domingo, 5 de setembro de 2010

O DIA EM QUE FEDERICO FELLINI BAIXOU NA CINELÂNDIA


Dia maluco o 31/8, terça passada! Luto e farra. Luto pelo último dia em que o Jornal do Brasil circulou. Farra porque até antigos leitores do JB participaram da despedida na Cinelândia que Jorge Antônio Barros comparou, em seu blog Repórter do Crime, com os funerais de Nova Orleans. E à noite, no Capela, Alfredo Herkenhoff lançou seu livro (ótimo, Memórias de um Secretário - Pautas e Fontes) sobre o grande jornal que fez história. A no alto foi tirada de outro blog, Álbum Jotabeniano, pilotado por Sérgio Fleury. Lembra outra (guardadas as devidas proporções, e bota proporções nisso!), tirada no Harlem, em 1958. Numa, nós, anônimos trabalhadores da imprensa carioca. Noutra, os monstros sagrados do jazz. A Cinelândia foi o nosso Harlem. E o filme que passou na cabeça da gente foi Amarcord puro. O JB não foi apenas o local de trabalho favorito. Era quase um lar. Deixou boas e más lembranças, estas quase sempre associadas a demissões e passaralhos.
Aprendi muito naquela casa, desde o primeiro dia, 1º de maio de 1973. Pois é, comecei a trabalhar ali num feriado, separando telegramas na editoria Internacional. Fui promovido a redator depois de passar no cursinho do Quintaes e de escrever as primeiras matérias, no tempo da guerra do Yom Kippur. Fiz o primeiro texto, pequenininho, a mando do Gazzaneo. A chance veio por um motivo: eram tantos telegramas, tantas versões conflitantes, que achei melhor criar um monte de pastas. O Gazza gostou da ideia.
No dia seguinte, o jornal foi editado assim: numa página, a versão israelense de determinado episódio; na página ao lado, o mesmo fato sob a ótica dos árabes.
E o teste da calandra? Era parte do ritual mandar o recém-chegado pegar a calandra na oficina. Os que não sabiam do que se tratava caíam no conto do vigário. No meu caso, o vigário foi o Leiser.
Primeira bola fora. Terminado o cursinho, éramos enviados para as editorias onde poderíamos ser absorvidos como estagiários. Fiz um teste no Esporte, muito ruim. Oldemário Touguinhó me mandou cobrir uma regata. E o sacana do José Roberto Tedesco, o Zé Cavalo, escalado para me tutelar naquele dia, me botou no barco do juiz. Resultado: passei a tarde inteira no mar. Não enjoei, mas cheguei com o resultado quando a página já tinha sido fechada pelo João Areosa. Claro que a matéria já tinha sido feita pelo Zé Cavalo.
Das gozações me lembro bem. O grande algoz, meu e de muita gente, era o redator Luiz Fernando Cardoso, que me deu carona até Copacabana, onde eu morava, no prédio do teatro Princesa Isabel. Em cartaz, uma peça do Jô Soares. Um monte de gente na porta. O sacana do LF me deixa na porta e berra para todo mundo ouvir: “Não esquece de comprar sua pomada de hemorróidas!”. Entrei em casa vermelho de raiva, com as gargalhadas ainda ecoando no elevador.
Lembro também do meu primeiro título, para uma nota de colunão (textinho de cinco ou seis linhas, numa coluna) sobre a conferência realizada no mesmo ano sobre o uso dos mares. A reunião não deu muito certo. Tasquei em duas linhas: “Conferência foi/ por água abaixo”. No dia seguinte, tinha elogio por escrito do Luiz Orlando Carneiro: “Gostei muito de seu título. Pensei até que foi feito pelo Renato (Machado)”.
Primeiro esporro: chamei um chefe mafioso que estava escondido no Rio e aqui foi preso pelo nome verdadeiro – Tommaso Buscetta. O editor “corrigiu” a tempo. O JB era meio filho-de-Maria para certas coisas. O bandidão foi rebatizado como Bruschetta.
Da minha entrada no JB também lembro bem. Até já contei aqui: http://quemevivo.blogspot.com/2009/05/seu-pistolao-subiu-no-telhado.html.
No peito, algumas saudades. Na vitrolinha, Nino Rota (acima) e Louis Armstrong (com a foto do Harlem).

0 comentários: