptos, desde o Ademar, ficaram cada vez mais ousados. Este escândalo dos panetones e do dinheiro na meia, lá em Brasília, só chateia os eleitores. Os ditos cujos, Arruda e companhia bela, não parecem se incomodar nem um pouco. Afinal, são eles que fazem as leis que acobertam toda sorte de ilícitos que praticam. Como diria o Boris Casoy – aquele que vai sair no carnaval da Sapucaí abraçado com o gari Sorriso – “isto é uma vergonha!”.
Na foto, tirada em 1947, Ademar é o de bigode. No som, um clássico de Noel Rosa, na voz de Beth Carvalho: "Onde está a honestidade?".



5 comentários:
Tava sumidaço. Voltou com dois bons "posts".
Abraço.
Olá,José Sérgio
É uma delícia saborear os seus posts.Humor,leveza e críica na medida.
Coloquei nos favoritos,
Abraços
Marcia Moraes e Luciano
Caro Zé Sérgio
Lembro-me muito de AdHemar de Barros, sobretudo quando ele, governador de São Paulo, decidiu apoiar o golpe de 64 e deu suas explicações pela tv tendo ao lado a imagem de Nossa Senhora Aparecida.
Há também a história de uma audiência que ele concedeu a alguns cientistas brasileiros ilustres, que foram tentar convencê-lo a garantir verba para um congresso em São Paulo e ele, depois de ouvir uma ou duas frases dos sábios, interrompeu-os e perguntou -- Mas quanto vocês querem?, e eles, sem saber direito e pegos de surpresa, vacilaram. Adhemar, então, abriu a gaveta da mesa, pegou com a mão um maço de notas, colocou sobre a mesa, e indagou -- Basta ou precisam mais?, os rapazes, animados e sem nunca terem visto tanto dinheiro, agradeceram rapidinho e sairam, afinal o governador tinha assuntos muito mais importantes a tratar.
Outro episódio bastante conhecido foi o de sua atuação como "embaixador" junto a Getúlio, quando este, deposto, se recolheu em São Borja -- Adhemar foi incumbido pelo grupo de Dutra de obter o apoio de Gêgê nas eleições presidenciais. Ficou lá uns dois dias, Getúlio o recebeu bem, comeram churrasco e beberam mate, mas Getúlio se manteve fechado em copas. Adhemar tinha que voltar, e de mãos abanando, quando, na despedida, Getúlio, enquanto fechava a porteira da estância, disse apenas: -- Dr. Adhemar, mande fazer o cartaz somente com esta frase: Ele disse: votai em Eurico Dutra. Boa viagem.
Agora, o que eu acho destas ladroeiras, ostensivas ou veladas, flagradas ou sigilosas: isso ainda é efeito da "síndrome da sesmaria", aquele imenso pedaço de terra ignota que o rei, em Lisboa, concedia a uns patrícios que nem sempre vinham ver o que haviam ganho, desde que devolvessem o valor da terra em mercadoria e impostos. Até hoje, boa parte dos ocupantes de cargos de Estado tem a convicção que adquiriram o direito de propriedade ou, pelo menos, de uso, dos cargos e de suas benesses. Se foi por favor, puxa-saquismo, servilismo ou se foi por eleição, eles tem certeza de que cabe-lhes agora usar, abusar e, na medida do possível, compartilhar com alguns, caso contrário pode acontecer essas coisas desagradáveis de o insatisfeito ou despeitado denunciar. Desse pessoal, muitos resolvem também realizar projetos de governo, com os seguintes objetivos: (1) aquietar sua própria consciência, (2) garantir as eleições próximas, (3) ter assunto para tratar com governo federal, (4) ter a oportunidade de negociar licitações, contratos e favorecimentos em geral (a ordem em geral de importância dos objetivos deve ser lida de 4 a 1, às vezes varia).
Assim, sou otimista e acho que essa concepção e prática pessoalista aos poucos e com o trabalho da imprensa, do judiciário, ministério público e p federal, sobretudo com a independência e esclarecimento do eleitorado, acho que isso diminuirá.
abraços
a serra
Zé,
Não sabia desse seu lado paulistano tão forte. Morei na Aclimação também, Rua Heitor Peixoto, a dois quarteirões do parque. Quanto ao Ademar, teve como aluno mais aplicado o Maluf, que (para não perder a viagem) roubou até o lema do seu próprio mestre: Rouba, ma faz!
Beijo, sacana!.
adhemar, adhemar/ é melhor e não faz "mar"
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